sexta-feira, 12 de maio de 2017



                              (     ) Córdoba, Argentina

                              (     ) Curitiba

                              (     ) João Pessoa

                              (     ) Porto Alegre

                              (     ) Salvador

                              (     ) Santiago, Chile
Arranha
céus entre árvores anônimas em seus pequenos recortes na calçada, mulheres de tantas pernas pra que tantas pernas meu deus pra que tantas faces e quem é que ainda canta, quem é que ainda ama, quem é que pode informar onde a gente colhe uma jabuticaba, os carros passam rápido os cachorros passam rápido responde rápido o whatsapp e rápido rápido a vida nunca mais foi besta ó Carlos. só que né. tá sendo.

(Diários de Machu Picchu #07)

domingo, 7 de maio de 2017



Estive outra vez sob os holofotes e não gostei. Meu amor se espalhou pra muito além de uma identidade, até que não soubesse mais ter direção. Eu também era a plateia atônita ao me ver ali tão quieto, uma estrela implodida no peito: quando eu cantava a dor, nem sempre doía, mas quando me calei foi porque a dor ultrapassava qualquer possibilidade de expressão. Meus filhos, meus irmãos, meus companheiros de luta levaram pro mundo pedaços de mim e eu estava sozinho na berlinda, e meu momento presente havia se tornado um vácuo. Você vai se lembrar de alguma vez que eu te fiz rir, mas não de que hoje é meu aniversário. Você vai percorrer estradas que eu abri pra te ver livre ou se abrigar em fortalezas que ergui, mas não vai citar meu nome em seu discurso de vitória. No fim, nem era mais pelos aplausos, nem era mais pra alimentar a alma do meu público que eu me movia: eu era um títere que recusou todos os titereiros e que por isso quase foi estraçalhado por eles, mas que aprendia então o próprio impulso. O que sobrou, o que está aqui não é minha presença. Você me vê falar? Pode enxergar lugares em que estive, alguns percursos lógicos e emocionais, desenhos ruins, fiapos de boas ideias? O sujeito deles, se existiu, passou faz tempo. Isto, agora, é só você escolhendo espelhos.

sábado, 29 de abril de 2017


– A vida é cheia de som, fúria, alarmes e surpresas –
ela disse.
no alto de um prédio cavalgar violoncelos desafia a
morte ela será tua roupa é hora de acordar e ainda
ter vencido de uma forma inexplicável mas na
boca um gosto de querida eu acho que nós não
devíamos ter fumado aquele pássaro
– Sei lá – ele respondeu. 
Jesus não me quer pra rockstar.

eu fico mudo de espanto. esse milagre de ser, multiplicado e diverso, o balé do acaso em multidões pelas ruas e crianças em parques ou pátios de escola, eu mal consigo acreditar, meus olhos se prendem e eu me esqueço de tudo. ou por exemplo quando você fala. quando um sorriso se abre e quando os teus olhos brilham ou também se prendem nos meus como se me investigassem ou estivessem à espera. eu não me canso de olhar. olhar de curioso, de ignorar por completo as combinações e graus de pensamentos emoções e instintos que agitam os gestos. fala, por favor, não pare nunca de falar. que força escolhe o tom da voz, que força vibra o ar e o que pretende que se agarre – eu posso olhar eternamente, embriagado, agradecido e triste de saber que nada pode aprisionar e preservar indefinidamente no meu corpo as vidas que observo. no meu corpo, sim, este que é o único palco de eu também ainda estar vivo. nem mesmo a memória vai poder reproduzir cada pequeno instante, cada desconhecido íntimo ou anônimo que observei alguma vez por horas e observaria ainda por outras, mudo de espanto. não, não tenho como acreditar. porque existir não é possível, só não é. e ainda assim se existe.

sábado, 22 de abril de 2017




um sono intranquilo, levantar à uma e meia, ler mais um ou dois capítulos de um livro, olhar a noite, excessivo silêncio, fantasmas, o mundo recomeçou a andar e as possibilidades são infinitas e belas e assustadoras, sonhos confusos, mais uma ou duas horas de sono, levantar e preparar um sanduíche, excessivo silêncio, uma vontade de chorar por nada, a escuridão completa caberia bem melhor numa hora dessas, mas um medo de verdade, ou quase, lábios que se movem sutilmente acompanhando uma canção imaginada, excessivo silêncio, dormir outro sono intranquilo, levantar às cinco ou cinco e meia ou quase, o que terá restado da realidade apenas uma ideia vaga, delírios diurnos, essa coragem injustificável.

