quinta-feira, 15 de junho de 2017
sexta-feira, 9 de junho de 2017
Tinha um jeito de promover o que é ruim pela crítica em vez de falar do que é bom se recusavam a ser os responsáveis pela própria raiva e tinha aquelas celas de siga-o-modelo eu tinha que caber ali ou nada feito mas não vem com essa de que a culpa a culpa a culpa a a a a. Aquela gente de plástico uma gente que ai-meu-deus-amadureça gente com preguiça de ser gente acho só pode. Tinha uma lá por exemplo reclamando cadê as pessoas inteligentes mais amor por favor é muita hipocrisia a que ponto chegamos e eu pensando minha querida mas também morro de tédio se sou eu que viro o pregador o moralista ou eu-que-sei o o o. Tenho que pedir licença que eu também sei reclamar mas gente que é isso não se faz outra coisa agora. A verdade meus queridos é que se a gente só ouve aquilo que quer é o mesmo que ficar falando sozinho a vida inteira e vá lá se você acha isso uma vida interessante mas só vou passar por aí de vez em quando. E estou acostumado isso não é uma reclamação mas quando uma pessoa não está a fim de te incluir você pode dizer exatamente o que ela pensa e ela vai te rejeitar só porque sei lá porque você colocou uma vírgula onde não devia diz-que. Ou você pode usar o argumento que destroça a lógica dela e ela vai dizer nada me atinge vindo de alguém que isso ou aquilo sendo que isso ou aquilo não tem nada a ver com o que está sendo discutido mas você não tem moral pronto já era. A verdade é que é muito discurso sobre os defeitos mas tudo bem às vezes eu também fico enjoado acho que não é bem essa a palavra às vezes eu também fico incrédulo com os discursos de amor e de bondade como se alguém tivesse uma fórmula ou uma cura que te faltasse e aí continua sendo sobre os teus defeitos. Tá vendo é tudo vento isso aí. A culpa não é de ninguém minha gente vão dormir se divertir um pouco ou só cuidar da própria vida gente que que custa.
sábado, 3 de junho de 2017
Perdi a medida dos extremos que eu pensava
equilibrar
Na vida há muito mais que só dois pratos na
balança
Ou duas pontas na gangorra
O ponto de equilíbrio avança e cada lado é o
outro e muitos outros
Perdi o rumo acreditando em fronteiras e
limites
Mapas que só existem na mente
Mentes mentindo a si mesmas sobre posse e
controle
Escolhendo o seu pouco pelo que lutar
Perdi a fé no significado das palavras
Essas arquiteturas ocas
Em que cada um assopra o ar que tem
Ou as mentiras que lhe deram
Perdi a conta de quantas dimensões tem meu corpo
Almatéria pulsante e vontade se movendo ou
sendo rejeitada
Percepção e tempo
A invenção do vazio e de qualquer totalidade
Perdi tanto e às vezes me ganhei
Algumas coisas doei sem pedir nada em troca
Só sei que nunca experimentei não ser
O resto é talvez
sábado, 27 de maio de 2017
O próximo ônibus pra El Bolsón sairia só na noite seguinte, então resolvi voltar a Puerto Madryn e aproveitar pra ver as baleias. Da primeira vez que passei por lá, elas ainda não tinham chegado. Desembarquei às oito da manhã. A cidade estava fria e mergulhada numa névoa densa, e fui direto a um café pra esquentar o corpo e espantar o sono. Foi a primeira vez que reparei no item “Submarino” em um cardápio na Argentina. O garçom explicou que era uma taça de leite fervendo e vinha com uma barrinha de chocolate que você afundava no leite pra derreter. Decidi experimentar. Conversa vai, conversa vem, o garçom me contou que a “névoa” lá fora eram na verdade cinzas vulcânicas que estavam se espalhando desde o Chile. Fez até um desenho num guardanapo pra mostrar como o vento estava arrastando as cinzas pro leste e nordeste, passando por Buenos Aires, pelo Uruguai e chegando até ao sul do Brasil. Ele disse que eu corria um risco muito grande indo pra El Bolsón, porque era muito perto do vulcão e estaria carregada de cinzas.
