sexta-feira, 4 de maio de 2018

mas com que esperança, ou com o quê?
(pra onde estou indo?, perguntei
e quando levantei os olhos vi:
teu olhar repousando em mim)


o desejo, afinal,
(sussurrei pra ninguém no escuro daquela noite)
o desejo, afinal, é só uma das muitas faces do amor
– e eu te vejo se espalhando em todos os espelhos

devagar
e viva
de uma semente recém posta sob a terra
espreguiçando em direção à superfície a sua metamorfose milagrosa

de uma serenidade atenta
de uma avidez atenta
lentamente
reconhecendo

ao redor do meu discurso anárquico
no coração da minha dispersão cansada
teu rosto, aquele
ponto

exato
(no vasto horizonte)
em direção ao qual, sem notar
tenho sido

quinta-feira, 26 de abril de 2018


Aceitei o copo de aguardente que o casal simpático me oferecia. Fui me sentar ao lado deles no cercado de concreto de um canteiro, Alonzo e Clarita, hippies que estavam na cidade de passagem e no momento bebiam acompanhados por Diego, morador dali mesmo de Tilcara, norte da Argentina. O sol começava a se por e o vento ia ficando cada vez mais gelado, enquanto se armava uma feira noturna ao nosso redor, na praça. Tinha conhecido o Diego mais cedo a caminho da Laguna de los Patos, agora ele me reconheceu e perguntou se eu tinha gostado do passeio, o que me fez parar pra conversar com eles. Alonzo disse que não gostava da lagoa, que lhe parecia só uma poça grande, mas que tinha gostado muito das Cuevas del Wayra e do sítio arqueológico de Pucará. Eu tinha visitado Pucará também, e de fato, tinha gostado muito. Era um povoado pré-hispânico muito bem preservado e cheio de placas informativas com conteúdo interessante – como por exemplo algo sobre antigos rituais em que se usava cebil, uma planta alucinógena. Foi sobre isso que perguntei ao Diego antes de me estenderem o copo de aguardente, mas ele apenas sorriu – e essa foi a única resposta que me deu a respeito da tal planta.

Por outro lado, acabou falando bastante sobre os nativos da região e sua relação com a terra, seus pontos de culto e sua cosmologia. Deu praticamente uma palestra, apesar do álcool enrolar um pouco sua língua, às vezes, e de muitas mudanças de assuntos e momentos de pura diversão. Clarita estava o tempo todo fazendo interrupções sem sentido, comentários absurdos do tipo “Eu sou uma quase-louca que ficou no meio da fonte”, e sempre que isso acontecia, Alonzo balançava a cabeça olhando pra ela e dizia “Você está fora da órbita”, depois dava mais um gole generoso em seu copo de aguardente. Não lembro exatamente como a conversa chegou a questões de certo e errado, limites, culpa, só sei que a essa altura já tínhamos começado uma segunda garrafa. Diego defendia que todos os limites e juízos são abstrações, que só existem na cabeça da gente, e que tudo é permitido nos desejos e na imaginação: internamente somos absolutamente livres, nem tinha como ser diferente.

Não lembro quanto tempo durou o assunto e se ainda estávamos nele quando um artista ambulante tocou Let it be numa flauta de bambu, mas a conversa se desenrolou até questões mais puramente religiosas, acontecimentos sobrenaturais e entidades do tipo Exu, que bebem, fumam, falam palavrão e não se constrangem de dizer que fazem tanto o bem quanto o mal. Citei uns nomes de Exu que eu conhecia – Tranca Ruas, Caveira, etc – e expliquei mais ou menos o que ele significava na Umbanda. Alonzo, atento à conversa, mencionou o medo que os cristãos sentem de entidades como essa; aí o Diego, arregalando os olhos, olhou pra ele e disse:

– Pois se eu sou cristão, suponho que acredito em Deus. E se acredito em Deus, então o que existe pra ter medo?

