sábado, 22 de setembro de 2018

se                                     não, esse não é um bom começo

terá que haver um dia de uma compreensão tão límpida

Se você estiver nascendo agora, vai ter que crescer muito rápido em muito pouco tempo. Não são só palavras de chumbo ou são nuvens de chuva, um jeito estranho de falar, um mundo de olhos bem abertos sobre você esperando rápido agora e você ainda nem ontem.

Então quando um passo ou dois passos quando era ainda o chão porque era perto a gente se enrolava em se rolava e laraiá lará laiá. Na sala ou se na lua ou sei lá eu mas entender foi sempre que na carne e sim de tanta gente ser e de existir envelhecendo então que apenas pernas e que estradas indo e que ter corpo indo e indo e indo e indo ir

Haverá um dia. Ou dois, ou toda a eternidade em que amadurecidos só recordaremos e repetiremos e re-rediremos o que ressabemos tanto e tão de novo que de novo mesmo pensaremos que não há mais nada porque nunca houve mesmo e mesmo que a verdade seja que haverá esse dia em que seremos tanto e tão ressidos que então quase desfazidos e quem sabe em prantos só renasceremos.

domingo, 16 de setembro de 2018



Ainda não enxergaram. Estão imersos em si mesmos e não veem. E não percebem absurdos e contradições em seus discursos. Mantenha a espinha ereta ao atravessar o território dos comentários hostis; respire fundo: ficaremos sozinhos se não quisermos agredir ninguém (e não queremos). Teremos que esperar pelo último trem antes da aurora. Conta as moedas: cara fome, coroa um cigarro. Precisava mesmo era de muito mais que só um abraço, mas tenho que reconhecer que é um ótimo começo. Vimos quilômetros e mais quilômetros de campos férteis em almas condenadas pelo descaso – e ainda nos obrigarão a ver safras inteiras desperdiçadas, apodrecendo em inércia. “Quem ganha com isso?” é uma boa pergunta, mas ainda: “Ganha o que?” e “É isso mesmo que é ganhar?”. Nenhum de nós acredita que seja.

Ajeita a mala como um travesseiro, o chão vermelho e sujo da estação nos empurrou até este canto, os aposentos da realeza. Em nada caberão nossos bons sonhos. As luzes são muito fracas, ou piscam, agonizando, e de vez em quando um telefone toca. Enquanto os senhores da História estão ocupados demais pra entender os estragos que sua cegueira faz lá fora. Mas tudo bem: nenhum outro lugar será descanso. Em mil anos, ainda não terá se esgotado essa má vontade toda, nem a desesperança.

Dorme, não há mais nada a fazer agora. Esse ruído, esse ar pesado vem das cenas de um filme ou de um pesadelo, e só. Boatos de que a primavera não virá, nem risos, nem amigos, nem alívio. Nossa ternura já não contamina, povoará a Terra com ausências. Teremos vencido sem orgulho e sem nunca termos banido os ratos, e tudo de que saberemos é do amor. Alguns diriam “pelo menos isso”.

Dorme.

domingo, 9 de setembro de 2018




Às vezes o agora
É um agora em excesso
Ilha deserta no oceano
Uma canoa furada
Às vezes o agora
É demais de agora mesmo
Algum soluço engasgado
Um prato cheio pra fome
Às vezes é agora
Tanto que agora é tão tudo
Que é como se não estivesse
Que aperta um nó de estar sendo
Às vezes agora
E agora que é as vezes
Parece que não passa nada
Ou que é pra sempre o que passa

domingo, 2 de setembro de 2018


A primeira vez que me encontrei com Eva, estávamos na Ponta do Seixas, em João Pessoa, uma praia agradável que é o verdadeiro “Palácio da Alvorada” em território brasileiro, porque é a faixa de terra mais ao leste do país. Em uma mesa composta por sete mochileiros, cada um de um estado diferente, Eva era a única mulher, mas parecia confortável com isso, embora menos falante que os homens. O tema da conversa era desde o início a polarização política que tomava conta do Brasil já naqueles tempos, dominando as redes sociais e trazendo à tona um universo de arrogância e agressividade até então dissimulado. Todos os sete tendíamos à esquerda, em variados graus de engajamento e idealismo, mas mantínhamos o foco da conversa menos em questões partidárias e eleitorais do que em questões morais, especialmente em alguns princípios degenerados do que entendíamos por “direita”.

– Defendem abertamente a Ditadura Militar, – resumiu Pedro – elogiam torturadores e promovem ideologias sexistas, elitistas, racistas, fascistas, todos os piores "istas" que a humanidade já produziu. A esta altura da evolução do conhecimento, da comunicação, não tem nem como dizer que isso é ser conservador: isso é ser retrógrado.

