sábado, 23 de junho de 2018
domingo, 17 de junho de 2018
Tinha quebrado um vaso, tinha cacos de vidro no
chão e bem naquela hora o nenê tava chorando de um jeito que parecia que o
mundo ia acabar pra ele o infeliz, e era uma jovem de cabelos negros e longos
debruçada à janela com um vestido de flor e tinha água, não sei, tinha muita
água pelo chão, nuvens cor de chumbo escureceram o céu mas perto do horizonte
ainda tinha algum azul, e espelhos giravam e cabelos ruivos e gêmeos e
aposentos reais num castelo alguém dizendo adeus ou coisas sábias, houve um
tempo, talvez, houve um longo intervalo de tempo, tecidos dourados, uma menina
triste aconchegada no colo do avô, o peso de uma ausência, como agora, esses
vazios que há nas mensagens de voz ou vídeos sem verdades, telefones que não
tocam e aquela velha impressão de estar pagando pelos erros do mundo todo
quando acaba a tinta, o tom, a tela, tinha um pincel pousado inutilmente e
tinha um coração desencantado e tinha um mar, ou mais ou menos, ou então era um
daqueles dias em que não se via nada.
sábado, 9 de junho de 2018
Só
me lembro de enxergar debaixo d’água. Não de me desesperar, nem de sentir o ar
faltando, nada: só me lembro da luz, de como os raios do sol se espalhavam a
partir da superfície e iam afundando em direção ao nada, até sumir. É, dá pra
explicar desse mesmo jeito o que estava acontecendo na minha cabeça: afundando
em direção ao nada.
todo
um poema acontecendo aqui e você pedindo outra colheita de crimes. eu é que não
vou morrer de novo só porque as tuas palavras aleatórias são aleatoriamente bem
mais importantes do que as minhas. pra você, isso não quer dizer nada, mas
agora eu só consigo pensar que só umas poucas letras embaralhadas diferenciam
confronto de conforto.
Escuto
o som dos motores dos carros, caminhões e motos que passam pela estrada ainda a
esta hora. E de repente, então, correntes contra as grades, passos na escadaria
do prédio e o clic da luz acendendo, chaves, uma chave arranhando a porta e logo em seguida o molho inteiro de chaves caindo no chão, silêncio. Não pode ser ela,
eu penso, ela não vem, é claro. Algum vizinho está bêbado.
Não
me lembrava de nada: nem do meu nome, nem de ter existido antes de acordar
naquela cama de hospital. Os primeiros dias foram os piores, porque qualquer
coisa que passasse pela minha cabeça poderia ser algo que eu tivesse vivido. Cenas
de filmes, sonhos, pesadelos, qualquer coisa. Passei dias acreditando, por
exemplo, que eu tivesse mulher e filhos me esperando preocupados no interior do
Tocantins.
Sabe aquela sensação
de quando você chega na padaria de manhã bem cedo e o pão acabou de sair do
forno?
sexta-feira, 1 de junho de 2018
Às vezes é inevitável respirar
o ar envenenado de melancolia
porque o relógio é único demais
pra tantos
segundos
passados.
Às vezes é tão simples:
o que passou, passou,
menos as frases feitas
e o medo de fantasmas.
Às vezes a sede
de nos virarmos pra trás
vem simplesmente do receio
de há muito tempo termos virado
estátuas de sal.
sexta-feira, 25 de maio de 2018
Eu bem que pedi pra ele: não faça a tua poesia triste hoje não. No outro
quarto tem uma menina enrolada num cobertor, pensando na morte. Faça uma
daquelas profecias sobre quando o amor vencer, ou música alegre, ou reze, mas
pelo amor de Deus, não faça a tua poesia triste hoje não. Amanheceu chovendo,
fez frio, tem coração demais que já perdeu a fé, tem fé errada demais
justificando maldade, faça um bolo de frutas, uma escultura de barro, berre,
assista a um filme bobo qualquer. Mas por favor, por favor, não faça a tua poesia
triste hoje não.