Passei numa oficina de turismo pra saber o horário da maré alta, que é quando as baleias chegam mais perto da praia, e aproveitei pra perguntar a respeito de El Bolsón. A moça falou que lá estava melhor que em Puerto Madryn – que havia um alerta, sim, mas que estava tudo bem e que eu não correria risco nenhum. Saí de lá um pouco mais tranquilo, e agora tinha até às cinco da tarde – hora da maré alta – sem absolutamente nada pra fazer. Pensei em ligar pra umas pessoas, acessar a internet em algum canto, mas depois me lembrei de que no Brasil era Dia dos Namorados e fiquei ligeiramente – e ridiculamente – deprimido. Não ajudou muito quando entrei noutro café e encontrei tocando uma versão eletro-bossa de Is This Love. Enfim, é impressionante a quantidade de estados emocionais diferentes que uma pessoa pode experimentar ao longo de um único dia.
O céu estava limpo à tarde, o sol brilhava forte e só uma fina faixa cinza cobria o mar na linha do horizonte. Meu humor estava bem melhor quando embarquei no táxi pra El Doradillo. O motorista ficou calado durante todo o trajeto, e achei até melhor assim. Estava animado pra ver as baleias. Não sei nem expressar o grau de fascinação que tenho por esses bichos. Quando chegamos, elas estavam lá, bem perto da praia. E durante quarenta e cinco minutos, eu fui uma completa criança. Corria de um lado pro outro, dançava acompanhando elas, conversava em baleiês – lembrando o filme Procurando Nemo – e ria porque tinha que falar o baleiês em espanhol, já que estávamos na Argentina. As baleias saltavam, espirravam água, giravam, batiam as nadadeiras na superfície, ficavam um tempo com a cabeça fora d’água enquanto pássaros lhes faziam uma limpeza. Pareciam brincar. Pareciam absolutamente felizes. E eram absolutamente livres.
Na silenciosa viagem de volta, encostei a cabeça no vidro e fiquei observando o sol se por, sentindo que as palavras já não importavam, que jamais alcançariam o êxtase que eu havia experimentado. Pedi ao taxista que ele me deixasse na rodoviária e ele quis saber pra onde eu ia. Era uma pergunta e tanto naquele momento reflexivo. Fiquei tentado a dizer ninguém sabe pra onde vamos meu amigo, mas no final falei simplesmente que ia pra El Bolsón. Ele também disse que eu colocaria a vida em risco indo pra lá, por causa das cinzas vulcânicas. “Na oficina de turismo me disseram que não”, falei. “Me disseram que sim”, falou ele. Pensei um pouco naquilo tudo e concluí: “Bom, acho que amanhã vou saber ao certo”. Ele sorriu: “Então amanhã você me conta”.
Encostei outra vez a cabeça no vidro e sorri também. Ah, sim. Eu gostaria mesmo de contar.
quinta-feira, 18 de maio de 2017
Faltou luz e todos os sorvetes da cidade derreteram.
Fiquei olhando o teto antes de dormir pensando eu pago as minhas contas lavo as minhas cuecas troco as lâmpadas queimadas os pneus furados as pastilhas contra insetos não bebo não fumo não falo palavrão nem conto piada que todo mundo conhece e é assim que Ele me trata.
Pode ser Ela também.
O Acaso, a Providência ou por que não Deus ou a Deusa.
Ia dizer eu só acreditaria num deus que risse de si próprio mas acho que ele ri mesmo se existe.
Ou ela.
Seja uma consciência ou não essa força que rege os destinos da gente tem um senso de humor afiadíssimo e uma noção de Bem e Mal muito diferente do que se imagina.
Existe uma Ordem, claro, que é quando os sorvetes estão congelados por exemplo, mas tem que ver que isso aí é só um entre infinitos eventos possíveis no Caos, e não é legal ficar forçando pra que seja sempre assim dizendo que “é assim que tem que ser ou se não você vai arder pra sempre no fogo do inferno”.
Quer dizer, a Ordem só faz sentido quando é natural porque pensa bem, se fossem obrigatórios, ou quando são impostos, se forem exigidos incondicionalmente o amor, a bondade, a gentileza, então eles não existem de verdade, certo? Se forem apenas uma imitação de determinados gestos, se apenas o cumprimento mecânico de dogmas, então é só isso que eles são, né, cópias vazias.
Ok, Acaso, tá perdoado por me deixar sem sorvete. Agora vá e não peque mais.