sábado, 15 de abril de 2017


Por trás da nuvem de fumaça, o rosto, o olho, a alma – a noite que atravessa a vidraça e encontra o cigarro aceso – multidões querendo sangue, hordas de guerreiros nas calçadas, lobos salivando à porta – Por trás da nuvem branca há um gemido de angústia engolido sem pressa, uma esperança de flor numa terra pisada – vermes, fantasmas, anjos pintados com giz e uma lembrança sem maquiagem – livros saturados de palavras – inúteis considerações binárias – Por trás desta nuvem de fumo ainda resiste um nome, uma pele, a passagem – a poeira do asfalto e dos pneus de borracha – no prédio em frente, três tevês ligadas em um mesmo filme – Por trás da nuvem de fumaça (não se vê) há qualquer coisa que só quer ser nada
entretenham-nos

sábado, 8 de abril de 2017

Santos - SP
Fez quarenta graus à tarde.

Trocamos a cerveja por água de coco.

Fui visitar Eva em Santos me perguntando se aquele seria o nosso último encontro. Muitas vezes, em nossas viagens, andando ao seu lado pelas ruas de uma cidade qualquer ouvi ela dizer que nada ia durar até depois de virarmos a próxima esquina. Eu costumava brincar dizendo que sim, claro, a qualquer momento uma erupção solar pode transformar o planeta em um caldo fumegante de civilização avançada – mas daquela vez eu não estava achando graça. Nem apoiava a sua decisão de não ter um perfil no Facebook e outras restrições à tecnologia que dificultavam bastante uma comunicação à distância. Sobre o Fecebook, ela explicava:

– Eu ficaria muito tentada a falar com todo mundo ao mesmo tempo... E ficaria louca vendo cada um falar de uma coisa diferente ou alimentar o ódio dos dois lados de uma coisa só.

Caminhávamos sem pressa do Canal 2 ao 4, parando aqui e ali pra que eu fotografasse alguma coisa, e falávamos sobre ilusões de avanço, de como pensávamos que a esta altura de nossas vidas já teríamos conquistado o mundo, do que é envelhecer, da diferença óbvia pra nós dois entre maturidade e cinismo.

– Nada pode ser mais triste – considerei – do que a impressão de que a gente já esgotou todos os discursos capazes de despertar bons sentimentos. De que toda e qualquer palavra que a gente disser pode e vai ser explicada à luz de uma teoria qualquer que reduza o ser humano a puro egoísmo.

– É claustrofóbico – definiu ela.

Pensávamos que a esta altura de nossas vidas já nos sentiríamos livres.

– “Liberdade” não é uma palavra muito adolescente? – provoquei.

– Só sei que quando eu tinha dezesseis – ela falou – achava que a função dos adultos era eles se acharem melhores e mais importantes que os adolescentes. – Fez uma pausa, como se refletisse. – Agora que eu sou adulta, tenho certeza!

Rimos.

– Quando eu tinha dezesseis, – eu disse – às vezes parecia que tinha oito. Ou oitenta.

– Mesmo agora, que estou com cinquenta e cinco, às vezes ainda parece que eu tenho oito ou oitenta – emendou ela, que ainda estava longe de ter cinquenta e cinco.

Rimos outra vez, depois seu olhar se perdeu em direção ao mar.

– Tem dias que eu nem nasci – filosofou. Aí olhou pra mim com um sorriso meio triste e meio malicioso, arqueando as sobrancelhas: – E tem dias que eu não morro nunca.

sábado, 1 de abril de 2017


Este
aquele espírito de vento e pólen, reflexo autônomo no espelho, um transparente fio de arremessar galáxias, mãos de involuntária magia branca, este aquele imperturbável persistente aqueles olhos inundados de ter visto e de inventar e de ter fé porque sim de relâmpago e LEIA-ME DEVAGAR amanhã nada disso terá insubstância, castelo d’água transformado em vinho, aquele um abraço incandescente de alívio, isso mesmo a vitrine de uma satisfação gratuita, pomares amadurecendo ávida vida e vertigem de resoluções em sementes, aquele inquebrável delírio escorrendo paz, escrever no diário o dia hoje foi perfeito, impermeável sussurro, só isso, só isso.


sábado, 25 de março de 2017



estamos no limite da delicadeza. e não porque algo de cruel ou de brutal espreite além do próximo passo – um passo a mais, daqui, seria adentrar um território sobre-humano de ternura e entrega. essas palavras que tantos aprisionam a uma ideia de “universo feminino”, ou pior, que são só “coisas de mulheres”, mas que eu homem reconheço e gosto, entre nós dois sutis e óbvias a um só tempo feito fonte e foz se realizam a despeito de todos os avisos de CUIDADO
ou talvez porque
numa espécie de transe
ao ler esses avisos nós tenhamos simplesmente dito sim,
eu cuidarei de você,
e será o mesmo que cuidar de mim.