Porque são três da madrugada estou pensando em dormir e tenho tantas
coisas pra pensar vou colocar umas vírgulas aqui pra facilitar mas não tem nada
disso no meu pensamento é mais uma linha reta através de universos paralelos
que às vezes muda totalmente a direção ou para de repente por exemplo acho que
esse para não podia ter perdido o acento na última reforma ortográfica, pára,
tá vendo, bem mais fácil de entender, ou antes eu tava escrevendo assim vou por
umas vírgulas aqui mas aí achei melhor escrever vou colocar umas vírgulas
porque sem acento em pôr também ia ficar difícil de entender tipo eu vou por
umas vírgulas pode ser lido como eu to indo através das vírgulas entende, é
tudo tão difícil de entender, mas eu que nunca pensei como deveria eu acho,
sempre tive a própria cabeça e isso custa a própria cabeça às vezes, sei que eu
preciso mudar alguns comportamentos mas não tô muito ansiosa pra fazer concessões
a coisas que eu desprezo no mundo dito civilizado, é tanto despropósito sei lá,
queria no mínimo guardar umas rezas pra quando isso acontecer porque meu
coração aperta e vai ficando tão pequenininho toda vez que eu penso nisso e me
pergunto será mesmo deus do céu não pode ser não é possível é isso mesmo que
inventaram que precisa ser e todo mundo acha tão lindo né só pode, ou por que
que só não junta todo mundo e fala pára porra a gente não vai mais ser desse
jeito e ponto final é a gente que decide ou não é caramba, sem essa de que as
coisas são assim qual é mas que burrice, só que não, nada acontece e eu tenho
que engolir que sou eu que tô errada mesmo e ninguém liga quando a dor é dos
outros, uma novela interminável daquelas que sou eu quem chora entende, e só
porque eu não quero mais ser obrigada, nem fingir que não sangro, não quero mais
fingir que não morro ou que não vivo e não quero mais ter fingir coisa nenhuma
saco. E aí quem é que dorme, com esse buzinaço na cabeça da gente. Ou no
silêncio denso de um cortejo infinito, lá na frente o meu máximo potencial
humano assassinado muito bem vestido em um caixão e as ruas tomadas por
miseráveis recortes de mim, eus alternativos andando devagar desolados
desiludidos desamparados com velinhas bobas pingando cera em suas mãos. Ah,
estou perdida de novo, aí fico olhando as luzes dos carros brancas escorrendo
no meu teto branco escorrendo devagar em branco às vezes rápido escorrendo eu
pensando só num dia que não vem que não virá que eu não verei que desperdício
de estar indo eu penso então por que estar indo hem por nada. Nem dá pra ser
brutal só com os brutos não que ideia boba ultrapassada, a brutalidade há muito
tempo que ela é pré-requisito, brutalidade é o novo preto, brutalidade é amor
brutalidade é nóis a gente assistindo nem se importa mais se é só outro filme
horrível passando à tarde ou um programa policial ou um desconhecido de olhos
injetados esmurrando a porta. Por entre os dedos cobertos de sangue você vê o
corpo no chão da tua sala e descobre ainda sem culpa que o inimigo não era
aquele, ops você diz, mas tudo bem muda o canal e relaxa pensando que os gritos
de guerra soam tão bonitos até mesmo se você não tem um cinco ponto um surround
system, mas você precisa tanto ter um cinco ponto um surround system é essa a
tua necessidade mais vital nesse ridículo da nossa era, todo um cinismo
reinante e já despreocupado em se dissimular sendo aplaudido eleito retuitado
um eco percorrendo as ruas da cidade em só mais uma só mais outra só mais esta
madrugada iluminada e barulhenta e oca e sem alívio, quem é que dorme com essas
cortinas balançando a brisa em minhas mãos cruzadas sobre o coração exausto eu
penso que os poetas são tão bons em convocar à luta, poetas são tão bons em
traduzir motivos pra luta e eu não quero nem saber sim bem que eu queria mas
não sei se eu quero que me contem onde estão banidos e ridicularizados os que
um dia já souberam só fazer dormir talvez sonhar segura e quieta uma criança da
minha idade.
sábado, 19 de maio de 2018
Não
seria importante.
