sexta-feira, 23 de março de 2018

Preciso urgentemente de ir pro século dezenove
Ou menos
Cê tinha que ter visto aquela vida real
Penso nisso toda vez que escuto esse assoviozinho do whatsapp
Cê não tem a menor ideia do que é o tempo
Dias semanas meses enxergando só a mesma paisagem
Como um papel de parede sem nenhum ícone pra clicar
Cê tinha que ter aprendido aquele espaço
Cê não sabe nada do que é vida de verdade
De tanto que não para no teu corpo
Não
Cê acha que não custa nada
Mas tua urgência ainda é maior e pior que a minha
Cê precisa de no mínimo uns quinhentos likes na tua máscara
Comentar o vídeo de uma banda russa que faz bossa-nova com instrumentos árabes
Pesquisar o significado de “Butô” comprar comida assistir filme
Dizer pra todo mundo o que cê pensa sobre isso
Tão inteligente
E cê não faz nenhuma ideia
Se sentisse só uma parte do tédio que eu sinto
Voltaria correndo comigo
Pro século dezenove antes de Cristo
Ou antes



domingo, 18 de março de 2018

nota extraordinária
marginal

meu país está morrendo
a tiros, no centro da cidade

Cidadãos de bem seguem lavando as mãos, mas vejam bem, os ricos estão mais ricos. Nenhum soldado revistando seus filhos a caminho da escola, nenhuma violência explícita em seu quintal. Nenhum grito ecoando no morro alcança os castelos de suas ilhas, não veem que todos veem ou veem e já não se importam em expor toda a brutalidade, tanta boçalidade, a falta do amor cristão de que se envaidecem e se vangloriam na postagem seguinte, não, não está tudo bem que se declare abertamente apoio a um assassinato, nada justifica o sangue derramado, nada justifica, nada.

Minha raiva escorre nas palavras, ressoam os sinos da guerra e continuo não querendo ter que pegar em armas, mas tem muito peso nessas malas, é muita lágrima borrando essa paisagem. Não posso deixar que o mundo siga desse jeito, não posso aceitar que a humanidade a que eu pertenço seja essa. Não posso. Não vou.

Nossa esperança à prova de balas, o abraço acolhedor enviado a quem sofre, aquela multidão pelas ruas irradiando a chama ainda acesa de uma ideia imortal, sou eu, somos milhares.

E estamos de volta, agora. Esta é a programação normal.

sábado, 17 de março de 2018


Você ganhou mais uma chance.
Hoje
tem mel e tem balanço da rede.
tem rio tem uma luz jovem brincando.
Você percebe
depois de tanto tempo uma alegria tão calma
se espalhando pelos cantos
(pelas
canções).
pelos poros.
Tuas mãos se abrem – você não consegue ver, mas
passou um anjo de muitas cores,
deixou nelas o azul.
Sólido.
O horizonte inteiro te abraça, a fonte que jorra está
dentro do teu coração lavado.
Você ganhou.
Dance.
Alto Paraíso de Goiás - GO