De frente pro mar, no ponto em que estávamos, me ocorreu que, se eu quisesse continuar no Brasil, a única alternativa possível era andando pra trás – mas o fato geográfico não me agradava nem um pouco como metáfora política. No entanto, um impulso natural de acalmar as discussões me fazia procurar um argumento que pudesse temperar aquela exasperação toda. As ondas do mar?... Sim, seria perfeito, se eu quisesse perder todo o respeito que ainda pudesse ter. "Deixe estar", eu teria que dizer, "voltar atrás faz parte do processo de fluir.” Ninguém aceitaria isso melhor do que eu, mesmo se fosse verdade.

– Vá, – disse Antônio, de repente, arrastando sobre a mesa um guardanapo e uma caneta em direção a Eva – me desenhe um mapa até seu coração.

Eva riu.

– Você ia precisar de uns trinta mapas simultâneos – disse. – E ainda assim...

"Mapa não é território", completei mentalmente. E só então reparei na camiseta que ela estava usando: uma estampa do Bob Dylan e a frase "There must be some way out of here". Meu olhar se perdeu sobre o mar, enquanto os outros prolongavam a discussão política e os dois começavam um jogo não muito sutil de sedução e esquiva. "Todos no mesmo barco", pensei, num raciocínio que começava a se fragmentar, meio bêbado, e a se perder no horizonte, "fazer um mapa das ondas, milhões de mapas simultâneos, sem nenhum lugar pra chegar, num barco só, um motim, o mar, o mar, as ondas..."

Deve ter um jeito de sair daqui.

domingo, 26 de agosto de 2018


porque hoje não há nada que mereça ser cantado começando em mi maior.

você mal me deixou dormir e sonhar com você outra vez fugindo roubou toda a graça de voar sobre as calçadas.

é inútil amar quem não quer ser amado.

já te expliquei: não existe explicação nenhuma que dê conta da verdade mas bem que eu gostaria de te provar umas palavras.

hoje não há nada que mereça o poder que tem.

exceto talvez este olhar preguiçoso se espalhando no quintal da casa junto com a água da chuva entre as lajotas irregulares.




nem bem três da tarde e estão acesas as luzes dos postes.

mentira, eu dormi muito bem. tenho dormido melhor que vivido.

você mal me deixou viver.

mal acredita que eu viva.

e isso não é nada que se possa provar.

mi maior, lá, ré, mi, lá, ré, mi, já vai amanhecer.

sem voz.

sem merecer.

sem.

sem.

tanto faz pra você.

pra mim é essa poesia meio oca em caneta vermelha escrita numa folha de rascunho do escritório numa tarde de quinta de segunda-feira.


segunda-feira, 20 de agosto de 2018


Pensei que eu fosse morrer em Buenos Aires. Depois de cinco meses desempregado, de empréstimos intermináveis e de depender da caridade de amigos, pensei que eu fosse morrer em Buenos Aires. Aquela semana em particular tinha sido muito difícil. Três recusas de emprego, uma entrevista em que me saí muito mal e no meio disso tudo fui chutado do apartamento em que estava e tive que ir bater de novo na porta de Dona Elvira, Só uma semaninha vai a próxima não tem como ser pior que esta. Ela me aceitou com a cara mais feia do mundo, no começo, mas aceitou, depois acabei ficando um pouco mais do que só uma semaninha.

Foi por aqueles mesmos dias que apareceu por lá um casal de catadores de papel, levando uma carroça cheia, e decidiu ficar vivendo na calçada em frente à "nossa" por uns dias. Eu reparava neles sempre que passava, e acabei percebendo como eram silenciosos e como se concentravam em seus pequenos afazeres cotidianos, sentados no meio-fio ou na carroça, geralmente próximos um do outro. Uma vez entreguei ao homem um bloco de papel que encontrei num canteiro ali perto: ele agradeceu com a voz baixa e uma expressão tranquila, mas séria, e nunca mais vi nem ouvi ele dizendo uma só palavra.

Na madrugada de uma quinta pra sexta-feira, eu estava lendo uma revista pra distrair a insônia, tentando não pensar em como aquilo tudo que eu estava lendo era desinteressante e sem importância, quando comecei a ouvir a voz do homem vinda da calçada. No começo era um lamento que eu não conseguia escutar direito e que não durava muito tempo, mas que aos poucos foi ficando mais alto e mais compreensível. Ele dizia que estava cansado daquela vida, que não aguentava mais nada daquilo, que não suportava - e a voz de lamento ia se tingindo de raiva, virando um rio de raiva em uma correnteza quente e cada vez mais forte, uma tormenta desesperada, uma fúria de lágrimas, aquela voz ia ficando mais alta e mais alta ecoando no asfalto e no concreto dos prédios, no final repetindo um mesmo refrão:

Necesito una puta pausa.

