sábado, 8 de abril de 2017

Santos - SP
Fez quarenta graus à tarde.

Trocamos a cerveja por água de coco.

Fui visitar Eva em Santos me perguntando se aquele seria o nosso último encontro. Muitas vezes, em nossas viagens, andando ao seu lado pelas ruas de uma cidade qualquer ouvi ela dizer que nada ia durar até depois de virarmos a próxima esquina. Eu costumava brincar dizendo que sim, claro, a qualquer momento uma erupção solar pode transformar o planeta em um caldo fumegante de civilização avançada – mas daquela vez eu não estava achando graça. Nem apoiava a sua decisão de não ter um perfil no Facebook e outras restrições à tecnologia que dificultavam bastante uma comunicação à distância. Sobre o Fecebook, ela explicava:

– Eu ficaria muito tentada a falar com todo mundo ao mesmo tempo... E ficaria louca vendo cada um falar de uma coisa diferente ou alimentar o ódio dos dois lados de uma coisa só.

Caminhávamos sem pressa do Canal 2 ao 4, parando aqui e ali pra que eu fotografasse alguma coisa, e falávamos sobre ilusões de avanço, de como pensávamos que a esta altura de nossas vidas já teríamos conquistado o mundo, do que é envelhecer, da diferença óbvia pra nós dois entre maturidade e cinismo.

– Nada pode ser mais triste – considerei – do que a impressão de que a gente já esgotou todos os discursos capazes de despertar bons sentimentos. De que toda e qualquer palavra que a gente disser pode e vai ser explicada à luz de uma teoria qualquer que reduza o ser humano a puro egoísmo.

– É claustrofóbico – definiu ela.

Pensávamos que a esta altura de nossas vidas já nos sentiríamos livres.

– “Liberdade” não é uma palavra muito adolescente? – provoquei.

– Só sei que quando eu tinha dezesseis – ela falou – achava que a função dos adultos era eles se acharem melhores e mais importantes que os adolescentes. – Fez uma pausa, como se refletisse. – Agora que eu sou adulta, tenho certeza!

Rimos.

– Quando eu tinha dezesseis, – eu disse – às vezes parecia que tinha oito. Ou oitenta.

– Mesmo agora, que estou com cinquenta e cinco, às vezes ainda parece que eu tenho oito ou oitenta – emendou ela, que ainda estava longe de ter cinquenta e cinco.

Rimos outra vez, depois seu olhar se perdeu em direção ao mar.

– Tem dias que eu nem nasci – filosofou. Aí olhou pra mim com um sorriso meio triste e meio malicioso, arqueando as sobrancelhas: – E tem dias que eu não morro nunca.

sábado, 1 de abril de 2017


Este
aquele espírito de vento e pólen, reflexo autônomo no espelho, um transparente fio de arremessar galáxias, mãos de involuntária magia branca, este aquele imperturbável persistente aqueles olhos inundados de ter visto e de inventar e de ter fé porque sim de relâmpago e LEIA-ME DEVAGAR amanhã nada disso terá insubstância, castelo d’água transformado em vinho, aquele um abraço incandescente de alívio, isso mesmo a vitrine de uma satisfação gratuita, pomares amadurecendo ávida vida e vertigem de resoluções em sementes, aquele inquebrável delírio escorrendo paz, escrever no diário o dia hoje foi perfeito, impermeável sussurro, só isso, só isso.


sábado, 25 de março de 2017



estamos no limite da delicadeza. e não porque algo de cruel ou de brutal espreite além do próximo passo – um passo a mais, daqui, seria adentrar um território sobre-humano de ternura e entrega. essas palavras que tantos aprisionam a uma ideia de “universo feminino”, ou pior, que são só “coisas de mulheres”, mas que eu homem reconheço e gosto, entre nós dois sutis e óbvias a um só tempo feito fonte e foz se realizam a despeito de todos os avisos de CUIDADO
ou talvez porque
numa espécie de transe
ao ler esses avisos nós tenhamos simplesmente dito sim,
eu cuidarei de você,
e será o mesmo que cuidar de mim.

