terça-feira, 19 de março de 2019
terça-feira, 12 de março de 2019
Você pensa que o mundo é movido a ambição.
Pensa que todos nós temos que ter uma ambição igual à sua
se quisermos ir pra frente.
Você pensa que o que chamam de progresso pode atropelar à
vontade o que estiver em seu caminho.
Eu tenho é muita desconfiança de tanta bobagem.
O que eu sei, o que é óbvio é que tem muitas coisas além da
ambição movendo o mundo.
Coisas demais, a verdade é que o mundo se move muito fácil.
Um cientista disse uma vez que só precisava de uma alavanca
e de um ponto de apoio e ele moveria o mundo.
E olha que ele estava falando em mover o mundo literalmente,
não nesse movimentozinho abstrato da ambição de vocês.
Pra ser sincero eu não me importo muito com essas coisas porque
até gostava de ter um mundo sempre parado igual a uma manhã de domingo.
Porque se você for pensar direito não faz o menor sentido
ficar se movendo tanto se não tem nenhum outro lugar pra irmos.
Quer dizer, podem inventar uma porção de coisas, mas
ninguém sabe dizer com certeza quando é pra frente mesmo que estamos indo.
E isso de atropelar o que estiver no caminho é de uma
estupidez tão grande e até uma criança sabe que não vai sair de graça.
Muito mais difícil que mover é sustentar o mundo.
Manter alguma luminosidade na vida frágil.
Sem essa maquiagem toda, o filtro na foto, o orgulho
mesquinho da marca da roupa, da máquina, de um prato de comida, dos olhos da
cara.
Muito mais difícil que incendiar os desejos é fazer dormirem
os desesperados.
Mergulhar o coração na terra até sua carne ser do mesmo barro.
Muito mais difícil, e até muito mais urgente do que possuir
uma paisagem morta, escravizada, é saber fluir como seiva dentro de suas
árvores.
Compreender a ondulação quieta do tempo, porque é essa a
sua matéria.
O resto é um rasgo, não nos interessa em nada.
É uma poesia insossa, estéril, duvidosa.
Pode ficar com ela pra você, encher seus bolsos com ela,
construir palácios, muros, programas de auditório.
Pode fazer o que quiser com ela.
Não iremos junto, não nos ofereçam, por favor, não somos
tão iguais de cegos.
São
coisas que desabam.
terça-feira, 5 de março de 2019
Mínimos ciclones, penas que faltam pro voo, o
pensamento é um fio muito esticado e não alcança a ideia, a vida oferecendo
labirintos, vulcões de vontades em erupção e átomos se chocando até se dissiparem
as paixões que os movem, fel no vinho, um brilho de espelho quebrado, mas nossa
fantasia apodreceu na jaula em que vivemos por escolha, apenas um poder
rasteiro sibilando um eco um oco um pouco um algo assim sem muito fogo o mesmo
velho foco fácil previsível, já chegamos nisso tudo há muito tempo, não há por
que continuar fingindo que avançamos, somos iguais demais no que negamos, no
caos subterrâneo, no sopro divino, no medo de relâmpagos.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2019
Tantos anos passando quase diariamente por essas ruas e
ainda confundo os nomes das praças aqui perto, Osório, Zacarias, Carlos Gomes,
etc. Mas ainda posso dizer que sei de cor o concreto e os vidros da Biblioteca
Pública e a velocidade dos carros em volta dela a essa hora da manhã. Se é que já
se pode chamar isso de manhã: o sol só vai nascer daqui a uma meia hora e ainda
não há o menor sinal dele. Curitiba nessa época do ano nem tem muito sol, e o
mais provável é que o dia amanheça coberto de nuvens. Hoje acordei com quatro
números escritos com caneta verde nas costas da mão esquerda e não tenho a
menor ideia de como eles foram parar lá, e isso ocupou meus pensamentos durante
toda a caminhada até aqui, que não foi pouca. A essa altura, eu já não sinto tanto
o frio, passando pela praça da Catedral sem nem me perguntar como ela se chama.
Do sono, nem sinal, desde que me deparei com aqueles números, ainda na cama,
logo que acordei.