Sábado.
Os
ruídos eram poucos e chovia,
estava
começando o outono,
esfriou
um pouco desde ontem e chovia à tarde. No asfalto, escorrendo pelos prédios e
escorregadores dos parquinhos uma chuva cinza de concreto fria e sem vontade, não
seria nada. Um
figurante
de
uma cena que ficou de fora na hora da edição,
não
acrescentava nada,
nem
se debruçaram à janela pra vê-lo acenando, adeus,
talvez
ninguém mais saísse de casa e as lojas estivessem fechadas e os cachorros
escondidos e dormissem nos sofás com as televisões desligadas.
Passaria.
Seria
esquecido.
Voltaria
a acontecer e não seria lembrado.
Uma
cidade sem fim de calçadas e grafites, árvores úmidas e um dois três quatro milhões
de pares de mãos enluvadas ou nos bolsos, uma espera inútil de quando já não
falte nada,
uma
espera esquecida de si,
quase-mudez,
friozinho.
sábado, 12 de maio de 2018
Da história que vamos contar juntos, quem vai se lembrar das flores de
ouvido, de que ela estava me convencendo a adotar um filhotinho de tigre, de um
passeio de carro em que a sombra de um pássaro escorria pelo asfalto bem à
nossa frente, de quando levantamos um castelo de água, de quando choveu e a
gente estava em um barco sem teto mas ela não se molhou porque tinha uma
capa de chuva enquanto eu passava frio sem saber que a água do mar estava
quente, de quando faltou luz e estávamos no alto da roda gigante, de como o céu
estava escuro por causa das nuvens, daquele pedacinho de céu sem nuvens e lá,
bem no meio dele, exatamente, as Três Marias, da tempestade que caiu na
estrada, de quando atravessei a estrada no escuro enxergando só com a luz da
vela que ela me emprestou, de quando atravessamos a estrada debaixo do sol desesperado
do meio-dia e quando chegamos em casa tiramos toda a roupa e dormimos até o
meio da tarde, na história que vamos contar juntos estaremos abraçados e
confortáveis na mesma espreguiçadeira, sorrindo e falando tudo muito devagar,
como pra descansar quem escuta, e por gostar da paisagem.
Vai ter amor, sim.
Vai ter amanhã, vai ter paz, sim, na
tevê e fora dela, na favela, na floresta, no beco, à beira d'água. Vai ter paz
e vai ter amor, e vai ter alguém estendendo a mão pra ajudar quando for
preciso, sim, vai ter irmão, e também vai ter convite pra festa. Sorriso e
abraço, música, brindes, um barulhinho bom até tarde. Vai ter alegria, sim.
Risada. Pele. Gosto.
Vai ter amor, sim.
sexta-feira, 4 de maio de 2018
mas com que esperança, ou com o quê?
(pra onde estou indo?, perguntei
e quando levantei os olhos vi:
teu olhar repousando em mim)
o desejo, afinal,
(sussurrei pra ninguém no escuro daquela noite)
o desejo, afinal, é só uma das muitas faces do amor
– e eu te vejo se espalhando em todos os espelhos
devagar
devagar
e viva
de uma semente recém posta sob a terra
espreguiçando em direção à superfície a sua metamorfose milagrosa
de uma serenidade atenta
de uma serenidade atenta
de uma avidez atenta
lentamente
reconhecendo
ao redor do meu discurso anárquico
ao redor do meu discurso anárquico
no coração da minha dispersão cansada
teu rosto, aquele
ponto
exato
exato
(no vasto horizonte)
em direção ao qual, sem notar
tenho sido
quinta-feira, 26 de abril de 2018
Aceitei
o copo de aguardente que o casal simpático me oferecia. Fui me sentar ao lado
deles no cercado de concreto de um canteiro, Alonzo e Clarita, hippies que estavam na cidade de
passagem e no momento bebiam acompanhados por Diego, morador dali mesmo de
Tilcara, norte da Argentina. O sol começava a se por e o vento ia ficando cada
vez mais gelado, enquanto se armava uma feira noturna ao nosso redor, na praça.
