Eu precisava me sacrificar e não havia mais nada vivo, eu mal conseguia
me lembrar de que ser sombra é necessariamente ser a sombra de outra coisa. Então estava ali, na
mesa de uma padaria às duas e quinze da manhã, e a padaria estava meio suja e
era dessas que não fecha nunca e sempre há muita gente circulando, uma padaria
de rodoviária, eu estava sozinho e sem fome entre um punhado de pessoas sonolentas
que chegavam e partiam e já não sabia mais se a moça atrás do balcão me olhava
com pena ou tédio ou se queria apenas ir embora, então pedi um pingado, então
pedi que ela mudasse a estação de rádio, então risquei a mesa de madeira com a minha
última chave, então me olhei de fora e também passei por mim como se não me
visse, então eu quis imaginar o que diria se estivesse em um teatro e realmente
precisasse estar falando alguma coisa, então falei Menina você passe na
farmácia e traz de lá tudo o que achar porque eu preciso me curar de todas as
doenças do Universo, porque o meu corpo está vazio da mágica do mundo, porque
eu só tenho imagens e lembranças e um carinho inconfessável por desconhecidos,
porque você precisa caminhar um pouco eu sei você precisa tropeçar na sua alma
gêmea a qualquer momento, porque de alguma forma eu já me sinto em algum lugar
onde você não está presente e porque nada em minha vida se resolveria
simplesmente por eu afrouxar o nó da minha gravata. Do lado de fora, até mesmo
os motores dos carros e dos ônibus pareciam irritantemente silenciosos. Eu
precisava de uma sinfonia que me ensurdecesse, eu precisava ser atropelado e
que a matéria do meu corpo fosse estraçalhada, eu precisava ser consumido pelo
fogo, eu precisava morrer em todos os sentidos, eu precisava pelo menos rir de
alguém que passasse e me jogasse uma moeda como se eu fosse um mendigo, mas não
tinha graça, eu odiava aqueles relógios iluminados só com riscos pretos no
lugar dos números, eu sentia uma falta sem fim de alguém que não viria só
porque sei lá porque seu ônibus levantou voo na estrada e estava agora a poucos
metros de alcançar a lua.
terça-feira, 19 de maio de 2020
segunda-feira, 11 de maio de 2020
Esse teu espelho bobo que reflete a superfície, que
gosto que ele tem de sangue, já vai se partir sob o peso das sombras, nem os
assassinados em praça pública te importam mais que o teu direito (!!!!!) de
fazer piadas com pretos pobres bichas todos que se arrastam humilhados até o
último grão de amor-próprio, a pólvora que você adora está inquieta pelas suas
vidas, essa lente boba que só faz com que você enxergue os próprios olhos,
ninguém quer conhecer a verdade, em subterrâneos almas inteiras devoradas pelos
monstros que elas mesmas esconderam lá, já são bem mais de mil os motivos que
temos pra querer a morte (e só precisávamos de um único), isso não passa em seu
filme, você mudaria o canal se passasse, mas lancem à jaula os poetas,
silenciem os artistas delicados, condenem à fome, é preciso não saber, ignorar
qualquer vestígio, somente assim a crueldade acaba, qualquer outra maneira
custaria muito caro e você não paga, não, não você, você não paga e nunca
pagará.
