domingo, 3 de dezembro de 2017

Você só vê quando eu não posso estar falando sério
Só vê se eu levo a sério demais
Só vê tons de cinza
Só vê furta-cor
Você não vê que eu posso estar falando sério
Não vê quando estou rindo com você
Só vê preto no branco
Só vê degradê
Você só vê se eu tô querendo sair de fininho
Só me vê querendo chamar a atenção
Só me vê querendo
Só me vê só me vê só me vê
E é só você que não vê


sexta-feira, 24 de novembro de 2017


Teu silêncio era um grito de cansaço e de abandono. Numa folha de caderno, teu adeus era espelho e espectro de antigos versos que fiz pra ninguém. Segui teus passos pela vida, teu corpo escondendo e escorrendo luz, dia após dia a tua fragilidade humana acumulando máscaras, dia após dia a tua lágrima e você via, talvez, o mundo que eu te dei de almas e de olhares, você levava as minhas palavras feito mapas, mas seguia adiante em teu definitivo adeus. Um tempo material, rolando e lapidando as pedras e nascendo o limo, se as tuas mãos segurassem as minhas outra vez, vou te conter, e te contar sobre um amor enfurecido, ódio terno, um coração capaz de sentir tudo isso e nada, mais uma noite que fosse e que você dormisse nos meus braços feito criança crescida, grilos e sapos e ventos seriam bem mais que um castelo, mas não, há muita selva lá fora. Teu grito agora é tua presença na estrada, espreitam e você sobrevive, imensa fortaleza de tédio e indiferença e de querer que te adorem e de velas sempre içadas pra próxima fuga. Te estendo as mãos, mas já nenhum dos meus destinos te chama, no vazio dos dias, meses, séculos, estas mãos estendidas te esperam e sabem o que não terão, e fazem seu trabalho ingênuo transformando o mundo e segurando outras mãos e bebendo de outros copos, te esperam e te esperam e você não virá, cada vez mais longe conquistando o céu em que eu falto, constelações de nanquim, aplausos bêbados, todo um séquito de sombras, ninguém paga o que me custa te querer tão bem, não te querem tão bem assim e te querem e ardem, onde o teu grito não me alcança mais, onde a tua voz rouca me escapa, eu que sempre quis me entregar a você mesmo sem conhecer o que entregava – e isso, talvez, o que mais te afastasse – derramo estes versos finais sobre a ferida da ausência: bebe, seja leal, imagem pura e memória, nunca mais sangrará, seremos vivos enfim, não saberemos o resto.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Gramado - RS
agora
ou antes – não me lembro –
Gabriel dizia alguma coisa sobre as galinhas d’angola
servem pra comer formigas cobras escorpiões marandovás
e eu dizia como um bicho pode ter coragem de comer marandovás, hem?
(e
a propósito
o que são marandovás?)
Gabriel me explica são umas lagartas grandes e peludas
vi uma dessas numa árvore outro dia
e Gabriel em quatro anos só viu uma cobra e nunca viu escorpiões mas disse é bom
saber que pode aparecer um bicho desses e a gente vai estar protegido
nunca se sabe né nunca se sabe
isso é pra lembrar que num lugar nunca vão existir só coisas boas
e eu falei eu sei eu sei mas me deixe dormir mais um pouquinho aqui na rede
acho que isso foi antes
ou depois
ou talvez esteja acontecendo agora, então
o dono da estalagem
me chamou pra falar com a Cristina ao telefone
mas tanta coisa aconteceu que eu quero bagunçar um pouco as coisas
e dizer antes de tudo as flores são lilases
e o sol está queimando as costas do meu pé
e ontem eu queria comprar uma biografia do Kurt Cobain
cujo título é mais pesado que o céu
e ainda ontem
eu disse à Cristina vamos nos encontrar na praça
mas ela não sabia qual praça
então
o dono da estalagem
na porta da recepção acena com o celular
estou descalço
mas não dá tempo de calçar meu bamba
(mentira
quem é que tem coragem de usar bamba?)
e vou descendo assim descalço pelas britas
e ele diz é bom andar descalço nessas britas o cara fica com o pé todo doído
aí eu dou uma risada envergonhada igual à da minha filha
porque me sinto com uns onze anos
embora a minha filha tenha treze
e eu quero explicar
eu tinha uns quatro anos quando vi um filme do Mogli e ele andava assim nas
pedras e eu jurei que ia ser igual a ele
mas
talvez
talvez fosse melhor eu simplesmente ter descido pela grama