sábado, 11 de março de 2017



Era o meu último dia na biblioteca da escola e eu ainda não tinha decidido se ia sentir mais saudades dos alunos do quinto ano ou do Manoel de Barros. Dizem que as despedidas são mais fáceis pra quem vai embora do que pra quem fica, mas não sei que tipo de régua pode ser usada pra medir essas coisas. Imagens gravadas a fogo na memória: uma gaiola cheia de livros que o professor de Literatura pendurou à janela e que serviu como tema pra um concurso de redação; o primeiro beijo de um casal do oitavo ano; a menininha que um dia se aproximou muito séria e, mesmo não havendo mais ninguém na biblioteca, perguntou de voz baixa: O que é poesia? Mas por que você não faz uma pergunta mais fácil como “Quem somos?”, “De onde viemos?” ou “Pra onde vamos?” Estava indo embora outra vez sem nunca ter lido Sagarana, sem nenhum outro emprego em vista e só com a vontade de algo novo, fosse o que fosse. Passei os dedos pelos livros de uma prateleira, melancólico, um momento raro de silêncio onde o silêncio é sempre exigido – mas onde a juventude é sempre mais forte. E por que mais nunca ninguém levou emprestado aquele O Lobo da Estepe? “Você é muito criativo e toma boas iniciativas”, disse o diretor da escola quando apresentei o meu pedido de demissão, “mas já deve saber que é péssimo em cumprir ordens”. Sim, eu já sabia – mas bem mais sonhador do que orgulhoso. Sobre um balcão ao lado da porta, antes de sair da biblioteca pela última vez, fiz girar um globo terrestre e me lembrei de uma brincadeira pra se descobrir em que lugar do mundo a gente vai morar. E me detive ali por mais alguns minutos, sentindo um princípio de vertigem. Aquele cheiro, a luz do sol passando em todas as janelas ao longo do dia, uma a uma, a algazarra das crianças no pátio durante o intervalo: muitas coisas pra sentir saudades. De olhos fechados, fiz girar o globo uma vez mais e depois o fiz parar com a ponta do indicador. Se é verdade que a vida passa como um filme quando a gente morre, talvez eu vá me divertir, ao menos, com a diversidade das minhas cenas. Abri os olhos. Eu vou morar no meio do Oceano Atlântico.

quinta-feira, 2 de março de 2017



Mais por excesso que por falha / é um ciclone constante aqui dentro
Arrastando milênios de filosofia e matemática
Mais por paixão que por vontade explodem versos filmes quadros
Preguiça inesgotável de antever o que dirão os sábios
E os críticos mais rasos
Se alguém me engravidasse ao menos
Se eu conseguisse não achar tão vulgar a realeza
Espero nunca mais ter que nascer burguês
Quero vomitar os homens sempre que escuto “isso é coisa de veado”
Mulheres também
Mais amor-próprio que ego
Meus pensamentos são relâmpagos / não tem palavra onde caiba
Não chega a tempo
Não permanece o bastante
Digo o contrário ou nada a ver ou volto a assuntos encerrados
Mais
Por descanso
Que por descaso
Estou sempre no meu próprio mundo
Mas só me adoro quando chove no sábado
Ou quando acordo e sou Deus

sábado, 25 de fevereiro de 2017



fome que não é minha e pesa no meu prato esvaziado. fome pura falta, falta puro impulso, puro impulso. fome de afeto e de espanto, fome que se deita ao nosso lado pra dormir sem esperança de dormir, fé que enfraquece, fúria de fome, a fome. de fé. de futuro. a que te faz pequeno, a que se põe a um passo de virar delito. fome sem pena e sem culpa, dolorosa e sem fundo, durando, dura, ainda.
ainda.
ainda.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Alto Paraíso de Goiás - GO
Me sentindo o pior dos homens, muito mais que cem anos de solidão sendo arrastados pela madrugada, por tudo o que escuto com o canto do ouvido, reações tão desproporcionais, se fosse outra pessoa que dissesse o que eu digo ou fizesse o que eu faço ela seria aceita eu sei, três ou quatro horas da manhã no centro de Belo Horizonte me sentindo o pior dos vira-latas nem um pouco belo e horizontes onde, só com um maço de cigarros no bolso e umas poucas moedas, ainda assim reduzi o passo quando virei a esquina e tinha um cara andando a uns poucos metros de mim, indo na mesma direção que eu mas né nunca se sabe né melhor assim, fiquei mais preocupado ainda quando ele parou, olhou pra trás e esperou que eu me aproximasse, lá se foi minha vida por causa de um par de botas? mas não era nada disso e logo que eu cheguei ele me perguntou Você está dormindo aqui? e reparei no degrau da loja em frente à qual a gente estava, trapos sujos, um colchão de papelão, falei que não e continuei andando aí escutei ele dizer Desculpa, sim, Desculpa, ele falou Desculpa, se você for ver não tinha nada na atitude dele precisando de desculpa e mesmo assim sei lá, me sentindo qualquer outra coisa respondi Beleza ou Tudo bem não lembro agora tanto faz e fui adiante com a certeza de que eu desculpava, sim, mas não era ele, e na verdade eu nunca soube muito bem o que.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Belo Horizonte - MG