Isso encerrou a discussão, ficamos todos pensando sobre o que ele tinha dito. Clarita dançava entre os músicos, rindo como uma louca completa, e agora a praça estava muito cheia de cores, luzes, sons. O ar gelado fez com que eu me perguntasse se nevaria por lá, e em seguida considerei o fato de que a região era bastante seca. A embriaguez se afastou um pouco e deu lugar a uma sensação recorrente desde que eu tinha chegado a Tilcara: um certo assombro pelo quanto a paisagem toda me era familiar. Deduzi que eu tivesse morado ali em uma encarnação anterior, só podia ser isso, na hora achei que era indiscutível. E parecia que nada no mundo fazia mais sentido que adorar um deus do sol, um da montanha, um do vento...


domingo, 22 de abril de 2018


Nascemos em violência, arrancados, expulsos, com violência aprendemos a andar, num desafio ao chão, da nossa força se fez a estrada, o trigo antes do pão, a pedra antes do abrigo, da minha luta eu fiz crescer sete filhos, mais quatro que ficaram no caminho, por violência atravessamos a vida, amamos, sofremos, em violência deixaremos a vida, há violência em que sejamos esquecidos, há violência em que não sejamos, no que não atende à nossa vontade, em ter vontades, é violento existir, quando alguém mais se dá o direito de violentar nossa vontade, é violento resistir, é violento que tenhamos perdurado.

- tortillas, señor?


no, gracias, pero...
vivir acá.
el horizonte aplastador y tragado por las rocas de tilcara.
casas de piedras.
puertas coloridas.

quarta-feira, 11 de abril de 2018


(comece pelo 2o parágrafo, volte para o 1o e depois pule para o 3o e siga adiante)

- como aquele menino é parecido com o Fabiano, e aquela moça é igualzinha à Cristina quando tinha dezesseis, e que saudade da Cristina aos dezesseis, e do Fabiano, e de todos os passados bons que tive, e de outros que inventei, saudade que às vezes é um sopro suave já passa, às vezes é ter o coração arrancado a unhas às seis horas da manhã, quando o despertador toca. <///>

- etapas da cidade, a cor do céu sobre o asfalto em ruas comerciais e residenciais várias quadras de cima abaixo aquela distância do horizonte no Planalto Central meio verde meio já Goiás e meio ainda DF. Semanas inteiras pensando em cachoeiras de Pirenópolis ou da Chapada, aquela água fria no verão sem chuva, Jardim Céu Azul, uma igreja em construção da poeira vermelha, o fim da linha de um ônibus, apenas uma quarta-feira. Aqui teu sonho é muito branco, muito burguês – imaginei que diriam os olhos daquele menino, e como aquele menino é parecido com o Fabiano...

<///> – Aqui é a Terceira Etapa? – perguntei. – Céu Azul? – O menino me olhou com uma cara que parecia que era um raio x com um detector de metais e de mentiras mais uma investigação completa da minha vida, e tudo isso só me olhando.

Dez horas da manhã e eu me lembrei do jeito que a Cristina cantava Asa Branca.

Este planalto é o sertão, longe demais de tudo. E eu gosto, não gosto, não entendo. Aquela praça ali parece uma de Porto Alegre, aquele prédio parece um outro em que eu morava em BH. Aqui meio que é todo mundo estrangeiro, mas meio que nem todo mundo é. O horizonte grande demais também oprime às vezes; estranhos familiares ainda são estranhos; nem tudo são cartazes de boas-vindas. Tenho que caminhar talvez mais alguns quilômetros, e faz muito calor, mas o menino confirmou que estou no bairro certo – meio resmungando, sem desfazer a expressão de desconfiança, mas confirmou. Jardim Céu Azul em Valparaíso de Goiás, no auge do verão. Algumas ruas acima, estarei no Distrito Federal, hoje só um palco de comédias tristes com roteiristas esnobes. No calor do cerrado. Tão no centro de tudo, dentro demais de tudo. E ainda. Tão. Longe.