sábado, 11 de março de 2017



Era o meu último dia na biblioteca da escola e eu ainda não tinha decidido se ia sentir mais saudades dos alunos do quinto ano ou do Manoel de Barros. Dizem que as despedidas são mais fáceis pra quem vai embora do que pra quem fica, mas não sei que tipo de régua pode ser usada pra medir essas coisas. Imagens gravadas a fogo na memória: uma gaiola cheia de livros que o professor de Literatura pendurou à janela e que serviu como tema pra um concurso de redação; o primeiro beijo de um casal do oitavo ano; a menininha que um dia se aproximou muito séria e, mesmo não havendo mais ninguém na biblioteca, perguntou de voz baixa: O que é poesia? Mas por que você não faz uma pergunta mais fácil como “Quem somos?”, “De onde viemos?” ou “Pra onde vamos?” Estava indo embora outra vez sem nunca ter lido Sagarana, sem nenhum outro emprego em vista e só com a vontade de algo novo, fosse o que fosse. Passei os dedos pelos livros de uma prateleira, melancólico, um momento raro de silêncio onde o silêncio é sempre exigido – mas onde a juventude é sempre mais forte. E por que mais nunca ninguém levou emprestado aquele O Lobo da Estepe? “Você é muito criativo e toma boas iniciativas”, disse o diretor da escola quando apresentei o meu pedido de demissão, “mas já deve saber que é péssimo em cumprir ordens”. Sim, eu já sabia – mas bem mais sonhador do que orgulhoso. Sobre um balcão ao lado da porta, antes de sair da biblioteca pela última vez, fiz girar um globo terrestre e me lembrei de uma brincadeira pra se descobrir em que lugar do mundo a gente vai morar. E me detive ali por mais alguns minutos, sentindo um princípio de vertigem. Aquele cheiro, a luz do sol passando em todas as janelas ao longo do dia, uma a uma, a algazarra das crianças no pátio durante o intervalo: muitas coisas pra sentir saudades. De olhos fechados, fiz girar o globo uma vez mais e depois o fiz parar com a ponta do indicador. Se é verdade que a vida passa como um filme quando a gente morre, talvez eu vá me divertir, ao menos, com a diversidade das minhas cenas. Abri os olhos. Eu vou morar no meio do Oceano Atlântico.

quinta-feira, 2 de março de 2017



Mais por excesso que por falha / é um ciclone constante aqui dentro
Arrastando milênios de filosofia e matemática
Mais por paixão que por vontade explodem versos filmes quadros
Preguiça inesgotável de antever o que dirão os sábios
E os críticos mais rasos
Se alguém me engravidasse ao menos
Se eu conseguisse não achar tão vulgar a realeza
Espero nunca mais ter que nascer burguês
Quero vomitar os homens sempre que escuto “isso é coisa de veado”
Mulheres também
Mais amor-próprio que ego
Meus pensamentos são relâmpagos / não tem palavra onde caiba
Não chega a tempo
Não permanece o bastante
Digo o contrário ou nada a ver ou volto a assuntos encerrados
Mais
Por descanso
Que por descaso
Estou sempre no meu próprio mundo
Mas só me adoro quando chove no sábado
Ou quando acordo e sou Deus

sábado, 25 de fevereiro de 2017



fome que não é minha e pesa no meu prato esvaziado. fome pura falta, falta puro impulso, puro impulso. fome de afeto e de espanto, fome que se deita ao nosso lado pra dormir sem esperança de dormir, fé que enfraquece, fúria de fome, a fome. de fé. de futuro. a que te faz pequeno, a que se põe a um passo de virar delito. fome sem pena e sem culpa, dolorosa e sem fundo, durando, dura, ainda.
ainda.
ainda.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Alto Paraíso de Goiás - GO
Me sentindo o pior dos homens, muito mais que cem anos de solidão sendo arrastados pela madrugada, por tudo o que escuto com o canto do ouvido, reações tão desproporcionais, se fosse outra pessoa que dissesse o que eu digo ou fizesse o que eu faço ela seria aceita eu sei, três ou quatro horas da manhã no centro de Belo Horizonte me sentindo o pior dos vira-latas nem um pouco belo e horizontes onde, só com um maço de cigarros no bolso e umas poucas moedas, ainda assim reduzi o passo quando virei a esquina e tinha um cara andando a uns poucos metros de mim, indo na mesma direção que eu mas né nunca se sabe né melhor assim, fiquei mais preocupado ainda quando ele parou, olhou pra trás e esperou que eu me aproximasse, lá se foi minha vida por causa de um par de botas? mas não era nada disso e logo que eu cheguei ele me perguntou Você está dormindo aqui? e reparei no degrau da loja em frente à qual a gente estava, trapos sujos, um colchão de papelão, falei que não e continuei andando aí escutei ele dizer Desculpa, sim, Desculpa, ele falou Desculpa, se você for ver não tinha nada na atitude dele precisando de desculpa e mesmo assim sei lá, me sentindo qualquer outra coisa respondi Beleza ou Tudo bem não lembro agora tanto faz e fui adiante com a certeza de que eu desculpava, sim, mas não era ele, e na verdade eu nunca soube muito bem o que.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Belo Horizonte - MG