Tive que descer pro inferno e só te levei comigo até o vigésimo oitavo degrau. Não sei se te subestimei ou se exigi demais, só que no inferno a gente não poderia mesmo ter entrado de mãos dadas. Se fosse indo pro céu seria a mesma coisa, porque o teu céu tem todo aquele algodão-doce rosa e chafarizes de cristal e pérolas no enfeite de cabelo enquanto o meu tem uns lagartos coloridos, fruteiras públicas e grandes varandas sobre abismos e oceanos índigo. Se eu dissesse que você não é o que pensa, você entenderia que não é teus pensamentos ou pensaria que eu estivesse te acusando de ter uma opinião errada a teu próprio respeito? Se bastasse acreditar que os pensamentos correm pra onde querem, alcançar toda a profundidade dos contrários e de não haver contrários ou digamos assim se o coração reinasse a rédeas soltas então caberia entender alguma coisa, ou serviria de algo? Nenhum instinto há de ser encorajado porque todos sujos e perversos e a razão somente a civilização nos fez desenvolver algum cuidado algum olhar ao próximo? Já é lei que a bondade a consciência são o discurso de consolação dos perdedores e nada, nada, nada nada mais? Sobrou somente a estrada de terra batida e quem sabe os pés, só um agora previsível e suspiros e talvez flores de cactos, essa falta de imaginação que me fulmina, a indisponibilidade, a minha preguiça de falar recorte-aqui se estou traçando a linha pontilhada? Mas ah, um poço de luz se acende imenso sempre que mergulho em busca da tua imagem – e pelo menos isso ainda posso dizer que é verdade. Que é o teu bem o que eu quero, que eu ganhei estou crescendo e que você me faz acreditar em dias melhores – eu sei, posso até ver é cada vez mais claro. E por tudo o que há de mais sagrado neste mundo: se todo o resto for a pena, vale.

domingo, 5 de fevereiro de 2017



Queria falar a linguagem dos sonhos. A voz sem amarras, a pura sensação feita imagem. Na Terra do Sol Poente, ou Nascente (enfim, na Terra do Céu Sempre Alaranjado), uma mulher parecida com a Jéssica me levou a um terraço e me deu alguma coisa pra beber. Tentava me acalmar dizendo que ainda era muito cedo pra... o que era mesmo? Ninguém é especial, é tudo igual do outro lado. Durante muito tempo, anotei meus sonhos em um caderno azul marinho. Em uma terra entre mundos, eu esperava na fila pra pegar o ônibus d’Aqueles que Tentaram e Quase Conseguiram, que era uma categoria intermediária na evolução espiritual – aliás, eu estava numa subcategoria média-baixa, porque era o único responsável por não ter conseguido. Acordamos envolvidos pela sensação sonhada, ela nos move ao longo do dia. Todo mundo é especial. Tem sonhos de que nunca me esqueci, sem precisar anotar: resgates no inferno, beijos do mais puro amor, voos soltos. Falar essa língua, sim, quem me dera. Dizia isso à Gertrude Stein e ao Caetano Veloso em um bar na Vila Madalena.

sábado, 28 de janeiro de 2017



Vou te dar meu coração, mas você não repare
Tive que colar aqui este canto, quase não se nota
Ali rasgou, tive que costurar, mas veja só que pontos mais bem dados
Com linha da mesma cor e tudo, uma obra-prima
Esse pedaço aqui eu perdi, não lembro o que era, mas se foi pra sempre
O vazio deixa o conjunto bem mais triste e ao mesmo tempo bem mais leve
E melhorou consideravelmente a aerodinâmica
Essa marca aqui foi de uma punhalada, aquela ali, de um tombo
E estes símbolos são de um discurso cético que eu decorei faz tempo
Bobagens anti-amor-romântico, só pra defesa pessoal, irremovíveis
Mas que não importam, minha querida, e nada disso importa de verdade
Está meio estropiado, mas é forte, um coração saudável, vacinado
Que ainda ilumina à noite, esquenta no inverno e mata a fome
Enfim, faz tudo que os corações inteiros fazem
E mais umas acrobacias que só ele sabe

