sábado, 4 de agosto de 2018
sábado, 28 de julho de 2018
Esperava que as
palavras.
Nunca.
A substância sem forma
do sentir.
Porque tua boca,
porque eu.
Verdade, eu procurava
por
perdão, eu que matei
com estas mesmas mãos
amor e culpa e tudo o que inventei
e vi morrer assim toda
esperança e nunca adivinhei
talvez nenhum.
Tropeço,
vaidade do sim.
Queria que um gesto,
um abraço, um adeus.
Ainda naquele tempo em
que
nunca passou.
Mas esperava que
agora, ou não sei, ou
pra sempre, afinal,
quando for.
sábado, 21 de julho de 2018
- já tantas vezes mil
milhares já bilhões de vezes eu enlouqueci e não era amor nem anjos me
abraçavam, bobo em pele de cordeiro, a ausência acumulou nos poros e mais nada
respirava a não ser noite absurdo amargo inverno ou ódio, sim, a solidão
despedaçava abraços e eu queria apenas o meu ouro ou minha glória, talvez
ambos, nunca a minha vida ou minha paz inteiras, ainda me lembro bem, e sei de
cor o mal que faz quando nos falta amor ou falta amar ou faltam ambos, mil,
milhares, bilhões de vezes qualquer
coisa aqui dentro de nós morre e mata e nos maltrata ainda mais na longa marcha
em direção ao nada onde ainda, ainda, ainda erguemos a cabeça em guerra e por
orgulho ou fábula, pura matéria, toda a pura gravidade inescapável e sem fim das
eras e das horas.
sábado, 14 de julho de 2018
Terrabela, 25 de julho
de 2012
Marina;
Não entendo você achar
que eu possa estar arrependido. Essas feridas abertas, esse perrengue todo que
estou passando não são nada perto de uma vida sem você – achei que estivesse
claro.
Uma vida de mentira e
crueldade, foi o que deixei pra trás. Eu estava era me arrastando por aí,
covarde demais pra sair das sombras, já nem acreditava no amor, você sabe.
Quando te conheci, a impressão que eu tinha era de que a felicidade me
espreitava como uma fera na selva, salivando, mirando meu coração pela
garganta. Já não tinha mais como escapar. E eu tinha medo, sim, mas ao mesmo
tempo nem queria escapar. Não temos culpa desses corações de pedra à nossa
volta, desse ódio à alegria, dessa gente meio morta querendo nos castigar por
não sermos eles, por fazer tudo à nossa maneira. Gosto da pessoa que me tornei,
nem conseguiria mais ser outra e quero mais é que todos saibam logo de uma vez,
que todos vejam que é por você, que é só porque eu te amo.
Só porque eu quero
olhar o teu sorriso se espalhando. Quero te ver gostar, não sei, quero te
assimilar porque me convenceu a tua razão de ser, e é só porque você dança bem,
não foi por nada não, foi por um milhão de motivos e até agora nenhum deles me
desenganou, foi só porque sim. Faria tudo outra vez, iria até o fim, como fui,
vou até o fim e estou indo, vou fazer o que for pra ver de novo outra vez ficar
revendo repetidamente o céu noturno do teu olho, toda noite, de pertinho, esse
universo com mundos demais pra gente conseguir contar.
Agora não é mais
questão de acreditar: a gente sabe, simplesmente. A gente sente. A gente é.
Porque você está comigo em todos os momentos de alegria – e não pra que só
existam eles, ou pra te pedir que sempre faça eles acontecerem – mas porque
você também está comigo quando eles não existem e isso já resolve tanta coisa,
sabe, não sei se me explico bem, não sei se é coisa que se explique, só sei que
é com você e que é sempre que você está, e que eu quero mais é que você esteja
mesmo, e seja sempre muito mais, e continue sendo.