Necesito una puta pausa.

Foi assim, ali, mais até do que em qualquer outro momento, que eu pensei que fosse morrer em Buenos Aires.

Pensei que eu estivesse morto em Buenos Aires.

domingo, 12 de agosto de 2018

até que se torne só um murmúrio sem sentido
tantos eu-queria-que-fosse tantos ainda-espero inúteis
andar pela cidade à noite andar na chuva andar sozinho andar andar
sozinho e se apaixonar por estranhos que passam
poema sem palavras dando um ritmo ao desejo
como se estivesse na ponta da língua e eu soubesse exatamente o que dizer
a voz em tom emocionado não triste apenas profundamente amoroso
sentar à mesa de um café e ficar observando os casais e as famílias por lá que
tão ocupados com aquelas maquininhas em suas mãos
não há nada de grandioso acontecendo
sempre achar que se fosse comigo seria diferente
ou então é uma lembrança de carícias
entrar sozinho em um bar e pedir uma dose do que for mais forte
andar sozinho pela praia pela praça pelos prédios sempre estar pensando em versos
música interminável quase saltando dos lábios
todos os transbordamentos
murmúrio
murmúrio



sábado, 28 de julho de 2018

Esperava que as palavras.
Nunca.
A substância sem forma do sentir.
Porque tua boca, porque eu.
Verdade, eu procurava por
perdão, eu que matei
com estas mesmas mãos amor e culpa e tudo o que inventei
e vi morrer assim toda esperança e nunca adivinhei
talvez nenhum.
Tropeço,
vaidade do sim.
Queria que um gesto, um abraço, um adeus.
Ainda naquele tempo em que
nunca passou.
Mas esperava que agora, ou não sei, ou

sábado, 21 de julho de 2018

- já tantas vezes mil milhares já bilhões de vezes eu enlouqueci e não era amor nem anjos me abraçavam, bobo em pele de cordeiro, a ausência acumulou nos poros e mais nada respirava a não ser noite absurdo amargo inverno ou ódio, sim, a solidão despedaçava abraços e eu queria apenas o meu ouro ou minha glória, talvez ambos, nunca a minha vida ou minha paz inteiras, ainda me lembro bem, e sei de cor o mal que faz quando nos falta amor ou falta amar ou faltam ambos, mil, milhares, bilhões de vezes qualquer coisa aqui dentro de nós morre e mata e nos maltrata ainda mais na longa marcha em direção ao nada onde ainda, ainda, ainda erguemos a cabeça em guerra e por orgulho ou fábula, pura matéria, toda a pura gravidade inescapável e sem fim das eras e das horas.



sábado, 14 de julho de 2018



Vulcão Misti
(Arequipa - Peru)
Terrabela, 25 de julho de 2012

Marina;

Não entendo você achar que eu possa estar arrependido. Essas feridas abertas, esse perrengue todo que estou passando não são nada perto de uma vida sem você  achei que estivesse claro.

Uma vida de mentira e crueldade, foi o que deixei pra trás. Eu estava era me arrastando por aí, covarde demais pra sair das sombras, já nem acreditava no amor, você sabe. Quando te conheci, a impressão que eu tinha era de que a felicidade me espreitava como uma fera na selva, salivando, mirando meu coração pela garganta. Já não tinha mais como escapar. E eu tinha medo, sim, mas ao mesmo tempo nem queria escapar. Não temos culpa desses corações de pedra à nossa volta, desse ódio à alegria, dessa gente meio morta querendo nos castigar por não sermos eles, por fazer tudo à nossa maneira. Gosto da pessoa que me tornei, nem conseguiria mais ser outra e quero mais é que todos saibam logo de uma vez, que todos vejam que é por você, que é só porque eu te amo.

Só porque eu quero olhar o teu sorriso se espalhando. Quero te ver gostar, não sei, quero te assimilar porque me convenceu a tua razão de ser, e é só porque você dança bem, não foi por nada não, foi por um milhão de motivos e até agora nenhum deles me desenganou, foi só porque sim. Faria tudo outra vez, iria até o fim, como fui, vou até o fim e estou indo, vou fazer o que for pra ver de novo outra vez ficar revendo repetidamente o céu noturno do teu olho, toda noite, de pertinho, esse universo com mundos demais pra gente conseguir contar.

