sábado, 2 de setembro de 2017
Campomanso, 25 de julho de 2012
Débora;
Encontrei uma foto tua de muitos anos atrás e fiquei um tempão olhando pra ela e chorando, desculpa, não tinha como evitar. Queria conseguir ser sempre um poço de energias positivas, especialmente pra você, mesmo que a gente saiba que não é assim que funciona. Fiquei pensando em explicações pra estar tão longe, explicações pra não ter estado mais perto quando era possível, explicações, explicações. Fiquei procurando um jogo de palavras, alguma coisa engraçada, qualquer comentário banal sobre o clima ou o que fosse mas que pudesse expressar esse carinho eterno infinito incondicional que tenho por você. Tantas lembranças boas, minha querida. Tanta saudade, tanta.
Ainda acompanho as tuas notícias pela internet, aqui e ali, um quebra-cabeça incompleto, peças soltas que espalho pra ficar olhando como se eu ainda fosse parte da tua vida e a qualquer momento você pudesse entrar por aquela porta e me perguntar sei lá, que vestido usar na festa, ou se eu acho que você deveria namorar com Pedro ou com Paulo, ou se eu gosto de refrigerante de uva, ou se eu me lembro de quando cantamos no karaokê ou da noite em que cheguei bêbado na tua casa e quebrei a tua coruja de porcelana. A vida é cheia de trama, minha querida, e eu poderia jurar que um mundo de maldades e mal-entendidos se infiltrou entre nós dois desde a última vez em que nos vimos, mas não queria ter que derramar veneno só pra te prender a mim, e prefiro acreditar que sou eu que estou enganado quando juro assim que um rancor alheio te levou pra bem mais longe do que uma distância no espaço poderia. Estar preso a você, da minha parte, não custa nada: a saudade não é uma tristeza de trevas. Em todo o Universo, não existe força capaz de obscurecer esse amor que lhe tenho.
Amor só amor, como quando chove e não é nenhuma tempestade nem uma garoa fina e fria nem a fúria dos céus nem vontade de dormir até mais tarde nem nada: é simplesmente água caindo em gotas.
sexta-feira, 25 de agosto de 2017
desde o centro, à margem do rio, a cidade se alonja pro alto das montanhas / e do alto de todas elas pode-se ver a cidade esparramada como um polvo / como um pântano de concreto / agarrada à superfície de um mar de altas montanhas verdes / ondas recortadas de gramados árvores e plantações de milho / cidade que eu vi crescer / desenhar quadradinhos de asfalto em volta da terra nua / onde antes era apenas natureza entregue ao tempo e a si própria / (e não que agora já não fosse / natureza de cimento e aço e de pessoas que aqui moram ou que daqui vêm e se vão pela razão que lhes caiba / entre os postes elétricos e a mata) / antenas de rádio alfinetando o céu / sombra de nuvens na memória de tantos domingos à tarde / minha pequena / grande / eterna cidade / a que me viu crescer / morrer / crescer de novo / alma querida de minha história / cidade navio à margem / ensaiando-se pro alto / prédios / montanhas / asas
sexta-feira, 18 de agosto de 2017
Pra
entender que já passou, mesmo que em algum lugar isso ainda custe tanto. E
abraçar o vazio, dizer: você venceu. Pra entender que não importa de quem foi a
culpa, ver a folha em branco do futuro e conseguir acreditar de novo. Não, as
cicatrizes não têm peso. Vaias, gritos de escárnio e ofensas gratuitas não
conseguem ecoar pra sempre. E não preenchem mais do que os aplausos, risos de
contentamento ou elogios. A incompreensão é só uma regra: há outras, e há
exceções. Pra entender de quantos corações você precisa pra pulsar de cada vez.
Pra entender que tudo estar perdido é a única forma de possuir de verdade. Pra
entender que a tua grandeza é um grão de poeira, não espere mais, não se
pergunte, apenas vá. Ande. Todos os átomos recém nasceram. Não há nenhum lugar
senão adiante. Você já sabe, essa é a única lei.
quinta-feira, 10 de agosto de 2017
–
Tem dois jeitos de eu gostar desta rua – disse Jéssica. – No tempo das mangas e
quando cai uma chuva rala nos fins de semana.