quinta-feira, 7 de maio de 2020
mal conseguia dividir com vírgulas e eu
tentando lhe explicar que a luz distorce o espaço,
que a luz anda tão rápido que o tempo deixa de
fazer sentido,
nem gostava de poesia e eu tentando lhe
explicar que num poema “eu” e “você” são pura imagem e não pessoas reais,
não querendo caminhar na superfície, longe dos
bares e cafés onde as definições de tudo tinham que ser sempre as menos óbvias
como “solidão é não ter pra quem ligar numa segunda à tarde”,
mas ela gostava do lugar-comum e eu nunca acreditei
nos homens que não choram,
gostava mesmo era dela,
acho até que muito mais do que seria
aconselhável se gostar de alguém,
não éramos opostos, só atraídos, até o dia em
que ela me deu as costas como se eu morresse, ou ela, e todos os sonhos
despencaram do seu castelo nas nuvens sem deixar nem ao menos um cheiro de
chuva,
seria mais fácil se as histórias inventadas
tivessem menos consequências reais,
seria mais fácil entender que um mais um não
são dois do que seguir em frente só um,
segunda-feira eu não liguei, ainda febril e
delirante achando que
sua raiva atravessava a cidade e reverberava
nas paredes do quarto em que eu passava a noite escura da minha alma,
durou bem mais do que mil anos,
e quando amanhecia,
saí pelas ruas visitando universos em que ela,
em nossos tempos, nunca teve coragem de me acompanhar,
casas de umbanda, teatro interativo, livros de
foucault,
numa conversa alguém me disse
“amarelo-almodóvar”,
um balconista a quem pedi cigarros perguntou
“há quanto tempo a gente tenta te dizer que não?”,
uma garota punk ao pé da escada me abraçou ao
meio-dia
e eu já não era aquele ser barroco estilhaçado agonizante
estranho aos deuses e à vida prática,
no fundo de um mar de mágoas
tentando respirar
entre as algas.
quarta-feira, 29 de abril de 2020
Numa
das nossas muitas paradas pra descanso enquanto subíamos a Montanha Machu
Picchu, encontramos uma dupla de italianos acomodados em uma grande pedra baixa
e achatada. Nunca ficamos sabendo se os dois eram mãe e filho, amigos ou
amantes, mas logo ficou evidente que o que estavam fumando ali, por mais que
parecesse um cigarro comum, era, na verdade, maconha. Antero chegou a hesitar
quando lhe ofereceram um trago, mas acabou recusando, ajeitou-se ao meu lado e
resmungou baixinho: “Eu já estou lá”, o que me fez sorrir e lembrar de uma
história de quando visitei os terraços circulares de Moray.
–
Você esteve em Moray? – perguntei. Antero confirmou com a cabeça e eu
continuei: – Também tinha um monte de gente meditando no alto ou no centro dos
círculos? – Mais uma vez ele confirmou com a cabeça. – Eu estava incomodado com
isso, no dia em que estive lá. Tinha tanta paz em volta da gente, era tão
bonito. Tão forte. De alguma forma aquela coisa toda de meditação parecia
desnecessária, até meio teatral.
Antero
sorriu, compreendendo, e ia responder quando os italianos começaram a fazer
perguntas sobre nós e as nossas viagens recentes. Queriam saber muitas coisas a
respeito do Brasil, que era o próximo lugar que queriam conhecer. Rio de
Janeiro. Cataratas do Iguaçu, Rio Amazonas. Não sabiam se iam conseguir ver
tudo em uma só viagem, porque, pra isso, iam precisar de muito tempo e muito
dinheiro, ou só muito tempo, ou só muito dinheiro.
Estávamos
nessa conversa quando chegou um casal de meia idade, vindo do alto da Montanha,
e parou diante da pedra, mas sem olhar em nossa direção. A mulher tirou da
bolsa uma bala embrulhada em plástico vermelho, colocou sobre a pedra como
sobre um altar e fechou os olhos pra uma oração silenciosa. Ficou ali um bom
tempo, durante o qual chegamos a diminuir bastante o ritmo e o volume da
conversa, em respeito ao seu momento. Assim que ela acabou, porém, olhou pra
nós com uma expressão de censura, agitou o dedo indicador em nossa direção e
disse em inglês:
–
E vocês, mais respeito com o que é sagrado!
Depois,
simplesmente se virou e continuou sua descida, acompanhada pelo homem. Nós nos
entreolhamos tão surpresos quanto divertidos, e logo os italianos começaram a
falar bem alto uma porção de coisas que não chegamos a entender por completo,
porque falavam em italiano, mas que podíamos imaginar muito bem o que eram.
