domingo, 5 de fevereiro de 2017



Queria falar a linguagem dos sonhos. A voz sem amarras, a pura sensação feita imagem. Na Terra do Sol Poente, ou Nascente (enfim, na Terra do Céu Sempre Alaranjado), uma mulher parecida com a Jéssica me levou a um terraço e me deu alguma coisa pra beber. Tentava me acalmar dizendo que ainda era muito cedo pra... o que era mesmo? Ninguém é especial, é tudo igual do outro lado. Durante muito tempo, anotei meus sonhos em um caderno azul marinho. Em uma terra entre mundos, eu esperava na fila pra pegar o ônibus d’Aqueles que Tentaram e Quase Conseguiram, que era uma categoria intermediária na evolução espiritual – aliás, eu estava numa subcategoria média-baixa, porque era o único responsável por não ter conseguido. Acordamos envolvidos pela sensação sonhada, ela nos move ao longo do dia. Todo mundo é especial. Tem sonhos de que nunca me esqueci, sem precisar anotar: resgates no inferno, beijos do mais puro amor, voos soltos. Falar essa língua, sim, quem me dera. Dizia isso à Gertrude Stein e ao Caetano Veloso em um bar na Vila Madalena.

sábado, 28 de janeiro de 2017



Vou te dar meu coração, mas você não repare
Tive que colar aqui este canto, quase não se nota
Ali rasgou, tive que costurar, mas veja só que pontos mais bem dados
Com linha da mesma cor e tudo, uma obra-prima
Esse pedaço aqui eu perdi, não lembro o que era, mas se foi pra sempre
O vazio deixa o conjunto bem mais triste e ao mesmo tempo bem mais leve
E melhorou consideravelmente a aerodinâmica
Essa marca aqui foi de uma punhalada, aquela ali, de um tombo
E estes símbolos são de um discurso cético que eu decorei faz tempo
Bobagens anti-amor-romântico, só pra defesa pessoal, irremovíveis
Mas que não importam, minha querida, e nada disso importa de verdade
Está meio estropiado, mas é forte, um coração saudável, vacinado
Que ainda ilumina à noite, esquenta no inverno e mata a fome
Enfim, faz tudo que os corações inteiros fazem
E mais umas acrobacias que só ele sabe

sábado, 21 de janeiro de 2017



Nada entre nós, uma vertigem de chuva, a grama encontrando brechas na calçada. Cedo demais pra ser engano, aura azul, noturnos de Chopin, batom, bebês, nada entre nós. Ouvi a tua respiração e não dormi, sonhando. Branco véu, palavra doce em tantas línguas estrangeiras, pinceladas de Van Gogh, oásis, água branca, agora é tarde pra dizer que agora é tarde. Nada entre nós. A pele. A espera, a infestação de pétalas.

(Diários de Machu Picchu #22)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017


O moleque não entendia nada de bola e por isso nunca tinha saído do banco de reservas. Naquela tarde, sob a chuva, assistia calado enquanto seu time levava uma goleada dos meninos do outro bairro e com isso era eliminado do campeonato. Na hora do intervalo, o treinador escolhia as palavras pra tentar acertar o time e ainda infundir-lhes algum ânimo, o que não era uma tarefa nada fácil.

– O meio de campo tá meio enrolado – arriscou ele, devagar. Aí o moleque desatou a rir. Todos olharam ofendidos, sem conseguir decidir se lhe davam uma surra ou simplesmente o ignoravam.

– Não é que o meio de campo tá meio enrolado – explicou o moleque assim que recuperou o fôlego. – É que o meio de campo tá enrolado, os laterais tão se batendo, a zaga tá mais perdida que cego em tiroteio e o ataque ainda não viu a cor da bola. Mas a bola tá rolando ainda! Dá-lhe!

Seguiu-se um breve silêncio em que todos concluíram que, afinal, aquilo não era uma ofensa, mas um incentivo. O treinador aproveitou que tudo já tinha sido dito e se limitou a puxar aplausos repetindo “Dá-lhe!”, e verificou que alguns meninos estavam de fato recuperando o ânimo. Dispensou a equipe sem mais outras palavras: não havia chances de reverter o placar, mas ao menos ainda era possível perder com a cabeça erguida.