(Diários de Machu Picchu #23)

sábado, 7 de abril de 2018



Na casa vazia, o vento era a voz de Verônica, até meio quente, escorrendo na concha do ouvido. Falava em filmes do Fellini, versos do Ginsberg, coisas que eu não entendia, coisas que eu entendia bem, coisas que tanto fazia escutar ou não. Às vezes vinha com o Vinícius, quase sempre com um vinho, às vezes com um bom livro ou um bom som. No silêncio da casa vazia, a solidão parecia a presença de Antônia ou de seu filho Felipe, ou de Manfred, o cão, ou de Marina meia beba atirada no sofá da sala, e tantas outras vidas que se misturaram com a minha, mais todas as que não se misturaram nunca, ainda que estivessem lá, bebessem meu café. Na casa já velha havia o vazio que vinha então com cara de menino, só pra jogar um videogame ou pra brincar com Manfred, o cão, sempre às segundas e quintas-feiras perto das cinco, quando voltava da escola, e me dizia do seu amor platônico pela afilhada de uma prima minha, e acreditava em quase tudo que lia na internet, mas não gostava de ler, e ficava comigo muitas vezes até quase a hora de dormir. E tinha um vazio que não cabia na casa, a falta dos tempos de Maria Luiza, Maria, querida Maria que se espalhava tanto pelo espaço e pelas horas, tanto, tanto que agora não era nem possível que já não estivesse mais ali em lugar nenhum, nem mais um pedacinho de Maria, vazio que não podia ser, mesmo que um vazio assim, a olhos vistos.

sábado, 31 de março de 2018


Aos doze anos, Jéssica teve uma briga feia com os pais bem no centro da cidade. Ficou tão enfurecida que não só berrou que ia fugir, como costumava fazer sempre, como realmente embarcou em um ônibus de linha que estava passando por ali e desapareceu antes que os pais pudessem fazer qualquer coisa pra impedir. Pagou sua passagem e foi se sentar bem ao fundo, na última fileira de assentos, onde chorou de raiva com o rosto virado pra janela durante muito tempo antes de começar a se preocupar com onde estava e pra onde estava indo. Calculou que o melhor a fazer então era esperar o ônibus dar um giro completo em seu trajeto e desembarcar de volta onde embarcou, onde talvez seus pais ainda esperassem por ela. Mas quanto mais o ônibus demorava pra fazer a volta e avançava por ruazinhas estreitas de bairros desconhecidos, mais a pequena Jessica sentia medo e pensava na possibilidade terrível de nunca mais rever os pais. Já estava quase em desespero quando reparou em um menino que se aproximou com a família e acabou se sentando bem ao lado dela. Era bonito e parecia tão seguro e tão alegre que ela teve vontade de falar com ele. E teve a impressão de que ele também tinha reparado nela, que ele também tinha vontade de falar com ela, e mais: havia alguma coisa na forma como os corpos deles iam sendo jogados um contra o outro pelo movimento do ônibus, alguma coisa que fazia com que ela quisesse se entregar, abandonar totalmente o controle e nunca mais parar de sentir o toque da pele daquele garoto. Não entendia muito bem aquilo tudo, mas sabia que estava apaixonada. Já tinha imaginado toda uma vida de casamento, filhos, casa com cerquinha branca e um cachorro, quando o ônibus parou em um terminal e todos os passageiros começaram a desembarcar. Jéssica ficou sentada, vendo todos saírem, e gostou de saber que o menino estava se deixando ficar por último na fila do desembarque. Arrastava os pés pelo corredor, andando devagar e sem vontade, até que finalmente, quando todos os passageiros desceram e só restavam os dois dentro do ônibus, ele se virou pra trás e olhou diretamente pra ela, meio sem entender também, mas fascinado. Ela achou que o tempo tinha parado, ficou olhando pro menino e se perguntando como era possível um menino tão lindo ali parado olhando pra ela também. Depois do que pareceu uma eternidade, alguém chamou por ele, um nome que ela não ouviu, e ele desapareceu correndo porta afora. Então ela nos conta que, sozinha ali no ônibus, sem saber se ele voltaria a andar ou como se comunicar com os pais, perdida, assustada, mesmo assim, sua única preocupação era que o menino tinha ido embora sem que ela tivesse tido coragem de falar com ele, e em vez de rezar a Deus ou pedir ajuda a alguém pra voltar pra casa, ela só conseguia repetir a si mesma, sonhando que ele ouviria: Me perdoa... por favor, por favor, me perdoa.


