Estive
tentando reunir alegria suficiente
Ou
graça ou glória
Pra
escrever um poema de amor quase místico
Sobre
a grandeza de tuas paisagens, cidadezinha
E
da tua gente silenciosa
E
das tuas ruas aéreas
Tua
praça iluminada pra festa
Fervendo
de fome e de frutas na feira
Estive
tentando encontrar minha calma e a terra
Sólida
sob meus pés pra sondar as beiradas de teus abismos
E
as profundezas de teus rios
Dos
corações inundados que aqui vivem
Ou
vêm pra despistar cansaços
Tua
lua cheia ao alcance das mãos, as milhares de mãos
Erguidas
em templos de adorações tão diversas
Porque
eu te amei quanto pude
Mais
muito
Tentando
evitar esta hora em que a estrada nos separa
quinta-feira, 17 de setembro de 2020
teu castelinho de história vai ficar bonito com mais essa postagem.
distorce informações pra elas caberem no alerta: “eles são a causa de todos os
males do mundo”. só um pouquinho aqui, outro pouquinho ali, estica e puxa e faz
parecer que temos que escolher entre uma tirania e outra, as nossas com certeza
são as melhores. o fato é que ninguém se relaciona mais com os fatos. não só os
que sonham alto os paraísos interiores, também os que rastejam pelas ruas suas camisetas
e bandeiras viciadas em só isso. mas ei não pare agora o teu castelinho de
história está ficando lindo com todo esse combate heroico aos mais novos
sintomas de doenças que ah deixa pra lá. toda essa guerra entediante e teatral
e sem avanço esse chove não molha uma bola de neve estamos andando em
círculos e o melhor que temos pro nosso próximo ato é repetir algo de antes. e
se quiséssemos realmente melhorar o mundo? sei lá, só perguntando.
quarta-feira, 9 de setembro de 2020
Conheceram-se no caixa
de um restaurante, depois descobriram que tinham ambos o resto da tarde livre,
então por que não, o rapaz conhecia uns lugares interessantes pra visitar ali
perto. Mas não conhecia ninguém na cidade: tanto quanto Joaquin, estava lá só
de passagem. “Ninguém gosta de mim”, repetiu algumas vezes com os olhos baixos,
e Joaquin via algo de sua própria tristeza refletida no rapaz. Naquela época,
trabalhava como representante comercial, tentando vender sucos de frutas que
não nasciam a menos de mil quilômetros das cidades onde ia. Passava muito tempo
na estrada e muito pouco tempo em cada cidade – e também não conhecia ninguém
naquela, mal lembrava seu nome. Também tinha a impressão, muitas vezes, de que
ninguém gostava dele.
– Vezes até demais –
confessou.
E quando contou essa
história, demorou-se, nesse ponto, em alguma lembrança silenciosa, os olhos
perdidos por um longo instante, sem revelar mais nada.
Ele se chamava Martim,
disse, afinal. Estava hospedado em um albergue ali perto e parecia bastante
chateado com alguma coisa que tinha acontecido lá, mas não dava pra entender
direito, ele falava sem parar e às vezes eram coisas sem nenhum sentido, repetindo
o refrão “Ninguém gosta de mim” muitas vezes, vezes até demais. Mostrou o nome
do ex-namorado tatuado no braço, teve que abaixar um pouco a calça e a cueca
pra mostrar a tatuagem de pequenas e delicadas flores ligadas por um fio. Disse
várias vezes que achava o Joaquin lindo, lindo, lindo demais pra estar
solteiro, acariciava o seu braço, uma vez ou outra tentou segurar sua mão.
– Mas eu não me
importava com isso – disse Joaquin. – Acho que até aquele dia eu não tinha me
dado conta do verdadeiro peso da minha solidão.
Martim. Eles andaram
juntos a tarde inteira, depois acabaram em alguma lanchonete tomando o suco de
uma fruta que só nascia naquela região e de que Joaquin nunca tinha ouvido
falar. Foi com o rapaz até o portão do albergue, deixou-o lá, despediu-se, já estava
outra vez andando em direção à rua. Martim se sentou em um banco encostado ao
muro, debaixo de uma árvore, e parecia mergulhado em sombras quando Joaquin se
virou pra trás pelo que pensou que fosse a última vez. O rapaz escrevia em um
caderno pra depois procurar por ele no Facebook, em letras garrafais: JOAQUIN.
Ninguém gosta de mim, estava dizendo ainda, ninguém gosta de mim, ninguém
gosta, ninguém. Por que você está indo embora? O que foi que eu fiz?
– Aí nessa hora eu fui
até ele – contou Joaquin, – segurei seu rosto entre as mãos e beijei... não,
beijei não... mordi seu lábio inferior.