Antero, inconformado, comentou comigo:
–
Que grande gesto espiritual condenar uma planta enquanto oferece aos deuses uma
pedrinha de açúcar embrulhada em plástico!
–
Pois é – respondi.
Ficamos
nos divertindo com isso durante alguns minutos, mas logo a conversa esfriou, o
cigarro acabou e todos nós sentimos que era o momento de continuar a nossa
caminhada. Os italianos já tinham partido quando terminamos de ajeitar nossas
coisas nas mochilas, e estávamos de saída quando apareceram dois rapazes vindos
do alto, conversando em espanhol, relaxados e distraídos. Pararam por um
instante pra tomar fôlego, um deles com o pé apoiado na pedra em que estávamos
sentados, mas sem parar de conversar, até que o outro abaixou os olhos e
exclamou, animado:
–
Oh, uma bala!
Pegou-a, assim, sem
mais, desembrulhou e pôs na boca. Depois, continuaram andando, normalmente, sem
nem por um segundo terem parado de conversar.
quarta-feira, 22 de abril de 2020
Tinha este sábio chamado Mahavira há muitas centenas de anos dizendo que
toda afirmação que se faça contém apenas um único aspecto da realidade. Pra se
conhecer a realidade toda, dizia, é preciso fazer sete afirmações, e elas serão
necessariamente contraditórias. Fui contar isso a um amigo e ele disse que só
um louco pensaria assim, mas louco ou não, a verdade é que Mahavira tá certo. E
Mahavira tá errado. E tá certo e errado. E não tá certo nem
errado. E às vezes tá certo, mas tá muito errado. E às vezes tá errado, mas tá
muito certo. E ninguém tá nem aí pra Mahavira.
terça-feira, 14 de abril de 2020
Outro dia
Escreveram meu nome num muro e avisaram
Você não é bem vindo
Outro dia
Meu nome estava em tantos muros da cidade
Pra mim as piores palavras
Meu amor
Eu sou a criatura mais triste do universo
A mais despreocupada
Nada que eu faça
Desata
Outro dia
Um velho numa praça me falou boa tarde
E eu percebi pela sua voz
Que ele não me desejava nada além de uma
boa tarde
Outro dia
Passou um boiadeiro e disse ei irmão
E éramos irmãos de verdade
Meu amor
Eu sou a criatura mais errada
Mais boba e perfeita
De toda a História
Nada
Nada que eu faça ou que me façam
Devasta
segunda-feira, 6 de abril de 2020
Ondas e rios que se espalham formando pequenos córregos, pessoas
que medem distâncias pelo tempo que dura a viagem, prismas espelhados, constelações
alheias aos desenhos que formam, raiz e raios, artérias de uma folha e seiva
atravessando as horas. Uma sombra ainda paira sobre todas as almas, e todas
elas, dóceis, entregam-se a todo custo à negação contínua de si mesmas.
Interiores não alcançáveis, sentidos proibidos palpitam em tocaias, tudo desaba,
deságua, tudo vem à tona mais cedo ou mais tarde.
Tomou um fósforo, acendeu o seu cigarro. O dia estava com o
tom perfeito de melancolia e azul claro. Da janela, assistia ao vaivém dos
carros entre a Avenida Paraná, a Costa e Silva e a República Argentina. Gostava
de caleidoscópios. Podia passar a vida inteira jogando amarelinha com Cortázar.
Se tivesse algum superpoder, queria estar além do tempo todo, mas tinha que
viver nos intervalos.
Imagine se um mapa desenhasse por acaso as suas linhas
exatas no vidro quebrado. Tente não chorar, sem ser um personagem, nem ver o
que há de nuvem nas palavras de certeza, manchas de nascença ou cardumes de
peixinhos prateados.