domingo, 8 de julho de 2018
sábado, 30 de junho de 2018
Tinha essa mancha de
sol na grama, folhas, frio – sobras do outono – e pássaros. Já não se usava
andar de pés descalços e muito se falava sobre urgência e desperdício. Você vê:
tinha o poente e casais de mãos dadas, e assovios e gritos dos desesperados e
saudades passeando e era sábado. Você bem sabe. Ninguém voltaria a tempo de
encontrar-se. Tinha esses ruídos e cores que se enfrentavam. Já não se
acreditava mais em melodias e em palavras – sim, sobretudo não se acreditava
nas palavras – tinha aquela mancha de sombra das árvores sobre a grama e tinha
pedras e tinha barro. Você quer muito ser o sonho bom? Você percebe tudo o que
se perde no intervalo? Sim, era sábado, tinha esse tom de alguma coisa às
claras, mas ao mesmo tempo um de viver às cegas. como uma brisa fria. como uma
andorinha só, fazendo inverno.
sábado, 23 de junho de 2018
Depois de várias promessas e desencontros, chegou o dia em que Joaquin veio me contar a experiência mais
inacreditável de sua vida envolvendo coincidências. Aconteceu quando ele era ainda muito jovem e
estava em uma cidadezinha no interior do Rio Grande do Sul, meio acampado,
fritando hambúrgueres numa lanchonete antes de continuar sua viagem de volta para casa. Lá, ele conheceu um rapaz mais ou menos da nossa idade chamado Antero e os dois logo ficaram muito amigos, trocando histórias sobre viagens, livros, mulheres, etc. Descobriram
que tinham em comum a paixão pela ideia de fazer cinema e de criar histórias
que eles sonhavam em um dia escrever, dirigir e quem sabe até protagonizar. A melhor
ideia de Antero, na opinião de Joaquin, era a de um curta-metragem sobre um
cara que encontrava um papel na rua com um número de telefone e decidia
ligar, acabava conhecendo uma mulher e, a partir daí, se desenrolava uma história de suspense, comédia e romance. A melhor ideia de Joaquin, na opinião
de Antero, era um filme de viagem ao longo da Cordilheira dos Andes com ótimas
tiradas de humor, como, por exemplo, o caso de um personagem chamado Jorge
Flores.
Jorge Flores não
apareceria no filme. Era assim: algumas vezes, o protagonista seria mostrado em
rodoviárias – esperando ônibus, dormindo em bancos, na lanchonete ou fazendo
qualquer outra coisa – e todas as vezes que isso acontecesse, de alguma
forma, o nome de Jorge Flores seria mencionado: ou na plaquinha de alguém
esperando por um passageiro no desembarque, ou sendo chamado pelos
autofalantes, ou escrito a caneta na porta de um banheiro, etc. Joaquin jurava
que algo assim tinha acontecido de verdade com ele, e que até então aquela
tinha sido a experiência mais inacreditável de sua vida envolvendo
coincidências – mas que na versão real, pra ser sincero, as rodoviárias não
ficavam aos pés da Cordilheira, mas no Brasil, e o nome que se repetia nas
rodoviárias não era Jorge Flores, mas um em que Joaquin não via graça nenhuma, por isso resolveu mudar.
Quando se cansou de
fritar hambúrgueres naquela cidade e quis pôr o pé na estrada outra vez,
Joaquin lamentou poucas coisas além de ter que se despedir de Antero. No dia em
que foi embora, andava em direção à rodoviária pensando no amigo e se lembrou
das histórias dos filmes só um instante antes de enxergar um pedacinho de papel
caído na calçada. Sem hesitar, abaixou-se para pegá-lo e, para sua surpresa,
sim, claro, era exatamente um número de telefone que estava nele – acompanhado
da palavra “salgadinhos”.
Por algum acaso que
ninguém saberia explicar, Joaquin tinha no bolso uma ficha telefônica, e ali,
logo em frente, estava um telefone público. Joaquin mal estava pensando, apenas
tirou o fone do gancho, colocou a ficha e discou o número. Ouviu um toque de
chamada, dois toques, cinco, toques demais e então já estava quase
desligando quando Alô, Alô quem é, Queria falar com quem? Era uma voz de
mulher, parecia velha, cansada e autoritária. Joaquin pigarreou, Estou ligando
por causa dos salgadinhos, ele disse, e a mulher do outro lado ficou brava e
disse que Esse assunto eu resolvi diretamente com o próprio senhor Jorge
Flores, oras, passar bem.
E desligou.
Aquele barulhinho da
ligação caindo, sabe, Joaquin diz que doeu.