Tinha conhecido o Diego mais cedo a caminho da Laguna de los Patos, agora ele
me reconheceu e perguntou se eu tinha gostado do passeio, o que me fez parar
pra conversar com eles. Alonzo disse que não gostava da lagoa, que lhe parecia
só uma poça grande, mas que tinha gostado muito das Cuevas del Wayra e do sítio
arqueológico de Pucará. Eu tinha visitado Pucará também, e de fato, tinha
gostado muito. Era um povoado pré-hispânico muito bem preservado e cheio de
placas informativas com conteúdo interessante – como por exemplo algo sobre
antigos rituais em que se usava cebil, uma planta alucinógena. Foi sobre isso
que perguntei ao Diego antes de me estenderem o copo de aguardente, mas ele apenas
sorriu – e essa foi a única resposta que me deu a respeito da tal planta.
Por
outro lado, acabou falando bastante sobre os nativos da região e sua relação
com a terra, seus pontos de culto e sua cosmologia. Deu praticamente uma
palestra, apesar do álcool enrolar um pouco sua língua, às vezes, e de muitas
mudanças de assuntos e momentos de pura diversão. Clarita estava o tempo todo
fazendo interrupções sem sentido, comentários absurdos do tipo “Eu sou uma
quase-louca que ficou no meio da fonte”, e sempre que isso acontecia, Alonzo
balançava a cabeça olhando pra ela e dizia “Você está fora da órbita”, depois
dava mais um gole generoso em seu copo de aguardente. Não lembro exatamente
como a conversa chegou a questões de certo e errado, limites, culpa, só sei que
a essa altura já tínhamos começado uma segunda garrafa. Diego defendia que
todos os limites e juízos são abstrações, que só existem na cabeça da gente, e
que tudo é permitido nos desejos e na imaginação: internamente somos absolutamente
livres, nem tinha como ser diferente.
Não
lembro quanto tempo durou o assunto e se ainda estávamos nele quando um artista
ambulante tocou Let it be numa flauta
de bambu, mas a conversa se desenrolou até questões mais puramente religiosas,
acontecimentos sobrenaturais e entidades do tipo Exu, que bebem, fumam, falam
palavrão e não se constrangem de dizer que fazem tanto o bem quanto o mal. Citei
uns nomes de Exu que eu conhecia – Tranca Ruas, Caveira, etc – e expliquei mais
ou menos o que ele significava na Umbanda. Alonzo, atento à conversa, mencionou
o medo que os cristãos sentem de entidades como essa; aí o Diego, arregalando
os olhos, olhou pra ele e disse:
–
Pois se eu sou cristão, suponho que acredito em Deus. E se acredito em Deus, então
o que existe pra ter medo?
Isso encerrou a discussão, ficamos todos pensando sobre o que ele tinha
dito. Clarita dançava entre os músicos, rindo como uma louca
completa, e agora a praça estava muito cheia de cores, luzes, sons. O ar gelado fez com que eu me perguntasse se nevaria por lá, e em seguida considerei o fato de que a
região era bastante seca. A embriaguez se afastou um pouco e deu lugar a uma
sensação recorrente desde que eu tinha chegado a Tilcara: um certo assombro
pelo quanto a paisagem toda me era familiar. Deduzi que eu tivesse morado ali
em uma encarnação anterior, só podia ser isso, na hora achei que era
indiscutível. E parecia que nada no mundo fazia mais sentido que adorar um deus
do sol, um da montanha, um do vento...