sexta-feira, 23 de março de 2018


Preciso urgentemente de ir pro século dezenove
Ou menos
Cê tinha que ter visto aquela vida real
Penso nisso toda vez que escuto esse assoviozinho do whatsapp
Cê não tem a menor ideia do que é o tempo
Dias semanas meses enxergando só a mesma paisagem
Como um papel de parede sem nenhum ícone pra clicar
Cê tinha que ter aprendido aquele espaço
Cê não sabe nada do que é vida de verdade
De tanto que não para no teu corpo
Não
Cê acha que não custa nada
Mas tua urgência ainda é maior e pior que a minha
Cê precisa de no mínimo uns quinhentos likes na tua máscara
Comentar o vídeo de uma banda russa que faz bossa-nova com instrumentos árabes
Pesquisar o significado de “Butô” comprar comida assistir filme
Dizer pra todo mundo o que cê pensa sobre isso
Tão inteligente
E cê não faz nenhuma ideia
Se sentisse só uma parte do tédio que eu sinto
Voltaria correndo comigo
Pro século dezenove antes de Cristo
Ou antes



domingo, 18 de março de 2018

nota extraordinária
marginal

meu país está morrendo
a tiros, no centro da cidade

Cidadãos de bem seguem lavando as mãos, mas vejam bem, os ricos estão mais ricos. Nenhum soldado revistando seus filhos a caminho da escola, nenhuma violência explícita em seu quintal. Nenhum grito ecoando no morro alcança os castelos de suas ilhas, não veem que todos veem ou veem e já não se importam em expor toda a brutalidade, tanta boçalidade, a falta do amor cristão de que se envaidecem e se vangloriam na postagem seguinte, não, não está tudo bem que se declare abertamente apoio a um assassinato, nada justifica o sangue derramado, nada justifica, nada.

Minha raiva escorre nas palavras, ressoam os sinos da guerra e continuo não querendo ter que pegar em armas, mas tem muito peso nessas malas, é muita lágrima borrando essa paisagem. Não posso deixar que o mundo siga desse jeito, não posso aceitar que a humanidade a que eu pertenço seja essa. Não posso. Não vou.

Nossa esperança à prova de balas, o abraço acolhedor enviado a quem sofre, aquela multidão pelas ruas irradiando a chama ainda acesa de uma ideia imortal, sou eu, somos milhares.

E estamos de volta, agora. Esta é a programação normal.

sábado, 17 de março de 2018


Você ganhou mais uma chance.
Hoje
tem mel e tem balanço da rede.
tem rio tem uma luz jovem brincando.
Você percebe
depois de tanto tempo uma alegria tão calma
se espalhando pelos cantos
(pelas
canções).
pelos poros.
Tuas mãos se abrem – você não consegue ver, mas
passou um anjo de muitas cores,
deixou nelas o azul.
Sólido.
O horizonte inteiro te abraça, a fonte que jorra está
dentro do teu coração lavado.
Você ganhou.
Dance.
Alto Paraíso de Goiás - GO