Todo um amor, sim, porque não existe outra palavra pra isso,
aconchega a Terra no manto atmosférico, é o movimento dos passos, vibra, cheira
a vida, brilha e colore ainda quando é saudade escurecendo as pinturas, um
paraíso perdido, a solidão de conhecer tão bem as diferenças entre iguais. Anúncios
publicitários prometem mares nunca navegados, banqueiros e grandes empresários tentam
lustrar os seus jardins carnívoros, o tempo exige que se gaste, es muss so
sein, abismos de incompreensão se abrem. Mas o chão é de humanidade. O
entorno é bem mais dentro. E quem pode fazer com que se afastem, assim como se
a dança pudesse escolher entre a música, a poesia e o teatro?
Pensou em ligar pra Cristina ou pro Roger, depois achou que
era egoísmo demais querer dividir com alguém o seu fardo.
Procure
não julgar, aprenda a discernir, amarre os cadarços e não leia os manuais
completos. Siga as suas teias, atenha-se às sinapses. Talvez você não conheça a
sensação de estar a centenas de quilômetros de casa e de repente dar de cara
com um velho conhecido ou um colega do trabalho, mas percorra com mais tempo e
mais atentamente os muitos substratos do seu ser, você vai encontrar vidas
inteiras tão diferentes da sua, e ainda assim tão suas.
terça-feira, 31 de março de 2020
Ninguém foi esperá-lo na rodoviária.
Eram dez horas da noite e Joaquin parado ali sozinho, fumou um cigarro e acabou
embarcando num táxi, rua tal, número tal, mas vai pela avenida. Aí na avenida
aconteceu uma cena: o táxi andou por um tempo ao lado de outro carro, e lá,
dirigindo esse outro carro estava a sua amiga Soraia, e ela também viu e reconheceu
Joaquin, e os dois sorriram, depois ela dobrou uma esquina e desapareceu de
vez. Ele ainda estava distraído quando o motorista reduziu a marcha, um bom
tempo depois, e estacionou à beira de uma praça mal iluminada de onde partiam
vários becos ainda mais escuros. O taxista apontou pra um desses becos e disse
rua tal é aquela ali, é uma passagem só de pedestres. Ele pagou a corrida e
desembarcou carregando o malão com todas as amostras de venda, todo o seu
trabalho. Quando o carro se foi, tudo ficou mais escuro, e só então ele reparou
nos diversos grupos de pessoas espalhados pela praça. Olhavam pra ele e
conversavam entre si falando baixo. Por um segundo, ele teve medo, depois
atravessou pelo meio deles, caminhou pelo beco, a passos meio rápidos, atento,
até encontrar a pequena porta de madeira escura em um muro coberto de folhas
verdes, número tal era aquele ali, ele apertou a campainha. Quién és?,
perguntou alguém, ele falou Soy Joaquin, então uma senhora abriu a porta e
disse Seja bem-vindo, querido, estávamos te esperando.
Joaquin passou quase um mês naquela casa
enorme em pleno centro histórico da cidade, uma construção de uns duzentos
anos, no mínimo. Durante o dia, saía trabalhar, e à noite ia parar quase sempre
na biblioteca da casa, uma biblioteca daquelas com escadinhas de correr na
frente das prateleiras. Eram livros demais, títulos demais, e ele acabava
escolhendo vários, meio aleatoriamente, depois sentava no sofá e lia até quase
de madrugada. Folheou os livros mais estranhos, biografias de gente sem graça,
filosofias obscuras, geometria, palavras de origem árabe na língua portuguesa.
Passava mais tempo com os de poesia, utopias sociais, romances de aventura e
fantasia, humor inglês, fotografias, pseudo-ciências. Já não sentia medo ao
andar pelo largo, à noite, já conhecia pelo nome um bom tanto daquelas pessoas
suspeitas que falavam baixo por ali até mais tarde. Mas na maior parte do seu
tempo livre, apenas leu e observou das janelas a escuridão dos becos do centro
histórico, e viu a cidade como nunca tinha visto antes, dramática e suja, meio
cega, brilhante, oca.