E eu acreditava,
mesmo, que sim. Mas também a dor me parecia um detalhe até sem importância no
meio daquilo tudo. Até porque eu tinha essa informação a mais sobre a
história e ela estava me roubando os pensamentos: o fato de que, pelas descrições
que Joaquin fazia (e Joaquin sempre fazia descrições com muita riqueza de
detalhes) o Antero de sua história era exatamente aquele que eu fui conhecer
anos mais tarde em Machu Picchu e com quem vivi uma série de aventuras.
Olha aqui, Joaquin –
falei depois de alguns segundos de silêncio de perplexidade – deixa eu te
contar uma coisa: essa é, de longe, a experiência mais inacreditável da tua
vida envolvendo coincidências.
domingo, 17 de junho de 2018
Tinha quebrado um vaso, tinha cacos de vidro no
chão e bem naquela hora o nenê tava chorando de um jeito que parecia que o
mundo ia acabar pra ele o infeliz, e era uma jovem de cabelos negros e longos
debruçada à janela com um vestido de flor e tinha água, não sei, tinha muita
água pelo chão, nuvens cor de chumbo escureceram o céu mas perto do horizonte
ainda tinha algum azul, e espelhos giravam e cabelos ruivos e gêmeos e
aposentos reais num castelo alguém dizendo adeus ou coisas sábias, houve um
tempo, talvez, houve um longo intervalo de tempo, tecidos dourados, uma menina
triste aconchegada no colo do avô, o peso de uma ausência, como agora, esses
vazios que há nas mensagens de voz ou vídeos sem verdades, telefones que não
tocam e aquela velha impressão de estar pagando pelos erros do mundo todo
quando acaba a tinta, o tom, a tela, tinha um pincel pousado inutilmente e
tinha um coração desencantado e tinha um mar, ou mais ou menos, ou então era um
daqueles dias em que não se via nada.
sábado, 9 de junho de 2018
Só
me lembro de enxergar debaixo d’água. Não de me desesperar, nem de sentir o ar
faltando, nada: só me lembro da luz, de como os raios do sol se espalhavam a
partir da superfície e iam afundando em direção ao nada, até sumir. É, dá pra
explicar desse mesmo jeito o que estava acontecendo na minha cabeça: afundando
em direção ao nada.
todo
um poema acontecendo aqui e você pedindo outra colheita de crimes. eu é que não
vou morrer de novo só porque as tuas palavras aleatórias são aleatoriamente bem
mais importantes do que as minhas. pra você, isso não quer dizer nada, mas
agora eu só consigo pensar que só umas poucas letras embaralhadas diferenciam
confronto de conforto.
Escuto
o som dos motores dos carros, caminhões e motos que passam pela estrada ainda a
esta hora. E de repente, então, correntes contra as grades, passos na escadaria
do prédio e o clic da luz acendendo, chaves, uma chave arranhando a porta e logo em seguida o molho inteiro de chaves caindo no chão, silêncio. Não pode ser ela,
eu penso, ela não vem, é claro. Algum vizinho está bêbado.
Não
me lembrava de nada: nem do meu nome, nem de ter existido antes de acordar
naquela cama de hospital. Os primeiros dias foram os piores, porque qualquer
coisa que passasse pela minha cabeça poderia ser algo que eu tivesse vivido. Cenas
de filmes, sonhos, pesadelos, qualquer coisa. Passei dias acreditando, por
exemplo, que eu tivesse mulher e filhos me esperando preocupados no interior do
Tocantins.
Sabe aquela sensação
de quando você chega na padaria de manhã bem cedo e o pão acabou de sair do
forno?
sexta-feira, 1 de junho de 2018
Às vezes é inevitável respirar
o ar envenenado de melancolia
porque o relógio é único demais
pra tantos
segundos
passados.
Às vezes é tão simples:
o que passou, passou,
menos as frases feitas
e o medo de fantasmas.