Ao
longo de todo o canteiro central da avenida em que estávamos, havia mangueiras
em que, segundo Jéssica, muita gente vinha colher mangas quando elas estavam
maduras.
–
Sabe aquelas chuvas que não chegam a molhar de verdade, mas são o suficiente
pra derrubar a vontade das pessoas de saírem de casa? Fica tudo mais deserto...
Aí eu gosto de andar por aqui.
Caminhávamos
devagar sob o sol numa tarde quente de verão, e calculei que seria mesmo bem
mais agradável andar por ali com um clima mais ameno e sem todo aquele barulho
do tráfego.
Era
a nossa última tarde juntos. Tinha ido visitá-la depois de quase cinco anos sem
nos vermos, apenas trocando mensagens pela internet – e justamente porque o tom
de suas mensagens andava me preocupando. Ela havia terminado um relacionamento
longo no início daquele ano e, depois de um tempo decidida a curtir a vida sem
se preocupar com as consequências de nada, mergulhou em um tipo de depressão
que eu, de brincadeira, chamava em nossas conversas virtuais de “doçura
evasiva”. “Pessoas que se acham inteligentes são dependentes demais do fogo”,
protestava ela. “Também existe presença de espírito na fragilidade”.
E
no entanto...
–
Não se preocupe com os meus silêncios – ela me pediu naquela tarde. – A solidão
não existe.
Aí
eu me lembrei de um sonho que tinha tido havia muito tempo em que uma mulher
parecida com ela me dizia: É muito cedo pra morrermos jovens.
Olhei
pras mangueiras no centro da avenida, mas não enxergava mais o mundo à minha
volta. Dentro de poucas horas estaria embarcando pra talvez mais cinco anos de
saudades, e queria gravar a fundo a presença dela ao meu lado, aquela certeza de
que ela estava ali, doce e evasiva ou presente e frágil ou o que fosse, desde
que Jéssica.
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
você não vai pagar mais caro pra escutar o óbvio
as coisas não estão melhores
eles só falam nisso
mas tem essa garota linda que trabalha no posto de gasolina
e uma cantina italiana com as melhores massas da cidade
e lírios e tulipas em canteiros que dividem avenidas
e música suave nos elevadores
você paga o que não deve quando chora de cansaço
as coisas não vão melhorar
você não precisa ficar ouvindo
poetas trágicos vomitando as sombras dos desesperados
casas que desabam, assassinatos em becos escuros, ratos
mas tem a luz do sol atravessando os cristais e se partindo em sete
tem as propagandas engraçadas
tem vinho, vai ter bolo
você não saberia se acalmar se as coisas melhorassem
você não sabe o que dizer
você lamenta o quanto custa
porque dói como se arrancassem os seus dedos um a um
depois as mãos, depois os braços, porque as opções que restam
são almas e atos que independem totalmente da sua vontade
você não pode mais pagar
mas tem fotografias, tem ar fresco entrando nas janelas
e como sempre tem um algo-mais
que ninguém nunca soube muito bem o que seja
sábado, 29 de julho de 2017
um estrangeiro atravessando a multidão em festa a noite colorida e calma do Médio Rio Negro, as conversas cotidianas espalhadas num cenário novo as barraquinhas de pastel de algodão-doce e bolos bandeirinhas de São João cobrindo a rua, um quadro singelo vendo os séculos ruírem, nunca mais a gravidade das filosofias e literaturas, por que elas nos afastam tanto assim da vida a vida a vida,
solitário ele vai quase de outro mundo, aprende os gestos e palavras só de olhar, mergulhado no ser-outro, o estrangeiro avança entre boas-noites e sorrisos de boas-vindas, queria ser um descendente indígena e tem um nome e cara e hábitos tão europeus, o é-assim-que-tem-que-ser que não lhe serve mais querendo dançar junto na quadrilha, querendo se casar com aquela moça,
vê correrem lado a lado uma desilusão profunda e um estar perdidamente apaixonado, ou são crianças acordadas até tarde, os pula-pulas e balões de gás hélio,
o estrangeiro tenta, erra, acerta sem saber, aprende,
os sons a música as risadas no salão a embriaguez desenrolando as horas madrugada afora enquanto lá fora o ar é renovado pela selva, onde e quando será não ser mais estrangeiro, como e com quem será, a ilha de incerteza em meio à festa arrisca um passo de dança e ri sozinha, até que nem tão solitário mas inteiro ali, na única realidade que interessa, ah sim, aquela.