sábado, 10 de março de 2018

Eu costumava sorrir durante o voo. Fechava os olhos, uma vez me deixei cair até quase o chão, vertigem, vício de vento no rosto. Eu costumava sorrir no alto da torre. Eu costumava sorrir quando percebia o barco se soltar do cais, o rum enchendo os porões, o vasto horizonte aberto e uma liberdade a velas. Não sorria muito quando voltava da caçada sem nada além de botas sujas, mas apesar da barriga doendo, eu tinha que limpar o piso todo de novo. Não sorria entre as bombas, nem entrincheirado, não sorria acusado de crimes que eu já tinha visto os meus acusadores todos cometer com indiferença. Sonhava em lençóis de seda ou quando dormia no estábulo, sozinho ou embalado pelo som do coração de Guadalupe, olhando estrelas eu sonhava, era feliz, jamais desacreditei da felicidade. Andei esquecido dela em campos devastados, garimpos e sertões em que acordei tantas noites com a boca seca e coberto de suor, num susto e com medo de lembrar por quê. Mas costumava sorrir sempre que me lembrava de ter sido criança ou via as crianças sonharem ou sonhava que a Via Láctea era uma estrada de luz que eu percorria com um cavalo alado, e frutas frescas me bastavam, eu costumava sorrir acompanhado, nada no mundo me fazia mais feliz do que sorrir acompanhado. Das sensações de traição e de abandono, tive a parte que me coube, uma porção amarga de escuridão da noite mais escura. Sobrevivi pra contar, não pra acertar as contas. Teve um tempo em que ninguém mais vinha me chamar pra um passeio na praia ou trazer doces nem nada, a tinta descascou nas paredes e tinha folhas secas pelo chão do meu quarto, e às vezes parecia que sonhar, nesse tempo, tinha um gosto de inútil. Mas eu costumava sonhar mesmo assim com o gosto de inútil, sentado em silêncio à varanda de tábuas, a cuia do mate na mão e a chaleira ao lado, um cobertor nas pernas contra o vento sul, o céu sem desabar, as pálpebras pesadas.


sábado, 3 de março de 2018



Esses arcos coloridos na grama do parque. Córdoba, Argentina, um sábado qualquer em 2009 ou 2010. Fomos passear com as crianças e encontramos a Paola e o Gustavo, a Paola estava sentada num desses arcos. Eles tem alguma coisa a ver com o tempo, cada um deles tem o número de um ano gravado, 1896, 1897, e assim por diante. Não sei em que ano começa e em que ano termina. É um túnel do tempo e a Paola estava lá e a gente foi falar com eles e o Gustavo contou que ela estava grávida, as crianças ficaram animadíssimas. Gustavo disse que ele e a Paola estavam felizes, a gente viu, nem precisava ter dito. Falamos de como estava sendo a vida em Córdoba, das crianças, das saudades do interior. A tarde estava quase no fim, as crianças cansaram de correr pelo túnel do tempo e a gente foi comer um pancho ali perto. A Paola puxou uma conversa sobre universos paralelos, uma história de cientistas que levavam essa ideia a sério e dos que inventaram uma teoria que tem alguma relação com isso chamada teoria das cordas, ou eram supercordas. Rendeu um bom tempo essa conversa, minha mulher adorou, até as crianças prestaram atenção. Gustavo brincou dizendo que morria de medo de dormir uma noite e na manhã seguinte acordar num universo paralelo em que ele fosse chileno ou brasileiro ou coisa pior, se é que existe coisa pior que brasileiro. E a Paola falou Sei lá, depende do brasileiro. A nena dormiu antes de chegarmos de volta ao carro, bem na hora que se apagava o último restinho de luz do dia, e a gente voltou pra casa todo mundo em silêncio, cinco universinhos paralelos no carro mergulhados no ar de sono, de sonho e de cidade.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Me ajuda a ver, mal sei pra onde olhar, em quantas dimensões há luz, e cor, e movimento?

Um raciocínio se perdeu, não há pra onde voltar, há tempos eu venho dizendo, me resta ser dispersão? silêncio? as mesmas palavras?

Acabo me perguntando pra quem eu tenho que dar tchau, quem eu tenho que cumprimentar na rua, o que afinal é ser humano, que diferença isso faz.