sábado, 10 de março de 2018

Eu costumava sorrir durante o voo. Fechava os olhos, uma vez me deixei cair até quase o chão, vertigem, vício de vento no rosto. Eu costumava sorrir no alto da torre. Eu costumava sorrir quando percebia o barco se soltar do cais, o rum enchendo os porões, o vasto horizonte aberto e uma liberdade a velas. Não sorria muito quando voltava da caçada sem nada além de botas sujas, mas apesar da barriga doendo, eu tinha que limpar o piso todo de novo. Não sorria entre as bombas, nem entrincheirado, não sorria acusado de crimes que eu já tinha visto os meus acusadores todos cometer com indiferença. Sonhava em lençóis de seda ou quando dormia no estábulo, sozinho ou embalado pelo som do coração de Guadalupe, olhando estrelas eu sonhava, era feliz, jamais desacreditei da felicidade. Andei esquecido dela em campos devastados, garimpos e sertões em que acordei tantas noites com a boca seca e coberto de suor, num susto e com medo de lembrar por quê. Mas costumava sorrir sempre que me lembrava de ter sido criança ou via as crianças sonharem ou sonhava que a Via Láctea era uma estrada de luz que eu percorria com um cavalo alado, e frutas frescas me bastavam, eu costumava sorrir acompanhado, nada no mundo me fazia mais feliz do que sorrir acompanhado. Das sensações de traição e de abandono, tive a parte que me coube, uma porção amarga de escuridão da noite mais escura. Sobrevivi pra contar, não pra acertar as contas. Teve um tempo em que ninguém mais vinha me chamar pra um passeio na praia ou trazer doces nem nada, a tinta descascou nas paredes e tinha folhas secas pelo chão do meu quarto, e às vezes parecia que sonhar, nesse tempo, tinha um gosto de inútil. Mas eu costumava sonhar mesmo assim com o gosto de inútil, sentado em silêncio à varanda de tábuas, a cuia do mate na mão e a chaleira ao lado, um cobertor nas pernas contra o vento sul, o céu sem desabar, as pálpebras pesadas.


sábado, 3 de março de 2018



Esses arcos coloridos na grama do parque. Córdoba, Argentina, um sábado qualquer em 2009 ou 2010. Fomos passear com as crianças e encontramos a Paola e o Gustavo, a Paola estava sentada num desses arcos. Eles tem alguma coisa a ver com o tempo, cada um deles tem o número de um ano gravado, 1896, 1897, e assim por diante. Não sei em que ano começa e em que ano termina. É um túnel do tempo e a Paola estava lá e a gente foi falar com eles e o Gustavo contou que ela estava grávida, as crianças ficaram animadíssimas. Gustavo disse que ele e a Paola estavam felizes, a gente viu, nem precisava ter dito. Falamos de como estava sendo a vida em Córdoba, das crianças, das saudades do interior. A tarde estava quase no fim, as crianças cansaram de correr pelo túnel do tempo e a gente foi comer um pancho ali perto. A Paola puxou uma conversa sobre universos paralelos, uma história de cientistas que levavam essa ideia a sério e dos que inventaram uma teoria que tem alguma relação com isso chamada teoria das cordas, ou eram supercordas. Rendeu um bom tempo essa conversa, minha mulher adorou, até as crianças prestaram atenção. Gustavo brincou dizendo que morria de medo de dormir uma noite e na manhã seguinte acordar num universo paralelo em que ele fosse chileno ou brasileiro ou coisa pior, se é que existe coisa pior que brasileiro. E a Paola falou Sei lá, depende do brasileiro. A nena dormiu antes de chegarmos de volta ao carro, bem na hora que se apagava o último restinho de luz do dia, e a gente voltou pra casa todo mundo em silêncio, cinco universinhos paralelos no carro mergulhados no ar de sono, de sonho e de cidade.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Me ajuda a ver, mal sei pra onde olhar, em quantas dimensões há luz, e cor, e movimento?

Um raciocínio se perdeu, não há pra onde voltar, há tempos eu venho dizendo, me resta ser dispersão? silêncio? as mesmas palavras?

Acabo me perguntando pra quem eu tenho que dar tchau, quem eu tenho que cumprimentar na rua, o que afinal é ser humano, que diferença isso faz.

De quantas formas se pode rir e chorar (me ajuda a rir e chorar, nem uma coisa nem outra, rir, chorar, as duas coisas), de quantas formas se pode ser, estar, perceber, passar?

Em quantas dimensões há coração, calor, corujas diurnas, sundaes de morango, piscinas naturais, canetas hidrocor, ponche, lantejoulas, quartzo rosa, mantras, edredom?

E se ninguém estiver lá quando eu chegar? e se o caminho é só o que importa? e se? mas e se não?