hoje
tentando dormir na rede
ou antes ou durante, em mim
havia uma batalha feroz e cada vez mais sangrenta
entre o instante e a literatura

no café
tinha um casal de cariocas que me entediou com uma conversa boba
deslumbrada e decorada do roteiro de um guia turístico
sobre o mofo do queijo ou sobre o vinho ou o chocolate ou sobre
depois perguntaram ao dono da estalagem
apontando pela janela se aquele ou aquele pinheiro era macho ou fêmea
e tome mais conhecimento repetido do seu guia
mas o dono da estalagem disse me desculpem
só sei dizer qual deles dá pinhão
– e com isso conquistou o meu respeito eterno

agora
antes que seja tarde
eu tenho que tomar um banho depressa porque
vou me encontrar com a Cristina
no saguão do hotel em que ela está hospedada
pra que ninguém erre de praça

e
só pra constar
são dois tons de azul
na igreja cujo sino
eu ouço da minha cabana.


sábado, 11 de novembro de 2017


(Diários de Machu Picchu #02)

– Tava brava por quê?

– Esquece.

– Não é melhor resolver?

– É melhor esquecer.

Ele observa em silêncio. Pensa. Procura a melhor forma de expressar seu receio.

– Não sei se você é assim, – começa, – mas eu, por exemplo, às vezes guardo umas coisas pra daqui a uns dez anos, mais ou menos, aí a gente vai estar numa briga nada a ver e eu vou dizer: “Porque daquela vez você fez isso, isso e aquilo”...

E ela, tranquila, decidida:

– Então deixa pra essa data.

sábado, 4 de novembro de 2017


Um menino sentado em um canto do quarto. Os braços ao redor das pernas, a testa encostada nos joelhos. O quarto é muito grande, não se pode ver o teto. Os móveis parecem desproporcionais, ou muito maiores ou muito menores do que deveriam ser. Não há janelas. Talvez haja uma porta, mas só se pode ver daqui as duas paredes em que o menino tem as costas apoiadas. Ele não chora. Ele não dorme. Ele só está ali, parado, como se se mover fosse inútil ou doloroso demais.

Agora há uma menina sentada à beira da cama, de frente pra ele. Os pés da menina não alcançam o chão. Ela usa uns sapatos brancos de boneca, meias três-quartos, uma saia azul de colegial. Parece preocupada. Mas não o vê. Talvez o quarto seja dela, talvez o menino tenha sido uma forma muito estranha de começar uma história que sequer é sobre ele. A menina tem vontade de adiantar o ponteiro das horas, mas então se dá conta de que no quarto não há relógios. Havia – até o instante em que ela quis adiantar os ponteiros. Depois era tarde.

Um bando de andorinhas atravessa uma das paredes e voa em linha reta até desaparecer do outro lado do quarto.

– Você viu aquilo? – pergunta a menina.

Por um segundo, o menino tem a impressão de que ela se dirige a ele. Mas então ela responde a si mesma com uma voz de boneca:

– Vi, sim. Eu disse pra você que isso não era uma parede azul. Eu sempre disse isso.

O menino tem vontade de quebrar o relógio. O menino tem vontade de fazer com que o relógio volte a existir pra que ele possa quebrá-lo. O menino tem vontades impossíveis. O menino desistiu de ter vontades.

– Mas por que – pergunta a menina – eu vou ficar aqui agarrada a você em um quarto que só finge ter paredes?

– Talvez a parede tenha ficado ligeiramente alaranjada – comenta a boneca, parecendo assustada.

A menina percebe que está presa em um cubo mágico. Percebe as mãos gigantescas que movimentam o cubo; percebe, de relance, por entre os dedos daquelas mãos, um par de olhos vermelhos e obstinados. O cubo é sacudido com raiva, e no instante seguinte está sendo arremessado pra longe.