É muito chato ter que ficar perdoando o tempo todo.
sexta-feira, 12 de maio de 2017
Arranha
céus entre árvores anônimas em seus pequenos recortes na calçada, mulheres de tantas pernas pra que tantas pernas meu deus pra que tantas faces e quem é que ainda canta, quem é que ainda ama, quem é que pode informar onde a gente colhe uma jabuticaba, os carros passam rápido os cachorros passam rápido responde rápido o whatsapp e rápido rápido a vida nunca mais foi besta ó Carlos. só que né. tá sendo.
domingo, 7 de maio de 2017
Estive outra vez sob os holofotes e não gostei. Meu amor se espalhou pra muito além de uma identidade, até que não soubesse mais ter direção. Eu também era a plateia atônita ao me ver ali tão quieto, uma estrela implodida no peito: quando eu cantava a dor, nem sempre doía, mas quando me calei foi porque a dor ultrapassava qualquer possibilidade de expressão. Meus filhos, meus irmãos, meus companheiros de luta levaram pro mundo pedaços de mim e eu estava sozinho na berlinda, e meu momento presente havia se tornado um vácuo. Você vai se lembrar de alguma vez que eu te fiz rir, mas não de que hoje é meu aniversário. Você vai percorrer estradas que eu abri pra te ver livre ou se abrigar em fortalezas que ergui, mas não vai citar meu nome em seu discurso de vitória. No fim, nem era mais pelos aplausos, nem era mais pra alimentar a alma do meu público que eu me movia: eu era um títere que recusou todos os titereiros e que por isso quase foi estraçalhado por eles, mas que aprendia então o próprio impulso. O que sobrou, o que está aqui não é minha presença. Você me vê falar? Pode enxergar lugares em que estive, alguns percursos lógicos e emocionais, desenhos ruins, fiapos de boas ideias? O sujeito deles, se existiu, passou faz tempo. Isto, agora, é só você escolhendo espelhos.
sábado, 29 de abril de 2017
– A vida é cheia de som, fúria, alarmes e surpresas –
ela disse.
no alto de um
prédio cavalgar violoncelos desafia a
morte ela será tua
roupa é hora de acordar e ainda
ter vencido de
uma forma inexplicável mas na
boca um gosto de
querida eu acho que nós não
devíamos ter
fumado aquele pássaro
– Sei lá – ele respondeu. –
Jesus não me quer pra rockstar.
eu fico mudo de espanto. esse milagre de ser, multiplicado e diverso, o balé do acaso em multidões pelas ruas e crianças em parques ou pátios de escola, eu mal consigo acreditar, meus olhos se prendem e eu me esqueço de tudo. ou por exemplo quando você fala. quando um sorriso se abre e quando os teus olhos brilham ou também se prendem nos meus como se me investigassem ou estivessem à espera. eu não me canso de olhar. olhar de curioso, de ignorar por completo as combinações e graus de pensamentos emoções e instintos que agitam os gestos. fala, por favor, não pare nunca de falar. que força escolhe o tom da voz, que força vibra o ar e o que pretende que se agarre – eu posso olhar eternamente, embriagado, agradecido e triste de saber que nada pode aprisionar e preservar indefinidamente no meu corpo as vidas que observo. no meu corpo, sim, este que é o único palco de eu também ainda estar vivo. nem mesmo a memória vai poder reproduzir cada pequeno instante, cada desconhecido íntimo ou anônimo que observei alguma vez por horas e observaria ainda por outras, mudo de espanto. não, não tenho como acreditar. porque existir não é possível, só não é. e ainda assim se existe.
sábado, 22 de abril de 2017
um sono intranquilo, levantar à uma e meia, ler mais um ou dois capítulos
de um livro, olhar a noite, excessivo silêncio, fantasmas, o mundo recomeçou a
andar e as possibilidades são infinitas e belas e assustadoras, sonhos
confusos, mais uma ou duas horas de sono, levantar e preparar um sanduíche,
excessivo silêncio, uma vontade de chorar por nada, a escuridão completa
caberia bem melhor numa hora dessas, mas um medo de verdade, ou quase, lábios
que se movem sutilmente acompanhando uma canção imaginada, excessivo silêncio,
dormir outro sono intranquilo, levantar às cinco ou cinco e meia ou quase, o
que terá restado da realidade apenas uma ideia vaga, delírios diurnos, essa
coragem injustificável.