Me ajuda a ir, e só, não quero mais que essa presença fluida, não quero mais querer, nem ter, nem precisar, me ajuda a conhecer e a compreender em todas as versões de mim, sem divisões, as diversões das dimensões diversas, se for possível assim, me deixa ir e eu vou contigo até onde acaba, contente acho até, cantando.


sábado, 17 de fevereiro de 2018

A paisagem não mudava. A cada cinco minutos, mais ou menos, o piloto acendia um holofote pra se assegurar de que estávamos a uma distância segura da margem. De resto, só a escuridão sobre as águas do Amazonas. Era o terceiro dia naquele barco, e ainda faltavam dois pra chegarmos a Manaus. A paisagem não mudava. Era um dia de achar que eu estava no mundo errado. Compaixão, piedade, qualquer coisa que faltava. Mal reparei quando Eva se colocou ao meu lado. Ruído de motor. Água batendo no casco.

– Insônia? – ela perguntou.

E o que ainda pode ser chamado de silêncio? Coisas que eu não queria ter ouvido tanto na estrada: “‘Amor’ é um substantivo abstrato” e “Você vai sempre fracassar se perseguir um ideal apagado pelo ‘progresso’”.

– Você não ouve os trovões? – perguntei, quase em tom de brincadeira. Ela abaixou os olhos pro rio.

– Não sei se os mesmos – disse.

E uma coisa que eu queria ter riscado do meu livro: “Vão bater na outra face mesmo que você não ofereça”. Carinho, cuidado, o cinismo que transforma isso tudo em águas paradas e nocivas. Ou quando eles se gastam pelo uso. Ou quando eles não bastam.

– Você não pode rir de tudo em que as pessoas acreditam e ainda esperar alguma consideração da parte delas – disse Eva, em tom mais reflexivo que de acusação.

Lua cheia nascendo, uma floresta gigante nas duas margens. Coisas que eu preferia não ter aprendido na porrada. E uma reclamação bem mais simples: “Estou cansado de ser desprezado”. Mas não saberia dizer isso em voz alta sem me sentir bobo.

Insônia.


(Diários de Machu Picchu #14)

sábado, 10 de fevereiro de 2018



Vencedor ele é igual a todos
Derrotado ele é igual
Ajoelhado aos pés de uma árvore não me recuse o meu sustento ou a flor
Enquanto ainda é voz o que eu tenho
Enquanto são braços e mãos de fazer e transformar
Tendo amor ele é igual a todos
Sendo amado ele é igual
Debulhando milho
Debruçado sobre o poema
Débil
Sem fim
Enquanto ainda sou eu sou igual a todos
Quando não for ainda serei
Diferente ele é igual
Ou tolo
Ou genial
Confundido ele é igual a todos
Explicado ele é igual

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018


Isso é o recorte de uma foto que incluía um quintal com dois cachorros e uma casa vermelho-sangue com uma mulher parada à porta. A mulher apareceu quando eu me preparava pra fazer a foto e perguntou o que eu estava fazendo num tom de quem queria dizer o que caralhos você pensa que está fazendo. Falei que era arte, menti que estava fotografando só a placa e ela entendeu menos ainda, porque afinal qual seria o interesse de uma placa, e antes que eu pudesse responder a isso ela disse que não autorizava que eu fotografasse nada. Dei de ombros, grato por ela me poupar de responder à sua pergunta sobre a placa com alguma comparação meio forçada entre arte e serviços de enfermagem. Já estava seguindo meu caminho quando me deparei com umas flores que chamaram minha atenção, ali mesmo em frente à casa dela, mas do lado de fora da cerca.