Tudo some no momento em que o menino ergue a cabeça e olha em silêncio pra menina, com uns olhos tristes e profundamente azuis.

– O cubo ia afundar na areia movediça – conta.

De repente, o quarto parece sóbrio como um escritório. Tudo em perfeita ordem, iluminado apenas por uma luminária branca sobre a escrivaninha. A mulher procura desesperadamente por uma janela. O homem fecha os olhos, apoia outra vez a testa nos joelhos.

Longe, muito longe, ouve-se o ruído seco e melancólico de uma cidade desabando.


sábado, 28 de outubro de 2017


como amar um mundo que te despreza? como amar um mundo que te adora? como amar um mundo que nem sabe que você existe? como amar o mundo dia a dia com o mesmo amor, o mesmo mundo? como amar? como não amar? como?

sei qual erro eu cometi e não é o que você está pensando
todos os dias tenho arrastado culpas
todos os dias sou ameaçado pela indiferença dos fatos
você precisa ver sangue
e eu não tenho as defesas necessárias
contei os tiros e não sei por que ainda é em mim que estão mirando
ninguém virá recolher os pedaços
o que eu perdi já está perdido pra sempre
entendo o que você quis me dizer sobre termos sido privilegiados
sei que o meu soluçar de dor não vai virar um grito revolucionário
mas eles jogam fora o pólen por causa de espinhos
e eu não quero mais ter que pedir perdão todas as vezes que floresço
todos os dias peço perdão
todos os dias tenho esperado
quando foi a última vez que nos sentimos benvindos em nosso planeta
quando foi
a última vez que vimos nosso mundo descansar sem medo ou raiva
percebo os excessos
também sinto falta
ninguém virá gerar em nós uma virtude que nunca tivemos
estamos por conta própria agora
e não é uma pena que a crueldade esteja vencendo a guerra
pena é que existam guerras
a crueldade é só a única forma de vencê-las

quinta-feira, 19 de outubro de 2017


Vozes murmurando a guerra, vozes aéreas ignorando a guerra, vozes de guerra todas elas, e um barco bêbado embalado pelas vozes//

Um tremor de terra e (do meu colo cai o livro que deixei mais uma vez pela metade e não retornarei a ler) covardes que nos querem segregados | nem a cor, nem a conta, nem aquele a quem eu rezo, e mesmo que eu não reze nada, nada disso eu sou | /vocês são muito chatos só isso//

Porque acabei dormindo no capítulo sete) atravessar desertos de poeira vermelha e | COLAPSO \ do que você tem tanto medo\ não adianta nada você ter//você perdeu, filho\ você já perdeu tudo.

Gota. a. gota. assistia a isso enquanto fechava os olhos e não sei bem se chorava ou se choveu mas Tanto amor desperdiçado e Por que vocês chamam de vencedores esses imbecis Por que vocês precisam tanto de um vencedor Por que esses imbecis?

Sssuave bomba.

(No meio da página 44)


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

mandaram assassinar um ideal
custou sete balas
três no peito
três na testa
e uma de promessa
pro primeiro que dissesse o nome dele depois disso


as flores que saíram voando o mel que brotou do verso um sopro de brisa fresca no verão do norte inspirado lentamente por um corpo exausto uma fonte oculta

uma fonte oculta

atravessa em silêncio o campo minado o fogo cruzado o vasto deserto rochoso das almas do curve-se-à-verdade-única-e-maior-que-tudo

e é tão convincente a ilusão de se curvar e de assentir

jamais subestimando a ignorância dos controladores

mas sob as vestes pesadas leva o contrabando

o suco das frutas mais doces sete cores impossíveis de arco-íris inventados um punhado de sonhos invadindo as praias da manhã e trazendo de volta das profundezas a última esperança náufraga que ainda vive

sábado, 7 de outubro de 2017



Vem me ver com esse sorriso, derrete o meu coração de pedra fria. Dessa alegria que é um mar interior, passeia a mão no meu rosto e me despe de todas as máscaras. Noite morena da noite mais quente e mais quieta, delicada união insolúvel, deita ao meu lado de olhos abertos, derrama no ar esse abraço para muito além do corpo. Vem devagar, vem me encontrar na tua boca. Nada é capaz de perturbar nossa calma. Nem aplacar a fúria ou preencher o abismo ou enxergar nas trevas que, tudo arrancado de nós, serão os muros entre nós e o mundo. Sobra aqui dentro a vida – renovável, limpa, luminosa. Somada e multiplicada, teremos o bastante para muitos séculos.