Tive que descer pro inferno e só te levei comigo até o vigésimo oitavo degrau. Não sei se te subestimei ou se exigi demais, só que no inferno a gente não poderia mesmo ter entrado de mãos dadas. Se fosse indo pro céu seria a mesma coisa, porque o teu céu tem todo aquele algodão-doce rosa e chafarizes de cristal e pérolas no enfeite de cabelo enquanto o meu tem uns lagartos coloridos, fruteiras públicas e grandes varandas sobre abismos e oceanos índigo. Se eu dissesse que você não é o que pensa, você entenderia que não é teus pensamentos ou pensaria que eu estivesse te acusando de ter uma opinião errada a teu próprio respeito? Se bastasse acreditar que os pensamentos correm pra onde querem, alcançar toda a profundidade dos contrários e de não haver contrários ou digamos assim se o coração reinasse a rédeas soltas então caberia entender alguma coisa, ou serviria de algo? Nenhum instinto há de ser encorajado porque todos sujos e perversos e a razão somente a civilização nos fez desenvolver algum cuidado algum olhar ao próximo? Já é lei que a bondade a consciência são o discurso de consolação dos perdedores e nada, nada, nada nada mais? Sobrou somente a estrada de terra batida e quem sabe os pés, só um agora previsível e suspiros e talvez flores de cactos, essa falta de imaginação que me fulmina, a indisponibilidade, a minha preguiça de falar recorte-aqui se estou traçando a linha pontilhada? Mas ah, um poço de luz se acende imenso sempre que mergulho em busca da tua imagem – e pelo menos isso ainda posso dizer que é verdade. Que é o teu bem o que eu quero, que eu ganhei estou crescendo e que você me faz acreditar em dias melhores – eu sei, posso até ver é cada vez mais claro. E por tudo o que há de mais sagrado neste mundo: se todo o resto for a pena, vale.

domingo, 5 de fevereiro de 2017



Queria falar a linguagem dos sonhos. A voz sem amarras, a pura sensação feita imagem. Na Terra do Sol Poente, ou Nascente (enfim, na Terra do Céu Sempre Alaranjado), uma mulher parecida com a Jéssica me levou a um terraço e me deu alguma coisa pra beber. Tentava me acalmar dizendo que ainda era muito cedo pra... o que era mesmo? Ninguém é especial, é tudo igual do outro lado. Durante muito tempo, anotei meus sonhos em um caderno azul marinho. Em uma terra entre mundos, eu esperava na fila pra pegar o ônibus d’Aqueles que Tentaram e Quase Conseguiram, que era uma categoria intermediária na evolução espiritual – aliás, eu estava numa subcategoria média-baixa, porque era o único responsável por não ter conseguido. Acordamos envolvidos pela sensação sonhada, ela nos move ao longo do dia. Todo mundo é especial. Tem sonhos de que nunca me esqueci, sem precisar anotar: resgates no inferno, beijos do mais puro amor, voos soltos. Falar essa língua, sim, quem me dera. Dizia isso à Gertrude Stein e ao Caetano Veloso em um bar na Vila Madalena.

sábado, 28 de janeiro de 2017



Vou te dar meu coração, mas você não repare
Tive que colar aqui este canto, quase não se nota
Ali rasgou, tive que costurar, mas veja só que pontos mais bem dados
Com linha da mesma cor e tudo, uma obra-prima
Esse pedaço aqui eu perdi, não lembro o que era, mas se foi pra sempre
O vazio deixa o conjunto bem mais triste e ao mesmo tempo bem mais leve
E melhorou consideravelmente a aerodinâmica
Essa marca aqui foi de uma punhalada, aquela ali, de um tombo
E estes símbolos são de um discurso cético que eu decorei faz tempo
Bobagens anti-amor-romântico, só pra defesa pessoal, irremovíveis
Mas que não importam, minha querida, e nada disso importa de verdade
Está meio estropiado, mas é forte, um coração saudável, vacinado
Que ainda ilumina à noite, esquenta no inverno e mata a fome
Enfim, faz tudo que os corações inteiros fazem
E mais umas acrobacias que só ele sabe

sábado, 21 de janeiro de 2017



Nada entre nós, uma vertigem de chuva, a grama encontrando brechas na calçada. Cedo demais pra ser engano, aura azul, noturnos de Chopin, batom, bebês, nada entre nós. Ouvi a tua respiração e não dormi, sonhando. Branco véu, palavra doce em tantas línguas estrangeiras, pinceladas de Van Gogh, oásis, água branca, agora é tarde pra dizer que agora é tarde. Nada entre nós. A pele. A espera, a infestação de pétalas.