Às vezes a sede
de nos virarmos pra trás
vem simplesmente do receio
de há muito tempo termos virado
estátuas de sal.
sexta-feira, 25 de maio de 2018
Eu bem que pedi pra ele: não faça a tua poesia triste hoje não. No outro
quarto tem uma menina enrolada num cobertor, pensando na morte. Faça uma
daquelas profecias sobre quando o amor vencer, ou música alegre, ou reze, mas
pelo amor de Deus, não faça a tua poesia triste hoje não. Amanheceu chovendo,
fez frio, tem coração demais que já perdeu a fé, tem fé errada demais
justificando maldade, faça um bolo de frutas, uma escultura de barro, berre,
assista a um filme bobo qualquer. Mas por favor, por favor, não faça a tua poesia
triste hoje não.
Porque são três da madrugada estou pensando em dormir e tenho tantas
coisas pra pensar vou colocar umas vírgulas aqui pra facilitar mas não tem nada
disso no meu pensamento é mais uma linha reta através de universos paralelos
que às vezes muda totalmente a direção ou para de repente por exemplo acho que
esse para não podia ter perdido o acento na última reforma ortográfica, pára,
tá vendo, bem mais fácil de entender, ou antes eu tava escrevendo assim vou por
umas vírgulas aqui mas aí achei melhor escrever vou colocar umas vírgulas
porque sem acento em pôr também ia ficar difícil de entender tipo eu vou por
umas vírgulas pode ser lido como eu to indo através das vírgulas entende, é
tudo tão difícil de entender, mas eu que nunca pensei como deveria eu acho,
sempre tive a própria cabeça e isso custa a própria cabeça às vezes, sei que eu
preciso mudar alguns comportamentos mas não tô muito ansiosa pra fazer concessões
a coisas que eu desprezo no mundo dito civilizado, é tanto despropósito sei lá,
queria no mínimo guardar umas rezas pra quando isso acontecer porque meu
coração aperta e vai ficando tão pequenininho toda vez que eu penso nisso e me
pergunto será mesmo deus do céu não pode ser não é possível é isso mesmo que
inventaram que precisa ser e todo mundo acha tão lindo né só pode, ou por que
que só não junta todo mundo e fala pára porra a gente não vai mais ser desse
jeito e ponto final é a gente que decide ou não é caramba, sem essa de que as
coisas são assim qual é mas que burrice, só que não, nada acontece e eu tenho
que engolir que sou eu que tô errada mesmo e ninguém liga quando a dor é dos
outros, uma novela interminável daquelas que sou eu quem chora entende, e só
porque eu não quero mais ser obrigada, nem fingir que não sangro, não quero mais
fingir que não morro ou que não vivo e não quero mais ter fingir coisa nenhuma
saco. E aí quem é que dorme, com esse buzinaço na cabeça da gente. Ou no
silêncio denso de um cortejo infinito, lá na frente o meu máximo potencial
humano assassinado muito bem vestido em um caixão e as ruas tomadas por
miseráveis recortes de mim, eus alternativos andando devagar desolados
desiludidos desamparados com velinhas bobas pingando cera em suas mãos. Ah,
estou perdida de novo, aí fico olhando as luzes dos carros brancas escorrendo
no meu teto branco escorrendo devagar em branco às vezes rápido escorrendo eu
pensando só num dia que não vem que não virá que eu não verei que desperdício
de estar indo eu penso então por que estar indo hem por nada. Nem dá pra ser
brutal só com os brutos não que ideia boba ultrapassada, a brutalidade há muito
tempo que ela é pré-requisito, brutalidade é o novo preto, brutalidade é amor
brutalidade é nóis a gente assistindo nem se importa mais se é só outro filme
horrível passando à tarde ou um programa policial ou um desconhecido de olhos
injetados esmurrando a porta. Por entre os dedos cobertos de sangue você vê o
corpo no chão da tua sala e descobre ainda sem culpa que o inimigo não era
aquele, ops você diz, mas tudo bem muda o canal e relaxa pensando que os gritos
de guerra soam tão bonitos até mesmo se você não tem um cinco ponto um surround
system, mas você precisa tanto ter um cinco ponto um surround system é essa a
tua necessidade mais vital nesse ridículo da nossa era, todo um cinismo
reinante e já despreocupado em se dissimular sendo aplaudido eleito retuitado
um eco percorrendo as ruas da cidade em só mais uma só mais outra só mais esta
madrugada iluminada e barulhenta e oca e sem alívio, quem é que dorme com essas
cortinas balançando a brisa em minhas mãos cruzadas sobre o coração exausto eu
penso que os poetas são tão bons em convocar à luta, poetas são tão bons em
traduzir motivos pra luta e eu não quero nem saber sim bem que eu queria mas
não sei se eu quero que me contem onde estão banidos e ridicularizados os que
um dia já souberam só fazer dormir talvez sonhar segura e quieta uma criança da
minha idade.
sábado, 19 de maio de 2018
Não
seria importante.