sexta-feira, 21 de julho de 2017
A imagem se repetiu já tantas vezes na minha cabeça.
Não lembro se era uma cena do livro ou só de alguma das adaptações pro cinema,
ou se fui eu que inventei. O Corcunda sobe bem alto em sua Notre-Dame com
Esmeralda desacordada nos braços, lá embaixo uma multidão enfurecida. Ele a levanta
acima da cabeça e grita "Santuário", garantindo assim que ninguém
faça mal a ela. Fico fascinado ao pensar que então ela está protegida não por
uma muralha de pedras, não por um exército, mas por uma ideia. Ela não será
tocada, e não porque ninguém possa alcançá-la, mas porque não devem. Santuário.
Nenhum mal pode entrar aqui. Simples assim. Santuário.
o
mundo escapou entre seus dedos.
me
deixe dormir.
“é
um absurdo o que estão fazendo com o meu dinheiro o meu o meu o meu”. “namore
com alguém que saiba se teletransportar”. “não fale assim com seus superiores”.
“veja aqui como se comportar em cada uma das diferentes situações do dia a dia”.
“ligue os discursos no piloto automático e responda sem ouvir”. “a culpa é da
vilma”. “beba coca-cola experimente as novidades e não fume”. o mundo está
ficando chato pra quem. me deixe dormir. não é pra mim.
sua
opinião morreu de velha.
só
mais cinco minutinhos.
quem
te ensinou a fazer arte com a cabeça da mutuca. histórias reais sobre a
curupira. parece milagre quando a malhadeira vem cheia de peixes. nunca tinha
ouvido falar em irapuca. chibé. segurar na mão pela primeira vez uma paquinha.
conhecer o gosto do taperebá. mira será indé? mira será indé? você é gente?
sei
que lá fora os espelhos não bastam pra se ver as muitas doenças desta era.
mas só me deixe.
quarta-feira, 12 de julho de 2017
enquanto você passa invisível diante dos olhos deles. eles, os que te jogam pra fora sem te ouvir, pra quem a tua dor é nada, até que estoure uma guerra até que os filhinhos deles sangrem até que a raça humana seja varrida da face da terra não espere compreensão dos que estiverem se fartando em um banquete, nenhuma compaixão por trás de vidros blindados, te estenderão a mão os banidos, os humilhados te erguerão da lama, enquanto você cai e é engolido por insetos cegos ao redor de uma lâmpada imunda, eles, aqueles que você enriquece com o suor do teu trabalho cuspirão enquanto gargalham, farão com que você implore sob seu descaso, até que a violência vença eles só falam essa língua não espere piedade dos que podem comprar exércitos, só os que sangram cuidarão das tuas feridas, só os que já secaram colherão tuas lágrimas.
segunda-feira, 3 de julho de 2017
Dormem
os senhores da Terra assustados e frágeis carregados de mortos, dormem
vulneráveis milionários e reis, um sono soterrado por drogas ou em progressivos
pesadelos sísmicos, ou convencidos de sua grandeza dormem o seu sono de
cegueira e sonham trevas com seu peso em ouro, ou realmente grandes rezam sua
pequenez e insignificância e dormem esquecidos, assassinos cruéis fecham os
olhos e conseguem silenciar as suas consciências carregadas de mortos, dormem
vulneráveis todos os sádicos e sátiros, ególatras de todas as espécies e
homens-ratos e mulheres-ratas dormem e robôs programados pra engolir todas as
almas, e juízes e soldados e senhoras e senhores comuns apenas batalhando o
pouco pão de cada dia dormem dramaticamente vulneráveis e ninguém ninguém ninguém
nunca esteve
nem
estará completamente a salvo
até
que Deus
ou
uma bala
ou
qualquer outro detalhe
ou
nos acabe
ou nos acorde.