As coisas melhoraram um pouco no segundo tempo, e o time chegou mesmo a marcar um gol, além de evitar outros tantos da equipe adversária. Todo o time percebia a melhora, e com isso a confiança deles ia aumentando, também. Faltando alguns minutos pra acabar o jogo, tendo a derrota como certa, mas vendo seu time se esforçar como poucas vezes tinha visto, o treinador chamou o moleque pra ocupar o lugar do seu melhor atacante.

– Vai lá e acaba com eles, campeão!

E ele foi. Demorou muito tempo até que chegasse a encostar na bola. Já deviam estar nos últimos lances quando ela sobrou pra ele na intermediária. Curioso, o treinador prendeu a respiração e acompanhou:

O moleque não entendia nada de bola e mesmo assim queria sair dando drible. Os zagueiros pararam pra olhar: ele era tão sem jeito que se perguntavam se estaria mesmo falando sério. E o pior é que estava. Aproveitando a confusão da zaga, acabou passando pelo primeiro, pelo segundo, pelo terceiro – e marcou um gol já meio que perdendo o equilíbrio, caindo de lado sem que ninguém tivesse encostado nele. Um gol feio, mas gol é gol – como todo mundo sabe. O moleque rolou na lama e nem se levantou pra comemorar. Ficou lá deitado, os braços abertos e os olhos fechados, uma expressão da mais pura satisfação, sentindo a chuva cair no rosto.


sábado, 7 de janeiro de 2017



Hoje o tempo não passa, não tenho onde chegar nem vontade de ir. Estou bem várias vezes por dia, mal várias vezes por dia, indiferente aqui e ali, quase sempre me distraio, penso no que passou e no que virá, lamento, ou não, sempre vai ser assim. A culpa é minha de quê? De não mudar o mundo pra melhor, de não querer o que você acha que é bom, alguém chorou por minha causa, os pães ficaram no forno por tempo demais e acabaram queimando? Tem sempre uma alma boa, uma ameaça, alguém jogando lixo no chão. Não dá pra cuidar de tudo, não dá pra cuidar de tudo em si mesmo, nem ser sozinho nem não ser, nem como conviver com o fato de que o passado não se move. Ah, mas também tem os que sabem do que você está falando mesmo quando você não diz nada com nada. Tem um abismo no fundo do abismo que dá pra dentro de dentro. Não tem nada no escuro que não exista na luz.

sábado, 31 de dezembro de 2016



Ah, mas também existe lá fora um mundo acolhedor e generoso, sem rir do teu medo. Mas também existe no vale das sombras e da morte um rio de águas limpas e pequenos portais camuflados que nos levam direto a um paraíso vivo. Ah, mas também existe Deus fora dos templos – e ainda muito além de todas as certezas sobre Deus, assim como essa linha invisível costurando o caos até que ele caiba no fato de termos sobrevivido. Mas também existe uma ponte até o outro nas profundezas do orgulho. E mãos estendidas, e pêssegos, e melodias que nos fortalecem. Ah, mas também existem os que ainda escutam. Mas também existem arquitetos de afeições, e ainda temos a matéria-prima de que eles precisam, e ainda a temos de sobra. Ah, mas também existem céus subterrâneos. Ah, mas ainda existem céus, mas também existem os que ainda enxergam.