De quantas formas se pode rir e chorar (me ajuda a rir e chorar, nem uma coisa nem outra, rir, chorar, as duas coisas), de quantas formas se pode ser, estar, perceber, passar?

Em quantas dimensões há coração, calor, corujas diurnas, sundaes de morango, piscinas naturais, canetas hidrocor, ponche, lantejoulas, quartzo rosa, mantras, edredom?

E se ninguém estiver lá quando eu chegar? e se o caminho é só o que importa? e se? mas e se não?

Me ajuda a ir, e só, não quero mais que essa presença fluida, não quero mais querer, nem ter, nem precisar, me ajuda a conhecer e a compreender em todas as versões de mim, sem divisões, as diversões das dimensões diversas, se for possível assim, me deixa ir e eu vou contigo até onde acaba, contente acho até, cantando.


sábado, 17 de fevereiro de 2018

A paisagem não mudava. A cada cinco minutos, mais ou menos, o piloto acendia um holofote pra se assegurar de que estávamos a uma distância segura da margem. De resto, só a escuridão sobre as águas do Amazonas. Era o terceiro dia naquele barco, e ainda faltavam dois pra chegarmos a Manaus. A paisagem não mudava. Era um dia de achar que eu estava no mundo errado. Compaixão, piedade, qualquer coisa que faltava. Mal reparei quando Eva se colocou ao meu lado. Ruído de motor. Água batendo no casco.

– Insônia? – ela perguntou.

E o que ainda pode ser chamado de silêncio? Coisas que eu não queria ter ouvido tanto na estrada: “‘Amor’ é um substantivo abstrato” e “Você vai sempre fracassar se perseguir um ideal apagado pelo ‘progresso’”.

– Você não ouve os trovões? – perguntei, quase em tom de brincadeira. Ela abaixou os olhos pro rio.

– Não sei se os mesmos – disse.

E uma coisa que eu queria ter riscado do meu livro: “Vão bater na outra face mesmo que você não ofereça”. Carinho, cuidado, o cinismo que transforma isso tudo em águas paradas e nocivas. Ou quando eles se gastam pelo uso. Ou quando eles não bastam.

– Você não pode rir de tudo em que as pessoas acreditam e ainda esperar alguma consideração da parte delas – disse Eva, em tom mais reflexivo que de acusação.

Lua cheia nascendo, uma floresta gigante nas duas margens. Coisas que eu preferia não ter aprendido na porrada. E uma reclamação bem mais simples: “Estou cansado de ser desprezado”. Mas não saberia dizer isso em voz alta sem me sentir bobo.

Insônia.


(Diários de Machu Picchu #14)

sábado, 10 de fevereiro de 2018



Vencedor ele é igual a todos
Derrotado ele é igual
Ajoelhado aos pés de uma árvore não me recuse o meu sustento ou a flor
Enquanto ainda é voz o que eu tenho
Enquanto são braços e mãos de fazer e transformar
Tendo amor ele é igual a todos
Sendo amado ele é igual
Debulhando milho
Debruçado sobre o poema
Débil
Sem fim
Enquanto ainda sou eu sou igual a todos
Quando não for ainda serei
Diferente ele é igual
Ou tolo
Ou genial
Confundido ele é igual a todos
Explicado ele é igual

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018


Isso é o recorte de uma foto que incluía um quintal com dois cachorros e uma casa vermelho-sangue com uma mulher parada à porta. A mulher apareceu quando eu me preparava pra fazer a foto e perguntou o que eu estava fazendo num tom de quem queria dizer o que caralhos você pensa que está fazendo. Falei que era arte, menti que estava fotografando só a placa e ela entendeu menos ainda, porque afinal qual seria o interesse de uma placa, e antes que eu pudesse responder a isso ela disse que não autorizava que eu fotografasse nada. Dei de ombros, grato por ela me poupar de responder à sua pergunta sobre a placa com alguma comparação meio forçada entre arte e serviços de enfermagem. Já estava seguindo meu caminho quando me deparei com umas flores que chamaram minha atenção, ali mesmo em frente à casa dela, mas do lado de fora da cerca.