quarta-feira, 28 de junho de 2017
quase eu quase feito de semente e fruto, escuta, solitário deus sobre a
face das eras, carne e letra e direção, nem me despedaçar cala o silêncio dos
meus ossos, nem uma gota do meu sangue se perdeu quando eu sangrei, mas ouve,
esta é a verdade que você pediu, do pântano e das asas, vale das sombras e de
leite e mel, nenhum vão entre as esferas, interminável eu, inacabado e sim
sexta-feira, 23 de junho de 2017
Estou à janela conversando com meu Anjo.
– Não sei, – eu digo – tenho a impressão de que alguma coisa está errada.
– Não há nada – ele diz.
Pouca gente pelas ruas, uma noite preguiçosa e agradável. Você gostou da minha blusa nova? Estou alegre, isso é tão raro. Nada de errado? Nada?
– Então é isso – eu resmungo.
O Anjo dá risada. Amanhã posso acordar tarde, não tenho o que fazer e seria capaz de passar horas falando sobre coisas boas – não estou acostumado. Devia me preocupar em achar um trabalho condizente com a minha experiência, pra não dizer “com a minha idade”. Porque isso da idade não tem nada a ver, nem foi uma coisa que escolhi, como se hoje eu tivesse acordado entediado e pensado “O que eu vou fazer hoje? Já sei: vou ter quase quarenta anos”. E afinal o que é ter quase quarenta anos? Um número carregado de palavras e códigos de conduta (!?), invenções não sei de quem seguidas de acordo com os interesses de quem as segue. Interesses que não estou bem certo de que eu tenha.
– Estou pensando em aceitar aquele emprego no escritório do seu Lauro. O trabalho é simples e vou ter bastante tempo livre. Não vou ganhar mais do que estou ganhando agora, mas também não vou ganhar muito menos. Quer dizer, acho que na questão “custo-benefício”, eu saio ganhando. O que você acha? – O Anjo arqueia as sobrancelhas, “vai fundo, o que importa?”. Observo as montanhas, nuvens noturnas, o cheiro de uma primavera que já está chegando. – E acho que eu devia pedir a Larissa em casamento. Meu amor é suficiente. Sei lá, verdade que ela consegue ser bem estúpida, às vezes, mas eu também tenho os meus dias. Todo mundo tem seus dias. Acho que fui meio arrogante conversando com ela hoje, você não acha?
– Era o teu tempo – limita-se a dizer o Anjo. Por que toda essa paz excessiva? A brisa suave, um riso distante de criança. Você gostou mesmo do meu novo corte de cabelo? Um gole d’água, um suspiro, o sono começando a dar sinal. O Anjo se debruça à janela pra cuspir na calçada.
– Porco – eu digo.
E se tudo der errado, e se eu morrer de tédio no caminho que escolhi? E se eu morrer ignorado, esquecido por todos, sem um tostão furado no bolso – posso culpar meu Anjo, esse anjo torto que acaba de cuspir na calçada?
– Acho que vou meditar um pouco...
– Achei que você já estivesse fazendo isso.
– Estou?
Não consigo esconder uma pontada de irritação. E a fome no mundo, e a guerra eterna dos eternos oprimidos, e todo esse lixo do capitalismo inventando necessidades que não temos, e a violência, e a maldade, e, e...
– Acho que estou enlouquecendo...
Sem sair do lugar, o Anjo dá uma cambalhota. É uma manobra dos anjos que nem mesmo os anjos sabem explicar, mas que costuma divertir bastante as crianças.
– Nada de errado, nada?! E o que eu faço agora?