(Diários de Machu Picchu #22)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017


O moleque não entendia nada de bola e por isso nunca tinha saído do banco de reservas. Naquela tarde, sob a chuva, assistia calado enquanto seu time levava uma goleada dos meninos do outro bairro e com isso era eliminado do campeonato. Na hora do intervalo, o treinador escolhia as palavras pra tentar acertar o time e ainda infundir-lhes algum ânimo, o que não era uma tarefa nada fácil.

– O meio de campo tá meio enrolado – arriscou ele, devagar. Aí o moleque desatou a rir. Todos olharam ofendidos, sem conseguir decidir se lhe davam uma surra ou simplesmente o ignoravam.

– Não é que o meio de campo tá meio enrolado – explicou o moleque assim que recuperou o fôlego. – É que o meio de campo tá enrolado, os laterais tão se batendo, a zaga tá mais perdida que cego em tiroteio e o ataque ainda não viu a cor da bola. Mas a bola tá rolando ainda! Dá-lhe!

Seguiu-se um breve silêncio em que todos concluíram que, afinal, aquilo não era uma ofensa, mas um incentivo. O treinador aproveitou que tudo já tinha sido dito e se limitou a puxar aplausos repetindo “Dá-lhe!”, e verificou que alguns meninos estavam de fato recuperando o ânimo. Dispensou a equipe sem mais outras palavras: não havia chances de reverter o placar, mas ao menos ainda era possível perder com a cabeça erguida.

As coisas melhoraram um pouco no segundo tempo, e o time chegou mesmo a marcar um gol, além de evitar outros tantos da equipe adversária. Todo o time percebia a melhora, e com isso a confiança deles ia aumentando, também. Faltando alguns minutos pra acabar o jogo, tendo a derrota como certa, mas vendo seu time se esforçar como poucas vezes tinha visto, o treinador chamou o moleque pra ocupar o lugar do seu melhor atacante.

– Vai lá e acaba com eles, campeão!

E ele foi. Demorou muito tempo até que chegasse a encostar na bola. Já deviam estar nos últimos lances quando ela sobrou pra ele na intermediária. Curioso, o treinador prendeu a respiração e acompanhou:

O moleque não entendia nada de bola e mesmo assim queria sair dando drible. Os zagueiros pararam pra olhar: ele era tão sem jeito que se perguntavam se estaria mesmo falando sério. E o pior é que estava. Aproveitando a confusão da zaga, acabou passando pelo primeiro, pelo segundo, pelo terceiro – e marcou um gol já meio que perdendo o equilíbrio, caindo de lado sem que ninguém tivesse encostado nele. Um gol feio, mas gol é gol – como todo mundo sabe. O moleque rolou na lama e nem se levantou pra comemorar. Ficou lá deitado, os braços abertos e os olhos fechados, uma expressão da mais pura satisfação, sentindo a chuva cair no rosto.


sábado, 7 de janeiro de 2017



Hoje o tempo não passa, não tenho onde chegar nem vontade de ir. Estou bem várias vezes por dia, mal várias vezes por dia, indiferente aqui e ali, quase sempre me distraio, penso no que passou e no que virá, lamento, ou não, sempre vai ser assim. A culpa é minha de quê? De não mudar o mundo pra melhor, de não querer o que você acha que é bom, alguém chorou por minha causa, os pães ficaram no forno por tempo demais e acabaram queimando? Tem sempre uma alma boa, uma ameaça, alguém jogando lixo no chão. Não dá pra cuidar de tudo, não dá pra cuidar de tudo em si mesmo, nem ser sozinho nem não ser, nem como conviver com o fato de que o passado não se move. Ah, mas também tem os que sabem do que você está falando mesmo quando você não diz nada com nada. Tem um abismo no fundo do abismo que dá pra dentro de dentro. Não tem nada no escuro que não exista na luz.