sábado, 21 de janeiro de 2017



Nada entre nós, uma vertigem de chuva, a grama encontrando brechas na calçada. Cedo demais pra ser engano, aura azul, noturnos de Chopin, batom, bebês, nada entre nós. Ouvi a tua respiração e não dormi, sonhando. Branco véu, palavra doce em tantas línguas estrangeiras, pinceladas de Van Gogh, oásis, água branca, agora é tarde pra dizer que agora é tarde. Nada entre nós. A pele. A espera, a infestação de pétalas.

(Diários de Machu Picchu #22)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017


O moleque não entendia nada de bola e por isso nunca tinha saído do banco de reservas. Naquela tarde, sob a chuva, assistia calado enquanto seu time levava uma goleada dos meninos do outro bairro e com isso era eliminado do campeonato. Na hora do intervalo, o treinador escolhia as palavras pra tentar acertar o time e ainda infundir-lhes algum ânimo, o que não era uma tarefa nada fácil.

– O meio de campo tá meio enrolado – arriscou ele, devagar. Aí o moleque desatou a rir. Todos olharam ofendidos, sem conseguir decidir se lhe davam uma surra ou simplesmente o ignoravam.

– Não é que o meio de campo tá meio enrolado – explicou o moleque assim que recuperou o fôlego. – É que o meio de campo tá enrolado, os laterais tão se batendo, a zaga tá mais perdida que cego em tiroteio e o ataque ainda não viu a cor da bola. Mas a bola tá rolando ainda! Dá-lhe!

Seguiu-se um breve silêncio em que todos concluíram que, afinal, aquilo não era uma ofensa, mas um incentivo. O treinador aproveitou que tudo já tinha sido dito e se limitou a puxar aplausos repetindo “Dá-lhe!”, e verificou que alguns meninos estavam de fato recuperando o ânimo. Dispensou a equipe sem mais outras palavras: não havia chances de reverter o placar, mas ao menos ainda era possível perder com a cabeça erguida.

As coisas melhoraram um pouco no segundo tempo, e o time chegou mesmo a marcar um gol, além de evitar outros tantos da equipe adversária. Todo o time percebia a melhora, e com isso a confiança deles ia aumentando, também. Faltando alguns minutos pra acabar o jogo, tendo a derrota como certa, mas vendo seu time se esforçar como poucas vezes tinha visto, o treinador chamou o moleque pra ocupar o lugar do seu melhor atacante.

– Vai lá e acaba com eles, campeão!

E ele foi. Demorou muito tempo até que chegasse a encostar na bola. Já deviam estar nos últimos lances quando ela sobrou pra ele na intermediária. Curioso, o treinador prendeu a respiração e acompanhou:

O moleque não entendia nada de bola e mesmo assim queria sair dando drible. Os zagueiros pararam pra olhar: ele era tão sem jeito que se perguntavam se estaria mesmo falando sério. E o pior é que estava. Aproveitando a confusão da zaga, acabou passando pelo primeiro, pelo segundo, pelo terceiro – e marcou um gol já meio que perdendo o equilíbrio, caindo de lado sem que ninguém tivesse encostado nele. Um gol feio, mas gol é gol – como todo mundo sabe. O moleque rolou na lama e nem se levantou pra comemorar. Ficou lá deitado, os braços abertos e os olhos fechados, uma expressão da mais pura satisfação, sentindo a chuva cair no rosto.


sábado, 7 de janeiro de 2017



Hoje o tempo não passa, não tenho onde chegar nem vontade de ir. Estou bem várias vezes por dia, mal várias vezes por dia, indiferente aqui e ali, quase sempre me distraio, penso no que passou e no que virá, lamento, ou não, sempre vai ser assim. A culpa é minha de quê? De não mudar o mundo pra melhor, de não querer o que você acha que é bom, alguém chorou por minha causa, os pães ficaram no forno por tempo demais e acabaram queimando? Tem sempre uma alma boa, uma ameaça, alguém jogando lixo no chão. Não dá pra cuidar de tudo, não dá pra cuidar de tudo em si mesmo, nem ser sozinho nem não ser, nem como conviver com o fato de que o passado não se move. Ah, mas também tem os que sabem do que você está falando mesmo quando você não diz nada com nada. Tem um abismo no fundo do abismo que dá pra dentro de dentro. Não tem nada no escuro que não exista na luz.