O Anjo me olha com uma cara de “quando é que você vai aprender isso?” e fala muito sério:
– Saboreia.
quinta-feira, 15 de junho de 2017
o futuro será sombrio, mas ainda temos um ao outro. mares de corações
petrificados, vastas florestas secas de braços e mãos incapazes de oferecer
afeto, inférteis auroras de recusas virão, mas ainda teremos um ao outro. ao
teu lado, um irmão sempre a postos pra um acolhimento enquanto a descrença
imperar, enquanto o vazio o tédio a indiferença escorrerem pelas ruas entre a
poeira e o sangue entre a inveja e o descaso, você não precisará ter medo, e eu
também não. ao meu lado, amiga de todos os pedaços naufragados do que fui
voltando finalmente à tona e navegando enfim sábio enfim seguro entre as portas
de arrogância fechadas multidões gritando eu sou mais sou melhor eu eu eu o
amor não existe o sonho é vão a noite é tudo, nada nos apagará, nada alimentará
amargura. enquanto tivermos um ao outro – abrigo, mel, esperança ventilada e
indevassável, nós, transbordantes e pra nós, em nós, teremos.
sexta-feira, 9 de junho de 2017
Tinha um jeito de promover o que é ruim pela crítica em vez de falar do que é bom se recusavam a ser os responsáveis pela própria raiva e tinha aquelas celas de siga-o-modelo eu tinha que caber ali ou nada feito mas não vem com essa de que a culpa a culpa a culpa a a a a. Aquela gente de plástico uma gente que ai-meu-deus-amadureça gente com preguiça de ser gente acho só pode. Tinha uma lá por exemplo reclamando cadê as pessoas inteligentes mais amor por favor é muita hipocrisia a que ponto chegamos e eu pensando minha querida mas também morro de tédio se sou eu que viro o pregador o moralista ou eu-que-sei o o o. Tenho que pedir licença que eu também sei reclamar mas gente que é isso não se faz outra coisa agora. A verdade meus queridos é que se a gente só ouve aquilo que quer é o mesmo que ficar falando sozinho a vida inteira e vá lá se você acha isso uma vida interessante mas só vou passar por aí de vez em quando. E estou acostumado isso não é uma reclamação mas quando uma pessoa não está a fim de te incluir você pode dizer exatamente o que ela pensa e ela vai te rejeitar só porque sei lá porque você colocou uma vírgula onde não devia diz-que. Ou você pode usar o argumento que destroça a lógica dela e ela vai dizer nada me atinge vindo de alguém que isso ou aquilo sendo que isso ou aquilo não tem nada a ver com o que está sendo discutido mas você não tem moral pronto já era. A verdade é que é muito discurso sobre os defeitos mas tudo bem às vezes eu também fico enjoado acho que não é bem essa a palavra às vezes eu também fico incrédulo com os discursos de amor e de bondade como se alguém tivesse uma fórmula ou uma cura que te faltasse e aí continua sendo sobre os teus defeitos. Tá vendo é tudo vento isso aí. A culpa não é de ninguém minha gente vão dormir se divertir um pouco ou só cuidar da própria vida gente que que custa.