sábado, 31 de dezembro de 2016



Ah, mas também existe lá fora um mundo acolhedor e generoso, sem rir do teu medo. Mas também existe no vale das sombras e da morte um rio de águas limpas e pequenos portais camuflados que nos levam direto a um paraíso vivo. Ah, mas também existe Deus fora dos templos – e ainda muito além de todas as certezas sobre Deus, assim como essa linha invisível costurando o caos até que ele caiba no fato de termos sobrevivido. Mas também existe uma ponte até o outro nas profundezas do orgulho. E mãos estendidas, e pêssegos, e melodias que nos fortalecem. Ah, mas também existem os que ainda escutam. Mas também existem arquitetos de afeições, e ainda temos a matéria-prima de que eles precisam, e ainda a temos de sobra. Ah, mas também existem céus subterrâneos. Ah, mas ainda existem céus, mas também existem os que ainda enxergam.

sábado, 24 de dezembro de 2016


Andei entre assassinos e ladrões e corações arrependidos ou indiferentes
Homens honestos à minha volta derramaram suor e levantaram as mãos em prece ou em fúria
Ou em preces enfurecidas porque seu suor não deveria correr tanto nem valer tão pouco no final dos meses
Andei entre as crianças distraídas com seus jogos eletrônicos ou escalando as árvores dos seus quintais ou das praças
E entre os hippies artesãos ou músicos que coloriam as praças antes de desaparecerem outra vez na estrada
Ciganos e índios nômades já tantas vezes acamparam à beira dos rios ou nas montanhas da minha cidade
Andei com eles pra bem longe e bebi de suas taças e dancei com eles ao redor de suas fogueiras
Mas também parei pra ouvir o sermão choroso dos pastores combatendo impronunciáveis inimigos invisíveis
Nos bancos à sua esquerda os homens e à direita as mulheres com as cabeças cobertas por véus brancos
E repeti com eles Amém Jesus Glória a Deus Aleluia Senhor Misericórdia
Andei por entre os padres e xamãs e bruxas e girei nos terreiros com os braços abertos pra Oxalá e os Pretos Velhos
Meditei com os monges budistas e escrevi cartas assinadas por espíritos e com os céticos eu concordei sobre todas as dúvidas
Dos filósofos até os neurologistas fui bebendo a história de com quais convicções desconhecemos a nós mesmos
Mas segui os manuais do bom comportamento nos bares mais sujos assim como nos salões mais perfumados da alta sociedade
E transgredi todas as regras que me pareceram inúteis se ninguém era prejudicado e eu queria alguma coisa do outro lado delas
Andei por todo o mundo e não vi nada além de pessoas interpretando o mundo até que ele ficasse igual ao que elas acreditavam
Não acredito em ser humano algum que por razão alguma se diga maior melhor mais qualquer coisa que outro ser humano
E acho que se todos não acreditássemos nisso já seria um ótimo começo
Mas nunca levantei a voz dizendo você deve fazer isto e não aquilo que o seu coração achar que é certo
A única bandeira que eu defendo é branca
E mesmo essa às vezes me parece um exagero
Como um motivo pra guerra 


domingo, 18 de dezembro de 2016

No final do meu segundo ano em Brasília, já tinha entendido muito bem por que a cidade tem uma das maiores taxas de suicídio do país. Verdade que eu era muito jovem pra enfrentar aquela aura absurda de poder e arrogância, um misto de raiva e indiferença dando o tom de um espetáculo do qual eu não sabia nem queria fazer parte, mas mesmo agora, depois de tanto tempo, duvido que eu tivesse disposição pra me colocar outra vez no meio daquele circo. As distâncias, pra resumo da história, eram o que me fazia tomar a decisão que estava tomando agora de partir: distâncias entre as almas, bem menos arborizadas que os grandes espaços vazios que surgiam, às vezes, entre uma quadra e outra da cidade, dando a súbita impressão de que ela desaparecera e estávamos sozinhos e perdidos no meio do deserto do cerrado. De qualquer forma, a cidade não era outra coisa senão ela mesma algo perdido e solitário no deserto do cerrado.

Pensava nisso enquanto atravessava o Parque da Cidade pra encontrar o João em um dos nossos bares habituais. Arrastava os pés de cansaço e desilusão, e meu humor definitivamente não era dos melhores. Olhava com ironia pros casais gays que me encaravam enquanto eu passava – um casal de meninas aqui, dois casais de meninos mais adiante – mas o problema nem era com eles, exatamente: é só que, no estado de espírito em que eu estava, enxergava naquilo um discurso bobinho e adolescente de “a sociedade precisa evoluir” meio que fazendo um contraste com o lixo espalhado pelo parque, deixando claro que eles também eram parte da tal sociedade que ainda não tinha entendido os princípios básicos de civilidade.