6294. Escritos com caneta verde nas costas da mão esquerda,
sendo que sou canhoto (1) e (2) não tenho canetas verdes em casa, e sendo que (3)
ontem não saí de casa depois das cinco da tarde e (4) tenho certeza de que não tinha
nada na minha mão esquerda antes disso. Na verdade, os números estavam nítidos
demais até pra terem sido escritos antes de eu dormir, ontem à noite. E essa é
a parte mais perturbadora: a impressão que dava de que os números tinham
acabado de ser escritos assim que acordei.
>Nunca entendi exatamente o que faz com que a memória
escolha este ou aquele momento pra levar guardado pro resto da vida, largando
outros que seriam bem mais úteis de serem lembrados. Por exemplo: pode
acontecer de eu me lembrar, às vezes, e por nenhuma razão específica, de pequenos
losangos de luz colorida escorrendo no vestido de uma desconhecida em um clube noturno,
há muito tempo, ou de uma criança que uma vez eu vi se divertindo nos ombros do
pai enquanto os dois atravessam a multidão eufórica da Rua XV, mas não sou
capaz de me lembrar de um acontecimento importante que se passou ainda ontem, e
que continua aqui comigo de forma até quase assustadora. Daqui até a Reitoria,
pra onde estou indo, e num raio de vários quilômetros desde aqui, conheço cada
traço de cada obra do Poty Lazzarotto que enfeita a cidade, mas sou incapaz de
reconhecer a caligrafia dos números na minha mão esquerda, e a cada minuto que
passa, a minha esperança de reconhecer e desvendar o mistério se afasta mais um
pouco, assim como a escuridão da noite vai sendo engolida pela luz, só que ao
contrário.
6294. Já posso ver ali em frente a praça que fica entre o
Teatro Guaíra e o prédio de Direito da UFPR. Conforme o previsto, o céu começa
a clarear mostrando uma densa camada de nuvens. Vai ficar assim o dia inteiro,
o frio não vai passar e eu nunca vou me lembrar de onde vieram os números – já estou conformado.
Todas as hipóteses que levantei pra explicar o caso são ridículas, e por mais
que eu goste de algumas delas, especialmente as mais fantasiosas, não estou
acreditando mesmo em nenhuma. Nenhum ser extraterrestre ou de outra dimensão
veio me entregar uma mensagem cifrada antes que eu acordasse.
Pelo menos eu acho.
A verdade é que as explicações mais simples não parecem
menos mágicas.
****
Trecho
de um antigo conto inacabado, chamado No
inverno curitibano, tentando não acreditar em milagres.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019
Me deixe
Descansar
Por um século ou mais
Agora que encontrei
Em mim
A tua ternura
Alheia ao rugido constante
Do mundo
Ao sempre haver falhas
Ao ego de quem
Alardeia
Conhecer a cura
Me deixe
Transbordar então
De maravilhamento
Por esse mundo de luz
Por essas almas de azul
Inesgotáveis
Agora que encontrei
A tua serenidade
Sólida
No fundo do meu coração
Que despencava
Aos pedaços
Me deixe
E se quiser
Por favor
Permaneça ao meu lado
Até
Não existirem
Mais lados
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
Sonho sem licença, o sol vadio do fim da tarde acaricia a cabeleira
verde da floresta, as previsões não me cegam pro agora, acontece um querer
limpo de nuvem através das formas e eu só adoro, há uma linha invisível que une
todas as coisas vivas, laço em lonjuras secretas, num único sentido perceber a
melodia, o doce e a claridade, um habitar as fontes e anteceder os nomes,
frescor de fruta silvestre, lábios e orvalho, seguir é sempre adiante, a força
de existir é incontornável.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
Querida Shattiey;
Nunca fui o maior fã
do twitter e tenho que concordar com nosso amigo que disse que você é
insuportável, mas o pior é ter que admitir que se eu tivesse um perfil naquela
rede, ele seria muito parecido com o seu.
Hoje tem coisa demais
no mundo construída sobre a incompreensão, a tal "normalidade" anda
doente e o que reina, absoluto, ainda é o medo de sermos inteiros, um pânico,
um desespero. Porte de alma, claro, ninguém quer liberar, Deus o livre, e em
vez de vida fora do mercado, lá seguem as massas sendo massas e comprando os
gritos de libertação que vendem mais, parcelados no crédito. O problema da
esquerda, como você diz, é que ela está muito cheia de cretinos, assim como na
direita até as melhores pessoas estão muito cheias de ideias cretinas. Mas
quando uma pessoa está decidida a ser uma idiota, você sabe, não adianta nada a
gente ter razão.