sábado, 30 de setembro de 2017


Alguém me disse que San Pedro de Atacama tem “a maior concentração de bichos-grilos por metro quadrado do planeta”.

Já estive aqui antes, nesta mesma lanchonete com mesinhas na calçada tomando o mesmo café com chantilly e sorvete de baunilha. Que fica bem melhor depois que o sorvete derrete, diga-se. Tive sonhos confusos à noite, sonhos pesados, sérios, agora há uma porção de casaizinhos correndo de mãos dadas pela praça e bebês e cachorros e um céu exageradamente limpo. Bem ao longe, uma dorzinha de cabeça, e olha que eu nem bebi tanto assim ontem à noite, pelo menos não tanto quanto os outros do albergue. Aconteceu que um povo me chamou pra jogar baralho antes de dormir, um jogo legal que eu não conhecia e que aprendi bem rápido, mas em que não me dei muito bem. Tínhamos que conversar em inglês e achei isso difícil, agora já não lembro mais nada das regras do jogo nem como se fala valete de espadas. Era uma gente vinda de vários lugares, Austrália, Irlanda, sei lá mais o que, então tinha uma mistura interessante de sotaques. E a trilha sonora também estava ótima, tocou várias músicas do Pink Floyd e cantamos juntos uma porção de outras coisas como Father and Son e Blowin’ in the Wind. Depois dei um bom tempo sozinho perto da fogueira, aí fui dormir tarde e confortavelmente bêbado.

Queria ficar sem fumar hoje, mas não me animei a enfrentar isso no meio de uma ressaca, mesmo que uma ressaca leve, então a primeira coisa que fiz quando saí pela manhã foi achar um lugar onde comprar cigarros. Um maço de cigarros aqui custa bem mais do que no resto do Chile, e quando o cara me falou o preço, fiz uma careta e perguntei “Por que tão caro?”. Foi bem mais pela surpresa do que reclamando, só que ele não entendeu assim, fechou a cara e disse “É este o preço. Se você não quiser, não compre”. Sempre levo um tempo pra perceber quando alguém está sendo grosseiro comigo, e neste caso, quando percebi, só lhe dei as costas e saí sem dizer mais nada. Sinto muito. Sem paciência pros homens e suas maravilhosas máquinas registradoras e todos os seus eternos passatempos bélicos. Acabei pagando o mesmo preço em outra venda, claro, mas dessa vez rolou até uma troca de sorrisos e obrigados. Tão simples, minha gente. Saí de lá e vim direto pra esta lanchonete, beber o café gelado que eu me lembrava de ter gostado da outra vez em que estive aqui. Tranquilamente. Pelo menos enquanto a minha mesa ainda estiver na sombra.

Agora tive que fazer uma pausa nas anotações porque passou por mim um casal de cinquentões brasileiros que eu conheci no albergue e que vão começar hoje mesmo sua viagem de volta. Os dois são professores universitários em Ubatuba – ela, de História; ele, não lembro. Anotaram o e-mail deles num guardanapo. “Pra quando você for a Ubatuba”, disseram, e me prometeram que eu poderia ficar na casa deles e que até me emprestariam uma das pranchas de surfe que eles têm em casa. “Vocês surfam?”, perguntei, animado, como se fosse a coisa mais natural do mundo, mas eles reviraram os olhos como se eu tivesse feito uma pergunta estúpida. Tudo bem. Acho muito difícil que eu vá a Ubatuba e não sou o maior fã de surfe, mas vá lá, guardei o e-mail com carinho e voltei a estas anotações já bem mais feliz do que quando comecei.