domingo, 22 de abril de 2018
Nascemos em violência, arrancados, expulsos, com violência aprendemos a andar, num desafio ao chão, da nossa força se fez a estrada, o trigo antes do pão, a pedra antes do abrigo, da minha luta eu fiz crescer sete filhos, mais quatro que ficaram no caminho, por violência atravessamos a vida, amamos, sofremos, em violência deixaremos a vida, há violência em que sejamos esquecidos, há violência em que não sejamos, no que não atende à nossa vontade, em ter vontades, é violento existir, quando alguém mais se dá o direito de violentar nossa vontade, é violento resistir, é violento que tenhamos perdurado.
quarta-feira, 11 de abril de 2018
(comece
pelo 2o parágrafo, volte para o 1o e depois pule para o 3o e siga adiante)
- como
aquele menino é parecido com o Fabiano, e aquela moça é igualzinha à Cristina
quando tinha dezesseis, e que saudade da Cristina aos dezesseis, e do Fabiano,
e de todos os passados bons que tive, e de outros que inventei, saudade que às
vezes é um sopro suave já passa, às vezes é ter o coração arrancado a unhas às
seis horas da manhã, quando o despertador toca. <///>
- etapas
da cidade, a cor do céu sobre o asfalto em ruas comerciais e
residenciais várias quadras de cima abaixo aquela distância do horizonte no
Planalto Central meio verde meio já Goiás e meio ainda DF. Semanas inteiras
pensando em cachoeiras de Pirenópolis ou da Chapada, aquela água fria no verão
sem chuva, Jardim Céu Azul, uma igreja em construção da poeira vermelha, o fim
da linha de um ônibus, apenas uma quarta-feira. Aqui teu sonho é muito branco,
muito burguês – imaginei que diriam os olhos daquele menino, e como aquele
menino é parecido com o Fabiano...
<///>
– Aqui é a Terceira Etapa? – perguntei. – Céu Azul? – O menino me olhou com uma
cara que parecia que era um raio x com um detector de metais e
de mentiras mais uma investigação completa da minha vida, e tudo isso só me
olhando.
Dez horas
da manhã e eu me lembrei do jeito que a Cristina cantava Asa Branca.
Este planalto é o sertão, longe demais de tudo.
E eu gosto, não gosto, não entendo. Aquela praça ali parece uma de Porto
Alegre, aquele prédio parece um outro em que eu morava em BH. Aqui meio que é
todo mundo estrangeiro, mas meio que nem todo mundo é. O horizonte grande
demais também oprime às vezes; estranhos familiares ainda são estranhos; nem
tudo são cartazes de boas-vindas. Tenho que caminhar talvez mais alguns
quilômetros, e faz muito calor, mas o menino confirmou que estou no bairro
certo – meio resmungando, sem desfazer a expressão de desconfiança, mas
confirmou. Jardim Céu Azul em Valparaíso de Goiás, no auge do verão. Algumas ruas
acima, estarei no Distrito Federal, hoje só um palco de comédias tristes com roteiristas esnobes. No calor do cerrado. Tão no centro de tudo, dentro demais de tudo.
E ainda. Tão. Longe.
sábado, 7 de abril de 2018
Na casa vazia, o vento era a voz de Verônica, até meio quente,
escorrendo na concha do ouvido. Falava em filmes do Fellini, versos do Ginsberg,
coisas que eu não entendia, coisas que eu entendia bem, coisas que tanto fazia
escutar ou não. Às vezes vinha com o Vinícius, quase sempre com um vinho, às
vezes com um bom livro ou um bom som. No silêncio da casa vazia, a solidão
parecia a presença de Antônia ou de seu filho Felipe, ou de Manfred, o cão, ou
de Marina meia beba atirada no sofá da sala, e tantas outras vidas que se
misturaram com a minha, mais todas as que não se misturaram nunca, ainda que
estivessem lá, bebessem meu café. Na casa já velha havia o vazio que vinha
então com cara de menino, só pra jogar um videogame ou pra brincar com Manfred,
o cão, sempre às segundas e quintas-feiras perto das cinco, quando voltava da
escola, e me dizia do seu amor platônico pela afilhada de uma prima minha, e
acreditava em quase tudo que lia na internet, mas não gostava de ler, e ficava
comigo muitas vezes até quase a hora de dormir. E tinha um vazio que não cabia
na casa, a falta dos tempos de Maria Luiza, Maria, querida Maria que se
espalhava tanto pelo espaço e pelas horas, tanto, tanto que agora não era nem possível
que já não estivesse mais ali em lugar nenhum, nem mais um pedacinho de Maria,
vazio que não podia ser, mesmo que um vazio assim, a olhos vistos.