Nessas revoluções
dentro de bolhas, com luxuosos desfiles intelectuais e vícios discursivos que
não aceitam sutilezas, tenho ouvido as fantasias mais delirantes sobre
superioridades morais de todas as partes, como se não estivesse todo mundo tão
ridiculamente sendo um bicho humano. Mas você é alguém que se cansa de ser
desagradável, às vezes, aproveita que é uma personagem de ficção e tira uns
dias pra não existir, simplesmente. O mundo não precisa de gente, é verdade, a
raiva é superestimada e o povo romantiza demais essa porcaria de falta de
romantismo – em vez de partir logo pro mundo ideal em que todas as discussões
terminariam com "vá ler poesia". Ainda bem, minha querida, que você
está aí nos enviando suas notícias de envelhecer sendo uma poeta adolescente,
com suas saudades tão nossas de quando o resto era silêncio.
Com certeza é um mundo
muito chato pra crianças, ainda mais pra crianças da nossa idade.
Estamos juntos,
Shatty. Em algum lugar, de alguma maneira, o amor já ganhou faz tempo.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2019
aceito o vinho. e uma partida de
palavras cruzadas. a gente decide, cara ou coroa, teu assunto ou o meu. posso
passar horas te ouvindo falar, horas mesmo, dias inteiros, toda a quaresma. e
posso te ensinar um truque pra sempre pegar o triplo valor da palavra. cara ou
coroa, teu jogo ou o meu, às vezes tem paciência até pra um jogo de cartas,
mais vinho, um dia a gente chega em becos sem saída cheias de verdades
dolorosas demais pra saberem ser faladas em voz alta, um dia a gente engata
numa discussão desnecessária sobre uma bobagem que não interessa a mais
ninguém, um dia a gente chega no eu não quero nem olhar pra cara desse aí, mais
vinho, me diz se você ainda pensa que mudar o mundo já perdeu a graça, me conta
o que você pensou, mais vinho.
sabe, ninguém tá nem aí pros nossos
cachorrinhos de apartamento, pra quanto custaram alguns troféus de guerra, pras
figurinhas repetidas dum álbum que ninguém mais tem. mas eu pediria emprestadas
umas revistas em quadrinhos, anotaria uns nomes pra pesquisar mais tarde,
perguntaria como é que se fala é eu explodo ou eu expludo. ninguém tá nem aí
pros porta-retratos da minha prateleira, pra quando eu atravessei desertos
ensolarados, pra tanto mundo que eu vi, pra cicatrizes de bala.
mas acho que eu diria pra você tirar um
tempo e assistir tal filme, ouvir aquela banda ou ler um livro ou outro que
falasse sobre isso, talvez eu resumisse um livro, talvez eu lesse uns
parágrafos.
mais vinho.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2019
Joaquin dizia que o
fato dele ser tão quieto e “antissocial” não era exatamente culpa dele. Como
argumento, usava sempre uma história de quando vivia em Tucumán ou Salta, ou
qualquer outra capital do Norte da Argentina. Numa das poucas vezes em que
andou por lá de táxi, contava, o taxista ouvia atentamente um debate no rádio
sobre a partida de pouco antes entre River Plate e sabe Deus qual outro time
argentino, mas dava pra entender que tinha sido um jogo importante. Como
Joaquin não ligava pra futebol, não tinha muito pra conversar, mas o motorista
fez um esforço (“Sim”, dizia Joaquin, “Deus abençoe as pessoas esforçadas,
gosto delas”). Ele perguntou:
– Você gosta de
futebol?
Como Joaquin disse que
não, ele ficou um tempo processando a informação e o pouco de sotaque que meu
amigo tinha.
– Você é brasileiro? –
perguntou. Joaquin explicou que tinha nascido no Uruguai e se mudado com a
família pra Florianópolis quando ainda era bebê, então sim, considerava-se
brasileiro. Aí o motorista ficou realmente confuso: – E você não gosta da
verde-amarela nem da azul-celeste?
– Olha, – defendeu-se
Joaquin – na Copa do Mundo, até assisto a alguns jogos. Mas fora isso, não me
interesso por futebol.