sábado, 15 de abril de 2017
Por trás da nuvem de fumaça, o rosto, o olho, a alma – a noite que
atravessa a vidraça e encontra o cigarro aceso – multidões querendo sangue,
hordas de guerreiros nas calçadas, lobos salivando à porta – Por trás da nuvem
branca há um gemido de angústia engolido sem pressa, uma esperança de flor numa
terra pisada – vermes, fantasmas, anjos pintados com giz e uma lembrança sem
maquiagem – livros saturados de palavras – inúteis considerações binárias – Por
trás desta nuvem de fumo ainda resiste um nome, uma pele, a passagem – a poeira
do asfalto e dos pneus de borracha – no prédio em frente, três tevês ligadas em
um mesmo filme – Por trás da nuvem de fumaça (não se vê) há qualquer coisa que
só quer ser nada
sábado, 8 de abril de 2017
Fez quarenta graus à tarde.
Trocamos a cerveja por água de coco.
Fui visitar Eva em Santos me perguntando se aquele seria o nosso último encontro. Muitas vezes, em nossas viagens, andando ao seu lado pelas ruas de uma cidade qualquer ouvi ela dizer que nada ia durar até depois de virarmos a próxima esquina. Eu costumava brincar dizendo que sim, claro, a qualquer momento uma erupção solar pode transformar o planeta em um caldo fumegante de civilização avançada – mas daquela vez eu não estava achando graça. Nem apoiava a sua decisão de não ter um perfil no Facebook e outras restrições à tecnologia que dificultavam bastante uma comunicação à distância. Sobre o Fecebook, ela explicava:
– Eu ficaria muito tentada a falar com todo mundo ao mesmo tempo... E ficaria louca vendo cada um falar de uma coisa diferente ou alimentar o ódio dos dois lados de uma coisa só.
Caminhávamos sem pressa do Canal 2 ao 4, parando aqui e ali pra que eu fotografasse alguma coisa, e falávamos sobre ilusões de avanço, de como pensávamos que a esta altura de nossas vidas já teríamos conquistado o mundo, do que é envelhecer, da diferença óbvia pra nós dois entre maturidade e cinismo.
– Nada pode ser mais triste – considerei – do que a impressão de que a gente já esgotou todos os discursos capazes de despertar bons sentimentos. De que toda e qualquer palavra que a gente disser pode e vai ser explicada à luz de uma teoria qualquer que reduza o ser humano a puro egoísmo.
– É claustrofóbico – definiu ela.
Pensávamos que a esta altura de nossas vidas já nos sentiríamos livres.
– “Liberdade” não é uma palavra muito adolescente? – provoquei.
– Só sei que quando eu tinha dezesseis – ela falou – achava que a função dos adultos era eles se acharem melhores e mais importantes que os adolescentes. – Fez uma pausa, como se refletisse. – Agora que eu sou adulta, tenho certeza!
Rimos.
– Quando eu tinha dezesseis, – eu disse – às vezes parecia que tinha oito. Ou oitenta.
– Mesmo agora, que estou com cinquenta e cinco, às vezes ainda parece que eu tenho oito ou oitenta – emendou ela, que ainda estava longe de ter cinquenta e cinco.
Rimos outra vez, depois seu olhar se perdeu em direção ao mar.
– Tem dias que eu nem nasci – filosofou. Aí olhou pra mim com um sorriso meio triste e meio malicioso, arqueando as sobrancelhas: – E tem dias que eu não morro nunca.
sábado, 1 de abril de 2017
Este
aquele espírito de
vento e pólen, reflexo autônomo no espelho, um transparente fio de arremessar
galáxias, mãos de involuntária magia branca, este aquele imperturbável
persistente aqueles olhos inundados de ter visto e de inventar e de ter fé
porque sim de relâmpago e LEIA-ME DEVAGAR amanhã nada disso terá insubstância,
castelo d’água transformado em vinho, aquele um abraço incandescente de alívio,
isso mesmo a vitrine de uma satisfação gratuita, pomares amadurecendo ávida
vida e vertigem de resoluções em sementes, aquele inquebrável delírio
escorrendo paz, escrever no diário o dia hoje foi perfeito, impermeável
sussurro, só isso, só isso.
sábado, 25 de março de 2017
estamos no limite da delicadeza. e não porque algo de cruel ou de brutal espreite além do próximo passo – um passo a mais, daqui, seria adentrar um território sobre-humano de ternura e entrega. essas palavras que tantos aprisionam a uma ideia de “universo feminino”, ou pior, que são só “coisas de mulheres”, mas que eu homem reconheço e gosto, entre nós dois sutis e óbvias a um só tempo feito fonte e foz se realizam a despeito de todos os avisos de CUIDADO
ou talvez porque
numa espécie de transe
ao ler esses avisos nós tenhamos simplesmente dito sim,
eu cuidarei de você,
e será o mesmo que cuidar de mim.
