quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
segunda-feira, 14 de janeiro de 2019
pensando
que
talvez
se eu arrancar meu coração rasgar em pedaços atirar ao fogo sapatear sobre as
cinzas
dançamos
abraçados músicas românticas em muitas festas de garagem
descemos
a serra do mar andando pelos trilhos e depois voltamos clandestinamente embarcados
entre dois vagões
numa
noite fria de neblina em mil novecentos e noventa e oito vimos um amigo se
jogar pra morte do alto de um prédio condenado
hoje
passo muitas horas nesta mesma sala encarando reproduções baratas e pequenas
demais de frida kahlo
se
eu aprendesse a fazer poesia
já
tem um tempo que eu sinto este nó na garganta e se ele desatar inunda
conheci
uma menina que escondia a própria vida em uma espécie de coração subterrâneo
e
um velhinho que não conhecia mais que as cinco ruas da pequena vila em que
sempre havia morado
vi
amigos se casarem e se separarem e ajudei a cuidar de seus filhos pra que eles
crescessem sabendo que eram capazes e muito queridos
minhas
forças terminaram
estou
farto de ver nascerem sonhos belos só pra depois eles serem estraçalhados outra
vez contra os rochedos
bons
momentos engolidos pelo tempo intocáveis dentro da fumaça negra das saudades
sem esperanças
eu
não suporto mais carregar sozinho
estou
morrendo de carregar sozinho
e
fico aqui pensando que
talvez
se um meteoro quem
sabe
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
mas era urgente que você estivesse aqui, que agora fosse já o pra sempre
e que estivéssemos felizes e que nada mais mudasse esse quadro de nós dois
entrelaçados confundidos misturados era urgente que a tua língua tua saliva e
que teus lábios nos meus lábios que as tuas pernas que você dormisse nos meus
braços, era urgente que nenhum de nós tivesse que sonhar mas que a verdade
fosse então o já sonhado tantas vezes, tão urgente que era como se o meu corpo
me faltasse enquanto me faltasse o teu, mas era tão urgente que era como se o
futuro se agitasse ou desse um grito ou se atirasse e perturbasse de tal forma
a superfície do presente que ele transbordasse e não coubesse mais no gesto ou
no passar das horas, era urgente a ponto de queimar, de arder, de sufocar e de
rasgar a pele e de engolir e desfocar qualquer paisagem tudo que é lá fora, tão
urgente que era como se anos-luz nos atrasassem, tão urgente como se qualquer
momento fosse uma anti-véspera, tão urgente que era como se caísse de maduro e
fosse apenas a semente.
terça-feira, 1 de janeiro de 2019
aqueles senhores são tão
completamente estúpidos que
não haverá bomba moral
suficiente
lógica limpa a ponto de ser
óbvia
tanta afetação sequer
suporta o óbvio
nenhuma clareza é capaz de
amanhecê-los
aqueles senhores
absolutamente tediosos
só a completa falta de limites pode
ser tão tediosa
quanto a sua indisposição
para o novo
ou para o óbvio
e a novidade do óbvio
seu velho eterno
as-coisas-são-como-eu-vejo
censurando obras de arte e não armas de fogo
ameaçando os diferentes e então oh
sendo humildes autocríticos
mansos sábios
quando lhes convém posar de
bons exemplos
frutas podres
quem
quer
cair primeiro
aqueles senhores sem saias
que histericamente nos
vigiam
todo santo ou dia
bólico
dia
terça-feira, 25 de dezembro de 2018
–
Não posso dizer que sou uma grande fã dos Engenheiros do Hawaii – disse Eva –
mas tem lá umas letras deles que eu gosto.
–
Por exemplo? – perguntei.
Ela
não demorou muito pensando.
–
“As coisas mudam de nome, mas continuam sendo o que sempre serão” – cantou.
Aqueles
poderiam ser uns dos meus versos preferidos, também, mas naquela tarde, não
tinham muito a ver comigo. Desde que havíamos chegado ao Norte, eu tinha a
impressão de que estávamos em outro mundo – um mundo que até então eu nem
imaginava que existisse. Estava imerso naquela sensação e apaixonado demais pra
concordar com ela.