sábado, 24 de dezembro de 2016


Andei entre assassinos e ladrões e corações arrependidos ou indiferentes
Homens honestos à minha volta derramaram suor e levantaram as mãos em prece ou em fúria
Ou em preces enfurecidas porque seu suor não deveria correr tanto nem valer tão pouco no final dos meses
Andei entre as crianças distraídas com seus jogos eletrônicos ou escalando as árvores dos seus quintais ou das praças
E entre os hippies artesãos ou músicos que coloriam as praças antes de desaparecerem outra vez na estrada
Ciganos e índios nômades já tantas vezes acamparam à beira dos rios ou nas montanhas da minha cidade
Andei com eles pra bem longe e bebi de suas taças e dancei com eles ao redor de suas fogueiras
Mas também parei pra ouvir o sermão choroso dos pastores combatendo impronunciáveis inimigos invisíveis
Nos bancos à sua esquerda os homens e à direita as mulheres com as cabeças cobertas por véus brancos
E repeti com eles Amém Jesus Glória a Deus Aleluia Senhor Misericórdia
Andei por entre os padres e xamãs e bruxas e girei nos terreiros com os braços abertos pra Oxalá e os Pretos Velhos
Meditei com os monges budistas e escrevi cartas assinadas por espíritos e com os céticos eu concordei sobre todas as dúvidas
Dos filósofos até os neurologistas fui bebendo a história de com quais convicções desconhecemos a nós mesmos
Mas segui os manuais do bom comportamento nos bares mais sujos assim como nos salões mais perfumados da alta sociedade
E transgredi todas as regras que me pareceram inúteis se ninguém era prejudicado e eu queria alguma coisa do outro lado delas
Andei por todo o mundo e não vi nada além de pessoas interpretando o mundo até que ele ficasse igual ao que elas acreditavam
Não acredito em ser humano algum que por razão alguma se diga maior melhor mais qualquer coisa que outro ser humano
E acho que se todos não acreditássemos nisso já seria um ótimo começo
Mas nunca levantei a voz dizendo você deve fazer isto e não aquilo que o seu coração achar que é certo
A única bandeira que eu defendo é branca
E mesmo essa às vezes me parece um exagero
Como um motivo pra guerra 


domingo, 18 de dezembro de 2016

No final do meu segundo ano em Brasília, já tinha entendido muito bem por que a cidade tem uma das maiores taxas de suicídio do país. Verdade que eu era muito jovem pra enfrentar aquela aura absurda de poder e arrogância, um misto de raiva e indiferença dando o tom de um espetáculo do qual eu não sabia nem queria fazer parte, mas mesmo agora, depois de tanto tempo, duvido que eu tivesse disposição pra me colocar outra vez no meio daquele circo. As distâncias, pra resumo da história, eram o que me fazia tomar a decisão que estava tomando agora de partir: distâncias entre as almas, bem menos arborizadas que os grandes espaços vazios que surgiam, às vezes, entre uma quadra e outra da cidade, dando a súbita impressão de que ela desaparecera e estávamos sozinhos e perdidos no meio do deserto do cerrado. De qualquer forma, a cidade não era outra coisa senão ela mesma algo perdido e solitário no deserto do cerrado.

Pensava nisso enquanto atravessava o Parque da Cidade pra encontrar o João em um dos nossos bares habituais. Arrastava os pés de cansaço e desilusão, e meu humor definitivamente não era dos melhores. Olhava com ironia pros casais gays que me encaravam enquanto eu passava – um casal de meninas aqui, dois casais de meninos mais adiante – mas o problema nem era com eles, exatamente: é só que, no estado de espírito em que eu estava, enxergava naquilo um discurso bobinho e adolescente de “a sociedade precisa evoluir” meio que fazendo um contraste com o lixo espalhado pelo parque, deixando claro que eles também eram parte da tal sociedade que ainda não tinha entendido os princípios básicos de civilidade.

O mau-humor passou assim que avistei o João em uma das mesas do bar, mas foi imediatamente substituído por uma melancolia carregada e sem tamanho, vinda do fato de que eu estava prestes a dizer ao meu melhor amigo que ia embora da cidade. Ele percebeu que eu não estava bem logo que nos cumprimentamos, mas quando me perguntou o que eu tinha, apenas balancei a cabeça pra indicar que não queria falar sobre aquilo e comecei a contar uma história pra nos distrair:

– Acordei numa sala egípcia. – João fez uma careta de interrogação e eu continuei: – Tinha uns desenhos de faraós e deuses egípcios nas paredes. Eu estava numa poltrona azul muito confortável, os braços de madeira entalhados também com motivos egípcios. Cortinas transparentes e tapetes, uma música de relaxamento e uma maquininha na parede programada pra borrifar perfume a cada cinco minutos, mais ou menos. Fiquei um bom tempo lá tentando entender o que diabos era aquilo e como eu tinha ido parar ali. E a verdade é que não tenho a menor ideia. Minha consciência apagou em algum momento entre as três e as cinco da madrugada.