Levei alguns minutos fotografando ali e a mulher aproveitou pra se aproximar e fazer um interrogatório mais detalhado. Contei-lhe quase toda a minha vida, depois pude saber também seu nome e um pouco sobre seu trabalho num hospital psiquiátrico ali perto. Ela explicou que tinha ficado preocupada quando me viu fotografando porque em seu país andavam acontecendo coisas muito sérias, como meninas sendo assassinadas e jovens se matando por causa de drogas. Disse que as pessoas daquela cidade não tinham essa mentalidade do que poderia ser arte, que a visão de mundo ali era bastante limitada. Eu quis lhe mostrar minhas fotos, mas ela se recusou a ver, dizendo que não lhe fazia falta pra se convencer de que eu era confiável. No fim, chegamos a um entendimento, mas não sabia se isso retirava a proibição de lhe fotografar a casa e decidi nunca publicar a foto inteira, em que ela própria seria exposta.

Então, aqui temos a fotografia de uma placa.

Ou duas.

Mais tarde, naquele mesmo dia, vi na internet a história de uma fruta que foi deixada em um museu e confundida com uma obra de arte. Igual a tantas outras histórias que eu já tinha ouvido. Cartazes, caixas de ferramentas, um óculos, um chapéu ou um guarda-chuva que alguém deixou num canto e foi confundido com uma obra de arte.

Sim, é. Há arte por todos os lados.

sábado, 27 de janeiro de 2018


Espalho sobre o tapete as chances perdidas, tudo na vida depende de como soa ou como bate a luz, uma garrafa de tequila, uma escultura de barro que significava tanto e acabou quebrando, as provas que eu não tive de que ela me amou, crimes na tevê, cortinas que balançam. Espalho pelo chão da sala os restos do que fui e esboços do que sou, do amanhã não quero nada, ainda que tudo, cadernos de receitas e livros didáticos, poeira, jogos e cartões postais, o coração pequenininho de amar tanto e não ser visto, sob uma lâmpada queimada, descalço. Espalho pela casa as lembranças do estrago e de passar ao largo ou assistir calado, o sangue que eu perdi e a espera de um perdão que nunca veio, alguma dor antiga repisada e ressentida, os cacos de um copo quebrado, os fios de luz, a insônia, espalho pelo prédio as lágrimas contidas por tempo demais e por razão nenhuma, só porque tristes demais, pesadas demais, lágrimas demais, panfletos de toda fé e cartazes do filme que verei sozinho em minha casa, hoje, a partir das onze, flores secas nas escadas, só um jornal de ontem no balcão da portaria, e quando chego à rua até posso jurar que já não há mais nada pra fazer ou lamentar, nem sei, a cidade me engole à primeira vista, acho até que nunca amei e acho até que poderia amar de novo, a pé, por todos os vazios e possibilidades ir a ser, e me espalhar enfim, sem fim, recomeçado.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018



Deixei a visita sozinha na minha casa enquanto fui comprar algo na padaria. Era a primeira vez que o Bernardo me visitava ali no litoral catarinense; ele estava morando numa cidade vizinha, ligou pra dizer To passando aki perto onde q vc mora e eu disse Chegue aí na rua tal número tal. Aí depois que ele chegou que eu fui pensar nos acompanhamentos, É uma padaria aqui do lado eu vou bem rápido, pode ficar aí estudando a minha coleção de CDs. Bernardo é de casa. Vamos atualizar as notícias e esgotar os assuntos de interesse comum e em poucos encontros estaremos compartilhando longos momentos de tédio como só os bons amigos sabem compartilhar.