–
Tem um poema do Drummond – lembrei – que fala das viagens espaciais e de como o
homem vai explorando, conquistando e colonizando o espaço, lembra disso?
Colonizando tudo, se espalhando pelo Universo, até não ter mais lugar nenhum
pra ir.
–
Sim – disse Eva. – Até que a única coisa que reste pra explorar e conhecer seja
o próprio homem.
Fiquei
em silêncio por um instante, pensando naquilo tudo e deixando os pensamentos me
levarem.
–
Acho que nunca mais vou morar no Sul – contei.
Foi
a vez dela ficar em silêncio. A questão retomava algumas conversas que tínhamos
tido antes, em que ela criticava os sulistas pela cultura muito branca e
burguesa, uma ilusão de se estar na Europa e um ar nojento de
superioridade em relação ao resto do Brasil. Palavras dela. Entendi que ela não
tinha mais nada a acrescentar sobre o assunto, então continuei:
–
Às vezes, queria que o Sul não estivesse tanto em mim, também.
Ela
sorriu.
–
Longe, longe, longe aqui do lado – disse.
Confirmei com a
cabeça, um pouco triste. Nossos pensamentos também têm sotaque, e eu não queria
mais pensar em nada. Queria mesmo era ser refeito pelas águas do Amazonas. Queria
mesmo era que aquelas gentes me reinventassem.
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
Esse desfile de mesquinharias. E aplausos. Refiz os
cálculos, como todos os dias, outras doze horas de suor e as pedras que rolei
até aqui em cima acabaram de despencar outra vez. Mas tem um carnaval de
brilhos bobos escorrendo pelas ruas feito esgoto em que as crianças brincam.
Anos. Anos de sonho e de sangue e de sangue e de sangue nos pés e nas mãos e
nas costas e quantas vezes nas lágrimas, por nada, só por continuar sangrando.
E aquele prêmio pra mais um covarde, o mais hipócrita eleito, os holofotes
todos ligados sobre o mesmo velho pedestal de prepotência e descaso. Luto.
Lapidando as pedras, versos e vazios, mas sozinho e não pelo que te falta de
mim. Não, e por mais que eu me esforçasse, nada do que eu toco se transforma
nesse ouro de tolo, nada que se possa esculpir com luares chega ao mesmo altar
desses ídolos de barro e cuspe. Um desperdício de não termos menos que dez mil
anos de idade. E o meu cansaço. Tanto. Tão nosso e tão menosprezado meu cansaço,
naufragando os intervalos.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2018
terça-feira, 4 de dezembro de 2018
no alto da 3ª ponte eu disse meu deus como
é pequena a vida de um só
lá embaixo os prédios / no ônibus corpos
tentando se equilibrar sem se tocar muito
sapateiros procurando emprego, porteiros,
eu querendo aprender a poesia dos estivadores
ontem parei pra fotografar ao pé de uma
escadaria apareceu um morador do bairro me olhando assustado
você é brasileiro ele perguntou olhando
pra câmera
você
vai fotografar aqui ele perguntou olhando preocupado pra uns caras na escadaria
vitória
não é de ninguém
sentei pra comer um cachorro-quente numa
praça e tinha lá uma galera do hip-hop reunida
mandando um papo reto / rimando / cantando
“eu ouço muito por favor e muito pouco obrigado”
perdi a conta dos muros em que alguém
pichou “vivi pouco / sofri muito”
e eu que vivi um bocado
sofri um bocado e nunca pichei um muro
de repente só queria ter amor e ser amor pela favela
quando embarcaram duas garotas meio
bêbadas cantando alto sobre o sexo
a agressividade do funk / as mais pedidas
do espírito santo
ninguém se meteu com elas
perto delas minha poesia é pra bebês
ga ga nhenhém bvvvvv é-aaah
eu estava escutando mas o cara do meu lado se aborreceu parece
colocou fones de ouvido
e escolheu um funk
mais do seu agrado
terça-feira, 20 de novembro de 2018
Eu me feri porque
fui humano, ainda cometo muitos erros, nem sempre há esperanças, nem sempre
nada me contém. Mas me deixe esquecer disso tudo hoje à tarde, eu sei do que e
do quanto eu posso ser, aceito o que não tenho, não te peço amor, não te peço
que me faça deus, nada vai mudar o fato de que eu sangro. Perdi porque estive
sempre à procura, morri todas as vezes que as minhas forças me deixaram, de vez
em quando, só, foi que depois de morrer encontrei outras. Não penso que estar
vivo é um fardo, ofereço o melhor que posso, às vezes até mesmo tudo que
possuo. Agora me deixe quieto, não tente, as águas estão sujas pelos que
passaram revirando a terra do fundo, a ventania meio que despetalou o meu
telhado, algumas sementes não vingaram, frutos apodreceram, corações demais
foram despedaçados. Só me deixe em qualquer canto, não importa, a salvação é
essa e eu não preciso de mais nada, mas te agradeço se ficar por perto. Mas te
agradeço se me fizer uma prece, assim como agradeço pelo tom exato de silêncio.