sábado, 18 de março de 2017
sábado, 11 de março de 2017
Era o meu último dia na biblioteca da escola e eu ainda não tinha decidido se ia sentir mais saudades dos alunos do quinto ano ou do Manoel de Barros. Dizem que as despedidas são mais fáceis pra quem vai embora do que pra quem fica, mas não sei que tipo de régua pode ser usada pra medir essas coisas. Imagens gravadas a fogo na memória: uma gaiola cheia de livros que o professor de Literatura pendurou à janela e que serviu como tema pra um concurso de redação; o primeiro beijo de um casal do oitavo ano; a menininha que um dia se aproximou muito séria e, mesmo não havendo mais ninguém na biblioteca, perguntou de voz baixa: O que é poesia? Mas por que você não faz uma pergunta mais fácil como “Quem somos?”, “De onde viemos?” ou “Pra onde vamos?” Estava indo embora outra vez sem nunca ter lido Sagarana, sem nenhum outro emprego em vista e só com a vontade de algo novo, fosse o que fosse. Passei os dedos pelos livros de uma prateleira, melancólico, um momento raro de silêncio onde o silêncio é sempre exigido – mas onde a juventude é sempre mais forte. E por que mais nunca ninguém levou emprestado aquele O Lobo da Estepe? “Você é muito criativo e toma boas iniciativas”, disse o diretor da escola quando apresentei o meu pedido de demissão, “mas já deve saber que é péssimo em cumprir ordens”. Sim, eu já sabia – mas bem mais sonhador do que orgulhoso. Sobre um balcão ao lado da porta, antes de sair da biblioteca pela última vez, fiz girar um globo terrestre e me lembrei de uma brincadeira pra se descobrir em que lugar do mundo a gente vai morar. E me detive ali por mais alguns minutos, sentindo um princípio de vertigem. Aquele cheiro, a luz do sol passando em todas as janelas ao longo do dia, uma a uma, a algazarra das crianças no pátio durante o intervalo: muitas coisas pra sentir saudades. De olhos fechados, fiz girar o globo uma vez mais e depois o fiz parar com a ponta do indicador. Se é verdade que a vida passa como um filme quando a gente morre, talvez eu vá me divertir, ao menos, com a diversidade das minhas cenas. Abri os olhos. Eu vou morar no meio do Oceano Atlântico.
quinta-feira, 2 de março de 2017
Mais por excesso que
por falha / é um ciclone constante aqui dentro
Arrastando milênios de
filosofia e matemática
Mais por paixão que
por vontade explodem versos filmes quadros
Preguiça inesgotável
de antever o que dirão os sábios
E os críticos mais
rasos
Se alguém me
engravidasse ao menos
Se eu conseguisse não
achar tão vulgar a realeza
Espero nunca mais ter
que nascer burguês
Quero vomitar os
homens sempre que escuto “isso é coisa de veado”
Mulheres também
Mais amor-próprio que
ego
Meus pensamentos são
relâmpagos / não tem palavra onde caiba
Não chega a tempo
Não permanece o
bastante
Digo o contrário ou
nada a ver ou volto a assuntos encerrados
Mais
Por descanso
Que por descaso
Estou sempre no meu
próprio mundo
Mas só me adoro quando
chove no sábado
Ou quando acordo e sou
Deus
sábado, 25 de fevereiro de 2017
fome
que não é minha e pesa no meu prato esvaziado. fome pura falta, falta puro
impulso, puro impulso. fome de afeto e de espanto, fome que se deita ao nosso
lado pra dormir sem esperança de dormir, fé que enfraquece, fúria de fome, a
fome. de fé. de futuro. a que te faz pequeno, a que se põe a um passo de virar
delito. fome sem pena e sem culpa, dolorosa e sem fundo, durando, dura, ainda.
ainda.
ainda.