– Mas que lugar é esse? – quis saber João.

– É um templo ali junto ao Campo da Esperança, já viu? Alguma coisa da Boa Vontade.

Legião – ele explicou. – Legião da Boa Vontade. Nunca entrei, mas já passei pela frente algumas vezes. Já reparou nos anúncios de cartomantes e videntes que estão nos muros dali? – Fiz que não com a cabeça. – Tem um que diz: “Trago a pessoa amada de volta em até três dias”. Não é um anúncio encantador pra se colocar à porta de um cemitério? – Sorri, ainda um pouco melancólico, e dessa vez João não deixou por menos: – Vá, fale logo o que está te incomodando.

Respirei fundo.

– Eu vou embora.

João se calou por alguns segundos, processando aquilo sei lá de quantas maneiras diferentes, até que recomeçou, com a voz animada de sempre:

– Você vai ter que me prometer que, antes de ir embora, a gente vai tirar umas fotos lá na frente do STF com um cartaz que diz: “Supremo sou eu, bitches”.

Aí eu ri tanto que a melancolia toda desapareceu.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016


Veio uma chuva larga de verão. No fim da tarde. Depois o ar ficou parado como se o tempo não existisse. Agora eu vou limpar essa bagunça com um sopro, ela falou. As ruas estavam vazias como num domingo, e eu tinha um nó na garganta que não era meu. Ternura, pensei, não é nenhum motivo de vergonha. Olha agora eu vou fazer uma trança com as tuas lágrimas. Então era uma brisa meio alaranjada, com pedacinhos de céu azul ainda no meio das nuvens. Só eu sei o quanto me custou virar algumas páginas. Escuta, se a poesia estivesse morta, quem teria morrido era eu. Mas não. Até já sei amar em vias de mão única. Pura inocência, mesmo, e não porque nos faltem provas em contrário. O que chamam de fragilidade é um brilho sólido expandindo. Pulsando, assim, no coração de dezembro. Sob gotas mornas. Grossas. Esparsas.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016



fuja como quiser. O necessário, o mais urgente, o que é importante, o indispensável, tudo isso vive sem você. pergunte-se. Ser bom é ser bom pra quem, pra quê? Vão tentar te convencer de tantas coisas, mas não dão a mínima pra o que você pensa ou sente e que não consta em seus catálogos. ou então enfrente o que você quiser. Dilua a sua individualidade na tinta de qualquer bandeira. haverá sempre algum exército inimigo. Hidras de Lerna, a pedra de Sísifo, dia a dia inventarão motivos pra te perseguir, todas as noites você vai se ver diante de um pelotão qualquer de fuzilamento. mas seja honesto ao menos consigo mesmo: você não está isento de nada, não. sente-se ao meu lado e veja o mundo não mudar, mudar e não mudar, mudar, querer mudar. Beba comigo a existência em todas as suas gratuidades e contradições. Seja você, seja o inferno que são os outros, somos todos humanos demais, pedacinhos de carne acreditando em sou-deus. E não há nada sob controle, não, mas vão tentar te convencer de que sim. Se conseguirem, bom, aí você estará sob o controle deles, então sim. fuja quando quiser, se quiser, vá, deixe-se em paz. promova algum descanso, alguns. chame-se trégua.



sexta-feira, 25 de novembro de 2016


Comprei cinco dados feitos de sal.

Quando chegávamos à Isla del Pescado, Patrícia comentou: “A natureza é criativa, né? Se uma criança dissesse: ‘Eu vou desenhar um mar branco feito de sal, e no meio uma ilha coberta de cactos’, você diria: ‘Hm... crianças’”.

Escrevo pra ocupar as mãos; na boca, em vez de um cigarro, um chiclé de menta. O grupo está passeando por aí e eu não quis pagar os quinze bolivianos de entrada pra ilha.

Mais de dez mil quilômetros quadrados de puro sal e eu só consigo pensar em um texto do vizionário: “A gente vai ter que ter tequila pra caralho!”