Sábado.
Os
ruídos eram poucos e chovia,
estava
começando o outono,
esfriou
um pouco desde ontem e chovia à tarde. No asfalto, escorrendo pelos prédios e
escorregadores dos parquinhos uma chuva cinza de concreto fria e sem vontade, não
seria nada. Um
figurante
de
uma cena que ficou de fora na hora da edição,
não
acrescentava nada,
nem
se debruçaram à janela pra vê-lo acenando, adeus,
talvez
ninguém mais saísse de casa e as lojas estivessem fechadas e os cachorros
escondidos e dormissem nos sofás com as televisões desligadas.
Passaria.
Seria
esquecido.
Voltaria
a acontecer e não seria lembrado.
Uma
cidade sem fim de calçadas e grafites, árvores úmidas e um dois três quatro milhões
de pares de mãos enluvadas ou nos bolsos, uma espera inútil de quando já não
falte nada,
uma
espera esquecida de si,
quase-mudez,
friozinho.
sábado, 12 de maio de 2018
Da história que vamos contar juntos, quem vai se lembrar das flores de
ouvido, de que ela estava me convencendo a adotar um filhotinho de tigre, de um
passeio de carro em que a sombra de um pássaro escorria pelo asfalto bem à
nossa frente, de quando levantamos um castelo de água, de quando choveu e a
gente estava em um barco sem teto mas ela não se molhou porque tinha uma
capa de chuva enquanto eu passava frio sem saber que a água do mar estava
quente, de quando faltou luz e estávamos no alto da roda gigante, de como o céu
estava escuro por causa das nuvens, daquele pedacinho de céu sem nuvens e lá,
bem no meio dele, exatamente, as Três Marias, da tempestade que caiu na
estrada, de quando atravessei a estrada no escuro enxergando só com a luz da
vela que ela me emprestou, de quando atravessamos a estrada debaixo do sol desesperado
do meio-dia e quando chegamos em casa tiramos toda a roupa e dormimos até o
meio da tarde, na história que vamos contar juntos estaremos abraçados e
confortáveis na mesma espreguiçadeira, sorrindo e falando tudo muito devagar,
como pra descansar quem escuta, e por gostar da paisagem.
Vai ter amor, sim.
Vai ter amanhã, vai ter paz, sim, na
tevê e fora dela, na favela, na floresta, no beco, à beira d'água. Vai ter paz
e vai ter amor, e vai ter alguém estendendo a mão pra ajudar quando for
preciso, sim, vai ter irmão, e também vai ter convite pra festa. Sorriso e
abraço, música, brindes, um barulhinho bom até tarde. Vai ter alegria, sim.
Risada. Pele. Gosto.
Vai ter amor, sim.
sexta-feira, 4 de maio de 2018
mas com que esperança, ou com o quê?
(pra onde estou indo?, perguntei
e quando levantei os olhos vi:
teu olhar repousando em mim)
o desejo, afinal,
(sussurrei pra ninguém no escuro daquela noite)
o desejo, afinal, é só uma das muitas faces do amor
– e eu te vejo se espalhando em todos os espelhos
devagar
devagar
e viva
de uma semente recém posta sob a terra
espreguiçando em direção à superfície a sua metamorfose milagrosa
de uma serenidade atenta
de uma serenidade atenta
de uma avidez atenta
lentamente
reconhecendo
ao redor do meu discurso anárquico
ao redor do meu discurso anárquico
no coração da minha dispersão cansada
teu rosto, aquele
ponto
exato
exato
(no vasto horizonte)
em direção ao qual, sem notar
tenho sido
quinta-feira, 26 de abril de 2018
Aceitei
o copo de aguardente que o casal simpático me oferecia. Fui me sentar ao lado
deles no cercado de concreto de um canteiro, Alonzo e Clarita, hippies que estavam na cidade de
passagem e no momento bebiam acompanhados por Diego, morador dali mesmo de
Tilcara, norte da Argentina. O sol começava a se por e o vento ia ficando cada
vez mais gelado, enquanto se armava uma feira noturna ao nosso redor, na praça.