Fui pensando em coisas que eu já não tivesse dito em uma das nossas conversas virtuais, verdades que eu tivesse disfarçado em publicações de humor ou poéticas ou filosóficas ou que eu tivesse escondido do mundo ou confessado através de um personagem que pra todos os efeitos não sou eu: quais verdades eu diria pessoalmente, olhos nos olhos, o tom da voz ajudando a dar a medida exata do quanto aquilo importasse, estou contando só pra você porque você é meu amigo entende, você não vai me julgar vai me ouvir. Você também acha que a internet apagou um pouco as fronteiras entre o público e o privado? Você também acha que está todo mundo encenando, você também tem saudades da vida lá fora e por isso veio morar perto do mar, você também se incomoda pelo pouco que os corações se revelam e às vezes também se assusta quando se revelam muito, mesmo sem saber se aqueles corações são reais?

Atravessei as ruas tranquilas do meu bairro aproveitando um resto de brisa marinha, construções de mais de um século e lixo nas calçadas, árvores e tinta descascada, mesmo o mais familiar me parecia novo e cheio de mistérios e por um momento eu pensei em nunca mais voltar pra aquele apartamento onde o Bernardo me esperava, com o encanamento barulhento, baratas, janelas cheias de flores e elevador de gaiola, Bernardo que morasse lá, eu só queria desbravar o mundo. Era um final de tarde e eu estava numa zona de incertezas, de indefinições: entre o prazer e a dor existe algum limite claro? Entre o saber e o não saber, querer ou não, partir, ficar, nunca voltar, entre o eterno e o agora existe algum limite claro? Ou eram só perguntas que eu faria logo mais pra ver o olhar do Bernardo se perder na paisagem até que ele suspirasse e dissesse Eu também não sei... assim, com reticências?

Ele me esperava recostado na poltrona individual, as mãos cruzadas sobre o quadril, os olhos fechados, ouvindo Eric Clapton com as luzes apagadas, um pouco depois do sol ter acabado de sumir no horizonte. Procurei fazer o mínimo de barulho possível, mas entre música e ruído às vezes eu também fico na dúvida se existe algum limite claro. Bernardo abriu só um olho pra me olhar, sorriu, disse alguma coisa que eu não entendi e se ajeitou melhor na poltrona pra continuar ali jogado. Tudo tinha o seu ritmo e sua dança, os traços do artista, as cores, as formas e o simples sentido de ser e de estar sem necessariamente uma lógica. Vamos falar sobre o gol do Bebeto em 94, as grandes corporações e seus obscuros negócios, um show do Paul, as aranhas que devoram os machos depois de acasalar, acidentes de trânsito, café solúvel ou passado, afeto, trabalho. Você me conta como foi sua vida e eu te confesso o que na minha era só teatro. Falar até que a noite cale, até que a estrada não chame, até que ponte, até que praia. Você me conta onde queria chegar no ensaio e eu te apresento os fatos. Seja bem-vindo, amigo. Até que aplauso.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018


Grandes amigos poucos
Às vezes menos às vezes mais
Depende sei lá do clima ou da era
Só o tempo seleciona o que é pra sempre

Amores de que sei o nome:
Bárbara, Leonardo, tantos outros
E nomes que se repetem e
Milhares de nomes novos pras mesmas coisas

E coisas novas o tempo todo
E nunca mais ter sido ontem
(Um equilíbrio impossível
Tentando se costurar no abismo)

domingo, 7 de janeiro de 2018




Trago uma alegria que mal cabe na voz, mãos calejadas e um mar de lágrimas que você nunca viu. Tenho uma preguiça sem fim das conclusões, uma esperança inesgotável dançando e uma ferida que não fecha nunca. Não me contento com a superfície, não me interessa o que vem sendo dito desde sempre por aqueles que não param pra escutar e não ponderam. Não venho com facilidades, panos quentes, opiniões sobre o que está em pauta, rimas, soluções, toda a verdade sobre o que quer que seja. Venho como sou, como eu queria ser e como eu acho que devia. Por menos que isso, eu não me troco. E se não for pra dividir por igual, eu nem começo.