sábado, 31 de março de 2018
Aos doze anos, Jéssica teve uma briga feia com os pais
bem no centro da cidade. Ficou tão enfurecida que não só berrou que ia fugir,
como costumava fazer sempre, como realmente embarcou em um ônibus de linha que
estava passando por ali e desapareceu antes que os pais pudessem fazer qualquer
coisa pra impedir. Pagou sua passagem e foi se sentar bem ao fundo, na última
fileira de assentos, onde chorou de raiva com o rosto virado pra janela durante
muito tempo antes de começar a se preocupar com onde estava e pra onde estava
indo. Calculou que o melhor a fazer então era esperar o ônibus dar um giro
completo em seu trajeto e desembarcar de volta onde embarcou, onde talvez seus
pais ainda esperassem por ela. Mas quanto mais o ônibus demorava pra fazer a
volta e avançava por ruazinhas estreitas de bairros desconhecidos, mais a
pequena Jessica sentia medo e pensava na possibilidade terrível de nunca mais
rever os pais. Já estava quase em desespero quando reparou em um menino que se
aproximou com a família e acabou se sentando bem ao lado dela. Era bonito e
parecia tão seguro e tão alegre que ela teve vontade de falar com ele. E teve a
impressão de que ele também tinha reparado nela, que ele também tinha vontade
de falar com ela, e mais: havia alguma coisa na forma como os corpos deles iam
sendo jogados um contra o outro pelo movimento do ônibus, alguma coisa que fazia
com que ela quisesse se entregar, abandonar totalmente o controle e nunca mais
parar de sentir o toque da pele daquele garoto. Não entendia muito bem aquilo
tudo, mas sabia que estava apaixonada. Já tinha imaginado toda uma vida de
casamento, filhos, casa com cerquinha branca e um cachorro, quando o ônibus
parou em um terminal e todos os passageiros começaram a desembarcar. Jéssica
ficou sentada, vendo todos saírem, e gostou de saber que o menino estava se
deixando ficar por último na fila do desembarque. Arrastava os pés pelo
corredor, andando devagar e sem vontade, até que finalmente, quando todos os
passageiros desceram e só restavam os dois dentro do ônibus, ele se virou pra
trás e olhou diretamente pra ela, meio sem entender também, mas fascinado. Ela
achou que o tempo tinha parado, ficou olhando pro menino e se perguntando como
era possível um menino tão lindo ali parado olhando pra ela também. Depois do
que pareceu uma eternidade, alguém chamou por ele, um nome que ela não ouviu, e
ele desapareceu correndo porta afora. Então ela nos conta que, sozinha ali no
ônibus, sem saber se ele voltaria a andar ou como se comunicar com os pais, perdida,
assustada, mesmo assim, sua única preocupação era que o menino tinha ido embora
sem que ela tivesse tido coragem de falar com ele, e em vez de rezar a Deus ou
pedir ajuda a alguém pra voltar pra casa, ela só conseguia repetir a si mesma, sonhando
que ele ouviria: Me perdoa... por favor, por favor, me perdoa.