Depois passou um menininho de uns cinco anos falando sozinho. “Setecentos mil”, ele dizia, parecendo impressionado. Quando viu que eu estava olhando, balancei a cabeça e disse “Não. É muito”, mas nem sabia do que ele estava falando, falei só de brincadeira. Ele abaixou a cabeça e passou por mim em silêncio, aí um pouco mais adiante parou, virou pra mim e estendeu a mão cheia de moedas. “E quanto eu tenho?”, perguntou.

Contei setecentos.


sábado, 23 de setembro de 2017



Alguma coisa te escapa

Tua opinião é uma gota de chuva caindo no oceano, melhor não olhar.

Aquele rapaz oriental que acaba de sair do prédio é um traficante de antiquadas justificativas para o ódio e vai pegar um táxi para encontrar amigos no shopping, o taxista sorri pelo retrovisor e deseja boa tarde e começa a comentar sobre os milhares de poetas fuzilados e finais de campeonatos, aqueles cartazes de milagres industrializados, você não pode abraçar todos os que estão morrendo na Síria ou passando fome na África, ainda existem os que acreditam que a Terra é plana e os que deixam suas crianças adoecerem por duvidarem de vacinas, uma menina acaba de se encontrar com um pedófilo em um alegre e colorido e confortável mundo virtual, aquela mulher atravessando a rua é humilhada diariamente por gostar de astrologia e carrega um copo de café Starbucks e pensa em terminar com o namorado hoje à noite mas depois do sexo, esvaziaram-se todas as explicações para o altruísmo, você não pode saber e não é porque é segredo mas porque você não é capaz mesmo, aqueles que se jogam do alto de montanhas numa bicicleta e moças que se prostituem para sustentar o vício em drogas e moleques arrogantes mandando bordar "doutor" em seus jalecos caros, um velho se debruça à janela e vê, pombos cagam em para-brisas e casacos e canteiros e nos bancos das praças, nenhum controle remoto pode alcançar os que não ligam, arranha-céus de vidro e nomes de furacões e colecionadores de discos de vinil, toda essa desengrenagem, libélulas e sites de notícia e bares em que se fala mal dos negros e choveu no fim da tarde e lilases e tudo o que passa, tudo, quantas senhas você tem, o que você pensa que é sorte.

Não por eu estar sentado aqui sozinho com as mãos cobrindo o rosto, mas a solidão de um homem é uma lágrima no meio do oceano.

(Ou talvez isso não importe nem um pouco agora que somente os sádicos são adorados.)

sábado, 16 de setembro de 2017


Nada, confesso: não tenho nada pra te oferecer. Ou este vale de poemas ou as pontes pra longínqua nebulosa em que fui feito. É impossível prever o que vai resultar do nosso encontro, e minhas mãos procuram as tuas por vontade própria. Não conheço ninguém mais desinteressante do que eu. Você vai me ver falar com plantas, bichos, objetos, paisagens. Penso em você na minha cama e tua pele me leva ao delírio. Muito cedo você vai se entediar e me deixar por um motivo banal. Não sei inventar alegrias. Não sei improvisar interesse. Tenho vergonha da poeira sobre os móveis, pilhas de papéis amassados, a pintura descascando, não esperava te encontrar tão cedo. Tua imagem me desperta e já começo a ensaiar qualquer assunto, mas sempre me parece que devia ser outro. Não tenho nada pra te oferecer. Ou os campos minados da minha ingenuidade explodindo em flores alaranjadas.