Fez uma pausa, durante
a qual perguntei:
– Mas por que você fez
isso, Joaquin?
E ele:
– Ah, sei lá, pô...
Acho que... Todas as frutas.
quarta-feira, 2 de setembro de 2020
por que ainda estou ouvindo essa gente? quando olhei pro lado, alguém
importante já não estava mais lá. houve um tempo em que era tão fácil a certeza
de sentirmos amor, agora uma longa interminável tentativa de cura. nunca, jamais
se permitir a falha imperdoável de não levar tudo tão a sério o tempo todo.
nunca descansar numa ilusão qualquer de leveza, se é que é mesmo uma ilusão.
por que ainda acredito em crenças que se adaptam aos interesses de uns poucos
de acordo com as circunstâncias? o que eu tinha de melhor se perdia e ninguém
se importava então eu me refiz, mas o que eu tinha de melhor se perdia e ninguém
se importava então eu me refiz, mas o que eu tinha de melhor se perdia então eu me
refiz, mas ninguém se importava e a uma certa altura eu já não tinha mais nem
como acreditar que o problema era comigo. e onde você estaria se eu enxergasse
no espelho o ser mais desprezível da face da terra? há coisas demais em mim que
você não quer ver pra alguém que está parado propositalmente à minha frente. e
se é pra ser esse bobo, o ingênuo, por ter feito a escolha de trilhar os
caminhos do afeto, a maldade do mundo que você diz que combate, não é aí que
ela nasce? ah porque é assim que são as coisas, não são, é você quem prefere, a
poesia que está morta é só a dos sonhadores, apedrejada pelos corações que
apodreceram, como é conveniente transformar os sentimentos em vaidade, fraqueza,
estratégia, puro desejo, nada. por que ainda estão ouvindo essa gente? por que
então é só essa gente que ainda fala?
sexta-feira, 28 de agosto de 2020
Pra quem só a lógica é uma abstração e uma armadura
Mostra-se a epiderme da existência
Numa nudez tão pouca que
Quase não pulsa
Ar que lhe falta
Imensidão de abismos submersos
Labirintos que assaltem a solidão da linha reta
Essa alma seca
Soando como mera matemática
Convencida de ser pedra então rasteja sendo alada
E para além de todos os delírios permitidos aprovados
Pétalas de joias com seus raios de estelares auras
Espalham-se num mar tão claro que
Ninguém repara
quinta-feira, 20 de agosto de 2020
Era
uma noite de muito vento e na Casa Velha ficava impossível dormir quando
ventava daquele jeito à noite. Talvez por isso tantas pessoas tivessem
enlouquecido ali, ao longo da tortuosa e ridiculamente comprida história de
nossa família, e talvez por isso ela tenha ficado vazia por tantos anos antes
que eu voltasse a morar lá, na vida adulta, muito mais por força das
circunstâncias do que por vontade própria. Àquela altura, já estava em minhas
mãos decidir o que fazer com ela, e se soubesse o que me custariam os anos que
acabei ficando, com certeza teria me desfeito de tudo já naquela época – mas
decidi lhe dar uma chance, e agora enfrentava as consequências da minha escolha conveniente e preguiçosa. Aquela
noite de maio já seria triste o bastante sem o vendaval, porque a imagem de
todas as coisas e pessoas que eu amava estava se dissolvendo em chuvas frias
desde o início do outono, porque era um
período obscuro na história do meu povo e milhares de pessoas morriam lá fora,
porque naquela tarde eu tinha enterrado o último dos meus sonhos mais loucos e
lá se iam dezenove anos que eu vivia sem mais ninguém na Casa Velha, ou talvez
fossem trinta e cinco, ou cento e quarenta e quatro. Muitas vezes me perguntei
se não teria me tornado só mais um dos fantasmas das histórias de meus avós,
arrastando os pés pelos corredores intermináveis com as minhas mágoas e meus
candelabros; às vezes, se me demorava, por exemplo, em uma das cadeiras do
jardim de inverno, tinha a impressão de que já começava a fazer parte dela, de
que não havia mais nenhuma diferença entre mim e qualquer outro móvel da casa;
quase sempre me perdia na passagem do tempo, e me parecia que tinha acabado de
fazer coisas que havia feito semanas ou até meses antes, ou podia achar que
alguma coisa que eu tinha acabado de fazer, tinha feito anos atrás. Não sei o
que me desprendeu da Casa Velha, afinal, de maneira tão definitiva, como uma
força centrífuga, me arremessando para muito longe – alguma coisa que gritava,
alucinada, no vento daquela noite de maio?, alguma coisa sangrava e
rasgava em meu peito os últimos farrapos que de mim haviam restado, e aquilo
queimava e era alívio, ardia como lava ardendo sob o fogo de um milhão de sóis
e ao mesmo tempo era um bálsamo, uma surpresa tão única, tão grandiosa, como se
só então o ar tivesse começado a existir e aquela fosse apenas a primeira vez
que eu respirasse.
sexta-feira, 14 de agosto de 2020
Porque
esse farol constante entre os olhos, percepção de que eu sou eu e de que sou
assim, sempre um fluxo de palavras e de sensações, coisas sem nome.