sexta-feira, 23 de março de 2018
Preciso urgentemente de ir pro século dezenove
Ou menos
Cê tinha que ter visto aquela vida real
Penso nisso toda vez que escuto esse
assoviozinho do whatsapp
Cê não tem a menor ideia do que é o tempo
Dias semanas meses enxergando só a mesma
paisagem
Como um papel de parede sem nenhum ícone pra
clicar
Cê tinha que ter aprendido aquele espaço
Cê não sabe nada do que é vida de verdade
De tanto que não para no teu corpo
Não
Cê acha que não custa nada
Mas tua urgência ainda é maior e pior que a
minha
Cê precisa de no mínimo uns quinhentos likes na
tua máscara
Comentar o vídeo de uma banda russa que faz
bossa-nova com instrumentos árabes
Pesquisar o significado de “Butô” comprar
comida assistir filme
Dizer pra todo mundo o que cê pensa sobre isso
Tão inteligente
E cê não faz nenhuma ideia
Se sentisse só uma parte do tédio que eu sinto
Voltaria correndo comigo
Pro século dezenove antes de Cristo
Ou antes
domingo, 18 de março de 2018
nota extraordinária
marginal
meu país está morrendo
a tiros, no centro da cidade
Cidadãos de bem seguem lavando as mãos, mas vejam bem, os ricos estão mais ricos. Nenhum soldado revistando seus filhos a caminho da escola, nenhuma violência explícita em seu quintal. Nenhum grito ecoando no morro alcança os castelos de suas ilhas, não veem que todos veem ou veem e já não se importam em expor toda a brutalidade, tanta boçalidade, a falta do amor cristão de que se envaidecem e se vangloriam na postagem seguinte, não, não está tudo bem que se declare abertamente apoio a um assassinato, nada justifica o sangue derramado, nada justifica, nada.
Minha raiva escorre nas palavras, ressoam os sinos da guerra e continuo não querendo ter que pegar em armas, mas tem muito peso nessas malas, é muita lágrima borrando essa paisagem. Não posso deixar que o mundo siga desse jeito, não posso aceitar que a humanidade a que eu pertenço seja essa. Não posso. Não vou.
Nossa esperança à prova de balas, o abraço acolhedor enviado a quem sofre, aquela multidão pelas ruas irradiando a chama ainda acesa de uma ideia imortal, sou eu, somos milhares.
E estamos de volta, agora. Esta é a programação normal.
sábado, 17 de março de 2018
Você
ganhou mais uma chance.
Hoje
tem
mel e tem balanço da rede.
tem
rio tem uma luz jovem brincando.
Você
percebe
depois
de tanto tempo uma alegria tão calma
se
espalhando pelos cantos
(pelas
canções).
pelos
poros.
Tuas
mãos se abrem – você não consegue ver, mas
passou
um anjo de muitas cores,
deixou
nelas o azul.
Sólido.
O
horizonte inteiro te abraça, a fonte que jorra está
dentro
do teu coração lavado.
Você
ganhou.
Dance.
sábado, 10 de março de 2018
Eu costumava sorrir durante o voo. Fechava os olhos,
uma vez me deixei cair até quase o chão, vertigem, vício de vento no rosto. Eu
costumava sorrir no alto da torre. Eu costumava sorrir quando percebia o barco
se soltar do cais, o rum enchendo os porões, o vasto horizonte aberto e uma
liberdade a velas. Não sorria muito quando voltava da caçada sem nada além de
botas sujas, mas apesar da barriga doendo, eu tinha que limpar o piso todo de
novo. Não sorria entre as bombas, nem entrincheirado, não sorria acusado de
crimes que eu já tinha visto os meus acusadores todos cometer com indiferença.
Sonhava em lençóis de seda ou quando dormia no estábulo, sozinho ou embalado
pelo som do coração de Guadalupe, olhando estrelas eu sonhava, era feliz,
jamais desacreditei da felicidade. Andei esquecido dela em campos devastados,
garimpos e sertões em que acordei tantas noites com a boca seca e coberto de
suor, num susto e com medo de lembrar por quê. Mas costumava sorrir sempre que me
lembrava de ter sido criança ou via as crianças sonharem ou sonhava que a Via
Láctea era uma estrada de luz que eu percorria com um cavalo alado, e frutas
frescas me bastavam, eu costumava sorrir acompanhado, nada no mundo me fazia
mais feliz do que sorrir acompanhado. Das sensações de traição e de abandono,
tive a parte que me coube, uma porção amarga de escuridão da noite mais escura.