Agora não é mais questão de acreditar: a gente sabe, simplesmente. A gente sente. A gente é. Porque você está comigo em todos os momentos de alegria  e não pra que só existam eles, ou pra te pedir que sempre faça eles acontecerem  mas porque você também está comigo quando eles não existem e isso já resolve tanta coisa, sabe, não sei se me explico bem, não sei se é coisa que se explique, só sei que é com você e que é sempre que você está, e que eu quero mais é que você esteja mesmo, e seja sempre muito mais, e continue sendo.

domingo, 8 de julho de 2018


Sobre a queda

No princípio, era o alto.
Não me lembro de ter chão.

A morte passou como um filme. A vida, não.
A vida era um voo e não pesava nada.
Eu não pensava em rimas nem em soluções, mas acho
que na hora me ocorreram três ou quatro.

Depois, o impacto.

sábado, 30 de junho de 2018


Tinha essa mancha de sol na grama, folhas, frio – sobras do outono – e pássaros. Já não se usava andar de pés descalços e muito se falava sobre urgência e desperdício. Você vê: tinha o poente e casais de mãos dadas, e assovios e gritos dos desesperados e saudades passeando e era sábado. Você bem sabe. Ninguém voltaria a tempo de encontrar-se. Tinha esses ruídos e cores que se enfrentavam. Já não se acreditava mais em melodias e em palavras – sim, sobretudo não se acreditava nas palavras – tinha aquela mancha de sombra das árvores sobre a grama e tinha pedras e tinha barro. Você quer muito ser o sonho bom? Você percebe tudo o que se perde no intervalo? Sim, era sábado, tinha esse tom de alguma coisa às claras, mas ao mesmo tempo um de viver às cegas. como uma brisa fria. como uma andorinha só, fazendo inverno.
Alumbramento, de Marianne Peretti
(Salão Branco do Congresso Nacional, Brasília - DF)

sábado, 23 de junho de 2018


Depois de várias promessas e desencontros, chegou o dia em que Joaquin veio me contar a experiência mais inacreditável de sua vida envolvendo coincidências. Aconteceu quando ele era ainda muito jovem e estava em uma cidadezinha no interior do Rio Grande do Sul, meio acampado, fritando hambúrgueres numa lanchonete antes de continuar sua viagem de volta para casa. Lá, ele conheceu um rapaz mais ou menos da nossa idade chamado Antero e os dois logo ficaram muito amigos, trocando histórias sobre viagens, livros, mulheres, etc. Descobriram que tinham em comum a paixão pela ideia de fazer cinema e de criar histórias que eles sonhavam em um dia escrever, dirigir e quem sabe até protagonizar. A melhor ideia de Antero, na opinião de Joaquin, era a de um curta-metragem sobre um cara que encontrava um papel na rua com um número de telefone e decidia ligar, acabava conhecendo uma mulher e, a partir daí, se desenrolava uma história de suspense, comédia e romance. A melhor ideia de Joaquin, na opinião de Antero, era um filme de viagem ao longo da Cordilheira dos Andes com ótimas tiradas de humor, como, por exemplo, o caso de um personagem chamado Jorge Flores.

Jorge Flores não apareceria no filme. Era assim: algumas vezes, o protagonista seria mostrado em rodoviárias – esperando ônibus, dormindo em bancos, na lanchonete ou fazendo qualquer outra coisa – e todas as vezes que isso acontecesse, de alguma forma, o nome de Jorge Flores seria mencionado: ou na plaquinha de alguém esperando por um passageiro no desembarque, ou sendo chamado pelos autofalantes, ou escrito a caneta na porta de um banheiro, etc. Joaquin jurava que algo assim tinha acontecido de verdade com ele, e que até então aquela tinha sido a experiência mais inacreditável de sua vida envolvendo coincidências – mas que na versão real, pra ser sincero, as rodoviárias não ficavam aos pés da Cordilheira, mas no Brasil, e o nome que se repetia nas rodoviárias não era Jorge Flores, mas um em que Joaquin não via graça nenhuma, por isso resolveu mudar.

Quando se cansou de fritar hambúrgueres naquela cidade e quis pôr o pé na estrada outra vez, Joaquin lamentou poucas coisas além de ter que se despedir de Antero. No dia em que foi embora, andava em direção à rodoviária pensando no amigo e se lembrou das histórias dos filmes só um instante antes de enxergar um pedacinho de papel caído na calçada. Sem hesitar, abaixou-se para pegá-lo e, para sua surpresa, sim, claro, era exatamente um número de telefone que estava nele – acompanhado da palavra “salgadinhos”.