sábado, 18 de fevereiro de 2017
Me sentindo o pior dos homens, muito mais que cem anos de solidão sendo arrastados pela madrugada, por tudo o que escuto com o canto do ouvido, reações tão desproporcionais, se fosse outra pessoa que dissesse o que eu digo ou fizesse o que eu faço ela seria aceita eu sei, três ou quatro horas da manhã no centro de Belo Horizonte me sentindo o pior dos vira-latas nem um pouco belo e horizontes onde, só com um maço de cigarros no bolso e umas poucas moedas, ainda assim reduzi o passo quando virei a esquina e tinha um cara andando a uns poucos metros de mim, indo na mesma direção que eu mas né nunca se sabe né melhor assim, fiquei mais preocupado ainda quando ele parou, olhou pra trás e esperou que eu me aproximasse, lá se foi minha vida por causa de um par de botas? mas não era nada disso e logo que eu cheguei ele me perguntou Você está dormindo aqui? e reparei no degrau da loja em frente à qual a gente estava, trapos sujos, um colchão de papelão, falei que não e continuei andando aí escutei ele dizer Desculpa, sim, Desculpa, ele falou Desculpa, se você for ver não tinha nada na atitude dele precisando de desculpa e mesmo assim sei lá, me sentindo qualquer outra coisa respondi Beleza ou Tudo bem não lembro agora tanto faz e fui adiante com a certeza de que eu desculpava, sim, mas não era ele, e na verdade eu nunca soube muito bem o que.
sábado, 11 de fevereiro de 2017
Tive que descer pro inferno e só te levei comigo até o
vigésimo oitavo degrau. Não sei se te subestimei ou se exigi demais, só que no
inferno a gente não poderia mesmo ter entrado de mãos dadas. Se fosse indo pro
céu seria a mesma coisa, porque o teu céu tem todo aquele algodão-doce rosa e
chafarizes de cristal e pérolas no enfeite de cabelo enquanto o meu tem uns
lagartos coloridos, fruteiras públicas e grandes varandas sobre abismos e
oceanos índigo. Se eu dissesse que você não é o que pensa, você entenderia que
não é teus pensamentos ou pensaria que eu estivesse te acusando de ter uma
opinião errada a teu próprio respeito? Se bastasse acreditar que os pensamentos
correm pra onde querem, alcançar toda a profundidade dos contrários e de não
haver contrários ou digamos assim se o coração reinasse a rédeas soltas então
caberia entender alguma coisa, ou serviria de algo? Nenhum instinto há de ser
encorajado porque todos sujos e perversos e a razão somente a civilização nos
fez desenvolver algum cuidado algum olhar ao próximo? Já é lei que a bondade a
consciência são o discurso de consolação dos perdedores e nada, nada, nada nada
mais? Sobrou somente a estrada de terra batida e quem sabe os pés, só um agora
previsível e suspiros e talvez flores de cactos, essa falta de imaginação que
me fulmina, a indisponibilidade, a minha preguiça de falar recorte-aqui se
estou traçando a linha pontilhada? Mas ah, um poço de luz se acende imenso
sempre que mergulho em busca da tua imagem – e pelo menos isso ainda posso dizer
que é verdade. Que é o teu bem o que eu quero, que eu ganhei estou crescendo e
que você me faz acreditar em dias melhores – eu sei, posso até ver é cada vez
mais claro. E por tudo o que há de mais sagrado neste mundo: se todo o resto
for a pena, vale.
domingo, 5 de fevereiro de 2017
Queria falar a linguagem dos sonhos. A voz sem amarras, a pura sensação
feita imagem. Na Terra do Sol Poente, ou Nascente (enfim, na Terra do Céu
Sempre Alaranjado), uma mulher parecida com a Jéssica me levou a um terraço e
me deu alguma coisa pra beber. Tentava me acalmar dizendo que ainda era muito
cedo pra... o que era mesmo? Ninguém é especial, é tudo igual do outro lado.
Durante muito tempo, anotei meus sonhos em um caderno azul marinho. Em uma
terra entre mundos, eu esperava na fila pra pegar o ônibus d’Aqueles que
Tentaram e Quase Conseguiram, que era uma categoria intermediária na evolução
espiritual – aliás, eu estava numa subcategoria média-baixa, porque era o único
responsável por não ter conseguido. Acordamos envolvidos pela sensação sonhada,
ela nos move ao longo do dia. Todo mundo é especial. Tem sonhos de que nunca me
esqueci, sem precisar anotar: resgates no inferno, beijos do mais puro
amor, voos soltos. Falar essa língua, sim, quem me dera. Dizia isso à Gertrude
Stein e ao Caetano Veloso em um bar na Vila Madalena.
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