O mau-humor passou assim que avistei o João em uma das mesas do bar, mas foi imediatamente substituído por uma melancolia carregada e sem tamanho, vinda do fato de que eu estava prestes a dizer ao meu melhor amigo que ia embora da cidade. Ele percebeu que eu não estava bem logo que nos cumprimentamos, mas quando me perguntou o que eu tinha, apenas balancei a cabeça pra indicar que não queria falar sobre aquilo e comecei a contar uma história pra nos distrair:

– Acordei numa sala egípcia. – João fez uma careta de interrogação e eu continuei: – Tinha uns desenhos de faraós e deuses egípcios nas paredes. Eu estava numa poltrona azul muito confortável, os braços de madeira entalhados também com motivos egípcios. Cortinas transparentes e tapetes, uma música de relaxamento e uma maquininha na parede programada pra borrifar perfume a cada cinco minutos, mais ou menos. Fiquei um bom tempo lá tentando entender o que diabos era aquilo e como eu tinha ido parar ali. E a verdade é que não tenho a menor ideia. Minha consciência apagou em algum momento entre as três e as cinco da madrugada.

– Mas que lugar é esse? – quis saber João.

– É um templo ali junto ao Campo da Esperança, já viu? Alguma coisa da Boa Vontade.

Legião – ele explicou. – Legião da Boa Vontade. Nunca entrei, mas já passei pela frente algumas vezes. Já reparou nos anúncios de cartomantes e videntes que estão nos muros dali? – Fiz que não com a cabeça. – Tem um que diz: “Trago a pessoa amada de volta em até três dias”. Não é um anúncio encantador pra se colocar à porta de um cemitério? – Sorri, ainda um pouco melancólico, e dessa vez João não deixou por menos: – Vá, fale logo o que está te incomodando.

Respirei fundo.

– Eu vou embora.

João se calou por alguns segundos, processando aquilo sei lá de quantas maneiras diferentes, até que recomeçou, com a voz animada de sempre:

– Você vai ter que me prometer que, antes de ir embora, a gente vai tirar umas fotos lá na frente do STF com um cartaz que diz: “Supremo sou eu, bitches”.

Aí eu ri tanto que a melancolia toda desapareceu.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016


Veio uma chuva larga de verão. No fim da tarde. Depois o ar ficou parado como se o tempo não existisse. Agora eu vou limpar essa bagunça com um sopro, ela falou. As ruas estavam vazias como num domingo, e eu tinha um nó na garganta que não era meu. Ternura, pensei, não é nenhum motivo de vergonha. Olha agora eu vou fazer uma trança com as tuas lágrimas. Então era uma brisa meio alaranjada, com pedacinhos de céu azul ainda no meio das nuvens. Só eu sei o quanto me custou virar algumas páginas. Escuta, se a poesia estivesse morta, quem teria morrido era eu. Mas não. Até já sei amar em vias de mão única. Pura inocência, mesmo, e não porque nos faltem provas em contrário. O que chamam de fragilidade é um brilho sólido expandindo. Pulsando, assim, no coração de dezembro. Sob gotas mornas. Grossas. Esparsas.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016



fuja como quiser. O necessário, o mais urgente, o que é importante, o indispensável, tudo isso vive sem você. pergunte-se. Ser bom é ser bom pra quem, pra quê? Vão tentar te convencer de tantas coisas, mas não dão a mínima pra o que você pensa ou sente e que não consta em seus catálogos. ou então enfrente o que você quiser. Dilua a sua individualidade na tinta de qualquer bandeira. haverá sempre algum exército inimigo. Hidras de Lerna, a pedra de Sísifo, dia a dia inventarão motivos pra te perseguir, todas as noites você vai se ver diante de um pelotão qualquer de fuzilamento. mas seja honesto ao menos consigo mesmo: você não está isento de nada, não. sente-se ao meu lado e veja o mundo não mudar, mudar e não mudar, mudar, querer mudar. Beba comigo a existência em todas as suas gratuidades e contradições. Seja você, seja o inferno que são os outros, somos todos humanos demais, pedacinhos de carne acreditando em sou-deus. E não há nada sob controle, não, mas vão tentar te convencer de que sim. Se conseguirem, bom, aí você estará sob o controle deles, então sim. fuja quando quiser, se quiser, vá, deixe-se em paz. promova algum descanso, alguns. chame-se trégua.