A cidade que ele amou uma vez. Em que ele
tinha amado. A cidade.
No dia em que foi embora, ninguém foi levá-lo
na rodoviária, nem encontrou ninguém pela avenida. Embarcou sozinho, sentou à
janela do ônibus, olhou pra multidão que se juntava nas plataformas de
embarque, onde, com quase toda a certeza, não conhecia ninguém, e acenou em
despedida.
Estava tão cansado que dormiu logo em
seguida, um sono profundo que durou várias horas. Numa delas, acordou sendo
empurrado pela moça que ocupava a poltrona ao lado: sem querer, a cabeça dele
tinha caído no ombro dela enquanto dormia. Pediu desculpas e ela disse que não,
assim seco, numa voz bem grave. Ele ia dar uma resposta mal-educada, mas dormiu
de novo na mesma hora, e quando acordou, muitas horas depois, ela já não estava
mais lá.
Uma pena, pensou,
enquanto um cheiro adocicado ainda exalava do banco ao lado.
quarta-feira, 25 de março de 2020
entra
poeira da rua pela porta aberta. amanhã tem que comprar um- ah, droga, esqueci
de pagar outra conta, de novo. já seria difícil sem nenhum idiota vomitando
opiniões porcas no meu caminho, mas parece que é disso, agora, que os caminhos
são feitos. rezar pelo silêncio dos fins de semana. não é o sofá mais
confortável do mundo, mas é o bastante pra uma tarde de domingo. as janelas
tremem quando o trem passa duas quadras lá adiante. ainda falta preparar o
almoço, mas só quero pensar nisso depois das três e meia ou quatro horas. ou
cinco. ainda tem uns filmes legais pra assistir, pelo menos. esmagado, é assim
que eu me sinto, não exausto, não despedaçado, preso, não, nada disso, eu me
sinto esmagado por essa merda toda que insistem em jurar que é o único jeito, porque
é assim que foi sempre. não, seus merdas, é a gente quem decide como são as
coisas e- ah, esse protesto ridículo. um sopro muito leve no meio do tumulto.
numa rua esquecida de um bairro esquecido de uma cidade surda em um dia de (risos) descanso. em qual dessas gavetas
eu guardei meu coração, era pra hoje. deixa eu ver, deve estar por aqui, pronto,
encontrei. esmagado.
quarta-feira, 18 de março de 2020
Sabe quando você sente
as mãos frias de uma tempestade ao redor do seu pescoço
O ar cortando a voz de
todo grito de socorro é cheio de pequenas lâminas de gelo
Não dá pra encostar a
testa na janela do ônibus e sonhar em uma estrada tão esburacada
E nenhuma luz engana a
cegueira de quem viaja rumo ao leste na hora em que amanhece
Eu ando assim
despedaçado em sacos de lixo rasgados por todas as ruas de todas as cidades
Não estou muito à
vontade com a completa falta de horizontes nas paredes do seu quarto
Nunca fui habituado a
ter a imaginação dependendo de internet rápida
Sabe quando você quer
aquele gosto preto e fresco de uma noite cravejada de grilos
A transparência água
limpa o milagre jorrando de uma só palavra de amizade
E tudo que há ao redor
são só milhares de milhares de anos-luz de vácuo
A dor espalhada como
um brilho quieto e derramada quente sobre o coração em chamas
Ninguém pode provar
por a+b que a culpa é minha por qualquer justiça que me subtraiam
E você não precisa
repetir os códigos que já me provocaram tantas cicatrizes
Nem por isso eu tenho
a obrigação de concordar que o medo dite as regras daqui pra frente
Nem por isso eu tenho
a obrigação de nada ou acho que uma coisa deva necessariamente levar a outra
Sabe quando as
lágrimas pesam como inacreditáveis gotas de chumbo sobre suas asas
Sabe quando o sangue
chove e mesmo assim há multidões ajoelhadas adorando o céu de sacrifício
Sabe quando as jaulas
não vêm com passagens secretas
O perdão pode soar
como um remendo em roupas muito gastas e com um design ultrapassado
Mas bem que eu
gostaria que chegasse até você um pouquinho só desse eu estar me importando de
verdade
E que você pudesse ver
o que estou vendo
E que também o que não
sou eu pudesse ser visto de dentro pra fora
Pelo menos uma vez só
que fosse
Em minha vida toda
quarta-feira, 11 de março de 2020
Todos
os portos, todos os aeroportos são iguais, rodoviárias e estações com suas
televisõezinhas de partidas e chegadas, anúncios de colares-travesseiros,
estufas com pães-de-queijo, armários, homens e mulheres de coletes, malas com
rodinhas, carrinhos pra levar as malas com rodinhas, rodinhas, campainhas e
companhias, rodinhas, relógios, mãos acenando e lágrimas em plataformas de
embarque.