A essa altura, dava
pra ouvir o cérebro do motorista trabalhando. Ele estava lidando com algo muito
além da sua capacidade de compreensão. Num último esforço, perguntou, quase em
tom de súplica:
– Basquete?...
Joaquin fez que não
com a cabeça e ele disparou, agora com uma pontada de irritação:
– De que esporte você
gosta, então?
– Natação – disse
Joaquin, com toda a sinceridade que Deus lhe deu.
Foi a gota d’água pro
motorista, que fez a maior cara de que ele estava brincando com assuntos
sagrados, aumentou o volume do rádio e não voltou a dizer uma palavra até o fim
da corrida.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2019
pensando
que
talvez
se eu arrancar meu coração rasgar em pedaços atirar ao fogo sapatear sobre as
cinzas
dançamos
abraçados músicas românticas em muitas festas de garagem
descemos
a serra do mar andando pelos trilhos e depois voltamos clandestinamente embarcados
entre dois vagões
numa
noite fria de neblina em mil novecentos e noventa e oito vimos um amigo se
jogar pra morte do alto de um prédio condenado
hoje
passo muitas horas nesta mesma sala encarando reproduções baratas e pequenas
demais de frida kahlo
se
eu aprendesse a fazer poesia
já
tem um tempo que eu sinto este nó na garganta e se ele desatar inunda
conheci
uma menina que escondia a própria vida em uma espécie de coração subterrâneo
e
um velhinho que não conhecia mais que as cinco ruas da pequena vila em que
sempre havia morado
vi
amigos se casarem e se separarem e ajudei a cuidar de seus filhos pra que eles
crescessem sabendo que eram capazes e muito queridos
minhas
forças terminaram
estou
farto de ver nascerem sonhos belos só pra depois eles serem estraçalhados outra
vez contra os rochedos
bons
momentos engolidos pelo tempo intocáveis dentro da fumaça negra das saudades
sem esperanças
eu
não suporto mais carregar sozinho
estou
morrendo de carregar sozinho
e
fico aqui pensando que
talvez
se um meteoro quem
sabe
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
mas era urgente que você estivesse aqui, que agora fosse já o pra sempre
e que estivéssemos felizes e que nada mais mudasse esse quadro de nós dois
entrelaçados confundidos misturados era urgente que a tua língua tua saliva e
que teus lábios nos meus lábios que as tuas pernas que você dormisse nos meus
braços, era urgente que nenhum de nós tivesse que sonhar mas que a verdade
fosse então o já sonhado tantas vezes, tão urgente que era como se o meu corpo
me faltasse enquanto me faltasse o teu, mas era tão urgente que era como se o
futuro se agitasse ou desse um grito ou se atirasse e perturbasse de tal forma
a superfície do presente que ele transbordasse e não coubesse mais no gesto ou
no passar das horas, era urgente a ponto de queimar, de arder, de sufocar e de
rasgar a pele e de engolir e desfocar qualquer paisagem tudo que é lá fora, tão
urgente que era como se anos-luz nos atrasassem, tão urgente como se qualquer
momento fosse uma anti-véspera, tão urgente que era como se caísse de maduro e
fosse apenas a semente.
terça-feira, 1 de janeiro de 2019
aqueles senhores são tão
completamente estúpidos que
não haverá bomba moral
suficiente
lógica limpa a ponto de ser
óbvia
tanta afetação sequer
suporta o óbvio
nenhuma clareza é capaz de
amanhecê-los
aqueles senhores
absolutamente tediosos
só a completa falta de limites pode
ser tão tediosa
quanto a sua indisposição
para o novo
ou para o óbvio
e a novidade do óbvio
seu velho eterno
as-coisas-são-como-eu-vejo
censurando obras de arte e não armas de fogo
ameaçando os diferentes e então oh
sendo humildes autocríticos
mansos sábios
quando lhes convém posar de
bons exemplos
frutas podres
quem
quer
cair primeiro
aqueles senhores sem saias
que histericamente nos
vigiam
todo santo ou dia
bólico
dia
terça-feira, 25 de dezembro de 2018
–
Não posso dizer que sou uma grande fã dos Engenheiros do Hawaii – disse Eva –
mas tem lá umas letras deles que eu gosto.
–
Por exemplo? – perguntei.
Ela
não demorou muito pensando.
–
“As coisas mudam de nome, mas continuam sendo o que sempre serão” – cantou.