Levei alguns minutos fotografando ali e a mulher aproveitou pra se aproximar e fazer um interrogatório mais detalhado. Contei-lhe quase toda a minha vida, depois pude saber também seu nome e um pouco sobre seu trabalho num hospital psiquiátrico ali perto. Ela explicou que tinha ficado preocupada quando me viu fotografando porque em seu país andavam acontecendo coisas muito sérias, como meninas sendo assassinadas e jovens se matando por causa de drogas. Disse que as pessoas daquela cidade não tinham essa mentalidade do que poderia ser arte, que a visão de mundo ali era bastante limitada. Eu quis lhe mostrar minhas fotos, mas ela se recusou a ver, dizendo que não lhe fazia falta pra se convencer de que eu era confiável. No fim, chegamos a um entendimento, mas não sabia se isso retirava a proibição de lhe fotografar a casa e decidi nunca publicar a foto inteira, em que ela própria seria exposta.

Então, aqui temos a fotografia de uma placa.

Ou duas.

Mais tarde, naquele mesmo dia, vi na internet a história de uma fruta que foi deixada em um museu e confundida com uma obra de arte. Igual a tantas outras histórias que eu já tinha ouvido. Cartazes, caixas de ferramentas, um óculos, um chapéu ou um guarda-chuva que alguém deixou num canto e foi confundido com uma obra de arte.

Sim, é. Há arte por todos os lados.

sábado, 27 de janeiro de 2018


Espalho sobre o tapete as chances perdidas, tudo na vida depende de como soa ou como bate a luz, uma garrafa de tequila, uma escultura de barro que significava tanto e acabou quebrando, as provas que eu não tive de que ela me amou, crimes na tevê, cortinas que balançam. Espalho pelo chão da sala os restos do que fui e esboços do que sou, do amanhã não quero nada, ainda que tudo, cadernos de receitas e livros didáticos, poeira, jogos e cartões postais, o coração pequenininho de amar tanto e não ser visto, sob uma lâmpada queimada, descalço. Espalho pela casa as lembranças do estrago e de passar ao largo ou assistir calado, o sangue que eu perdi e a espera de um perdão que nunca veio, alguma dor antiga repisada e ressentida, os cacos de um copo quebrado, os fios de luz, a insônia, espalho pelo prédio as lágrimas contidas por tempo demais e por razão nenhuma, só porque tristes demais, pesadas demais, lágrimas demais, panfletos de toda fé e cartazes do filme que verei sozinho em minha casa, hoje, a partir das onze, flores secas nas escadas, só um jornal de ontem no balcão da portaria, e quando chego à rua até posso jurar que já não há mais nada pra fazer ou lamentar, nem sei, a cidade me engole à primeira vista, acho até que nunca amei e acho até que poderia amar de novo, a pé, por todos os vazios e possibilidades ir a ser, e me espalhar enfim, sem fim, recomeçado.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018



Deixei a visita sozinha na minha casa enquanto fui comprar algo na padaria. Era a primeira vez que o Bernardo me visitava ali no litoral catarinense; ele estava morando numa cidade vizinha, ligou pra dizer To passando aki perto onde q vc mora e eu disse Chegue aí na rua tal número tal. Aí depois que ele chegou que eu fui pensar nos acompanhamentos, É uma padaria aqui do lado eu vou bem rápido, pode ficar aí estudando a minha coleção de CDs. Bernardo é de casa. Vamos atualizar as notícias e esgotar os assuntos de interesse comum e em poucos encontros estaremos compartilhando longos momentos de tédio como só os bons amigos sabem compartilhar.

Fui pensando em coisas que eu já não tivesse dito em uma das nossas conversas virtuais, verdades que eu tivesse disfarçado em publicações de humor ou poéticas ou filosóficas ou que eu tivesse escondido do mundo ou confessado através de um personagem que pra todos os efeitos não sou eu: quais verdades eu diria pessoalmente, olhos nos olhos, o tom da voz ajudando a dar a medida exata do quanto aquilo importasse, estou contando só pra você porque você é meu amigo entende, você não vai me julgar vai me ouvir. Você também acha que a internet apagou um pouco as fronteiras entre o público e o privado? Você também acha que está todo mundo encenando, você também tem saudades da vida lá fora e por isso veio morar perto do mar, você também se incomoda pelo pouco que os corações se revelam e às vezes também se assusta quando se revelam muito, mesmo sem saber se aqueles corações são reais?