Sobrevivi pra contar, não pra acertar as contas. Teve um tempo em que ninguém
mais vinha me chamar pra um passeio na praia ou trazer doces nem nada, a tinta descascou
nas paredes e tinha folhas secas pelo chão do meu quarto, e às vezes parecia
que sonhar, nesse tempo, tinha um gosto de inútil. Mas eu costumava sonhar
mesmo assim com o gosto de inútil, sentado em silêncio à varanda de tábuas, a
cuia do mate na mão e a chaleira ao lado, um cobertor nas pernas contra o vento
sul, o céu sem desabar, as pálpebras pesadas.
sábado, 3 de março de 2018
Esses arcos coloridos na grama do parque. Córdoba,
Argentina, um sábado qualquer em 2009 ou 2010. Fomos passear com as crianças e
encontramos a Paola e o Gustavo, a Paola estava sentada num desses arcos. Eles
tem alguma coisa a ver com o tempo, cada um deles tem o número de um ano
gravado, 1896, 1897, e assim por diante. Não sei em que ano começa e em que ano
termina. É um túnel do tempo e a Paola estava lá e a gente foi falar com eles e
o Gustavo contou que ela estava grávida, as crianças ficaram animadíssimas.
Gustavo disse que ele e a Paola estavam felizes, a gente viu, nem precisava ter
dito. Falamos de como estava sendo a vida em Córdoba, das crianças, das
saudades do interior. A tarde estava quase no fim, as crianças cansaram de
correr pelo túnel do tempo e a gente foi comer um pancho ali perto. A Paola
puxou uma conversa sobre universos paralelos, uma história de cientistas que
levavam essa ideia a sério e dos que inventaram uma teoria que tem alguma
relação com isso chamada teoria das cordas, ou eram supercordas. Rendeu um bom
tempo essa conversa, minha mulher adorou, até as crianças prestaram atenção.
Gustavo brincou dizendo que morria de medo de dormir uma noite e na manhã
seguinte acordar num universo paralelo em que ele fosse chileno ou brasileiro
ou coisa pior, se é que existe coisa pior que brasileiro. E a Paola falou Sei
lá, depende do brasileiro. A nena dormiu antes de chegarmos de volta ao carro,
bem na hora que se apagava o último restinho de luz do dia, e a gente voltou
pra casa todo mundo em silêncio, cinco universinhos paralelos no carro
mergulhados no ar de sono, de sonho e de cidade.
domingo, 25 de fevereiro de 2018
Me
ajuda a ver, mal sei pra onde olhar, em quantas dimensões há luz, e cor, e
movimento?
Um
raciocínio se perdeu, não há pra onde voltar, há tempos eu venho dizendo, me
resta ser dispersão? silêncio? as mesmas palavras?
Acabo
me perguntando pra quem eu tenho que dar tchau, quem eu tenho que cumprimentar
na rua, o que afinal é ser humano, que diferença isso faz.
De
quantas formas se pode rir e chorar (me ajuda a rir e chorar, nem uma coisa nem
outra, rir, chorar, as duas coisas), de quantas formas se pode ser, estar,
perceber, passar?
Em
quantas dimensões há coração, calor, corujas diurnas, sundaes de morango,
piscinas naturais, canetas hidrocor, ponche, lantejoulas, quartzo rosa,
mantras, edredom?
E
se ninguém estiver lá quando eu chegar? e se o caminho é só o que importa? e
se? mas e se não?
Me ajuda a ir, e só,
não quero mais que essa presença fluida, não quero mais querer, nem ter, nem
precisar, me ajuda a conhecer e a compreender em todas as versões de mim, sem
divisões, as diversões das dimensões diversas, se for possível assim, me deixa
ir e eu vou contigo até onde acaba, contente acho até, cantando.
Assinar:
Postagens (Atom)