Aqueles
poderiam ser uns dos meus versos preferidos, também, mas naquela tarde, não
tinham muito a ver comigo. Desde que havíamos chegado ao Norte, eu tinha a
impressão de que estávamos em outro mundo – um mundo que até então eu nem
imaginava que existisse. Estava imerso naquela sensação e apaixonado demais pra
concordar com ela.
–
Tem um poema do Drummond – lembrei – que fala das viagens espaciais e de como o
homem vai explorando, conquistando e colonizando o espaço, lembra disso?
Colonizando tudo, se espalhando pelo Universo, até não ter mais lugar nenhum
pra ir.
–
Sim – disse Eva. – Até que a única coisa que reste pra explorar e conhecer seja
o próprio homem.
Fiquei
em silêncio por um instante, pensando naquilo tudo e deixando os pensamentos me
levarem.
–
Acho que nunca mais vou morar no Sul – contei.
Foi
a vez dela ficar em silêncio. A questão retomava algumas conversas que tínhamos
tido antes, em que ela criticava os sulistas pela cultura muito branca e
burguesa, uma ilusão de se estar na Europa e um ar nojento de
superioridade em relação ao resto do Brasil. Palavras dela. Entendi que ela não
tinha mais nada a acrescentar sobre o assunto, então continuei:
–
Às vezes, queria que o Sul não estivesse tanto em mim, também.
Ela
sorriu.
–
Longe, longe, longe aqui do lado – disse.
Confirmei com a
cabeça, um pouco triste. Nossos pensamentos também têm sotaque, e eu não queria
mais pensar em nada. Queria mesmo era ser refeito pelas águas do Amazonas. Queria
mesmo era que aquelas gentes me reinventassem.
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
Esse desfile de mesquinharias. E aplausos. Refiz os
cálculos, como todos os dias, outras doze horas de suor e as pedras que rolei
até aqui em cima acabaram de despencar outra vez. Mas tem um carnaval de
brilhos bobos escorrendo pelas ruas feito esgoto em que as crianças brincam.
Anos. Anos de sonho e de sangue e de sangue e de sangue nos pés e nas mãos e
nas costas e quantas vezes nas lágrimas, por nada, só por continuar sangrando.
E aquele prêmio pra mais um covarde, o mais hipócrita eleito, os holofotes
todos ligados sobre o mesmo velho pedestal de prepotência e descaso. Luto.
Lapidando as pedras, versos e vazios, mas sozinho e não pelo que te falta de
mim. Não, e por mais que eu me esforçasse, nada do que eu toco se transforma
nesse ouro de tolo, nada que se possa esculpir com luares chega ao mesmo altar
desses ídolos de barro e cuspe. Um desperdício de não termos menos que dez mil
anos de idade. E o meu cansaço. Tanto. Tão nosso e tão menosprezado meu cansaço,
naufragando os intervalos.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2018
terça-feira, 4 de dezembro de 2018
no alto da 3ª ponte eu disse meu deus como
é pequena a vida de um só
lá embaixo os prédios / no ônibus corpos
tentando se equilibrar sem se tocar muito
sapateiros procurando emprego, porteiros,
eu querendo aprender a poesia dos estivadores
ontem parei pra fotografar ao pé de uma
escadaria apareceu um morador do bairro me olhando assustado
você é brasileiro ele perguntou olhando
pra câmera
você
vai fotografar aqui ele perguntou olhando preocupado pra uns caras na escadaria
vitória
não é de ninguém
sentei pra comer um cachorro-quente numa
praça e tinha lá uma galera do hip-hop reunida
mandando um papo reto / rimando / cantando
“eu ouço muito por favor e muito pouco obrigado”
perdi a conta dos muros em que alguém
pichou “vivi pouco / sofri muito”
e eu que vivi um bocado
sofri um bocado e nunca pichei um muro
de repente só queria ter amor e ser amor pela favela
quando embarcaram duas garotas meio
bêbadas cantando alto sobre o sexo
a agressividade do funk / as mais pedidas
do espírito santo
ninguém se meteu com elas
perto delas minha poesia é pra bebês
ga ga nhenhém bvvvvv é-aaah
eu estava escutando mas o cara do meu lado se aborreceu parece
colocou fones de ouvido
e escolheu um funk
mais do seu agrado
segunda-feira, 26 de novembro de 2018
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