Atravessei as ruas tranquilas do meu bairro aproveitando um resto de brisa marinha, construções de mais de um século e lixo nas calçadas, árvores e tinta descascada, mesmo o mais familiar me parecia novo e cheio de mistérios e por um momento eu pensei em nunca mais voltar pra aquele apartamento onde o Bernardo me esperava, com o encanamento barulhento, baratas, janelas cheias de flores e elevador de gaiola, Bernardo que morasse lá, eu só queria desbravar o mundo. Era um final de tarde e eu estava numa zona de incertezas, de indefinições: entre o prazer e a dor existe algum limite claro? Entre o saber e o não saber, querer ou não, partir, ficar, nunca voltar, entre o eterno e o agora existe algum limite claro? Ou eram só perguntas que eu faria logo mais pra ver o olhar do Bernardo se perder na paisagem até que ele suspirasse e dissesse Eu também não sei... assim, com reticências?

Ele me esperava recostado na poltrona individual, as mãos cruzadas sobre o quadril, os olhos fechados, ouvindo Eric Clapton com as luzes apagadas, um pouco depois do sol ter acabado de sumir no horizonte. Procurei fazer o mínimo de barulho possível, mas entre música e ruído às vezes eu também fico na dúvida se existe algum limite claro. Bernardo abriu só um olho pra me olhar, sorriu, disse alguma coisa que eu não entendi e se ajeitou melhor na poltrona pra continuar ali jogado. Tudo tinha o seu ritmo e sua dança, os traços do artista, as cores, as formas e o simples sentido de ser e de estar sem necessariamente uma lógica. Vamos falar sobre o gol do Bebeto em 94, as grandes corporações e seus obscuros negócios, um show do Paul, as aranhas que devoram os machos depois de acasalar, acidentes de trânsito, café solúvel ou passado, afeto, trabalho. Você me conta como foi sua vida e eu te confesso o que na minha era só teatro. Falar até que a noite cale, até que a estrada não chame, até que ponte, até que praia. Você me conta onde queria chegar no ensaio e eu te apresento os fatos. Seja bem-vindo, amigo. Até que aplauso.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018


Grandes amigos poucos
Às vezes menos às vezes mais
Depende sei lá do clima ou da era
Só o tempo seleciona o que é pra sempre

Amores de que sei o nome:
Bárbara, Leonardo, tantos outros
E nomes que se repetem e
Milhares de nomes novos pras mesmas coisas

E coisas novas o tempo todo
E nunca mais ter sido ontem
(Um equilíbrio impossível
Tentando se costurar no abismo)

domingo, 7 de janeiro de 2018




Trago uma alegria que mal cabe na voz, mãos calejadas e um mar de lágrimas que você nunca viu. Tenho uma preguiça sem fim das conclusões, uma esperança inesgotável dançando e uma ferida que não fecha nunca. Não me contento com a superfície, não me interessa o que vem sendo dito desde sempre por aqueles que não param pra escutar e não ponderam. Não venho com facilidades, panos quentes, opiniões sobre o que está em pauta, rimas, soluções, toda a verdade sobre o que quer que seja. Venho como sou, como eu queria ser e como eu acho que devia. Por menos que isso, eu não me troco. E se não for pra dividir por igual, eu nem começo.

sábado, 30 de dezembro de 2017


Qualquer impulso que não nascesse da raiva e que fosse realmente desinteressado, uma fraternidade natural, qualquer vontade de viver que preenchesse o gesto, não uma cegueira que desconhecesse as trevas mas o sol de cada um, do mais profundo altruísmo, da mais sincera empatia, qualquer brisa que esfriasse os ciúmes e rancores, qualquer entrega que valesse o céu, qualquer céu, qualquer, qualquer bondade.