Lá fora é um engano, uma queda, o meu corpo inteiro é um grande desencanto. Não
quero. Não minto. Falhei porque sou homem, estou chorando porque já não sou
criança. É inevitável, eu sei, bem mais do que um direito. Mas, mesmo assim,
qualquer perdão é um descanso.
segunda-feira, 12 de novembro de 2018
queria que o tempo se desfizesse, ela
escreveu.
Era isso. Ela estava
jogando. Ele estava tentando se aproximar dela havia meses, com o maior cuidado
– ela com o coração ferido e fechado por um mau relacionamento recente – e
agora ela estava fazendo o Jogo das Grandes Frases, sobre o qual ele tinha falado
uns dias antes. Estava na rua, mas parou ali mesmo pra responder, parecendo
meio bobo pra quem passava, digitando com um sorriso mal disfarçado:
coragem é
morrer como árvore
E foi naquele exato
momento que começou a chover. Correu os olhos em volta, viu que o abrigo mais
próximo estava longe e que ele tinha que ir depressa. A chuva ia ficando mais
forte e o vento estava arrastando lixo e folhas mortas pelas ruas de Porto Alegre,
era outono, fazia frio. Logo que ele chegou ao abrigo, sentiu o celular
vibrando no bolso. Pegou, rápido, pra olhar e leu:
O amor é sempre o primeiro a ser sacrificado.
Não entendeu o ponto
final e o começo em letra maiúscula, será que ela queria dar um peso maior à
frase, será que acreditava mesmo naquilo? Ele não acreditava. Ou não queria
acreditar, o que, pra todos os efeitos, dava na mesma. Eu tenho um templo comigo, estava digitando, mas depois apagou,
sentiu o vento batendo no rosto, pensou "são quatro horas da tarde e ela
está no horário de trabalho jogando o Jogo das Grandes Frases comigo".
Respirou fundo.
quero morar pra sempre em Porto Alegre,
escreveu. Já tinha apertado o “enviar” quando pensou em outra, que decidiu
mandar mesmo assim, porque achou melhor que a primeira:
às 7 horas vou te dar uma rosa
Estava olhando quando
as duas mensagens foram visualizadas. Acompanhou enquanto ela digitava uma
resposta, esperou, esperou bastante tempo, depois teve que esperar mais um
tempinho. Abaixou o celular e voltou a olhar pra rua inundada pensando em
quantos ônibus teria que pegar, onde encontraria uma rosa no caminho da casa
dela, como faria pra se proteger daquele frio e daquela chuva. O celular vibrou
em sua mão e ele ergueu depressa pra olhar, curioso, mas depois de todas
aquelas horas digitando, ela tinha mandado apenas um:
tá
E ele, claro, abriu o
sorriso mais largo.
terça-feira, 6 de novembro de 2018
Enquanto eu feito de poesia não vejo.
A noite me absorve, alguma coisa não resta.
Mas se essa rua me arrasta, eu erro.
Cigarro amassado no bolso da roupa de festa.
A lua, ela sim. Mas eu um poço de mágoas.
A santidade me cansa. Chegar é muito longe.
Você não me perdoa defeitos que também tem
E que eu nunca disse que eu não teria.
Ou talvez não devêssemos ter bebido tanto.