sábado, 3 de junho de 2017
Perdi a medida dos extremos que eu pensava
equilibrar
Na vida há muito mais que só dois pratos na
balança
Ou duas pontas na gangorra
O ponto de equilíbrio avança e cada lado é o
outro e muitos outros
Perdi o rumo acreditando em fronteiras e
limites
Mapas que só existem na mente
Mentes mentindo a si mesmas sobre posse e
controle
Escolhendo o seu pouco pelo que lutar
Perdi a fé no significado das palavras
Essas arquiteturas ocas
Em que cada um assopra o ar que tem
Ou as mentiras que lhe deram
Perdi a conta de quantas dimensões tem meu corpo
Almatéria pulsante e vontade se movendo ou
sendo rejeitada
Percepção e tempo
A invenção do vazio e de qualquer totalidade
Perdi tanto e às vezes me ganhei
Algumas coisas doei sem pedir nada em troca
Só sei que nunca experimentei não ser
O resto é talvez
sábado, 27 de maio de 2017
O próximo ônibus pra El Bolsón sairia só na noite seguinte, então resolvi voltar a Puerto Madryn e aproveitar pra ver as baleias. Da primeira vez que passei por lá, elas ainda não tinham chegado. Desembarquei às oito da manhã. A cidade estava fria e mergulhada numa névoa densa, e fui direto a um café pra esquentar o corpo e espantar o sono. Foi a primeira vez que reparei no item “Submarino” em um cardápio na Argentina. O garçom explicou que era uma taça de leite fervendo e vinha com uma barrinha de chocolate que você afundava no leite pra derreter. Decidi experimentar. Conversa vai, conversa vem, o garçom me contou que a “névoa” lá fora eram na verdade cinzas vulcânicas que estavam se espalhando desde o Chile. Fez até um desenho num guardanapo pra mostrar como o vento estava arrastando as cinzas pro leste e nordeste, passando por Buenos Aires, pelo Uruguai e chegando até ao sul do Brasil. Ele disse que eu corria um risco muito grande indo pra El Bolsón, porque era muito perto do vulcão e estaria carregada de cinzas.
Passei numa oficina de turismo pra saber o horário da maré alta, que é quando as baleias chegam mais perto da praia, e aproveitei pra perguntar a respeito de El Bolsón. A moça falou que lá estava melhor que em Puerto Madryn – que havia um alerta, sim, mas que estava tudo bem e que eu não correria risco nenhum. Saí de lá um pouco mais tranquilo, e agora tinha até às cinco da tarde – hora da maré alta – sem absolutamente nada pra fazer. Pensei em ligar pra umas pessoas, acessar a internet em algum canto, mas depois me lembrei de que no Brasil era Dia dos Namorados e fiquei ligeiramente – e ridiculamente – deprimido. Não ajudou muito quando entrei noutro café e encontrei tocando uma versão eletro-bossa de Is This Love. Enfim, é impressionante a quantidade de estados emocionais diferentes que uma pessoa pode experimentar ao longo de um único dia.
O céu estava limpo à tarde, o sol brilhava forte e só uma fina faixa cinza cobria o mar na linha do horizonte. Meu humor estava bem melhor quando embarquei no táxi pra El Doradillo. O motorista ficou calado durante todo o trajeto, e achei até melhor assim. Estava animado pra ver as baleias. Não sei nem expressar o grau de fascinação que tenho por esses bichos. Quando chegamos, elas estavam lá, bem perto da praia. E durante quarenta e cinco minutos, eu fui uma completa criança. Corria de um lado pro outro, dançava acompanhando elas, conversava em baleiês – lembrando o filme Procurando Nemo – e ria porque tinha que falar o baleiês em espanhol, já que estávamos na Argentina. As baleias saltavam, espirravam água, giravam, batiam as nadadeiras na superfície, ficavam um tempo com a cabeça fora d’água enquanto pássaros lhes faziam uma limpeza. Pareciam brincar. Pareciam absolutamente felizes. E eram absolutamente livres.
Na silenciosa viagem de volta, encostei a cabeça no vidro e fiquei observando o sol se por, sentindo que as palavras já não importavam, que jamais alcançariam o êxtase que eu havia experimentado. Pedi ao taxista que ele me deixasse na rodoviária e ele quis saber pra onde eu ia. Era uma pergunta e tanto naquele momento reflexivo. Fiquei tentado a dizer ninguém sabe pra onde vamos meu amigo, mas no final falei simplesmente que ia pra El Bolsón. Ele também disse que eu colocaria a vida em risco indo pra lá, por causa das cinzas vulcânicas. “Na oficina de turismo me disseram que não”, falei. “Me disseram que sim”, falou ele. Pensei um pouco naquilo tudo e concluí: “Bom, acho que amanhã vou saber ao certo”. Ele sorriu: “Então amanhã você me conta”.