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017



Lá se vão, um por um. Com suas palavras como roupas gastas, cães de guarda de rancores e mágoas e raivas cultivadas como frutos negros de que me servi durante toda a vida. Lá se vão as razões e a lógica impecável do meu jogo de xadrez interno; lá se vai minha cobiça, lá se vão meus medos – lá se vão, um por um, os elos da corrente em que me mantive atado por um misto de vaidade e incompreensão.

Deus vive em mim. Nada no Universo descansa enquanto não tiver regressado à pureza com que foi gerado; e tudo descansa, porque é puro: o movimento é ilusório, e só a ilusão se move. Assim, no que não pode ser dito, escrevo. Assim, no que pretendo alcançar, espero.

Deus vive em mim. Guardado no coração que Ele guarda, luminoso e, como fonte de luz, completamente alheio à sombra que produzo. Mas eu, que sou luz, por que não vejo? Eu, que vivo em Deus, por que me interponho em seu caminho?

Aos poucos, lá se vão as perguntas para o silêncio eterno e acolhedor que responde: Eu sempre estive aqui.

Aos poucos, sem que eu precise remar, mas porque remo, o mar me conduz à praia desejada em que sempre estive.

Aos poucos, em paz, dissolvo a tormenta, bebo-a e desperto mais forte – sabendo que a tormenta era eu, e a paz, e a boca que bebia, e o tempo de cada uma dessas coisas ter sido o que foi.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017


A neve nas montanhas parecia chantilly – e eu devia estar de bom humor pra pensar isso. Nunca soube muito bem como fui parar naquele carro com Modesto e Virgínia, mais a filha adolescente dos dois, Mica, e o namoradinho dela, Fabián. Saímos de Mendoza antes do sol nascer, com destino ao Aconcágua, ou o mais próximo que podíamos chegar dele pela estrada. Agora estávamos em um hotel pro café da manhã. Uma confusão de turistas em longas filas por umas poucas media-lunas: ouvi dizer que o Brad Pitt se hospedou naquele hotel quando esteve por lá filmando Sete Anos no Tibete, e achei engraçado que a informação ainda corresse e pudesse servir como atrativo turístico. Engraçado e triste, e engraçado. Na verdade, o meu humor estava começando a decair com toda aquela agitação e café morno. Foi quando a minha atenção foi capturada pelo olhar que uma mulher lançava ao companheiro a umas poucas mesas de nós. Alheio a todas as conversas, abri um caderno e escrevi:

Se um dia você olhasse pra mim do jeito que olha pra ele eu moveria montanhas.

Virgínia quis saber o que eu estava escrevendo e respondi que era poesia. Anotei mais umas poucas frases antes que Modesto decidisse que era hora de seguir viagem. Agora estou reconhecendo que eu perdi. Um misto de sono, a excitação com as paisagens novas e a melancolia crônica não me deixavam ver que o clima entre Fabián e Mica não estava dos melhores. Mas talvez eu tenha sido tocado por isso, de alguma forma, e continuei escrevendo aquele poema na minha cabeça, no carro, enquanto os outros tentavam conversar comigo. Mais tarde, aproveitei uma parada breve que fizemos em uma estação de esqui pra anotar as frases novas no caderno.

Não vai servir pra nada o teu olhar de “eu não queria machucar você”. A verdade é que não importa o quanto seja deslumbrante uma paisagem: quando o coração está ferido, a dor é tudo que se pode ver. Fabián e Mica tiveram sua primeira discussão na estação de esqui, e me lembrei vagamente de Modesto me dizer que eles tinham vindo de Tucumán a Mendoza justamente pra que a menina visitasse o namorado. Quando voltamos ao carro, o silêncio começava a pesar – ainda não muito, é verdade, mas o bastante pra que percebêssemos, por exemplo, que tocava uma sequência de músicas do Roxette em espanhol. Mica chegou a resmungar um protesto no início de Un Día Sin Ti, mas que não serviu pra nada. Aproveitei pra encostar a cabeça à janela e escutar a minha voz interior, que continuava juntando palavras e tentando organizá-las num quebra-cabeça, até que chegamos ao ponto em que se via o Aconcágua.