Tinha conhecido o Diego mais cedo a caminho da Laguna de los Patos, agora ele
me reconheceu e perguntou se eu tinha gostado do passeio, o que me fez parar
pra conversar com eles. Alonzo disse que não gostava da lagoa, que lhe parecia
só uma poça grande, mas que tinha gostado muito das Cuevas del Wayra e do sítio
arqueológico de Pucará. Eu tinha visitado Pucará também, e de fato, tinha
gostado muito. Era um povoado pré-hispânico muito bem preservado e cheio de
placas informativas com conteúdo interessante – como por exemplo algo sobre
antigos rituais em que se usava cebil, uma planta alucinógena. Foi sobre isso
que perguntei ao Diego antes de me estenderem o copo de aguardente, mas ele apenas
sorriu – e essa foi a única resposta que me deu a respeito da tal planta.
Por
outro lado, acabou falando bastante sobre os nativos da região e sua relação
com a terra, seus pontos de culto e sua cosmologia. Deu praticamente uma
palestra, apesar do álcool enrolar um pouco sua língua, às vezes, e de muitas
mudanças de assuntos e momentos de pura diversão. Clarita estava o tempo todo
fazendo interrupções sem sentido, comentários absurdos do tipo “Eu sou uma
quase-louca que ficou no meio da fonte”, e sempre que isso acontecia, Alonzo
balançava a cabeça olhando pra ela e dizia “Você está fora da órbita”, depois
dava mais um gole generoso em seu copo de aguardente. Não lembro exatamente
como a conversa chegou a questões de certo e errado, limites, culpa, só sei que
a essa altura já tínhamos começado uma segunda garrafa. Diego defendia que
todos os limites e juízos são abstrações, que só existem na cabeça da gente, e
que tudo é permitido nos desejos e na imaginação: internamente somos absolutamente
livres, nem tinha como ser diferente.
Não
lembro quanto tempo durou o assunto e se ainda estávamos nele quando um artista
ambulante tocou Let it be numa flauta
de bambu, mas a conversa se desenrolou até questões mais puramente religiosas,
acontecimentos sobrenaturais e entidades do tipo Exu, que bebem, fumam, falam
palavrão e não se constrangem de dizer que fazem tanto o bem quanto o mal. Citei
uns nomes de Exu que eu conhecia – Tranca Ruas, Caveira, etc – e expliquei mais
ou menos o que ele significava na Umbanda. Alonzo, atento à conversa, mencionou
o medo que os cristãos sentem de entidades como essa; aí o Diego, arregalando
os olhos, olhou pra ele e disse:
–
Pois se eu sou cristão, suponho que acredito em Deus. E se acredito em Deus, então
o que existe pra ter medo?
Isso encerrou a discussão, ficamos todos pensando sobre o que ele tinha
dito. Clarita dançava entre os músicos, rindo como uma louca
completa, e agora a praça estava muito cheia de cores, luzes, sons. O ar gelado fez com que eu me perguntasse se nevaria por lá, e em seguida considerei o fato de que a
região era bastante seca. A embriaguez se afastou um pouco e deu lugar a uma
sensação recorrente desde que eu tinha chegado a Tilcara: um certo assombro
pelo quanto a paisagem toda me era familiar. Deduzi que eu tivesse morado ali
em uma encarnação anterior, só podia ser isso, na hora achei que era
indiscutível. E parecia que nada no mundo fazia mais sentido que adorar um deus
do sol, um da montanha, um do vento...
domingo, 22 de abril de 2018
Nascemos em violência, arrancados, expulsos, com violência aprendemos a andar, num desafio ao chão, da nossa força se fez a estrada, o trigo antes do pão, a pedra antes do abrigo, da minha luta eu fiz crescer sete filhos, mais quatro que ficaram no caminho, por violência atravessamos a vida, amamos, sofremos, em violência deixaremos a vida, há violência em que sejamos esquecidos, há violência em que não sejamos, no que não atende à nossa vontade, em ter vontades, é violento existir, quando alguém mais se dá o direito de violentar nossa vontade, é violento resistir, é violento que tenhamos perdurado.