Todos
os barcos, ônibus, todos os trens e os aviões sobre os seus trens de pouso são
iguais, bancos de couro imitando couro, as manchas de sol e sombra dançando em todas as superfícies, as suas televisõezinhas com programações duvidosas, os dedos indo e
vindo nas telas dos celulares, os olhos indo e vindo na paisagem, sono
entrecortado e o pescoço de mal jeito, as costas de mal jeito, as pernas de mal
jeito, estranhos com conversas estranhas e biscoitos distraindo a fome, mantas,
memórias, mãos acenando e lágrimas correndo nas janelas.
Todas as partidas,
todos os caminhos e chegadas são iguais.
quarta-feira, 4 de março de 2020
–
Machu Picchu já foi cruel com você? – perguntou Antero, na segunda e última vez
que estivemos juntos no “Santuário”, que é como são chamadas as ruínas. Aliás,
a bem da verdade, estávamos no topo da montanha de nome Machu Picchu, a mais
alta dos arredores, e embora o acesso à montanha passe pelas ruínas, não há
indícios de nenhuma construção inca no alto dela.
–
Quer saber se eu fui atacado por algum cachorro? – brinquei, em referência ao
dia em que nos conhecemos, logo depois dele ter sido inexplicavelmente atacado
por um cachorro amigável. – Teve umas pequenas crueldades – confessei, mas não
me sentia muito disposto a ter aquela conversa ali, naquele lugar, então
mantive o tom de humor: – Mas acho que o pior é quando eu quero andar por aí e começa
a chover.
Antero
ficou em silêncio, sequer sorriu. Já tínhamos conversado mais de uma vez sobre
as sombras que existem no que quer que possamos chamar de processo de
iluminação espiritual, uma ideia muito bem ilustrada por Jung ao dizer que
nenhuma árvore cresce até o céu sem ter raízes tão profundas a ponto de tocar o
inferno. Talvez naquele momento eu só quisesse desfrutar da proximidade com o
céu, sem pensar em mais nada. Mas Antero não era dado a períodos muito longos
de silêncio contemplativo, e quem sabe, até, seu interesse em retomar o tema
fosse só mais uma das pequenas crueldades de Machu Picchu comigo.
Então
ele me contou uma história.
Lembrou,
mais uma vez, de quando atravessou a fronteira do Brasil com a Bolívia em Corumbá,
no Mato Grosso do Sul, acrescentando que vinha de uma série de relacionamentos
frustrados e até nocivos, incluindo casos com mulheres casadas que quase tinham
destruído a sua vida e as de muitos outros. Nunca tinha falado sobre isso, o que, no fim
das contas, fez com que o meu estado de ânimo em relação à conversa mudasse e
eu começasse a prestar atenção.