Estávamos a quarenta quilômetros de distância dele, e isso parecia nada. Também pareciam nada os seus sete mil metros de altura. O silêncio ali ficou maior do que no carro, mas já não pesava nem um pouco. Tive que rever a minha ideia de que um coração ferido apaga qualquer paisagem: nada era maior do que a maior montanha da América do Sul. Mica se acomodou nos braços de Fabián. Modesto e Virgínia também se aproximaram e, de mãos dadas, pareceram entrar em comunhão com a paisagem. Abri o caderno: o poema agora parecia escrito por um outro. Mas anotei mesmo assim, eu morro um pouco toda vez que é ele quem te faz rir – uns versos que destoavam de tudo o que eu sentia ali. Voltariam a fazer sentido em algum momento. Mas não ali.

Fomos almoçar em Las Cuevas, uma cidade com população fixa de sete habitantes. Modesto contou que tinha sido percussionista quando jovem, e que sempre gostou muito de bossa-nova. Falei um pouco sobre poesia e sobre as coisas que escrevo, e prometi a Virgínia que mostraria a ela o poema daquele dia assim que ele estivesse pronto. Fabián e Mica voltaram a se desentender. Depois do almoço, Modesto foi tirar um cochilo no carro e Virgínia o acompanhou; o casalzinho se isolou pra continuar brigando, e tive um tempo livre pra cuidar um pouco mais daquela minha estranha arquitetura.

Não me peça pra ficar na tua vida porque eu quero te beijar agora e a tua vida não tem disso não.

No caminho de volta, fizemos uma última parada na Puente del Inca, uma ponte natural e muito bonita, mas que não podia mais ser atravessada por turistas por causa do desgaste do tempo. Tirei algumas fotos lá e me afastei um pouco, indo me sentar a uns trilhos de trem que passavam ali perto.



Agora começava a me sentir melancólico pelo fato de que em breve teria que me despedir dos meus companheiros daquele dia, talvez pra sempre. E me entristecia que Fabián e Mica estivessem daquele jeito e não tivessem aproveitado tanto o passeio. E me afundava em um labirinto de vagas coincidências a história que eu desenrolava em meu poema.

Quem sabe um dia a gente se encontre mesmo, por acaso. Quem sabe você me acene do outro lado da rua e quem sabe eu até responda. Quem sabe a gente até sorria.

Mostrei a Virgínia o que eu tinha escrito até então, mas esclareci que ainda me faltava um desfecho. Ela não teve dificuldades pra ler em português, o que não chegava a me surpreender. Quando voltamos pro carro, Mica esperou que eu decidisse de que lado iria embarcar pra me deixar entre ela e o namorado – ou talvez agora ex-namorado. Desta vez o silêncio era pesado mesmo, e a música, definitivamente, não ajudava. Quando já estávamos quase em Mendoza e a música era Goodbye, do Air Suply, fiquei feliz por encontrar um título pro meu poema, e anotei mentalmente Nada mais pra dizer enquanto Mica explodia e dizia ao pai que desligasse de uma vez aquela mierda. Achei que o silêncio ficaria insuportável, mas então Virgínia me perguntou se eu tinha achado os versos que me faltavam. Infelizmente, ainda não tinha achado, não. Mais um breve momento de silêncio ameaçador e então Modesto começou a batucar no volante, cantando baixinho: Você abusou... Tirou partido de mim, abusou...

Pouco mais tarde, quando desembarquei, depois de uns abraços e apertos de mão desajeitados no carro, Modesto abriu a janela do motorista pra se despedir e me deixar uma lembrança bem mais condizente com aquele dia todo inusitado. Erguendo a mão com o polegar e o dedo mínimo esticados, antes de partir e desaparecer pra sempre, disse com uma voz arrastada, mas em um português impecável e com um grande sorriso no rosto: Numa boa... Chuchu beleza!