Antes, no caminho, teve uma hora em que fechei os olhos incomodado pelo


fechei os olhos incomodado pelo excesso de luz e tive um momento místico que não sei explicar nem me interessa fazê-lo. Só tenho a dizer que tudo no mundo está em seu devido lugar.

Sim, porque seria redundante dizer que estou completamente em branco.
Salar de Uyuni - Bolívia

sexta-feira, 18 de novembro de 2016



tenho pensado em você todos os dias, em teus lábios e teus dentes, naquela blusa amarela com um fio puxado na manga, a forma como você esmurra o botão do elevador com a lateral da mão, teus lábios e teus dentes, no tempo que leva pra você contar a história enquanto a gente dá uma volta na lagoa, no tempo que leva pra esfriar o brigadeiro e nos teus dentes, tenho pensado o dia inteiro nos teus dentes, em tapetes voadores e em arcanos de tarô de quando você fecha os olhos, na tua voz quando é um gemido, o brilho nos teus lábios da nossa saliva, todos os dias, tenho pensado o dia inteiro nos teus lábios e teus dentes.

sábado, 12 de novembro de 2016


I wish I was anarchist.

onde eu não vou ficar amigos me perdoem / o horizonte que falta me inquieta / mentiras repetidas ainda são mentiras / mocinhos e vilões / giram na mesma órbita

a vida passa à margem de papéis amarelados / teorias e leis não tocam essa efervescência / e eu conheço pelo menos sete / milhões de erros mais interessantes / do que pensar que estou certo

mas virão desesperados engolidos pelas trevas / arranhar as portas / sempre abertas / seus espelhos ainda mostram sábios / suas mãos estão cobertas de sangue

não amigos não me esperem / o planeta / cobrará seus espólios / ninguém / assistirá ao espetáculo

onde eu não vou ficar onde já sei que não basto / a minha ingenuidade terá me salvado / de estreitas celas / enfeitadas / cinzas deste circo dos palácios

sexta-feira, 4 de novembro de 2016


Olha agora aquela vida frágil emergindo dos escombros
Pálidas mãos tateando à procura
Ela vai encher de novo os seus pulmões com ar e luz do sol
Está no limite da morte e se move sem motivos
Olha agora está sangrando um lírio um arco-íris
Por que você prefere ecoar a arrogância?
Por que espera que alguém jogue só mais uma pedra e acabe com tudo?
Olha agora a sua nudez vai rastejando suor de lama e de tremor
Olha agora ela não tem um nome e está chorando um diamante azul
Do que você se esconde em seu escárnio?
O mundo já transborda os egos
Deixe
Se nas tuas mãos de raiva não couberem seus quasares
Deixe que ela se vá
Agora ela já está desfigurada e olha agora
Seus ossos viraram pó
Olha
Agora ela te acena um barco a velas

sábado, 29 de outubro de 2016


(Diários de Machu Picchu #21)
Quanto tempo espuma branca que se leva esse isopor pra borbulhar nas ondas –

hoje

dormi umas horinhas à tarde e quando acordei não conseguia mais lembrar se era sábado ou domingo.

Girassóis no quintal, casas de barro e tua voz tem um traço de brisa, as gaivotas de Viña del Mar, uma odisseia atrás de um abridor de latas – era sábado.

Era um poema que você não ia gostar e que eu comprei de um estudante de Letras na Praça da Liberdade, qualquer coisa muito cheia de xerez e entranhas, não dei mais que duas moedas: mal pagavam o papel e a minha culpa.

Não conseguia mais lembrar se estava em La Paz ou no mercado Ver-O-Peso, uma menina muito negra com um vestido muito vermelho em frente a um muro muito azul, chalanas do meu cântico escorrendo pela tarde e de repente a gente avista um homem caminhando sozinho no deserto, a face de um deus na montanha, a mágica Atacama, as silhuetas dos prédios contra a aurora dos milagres só nós dois donos da noite e dos quintais e do asfalto e de repente ops derrubamos um anão de jardim e sinto muito mas não vai ter cola mil que resolva. Então nós rimos, rimos, rimos. Peço um café com chantilly e sorvete de baunilha, penso outra vez na Jéssica, na morte da vontade dentro da casca de uma árvore e na droga de uma música que fica repetindo eu sei que vou ver teu rosto outra vez e vejo a luz do sol quase horizontal sobre os telhados de palha. Meus olhos de sertão não choravam, minha garganta de sal mal soluçava até que finalmente me lembrei:

Era a Bahia.