(Ou azuis, se você preferir.)

sexta-feira, 8 de setembro de 2017


meu irmão sinto muito eu venho de um mundo em que as guerras são bem mais sutis

em que a raiva não se mostra assim tão clara e tão direta pelo tom da voz

em que o desprezo se disfarça de ironia e chovem palavras de gelo olhos de gelo a superioridade óbvia que somente nós pobres mortais não conseguimos ver

mas ainda assim é o mesmo jogo e já não posso me deter à estrada a cada inquietação revolta o desespero e tem aí milhões de vozes que jamais foram ouvidas

se eu não enxergasse tantas léguas além do teu jogo ou se eu não estivesse farto de jogar

se você fosse o primeiro único macho de orgulho ferido querendo testar os limites da força da minha ternura

fico tentado a fazer um mea culpa só que já me demorei demais pagando pelos erros que uma vez eu cometi e pelos que não cometi também

vá me deixe viver um pouco a minha própria vida

um dia terei a palavra que te ressuscite ela está em meu coração mas falta ainda um bom caminho até que esteja na ponta da língua

e quero muito te falar meu irmão eu quero mesmo

quero te ver acolhido e respeitado e reinando absoluto sobre os dias

só nos falta um silêncio mais fundo talvez

nada é realmente sobre conquistar e destruir

se eu estivesse pronto ao menos

mas talvez não conseguisse mais do que falar de novo da importância das pequenas coisas

algum discurso fácil e batido e gaguejado pela minha dúvida

porque agora eu tenho cá pra mim ou acho ou ando bem desconfiado

de que as coisas importantes mesmo caso existam

são ainda menores que as pequenas


sábado, 2 de setembro de 2017



Campomanso, 25 de julho de 2012

Débora;

Encontrei uma foto tua de muitos anos atrás e fiquei um tempão olhando pra ela e chorando, desculpa, não tinha como evitar. Queria conseguir ser sempre um poço de energias positivas, especialmente pra você, mesmo que a gente saiba que não é assim que funciona. Fiquei pensando em explicações pra estar tão longe, explicações pra não ter estado mais perto quando era possível, explicações, explicações. Fiquei procurando um jogo de palavras, alguma coisa engraçada, qualquer comentário banal sobre o clima ou o que fosse mas que pudesse expressar esse carinho eterno infinito incondicional que tenho por você. Tantas lembranças boas, minha querida. Tanta saudade, tanta.

Ainda acompanho as tuas notícias pela internet, aqui e ali, um quebra-cabeça incompleto, peças soltas que espalho pra ficar olhando como se eu ainda fosse parte da tua vida e a qualquer momento você pudesse entrar por aquela porta e me perguntar sei lá, que vestido usar na festa, ou se eu acho que você deveria namorar com Pedro ou com Paulo, ou se eu gosto de refrigerante de uva, ou se eu me lembro de quando cantamos no karaokê ou da noite em que cheguei bêbado na tua casa e quebrei a tua coruja de porcelana. A vida é cheia de trama, minha querida, e eu poderia jurar que um mundo de maldades e mal-entendidos se infiltrou entre nós dois desde a última vez em que nos vimos, mas não queria ter que derramar veneno só pra te prender a mim, e prefiro acreditar que sou eu que estou enganado quando juro assim que um rancor alheio te levou pra bem mais longe do que uma distância no espaço poderia. Estar preso a você, da minha parte, não custa nada: a saudade não é uma tristeza de trevas. Em todo o Universo, não existe força capaz de obscurecer esse amor que lhe tenho.

Amor só amor, como quando chove e não é nenhuma tempestade nem uma garoa fina e fria nem a fúria dos céus nem vontade de dormir até mais tarde nem nada: é simplesmente água caindo em gotas.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017





desde o centro, à margem do rio, a cidade se alonja pro alto das montanhas / e do alto de todas elas pode-se ver a cidade esparramada como um polvo / como um pântano de concreto / agarrada à superfície de um mar de altas montanhas verdes / ondas recortadas de gramados árvores e plantações de milho / cidade que eu vi crescer / desenhar quadradinhos de asfalto em volta da terra nua / onde antes era apenas natureza entregue ao tempo e a si própria / (e não que agora já não fosse / natureza de cimento e aço e de pessoas que aqui moram ou que daqui vêm e se vão pela razão que lhes caiba / entre os postes elétricos e a mata) / antenas de rádio alfinetando o céu / sombra de nuvens na memória de tantos domingos à tarde / minha pequena / grande / eterna cidade / a que me viu crescer / morrer / crescer de novo / alma querida de minha história / cidade navio à margem / ensaiando-se pro alto / prédios / montanhas / asas