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017


Puente del Inca
(Mendoza, Argentina)
Se um dia você olhasse pra mim do jeito que olha pra ele eu moveria montanhas, eu iria até o inferno, iria até a droga do limite do Universo e nunca mais existiria nada que pudesse separar a gente, mas agora estou reconhecendo que eu perdi. Não vai servir pra nada o teu olhar de “eu não queria machucar você”; sei muito bem que eu sou legal, que um dia vou achar alguém legal e ser feliz com ela, mas não diga isso porque é pouco e nós não somos bons amigos. Estou aqui por um único motivo e não tem nada de nobre em fingir que me contento só com uma parte. Nem vou dizer que o que me importa é que você esteja bem, que é bom te ver assim alegre e achando a vida mais bonita quando a verdade é que eu morro um pouco toda vez que é ele quem te faz rir. Me chame de egoísta, tanto faz, diga que o que eu sinto nunca foi amor, mas não me peça pra ficar na tua vida porque eu quero te beijar agora e a tua vida não tem disso não, então eu já estou fora dela. Vamos fazer isso direito, vamos direto pro “foi bom te conhecer”, pro “um dia a gente se encontra por aí” e quem sabe um dia a gente se encontre mesmo, por acaso. Quem sabe você me acene do outro lado da rua e quem sabe eu até responda. Quem sabe a gente até sorria. Não importa. Não é o primeiro fim do mundo e, se me lembro bem, a gente sempre acorda na manhã seguinte.

domingo, 3 de dezembro de 2017


Você só vê quando eu não posso estar falando sério
Só vê se eu levo a sério demais
Só vê tons de cinza
Só vê furta-cor
Você não vê que eu posso estar falando sério
Não vê quando estou rindo com você
Só vê preto no branco
Só vê degradê
Você só vê se eu tô querendo sair de fininho
Só me vê querendo chamar a atenção
Só me vê querendo
Só me vê só me vê só me vê
E é só você que não vê


sexta-feira, 24 de novembro de 2017


Teu silêncio era um grito de cansaço e de abandono. Numa folha de caderno, teu adeus era espelho e espectro de antigos versos que fiz pra ninguém. Segui teus passos pela vida, teu corpo escondendo e escorrendo luz, dia após dia a tua fragilidade humana acumulando máscaras, dia após dia a tua lágrima e você via, talvez, o mundo que eu te dei de almas e de olhares, você levava as minhas palavras feito mapas, mas seguia adiante em teu definitivo adeus. Um tempo material, rolando e lapidando as pedras e nascendo o limo, se as tuas mãos segurassem as minhas outra vez, vou te conter, e te contar sobre um amor enfurecido, ódio terno, um coração capaz de sentir tudo isso e nada, mais uma noite que fosse e que você dormisse nos meus braços feito criança crescida, grilos e sapos e ventos seriam bem mais que um castelo, mas não, há muita selva lá fora. Teu grito agora é tua presença na estrada, espreitam e você sobrevive, imensa fortaleza de tédio e indiferença e de querer que te adorem e de velas sempre içadas pra próxima fuga. Te estendo as mãos, mas já nenhum dos meus destinos te chama, no vazio dos dias, meses, séculos, estas mãos estendidas te esperam e sabem o que não terão, e fazem seu trabalho ingênuo transformando o mundo e segurando outras mãos e bebendo de outros copos, te esperam e te esperam e você não virá, cada vez mais longe conquistando o céu em que eu falto, constelações de nanquim, aplausos bêbados, todo um séquito de sombras, ninguém paga o que me custa te querer tão bem, não te querem tão bem assim e te querem e ardem, onde o teu grito não me alcança mais, onde a tua voz rouca me escapa, eu que sempre quis me entregar a você mesmo sem conhecer o que entregava – e isso, talvez, o que mais te afastasse – derramo estes versos finais sobre a ferida da ausência: bebe, seja leal, imagem pura e memória, nunca mais sangrará, seremos vivos enfim, não saberemos o resto.