quarta-feira, 11 de abril de 2018
(comece
pelo 2o parágrafo, volte para o 1o e depois pule para o 3o e siga adiante)
- como
aquele menino é parecido com o Fabiano, e aquela moça é igualzinha à Cristina
quando tinha dezesseis, e que saudade da Cristina aos dezesseis, e do Fabiano,
e de todos os passados bons que tive, e de outros que inventei, saudade que às
vezes é um sopro suave já passa, às vezes é ter o coração arrancado a unhas às
seis horas da manhã, quando o despertador toca. <///>
- etapas
da cidade, a cor do céu sobre o asfalto em ruas comerciais e
residenciais várias quadras de cima abaixo aquela distância do horizonte no
Planalto Central meio verde meio já Goiás e meio ainda DF. Semanas inteiras
pensando em cachoeiras de Pirenópolis ou da Chapada, aquela água fria no verão
sem chuva, Jardim Céu Azul, uma igreja em construção da poeira vermelha, o fim
da linha de um ônibus, apenas uma quarta-feira. Aqui teu sonho é muito branco,
muito burguês – imaginei que diriam os olhos daquele menino, e como aquele
menino é parecido com o Fabiano...
<///>
– Aqui é a Terceira Etapa? – perguntei. – Céu Azul? – O menino me olhou com uma
cara que parecia que era um raio x com um detector de metais e
de mentiras mais uma investigação completa da minha vida, e tudo isso só me
olhando.
Dez horas
da manhã e eu me lembrei do jeito que a Cristina cantava Asa Branca.
Este planalto é o sertão, longe demais de tudo.
E eu gosto, não gosto, não entendo. Aquela praça ali parece uma de Porto
Alegre, aquele prédio parece um outro em que eu morava em BH. Aqui meio que é
todo mundo estrangeiro, mas meio que nem todo mundo é. O horizonte grande
demais também oprime às vezes; estranhos familiares ainda são estranhos; nem
tudo são cartazes de boas-vindas. Tenho que caminhar talvez mais alguns
quilômetros, e faz muito calor, mas o menino confirmou que estou no bairro
certo – meio resmungando, sem desfazer a expressão de desconfiança, mas
confirmou. Jardim Céu Azul em Valparaíso de Goiás, no auge do verão. Algumas ruas
acima, estarei no Distrito Federal, hoje só um palco de comédias tristes com roteiristas esnobes. No calor do cerrado. Tão no centro de tudo, dentro demais de tudo.
E ainda. Tão. Longe.
sábado, 7 de abril de 2018
Na casa vazia, o vento era a voz de Verônica, até meio quente,
escorrendo na concha do ouvido. Falava em filmes do Fellini, versos do Ginsberg,
coisas que eu não entendia, coisas que eu entendia bem, coisas que tanto fazia
escutar ou não. Às vezes vinha com o Vinícius, quase sempre com um vinho, às
vezes com um bom livro ou um bom som. No silêncio da casa vazia, a solidão
parecia a presença de Antônia ou de seu filho Felipe, ou de Manfred, o cão, ou
de Marina meia beba atirada no sofá da sala, e tantas outras vidas que se
misturaram com a minha, mais todas as que não se misturaram nunca, ainda que
estivessem lá, bebessem meu café. Na casa já velha havia o vazio que vinha
então com cara de menino, só pra jogar um videogame ou pra brincar com Manfred,
o cão, sempre às segundas e quintas-feiras perto das cinco, quando voltava da
escola, e me dizia do seu amor platônico pela afilhada de uma prima minha, e
acreditava em quase tudo que lia na internet, mas não gostava de ler, e ficava
comigo muitas vezes até quase a hora de dormir. E tinha um vazio que não cabia
na casa, a falta dos tempos de Maria Luiza, Maria, querida Maria que se
espalhava tanto pelo espaço e pelas horas, tanto, tanto que agora não era nem possível
que já não estivesse mais ali em lugar nenhum, nem mais um pedacinho de Maria,
vazio que não podia ser, mesmo que um vazio assim, a olhos vistos.
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