Amanhã nunca foi quando, estou com sono, este verso é muito comprido e isso me deixa mau humorado.
Esmagado. Mas lembro. Apenas eu e quem estava do meu lado é que sabemos
Quem realmente estava do meu lado.
segunda-feira, 29 de outubro de 2018
Eu
vejo a sala de um apartamento milionário no alto de um prédio, aquelas janelas
do chão ao teto e de uma parede a outra, uma decoração limpa e sofisticada, um
grande vazio frio e silencioso, e eu vejo um homem parado ali, segurando um
copo de uísque e olhando a cidade triste, triste ele também, oco, inalcançável e
irredutível rei de porra nenhuma, bebe, esvazia o copo de um gole, as ruas lá
embaixo parecem agitadas, tão longe, todas tão minúsculas e miseráveis aos pés
daquele homem tão pequeno em sua sala sem fim, uma corrente elétrica
sobrecarregada de carne e de vontades incontroláveis perpassa as ruas da
cidade, hordas de pequenas bestas primitivas entrando em choque, o homem vai
até o balcão encher seu copo, enche até a borda, esvazia no que parece um só
gole, as ruas são tomadas por facas e metralhadoras cegas sendo disparadas,
gritos surdos e gemidos que não chegam até ali, tão alto, o homem deixa o copo
e começa a beber direto da garrafa, o sangue está cobrindo o asfalto, o homem
vai até a janela e vê, um rio de sangue literal e quente está correndo sobre o
asfalto, rápido e voraz, vai arrastando os carros e arrancando as árvores dos
canteiros das calçadas, correndo e crescendo e ficando cada vez mais alto, o
homem bebe, o sangue já cobriu as casas, está cobrindo agora os prédios baixos
e subindo, a eletricidade acaba, o homem esvazia a garrafa, o sangue chegou à
sua sala e continua subindo depressa, o homem quase não enxerga nada, mal
sente, amortecido pelo álcool, quando o sangue entra em suas narinas no lugar
do ar, quando ele inunda seus pulmões e quando a sua consciência apaga.
Não me pergunte como
eu sei que a consciência dele apaga, mas apaga. O sonho se repetiu já algumas
vezes, como pesadelo, e no começo eu costumava acordar nessa hora, com medo,
sem saber direito onde estava. Até que parei de acordar. O sonho ainda acabava
ali, mas ao mesmo tempo, não. Eu não
podia ver mais nada, nem sentir, mas comecei a perceber a existência de um som
longínquo e ininterrupto, uma sequencia de pancadas secas e abafadas, que das
primeiras vezes me pareceram um coração batendo, mas que logo identifiquei como
um tambor, depois tambores, depois tambores e chocalhos e apitos até se
tornarem a bateria de uma escola de samba, transbordante, incontrolável,
derramando a sua pura força e muito aos poucos se tornando imagem, pequenos
pontos de luz sem forma se juntando, aqui e ali, até se parecerem a uma
estrada.
quarta-feira, 24 de outubro de 2018
te falta uma demora,
homem.
e um não saber, mais
do que tudo. se tanto, esse compreender descalço, meio que de remanso. te falta
uma amplidão pra dentro, um coração de hiperespaço.
um tanto falta o não
ser máquina e nascer menos de asfalto, arranhar menos céus, ter menos cifras,
parar. só parar. por enquanto, um pouco, um respirar profundamente, só por
aprofundar, até tocar o caos de onde tudo pode vir e ver pra onde.
em que pulso.
te falta a sombra de
um jambeiro, homem.