Por algum acaso que ninguém saberia explicar, Joaquin tinha no bolso uma ficha telefônica, e ali, logo em frente, estava um telefone público. Joaquin mal estava pensando, apenas tirou o fone do gancho, colocou a ficha e discou o número. Ouviu um toque de chamada, dois toques, cinco, toques demais e então já estava quase desligando quando Alô, Alô quem é, Queria falar com quem? Era uma voz de mulher, parecia velha, cansada e autoritária. Joaquin pigarreou, Estou ligando por causa dos salgadinhos, ele disse, e a mulher do outro lado ficou brava e disse que Esse assunto eu resolvi diretamente com o próprio senhor Jorge Flores, oras, passar bem.

E desligou.

Aquele barulhinho da ligação caindo, sabe, Joaquin diz que doeu.

E eu acreditava, mesmo, que sim. Mas também a dor me parecia um detalhe até sem importância no meio daquilo tudo. Até porque eu tinha essa informação a mais sobre a história e ela estava me roubando os pensamentos: o fato de que, pelas descrições que Joaquin fazia (e Joaquin sempre fazia descrições com muita riqueza de detalhes) o Antero de sua história era exatamente aquele que eu fui conhecer anos mais tarde em Machu Picchu e com quem vivi uma série de aventuras.

Olha aqui, Joaquin – falei depois de alguns segundos de silêncio de perplexidade – deixa eu te contar uma coisa: essa é, de longe, a experiência mais inacreditável da tua vida envolvendo coincidências.


domingo, 17 de junho de 2018


Tinha quebrado um vaso, tinha cacos de vidro no chão e bem naquela hora o nenê tava chorando de um jeito que parecia que o mundo ia acabar pra ele o infeliz, e era uma jovem de cabelos negros e longos debruçada à janela com um vestido de flor e tinha água, não sei, tinha muita água pelo chão, nuvens cor de chumbo escureceram o céu mas perto do horizonte ainda tinha algum azul, e espelhos giravam e cabelos ruivos e gêmeos e aposentos reais num castelo alguém dizendo adeus ou coisas sábias, houve um tempo, talvez, houve um longo intervalo de tempo, tecidos dourados, uma menina triste aconchegada no colo do avô, o peso de uma ausência, como agora, esses vazios que há nas mensagens de voz ou vídeos sem verdades, telefones que não tocam e aquela velha impressão de estar pagando pelos erros do mundo todo quando acaba a tinta, o tom, a tela, tinha um pincel pousado inutilmente e tinha um coração desencantado e tinha um mar, ou mais ou menos, ou então era um daqueles dias em que não se via nada.

(Diários de Machu Picchu #03)

sábado, 9 de junho de 2018

Só me lembro de enxergar debaixo d’água. Não de me desesperar, nem de sentir o ar faltando, nada: só me lembro da luz, de como os raios do sol se espalhavam a partir da superfície e iam afundando em direção ao nada, até sumir. É, dá pra explicar desse mesmo jeito o que estava acontecendo na minha cabeça: afundando em direção ao nada.


todo um poema acontecendo aqui e você pedindo outra colheita de crimes. eu é que não vou morrer de novo só porque as tuas palavras aleatórias são aleatoriamente bem mais importantes do que as minhas. pra você, isso não quer dizer nada, mas agora eu só consigo pensar que só umas poucas letras embaralhadas diferenciam confronto de conforto.


Escuto o som dos motores dos carros, caminhões e motos que passam pela estrada ainda a esta hora. E de repente, então, correntes contra as grades, passos na escadaria do prédio e o clic da luz acendendo, chaves, uma chave arranhando a porta e logo em seguida o molho inteiro de chaves caindo no chão, silêncio. Não pode ser ela, eu penso, ela não vem, é claro. Algum vizinho está bêbado.


Não me lembrava de nada: nem do meu nome, nem de ter existido antes de acordar naquela cama de hospital. Os primeiros dias foram os piores, porque qualquer coisa que passasse pela minha cabeça poderia ser algo que eu tivesse vivido. Cenas de filmes, sonhos, pesadelos, qualquer coisa. Passei dias acreditando, por exemplo, que eu tivesse mulher e filhos me esperando preocupados no interior do Tocantins.


Sabe aquela sensação de quando você chega na padaria de manhã bem cedo e o pão acabou de sair do forno?


sexta-feira, 1 de junho de 2018



Às vezes é inevitável respirar
o ar envenenado de melancolia
porque o relógio é único demais
pra tantos
segundos
passados.

Às vezes é tão simples:
o que passou, passou,
menos as frases feitas
e o medo de fantasmas.

Às vezes a sede
de nos virarmos pra trás
vem simplesmente do receio
de há muito tempo termos virado
estátuas de sal.