Brammm.
Bram bramm.
Quanto tempo espuma bramm brambranca.
Silêncio uma canção de ondas quebrando brando bram.

Ei, mundo,
não quero mais brigar.

E não é só porque hoje é sábado.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016



tropeçou em frases feitas sobre ser autêntico, desprezou, irresponsável, os donos da igualdade e da liberdade, ficou só, partiu em autoexílio por haver desrespeitado a lei do ser-alguém-na-vida elaborada pelos que não estão nem aí pros padrões da sociedade, artigo novecentos e doze, parágrafo oitenta, que diz: “nunca estarás de boas”.

ficou só. aprendeu a ouvir como se nunca tivesse ouvido, atravessou abismos só pra conseguir pensar como quem está do outro lado. despiu-se de si mesmo à procura da nudez absoluta – e hoje desconfia de que só se pode ter uma vaga ideia de como ela seja. “há muitos mundos no mundo”, diz. aprendeu a olhar como se nunca tivesse visto. ficou só, uma solidão maior que os números.

naqueles tempos de errar entre as cidades e as gentes, aprendeu a contar com os loucos que lhe apareciam vez ou outra dizendo vem cá me dá um abraço, ou vem comigo ali uma escada até saturno – mas ainda menos, muito menos do que isso: quando esbarrava em alguém na rua, quando em elevadores e ônibus lotados, quando alguém tocava em seus dedos na hora de entregar um troco ele engolia faminto o que tomava por migalhas de afeto.

não leva muito a sério nem as próprias máximas – mas aqui uma delas, que vem na esteira do que foi narrado: é infinitamente mais fácil ficar muito tempo sem sexo do que sem carinho.

e outra, que reorganiza uns dizeres muito conhecidos de quem vê a si mesmo como intelectual:

pessoas inteligentes entendem ideias.
pessoas espertas entendem das coisas.
pessoas sábias entendem pessoas.

sábado, 15 de outubro de 2016



Sandoval atravessou a rua às cinco e quarenta e cinco levando uma sacola de compras. Dolores se debruçou à janela e suspirou que bom que encontraram o cachorrinho perdido, que bom, que bom. José se olhou no espelho e não gostou de como estava o seu cabelo e nada resolvia, tem mesmo que cortar está ficando feio. Extra, extra! – os seus melhores sites de não-notícias: domingo vai ter jogo no campinho do bairro e festa americana na Georgete. Não tem jornalismo no mundo que consiga registrar o mais do menos – uma flor se abrindo silenciosamente em um terreno baldio, um coração sangrando silenciosamente de saudades, uma laranja cortada silenciosamente ao meio. O entrevistador me perguntou se acredito em fantasmas e eu disse que às vezes, que tudo no mundo é às vezes, mas mesmo isso me pareceu uma resposta muito grande, muito definitiva. Olha, a única coisa em que eu não acredito mesmo é no Governo, eu só acreditaria num Governo que soubesse dançar. Isso da existência ser vazia e sem propósito é tão hipotético quanto qualquer divindade. Vá, anote aí assim mesmo: às vezes. Às vezes, o amor é uma estratégia de controle; às vezes, é preciso ter muita coragem pra não lutar; às vezes, “ser o que somos” é inventar um personagem. Não sabemos. Mas até que me sinto bem no nevoeiro. Estou apaixonado, e a cor preferida dela é cinza.

domingo, 9 de outubro de 2016

Rio São Francisco
(Serra da Canastra - MG)
Se você não nasceu há dez mil anos, não tem como conversar comigo.

Se você não está nascendo agora, não tem como conversar comigo.

Se você nunca morreu, não quer morrer nem ama a vida alucinadamente, então não tem como conversar comigo.