Falou
um pouco sobre o sentimento de solidão durante todo o trajeto do Trem da Morte,
mas também sobre uma certa resistência que sentia ao impulso de procurar por
alguém ou flertar com desconhecidas. Disse que tinha a impressão de que sua
cabeça “esvaziava” conforme ia ganhando altitude até chegar a La Paz, e que se
sentia “em branco” no momento em que avistou o Lago Titicaca pela primeira vez,
no caminho até Puno, no Peru.
–
Quando cheguei lá – disse, – era como se toda a minha vida até então nunca
tivesse acontecido. Era como se eu nunca tivesse amado ninguém.
Fez
uma pausa, lançando para mim um olhar significativo de quem se lembrava de eu
ter-lhe dito algo muito parecido em uma de nossas conversas. Depois voltou a
olhar para a paisagem com a expressão um pouco enevoada e prosseguiu:
–
Foi quando ela apareceu. Achei que era o destino, sei lá, era uma das mulheres
mais lindas que eu já tinha visto na vida, parada, sozinha, na beira do lago, a
luz batendo de um jeito que só aumentava a sensação de sonho. A gente conversou
por uns quinze minutos antes de aparecer o namorado dela. Eu não sabia que
existia um.
Fez
outra pausa, dessa vez mais curta e carregada de um pouco de raiva, mas quando
recomeçou, estava se divertindo.
–
Ficamos amigos, Julio, Mirela e eu. Passeamos juntos, saímos para beber,
dançar, conversávamos sobre qualquer coisa... E eu até que estava me saindo bem
fingindo que não sentia nada por Mirela. Mas era forte demais, custava muito.
Chegou uma hora que eu não aguentei, aí eu só segui viagem...
Acenou
com a cabeça em direção às ruínas lá embaixo:
–
Cheguei aqui mais de um mês depois. Passei por Arequipa, Nazca, fiquei um bom
tempo em Cusco. Mas assim que botei os pés no Santuário, adivinha quem eu
encontrei.
Não
consegui conter um sorriso, mas imagino que era esse o efeito que ele
pretendia. Então ele se virou para mim cheio de energia, como para dizer que
ainda não tinha acabado, e que o que vinha a seguir era ainda pior do que aquilo.
–
Julio fingiu indignação quando me viu. Caminhou na minha direção agitando os
braços e perguntou: “O que você faz aqui? Essa é a nossa Machu Picchu!”
–
Ai – foi só o que consegui comentar.
Antero
balançou a cabeça, reprovando a lembrança, algo entre divertido e profundamente
magoado. Eu quase podia ver o casal brincando de ter um Santuário só deles,
onde ninguém mais podia entrar, e a frustração de Antero logo em sua chegada a
Machu Picchu. Não era a primeira vez que eu via o destino brincar assim com
alguém, com aquela dose concentrada de crueldade e ironia. E – infelizmente,
devo dizer – sabia que não seria também a última.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
De repente, do nada, por nenhuma razão,
Surge essa voz
interior lembrando que você fez bem, um dia,
Por ter ajudado aquela
senhora a carregar as compras,
Por ter devolvido um
troco que lhe deram errado,
Por ter poupado um
desafeto de uma ofensa gratuita.
Às vezes, quando você
está distraído com qualquer outra coisa,
Surge essa voz dizendo
que você agiu mal, muito mal, mal mesmo,
Quando ignorou um
pedinte que obviamente passava fome,
Quando não segurou a
porta de um elevador para um atrasado,
Quando riu dos
defeitos de alguém, ou não retribuiu gentilezas.
Quase sempre, ao fazer
coisas por aí, surge essa voz dizendo
Que você fez bem, ou
que você fez mal, no instante em que você as faz,
De modo que algumas
vezes dá tempo até de desfazer um mal feito, ou
Só pedir desculpas,
ou, se ninguém reparar numa atitude louvável,
Você pode dizer a si
mesmo Parabéns, quem sabe até dar-se um prêmio.