domingo, 21 de outubro de 2018
Era uma despedida e
por isso a voz triste
Não tem como abraçar o
fato de que fui feliz por conta própria
As ruas da madrugada a
sensação de não saber mais muito bem o que é cidade o que é sonho
O silêncio na praça
cheia de gente enquanto alguém cantava os números do bingo
O ar abafado a água
fria do banho os banhos de rio no meio de uma tarde quente onde todas as tardes
são quentes
Não tem como abraçar
essa vontade que eu tive de ficar mais tempo
O velho que
atravessou a rua pra falar comigo e que me chamava de Meu Curumim
Os curumins que me
falaram da festa em janeiro e de peixinhos coloridos e dos sonhos que tinham
com viagens pelo mundo
Conversas do cais, de
barcos e barqueiros e animadas praias de areia muito branca na outra margem
Uma caixa térmica numa
janela uma família entre tantas famílias vendendo dindin a 50 centavos
Nem me lembro do que
foi
Que a dona da hospedagem perguntou enquanto apertava os botões de uma calculadora, mas
Quando respondi que
sim
Ela levantou os olhos
Falou Você me disse um
sim tão triste
E não eram as despesas
Não tinha como abraçar
a dona da hospedagem do outro lado do balcão
Era uma saudade
antecipada
Quando é que você
volta? – ela me perguntou
E a única coisa que eu
tinha vontade de responder era
Agora
domingo, 14 de outubro de 2018
Fiquei
olhando enquanto ela traçava a linha preta embaixo do olho, diante do espelho,
concentrada, as luzes do camarim colorindo tudo de maneira tão intensa. Seus
lábios se moviam com o que imaginei que fosse o texto da décima quinta cena,
mas nenhum som saía de sua boca. Jéssica sempre confundia as falas dela na
décima quinta cena, mesmo depois de milhões de ensaios. Nós que dividíamos o
palco com ela nessa hora já sabíamos improvisar sobre dez ou doze possíveis
erros seus, silêncios de esquecimento ou ataques súbitos de tosse. Enquanto
Jéssica se maquiava, naquela noite, um pouco antes da nossa estreia, o
nervosismo era uma correnteza densa no ar do camarim, zumbindo mais que as
lâmpadas, insustentável leveza sobre os nossos ombros.
– Eu tenho essa lembrança da infância – ela falou, de repente. Era o começo de um
diálogo nosso da oitava cena. – Sabe aquelas ameixinhas silvestres, amarelas, com
uma casca meio aveludada?
– Sim. Conheço. Um colega meu tem um pé delas numa chácara. – Fiz um silêncio
breve. Em cena, de frente pra mim, Jéssica ocupava essa pequena pausa me
lançando um olhar curioso. Ali, no camarim, mal desviou os olhos de sua
maquiagem. – Ele me trouxe algumas, uma vez – continuei. – Faz muito tempo. Também
é uma fruta de que eu só me lembrava na infância.
Naquele
instante, outro colega de cena apareceu pra dizer que o diretor estava chamando,
no palco, que já estava na hora, que logo eles iam liberar a entrada e que
tinha bastante público esperando. Desapareceu logo em seguida, quando Jéssica
terminava de organizar os lápis e pancakes
sobre o balcão e eu tirava do cabide o sobretudo pesado e quente que era obrigado a
vestir na primeira cena. Começamos a nos dirigir pra fora, um pouco apressados
e em silêncio, mas assim que atravessei a porta do camarim, Jéssica estancou,
de cabeça baixa, um passo antes de sair. Virei-me pra ver o que tinha
acontecido, mas ela só estava ali, parada, com os olhos meio tristes voltados
pra baixo.
– E
se ninguém gostar? – perguntou. Levantou pra mim uns olhos molhados de
lágrimas, duas gotinhas trêmulas ameaçando a linha preta
debaixo dos olhos, mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ela riu, uma
pequena risada ainda meio triste, agitando a cabeça como pra arrancar a ideia
dali. – Deixa pra lá, vamos logo, de uma vez – disse, agora olhando decidida
pra mim e estendendo a mão pra segurar a minha. – Essa pergunta nem vai estar
aqui quando a gente voltar, mesmo.
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
luzes vorazes
cegueiras tantos
pontos
de vista que eu não
sei mais ver
ou vejo muito além
ou nem
canção nos ares eras e
aquários e
surdez
gritos e silêncios e
declarações de amor
mudez nudez
sombras de sons
pálidas mãos de lua
cheia alcançam pés que eu te beijo e não
pele e permissões da
estação
sensação e só
de flor
de água
madrugadas e manhãs e
doravantes ontens e depois
onde o sentido se faz
de que fonte que ele
jorra
com que carinho com
que paixão
com
que
com
pai
xão
Assinar:
Postagens (Atom)