Encostei outra vez a cabeça no vidro e sorri também. Ah, sim. Eu gostaria mesmo de contar.
quinta-feira, 18 de maio de 2017
Faltou luz e todos os sorvetes da cidade derreteram.
Fiquei olhando o teto antes de dormir pensando eu pago as minhas contas lavo as minhas cuecas troco as lâmpadas queimadas os pneus furados as pastilhas contra insetos não bebo não fumo não falo palavrão nem conto piada que todo mundo conhece e é assim que Ele me trata.
Pode ser Ela também.
O Acaso, a Providência ou por que não Deus ou a Deusa.
Ia dizer eu só acreditaria num deus que risse de si próprio mas acho que ele ri mesmo se existe.
Ou ela.
Seja uma consciência ou não essa força que rege os destinos da gente tem um senso de humor afiadíssimo e uma noção de Bem e Mal muito diferente do que se imagina.
Existe uma Ordem, claro, que é quando os sorvetes estão congelados por exemplo, mas tem que ver que isso aí é só um entre infinitos eventos possíveis no Caos, e não é legal ficar forçando pra que seja sempre assim dizendo que “é assim que tem que ser ou se não você vai arder pra sempre no fogo do inferno”.
Quer dizer, a Ordem só faz sentido quando é natural porque pensa bem, se fossem obrigatórios, ou quando são impostos, se forem exigidos incondicionalmente o amor, a bondade, a gentileza, então eles não existem de verdade, certo? Se forem apenas uma imitação de determinados gestos, se apenas o cumprimento mecânico de dogmas, então é só isso que eles são, né, cópias vazias.
Ok, Acaso, tá perdoado por me deixar sem sorvete. Agora vá e não peque mais.
É muito chato ter que ficar perdoando o tempo todo.
sexta-feira, 12 de maio de 2017
Arranha
céus entre árvores anônimas em seus pequenos recortes na calçada, mulheres de tantas pernas pra que tantas pernas meu deus pra que tantas faces e quem é que ainda canta, quem é que ainda ama, quem é que pode informar onde a gente colhe uma jabuticaba, os carros passam rápido os cachorros passam rápido responde rápido o whatsapp e rápido rápido a vida nunca mais foi besta ó Carlos. só que né. tá sendo.
domingo, 7 de maio de 2017
Estive outra vez sob os holofotes e não gostei. Meu amor se espalhou pra muito além de uma identidade, até que não soubesse mais ter direção. Eu também era a plateia atônita ao me ver ali tão quieto, uma estrela implodida no peito: quando eu cantava a dor, nem sempre doía, mas quando me calei foi porque a dor ultrapassava qualquer possibilidade de expressão. Meus filhos, meus irmãos, meus companheiros de luta levaram pro mundo pedaços de mim e eu estava sozinho na berlinda, e meu momento presente havia se tornado um vácuo. Você vai se lembrar de alguma vez que eu te fiz rir, mas não de que hoje é meu aniversário. Você vai percorrer estradas que eu abri pra te ver livre ou se abrigar em fortalezas que ergui, mas não vai citar meu nome em seu discurso de vitória. No fim, nem era mais pelos aplausos, nem era mais pra alimentar a alma do meu público que eu me movia: eu era um títere que recusou todos os titereiros e que por isso quase foi estraçalhado por eles, mas que aprendia então o próprio impulso. O que sobrou, o que está aqui não é minha presença. Você me vê falar? Pode enxergar lugares em que estive, alguns percursos lógicos e emocionais, desenhos ruins, fiapos de boas ideias? O sujeito deles, se existiu, passou faz tempo. Isto, agora, é só você escolhendo espelhos.
sábado, 29 de abril de 2017
– A vida é cheia de som, fúria, alarmes e surpresas –
ela disse.
no alto de um
prédio cavalgar violoncelos desafia a
morte ela será tua
roupa é hora de acordar e ainda
ter vencido de
uma forma inexplicável mas na
boca um gosto de
querida eu acho que nós não
devíamos ter
fumado aquele pássaro
– Sei lá – ele respondeu. –
Jesus não me quer pra rockstar.
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