Mas sempre, o tempo
todo, não importa o que você faça,
Surgem essas duas
vozes simultâneas repetindo, contínuas,
Você fez bem e Você
fez mal, sem que se possa nunca ter certeza de
Qual delas diz a
verdade, qual delas está mentindo – e é este não saber, afinal,
A maldição de todos os
seres, além de ser a sua liberdade.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
Mas o teu ódio é
santo. Sim, porque teu deus ficou chateado, eu acho, de ter sacrificado o
próprio filho por um bando de idiotas, agora ele quer sacrificar os filhos dos
outros. Quase dois mil anos estudando evangelhos pra acabar chamando de messias
alguém que quer distribuir fuzis em nome de Jesus. Você acha engraçado, pra mim
é muito triste que um deus de amor possa derramar tanto sangue com essa
indiferença sempre que você ache conveniente. Com a facilidade de fechar os
olhos. O mundo, você pensa, talvez seja só a maior das fake news que rolam na internet. Você ouve os
seus iguais, chama de engajamento religioso o que é fanatismo político, a
adoração pela força bruta, pela trindade do obrigar-proibir-castigar, deixa os
adultos cuidando das Coisas Sérias e vai ver um filme de homens com força
impossível explodindo tudo no cinema. É só tuitar reclamando de quem reclama,
não como se silenciar a dor pudesse fechar uma ferida, mas porque as feridas
não existem, é tudo entretenimento. Você pode se arrastar como só mais um, quem
sabe um dia os patrões generosos se lembrem de você, desde que você se mate o
bastante pra fortalecê-los. Fantoche à margem, é melhor mesmo não ouvir nada além
da voz mansa e confiante que te vende mentira em cima de mentira, ou
você pode se dar conta de que se enganou e isso seria o fim do mundo. Repete,
como se fizesse parte de um clube pro qual nunca foi nem será convidado, que é
tudo sobre dinheiro e poder, mocinhos e vilões, todas essas coisas que se
tornaram a mesma e que já não dão espaço a nenhuma outra, embora ainda sejam só
um grande e redundante vazio. Aplaude o teu governo missionário como quem canta
um hino de louvor diante do espelho, tanto faz que o mundo seja devastado, toda
a sua riqueza ambiental e cultural destruída pra caber no teu ego. De onde nada
retorna, nem acrescenta, nem agradece. Pela glória do que te ensinaram, pra
engrandecer o que te esmaga, nada, absolutamente nada é mais seguro que estar
morto. Ser invenção dos outros. Pagar teu dízimo de se omitir e, como isso é
coisa que sobra, continuar pagando.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020
Ou
o que eu não devo
A
idade da História
A
lista de títulos
Ou
o que eu não leio
Dentro
da madrugada
Rios
de rancor e sangue
Ou
o que não veio
Ou
o que nunca foi segredo
Cartazes
de medo e desprezo
Aqui
vocês só vendem as trevas
Ou
o silêncio batido
Ou
um delírio
Diamantes
e araçás coloridos
Às
vezes você só quer um abraço
Ou
o que eu não tenho
Obrigação
de ferir
Faróis
infalíveis
Ou
o que eu não creio
Ou
o que eu não vejo
Ou
o que ninguém quer saber
Ou
o ou
domingo, 9 de fevereiro de 2020
É de manhã. Quem dera prolongar essa promessa espreguiçosa
no ar puro. Você não gosta de linhas retas, da luz matemática, das horas sem
rastros de sonhos. Tem cheiro de orvalho e de pão, uma eletricidade que se
espalha sobre o sono e colore as paredes de espera. É tão cedo. Só sei que te
adoro, algum muito, uma delicarícia nas mãos, um beijo deitado na pálpebra. Você
pulveriza o céu, despedaça, você está diluindo o céu no peso do teu corpo. Borbulha
em bule de café, mas bem antes da pressa. Enfim. É o princípio. Vestir o ir em
frente com o teu mistério, eu quero tatuar a tua pele em mim, a tua profundidade
inspiralada. Você mora em tantos labirintos. E vai chegar logo mais,
recarregada de noites.
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