Deus
me deu duas mãos para semear e construir moradas, pés de ir adiante,
Deus
me deu uma razão para compreender e calcular verdades, Deus me fez bicho
E
senhor do meu desejo, do meu gesto e minha direção.
Quando
também há um só fechar os olhos e deixar-se ir fundo na noite, o temperar
pulsante do sono e do sonho, Deus me deu o delírio, tanto um esvoaçar de nuvem
quanto o silêncio quente em corações de rochas, trevas da morte e uma porção de
pólen, barco intergaláctico.
E
apesar de mentiras em papéis timbrados, câmeras de segurança e muros erguidos
sobre linhas imaginárias, toda a Terra me foi dada para eu andar por onde bem
quiser, colher os frutos e beber das fontes, reconhecer pelo caminho os meus
irmãos e irmãs, assistir maravilhado ao poente.
Sim,
o céu também me pertence, e cada uma das estrelas sobre o mar, e mais
O
mar é meu, e anêmonas e peixes, cores de corais, e ainda as árvores são minhas,
Do
espinho à pétala, pois ter nascido é ter tomado posse, é ter colocado na cabeça
a coroa.
Procure
em vão no universo ou nos séculos o mais vago vestígio de uma prova em
contrário.
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
De que forma é o não? Como foi
A sua experiência com o não?
Estive em lugares onde as pessoas andavam com os corpos
retorcidos, gestos interrompidos ou arrastados e as vozes trêmulas de tanto não
pesando sobre elas.
Onde cabe o não? Com o que,
Exatamente, se parece o não?
Às vezes, quando explodia alguma vida por perto, ou se uma
paixão vibrasse em todo o ar em volta delas, encolhiam-se, puxando sobre si as
montanhas de não que nunca existiram e ficavam assim, imóveis, como que soterradas
em nada.
Cadê, então, o não? Me mostra
Do que é feito esse não que você tanto fala?
E quando a agitação terminava, e a poeira ia caindo de novo
através daquelas tantas camadas de não que lá nunca estiveram, retornavam às
suas rotinas, obcecadas por controle e por um punhado de tradições já sem sentido,
reencenando o velho e sempre o mesmo vazio de verdades, apáticas e só meio
vivas, deformadas dentro de um abraço inventado.
quinta-feira, 30 de julho de 2020
vem
essa tempestade e lava
ainda
correm os rios espelhando cidades e matas e
raios
noturnos
ainda
bradam os mares contra as rochas
vem
essa água
e leva
algas
e peixes e sede
vem
essa tempestade e lembra
lágrimas
de amor e raiva
suor
lambe
essa tempestade aqui fora
ainda
tombam cascatas ainda repousam lagos
ainda
verte da terra e do céu sem que se saiba por
onde
começa
água
sobre
as feridas sobre as calçadas
águas
passadas
sobre os gramados e sobre os
telhados
e asas
a
tempestade ainda se arma
ainda
desaba
sexta-feira, 24 de julho de 2020
prece
por só
mais um encontro casual com a sua urgência
a sua
IRRESPONSABILIDADE
a sua
INCONSEQUÊNCIA
morarei
na sua memória só mais um instante, serei
abrigo
ainda que os mesmos vidros que você estilhaça
sonharei
nos seus sentidos, beberei
do seu
sorriso o líquido suave e quente da alegria e graça
ainda
que o mesmo bobo de que você tanto ri
SEUS OLHOS VOLTADOS PRA MIM
PRA MAIS UMA FOTGRAFIA
só
mais um dia do seu amanhã-nós-vemos
mergulharei
na
eternidade do seu agora
entre os
braços entre as pernas entre
em
glória
quarta-feira, 15 de julho de 2020
No princípio era um som eu só gostei de como soavam as três
palavras juntas
Fragilidade
Frustração
Fracasso
Mas imagine isso na parede em vez daqueles quadros com
diplomas e fotografias familiares
Nas salas de visitas
Meu deus as crianças não podem ver essas coisas
Bem rápido, jogou o livro na mesa de forma um pouco teatral, mas sua expressão agora misturava raiva com divertimento.
Cadê a redenção da arte
sexta-feira, 10 de julho de 2020
Viajei
sozinho pelo Nordeste por mais de um mês depois de ter conhecido Eva em João
Pessoa. Daquela vez, tínhamos conversado muito pouco; havia sempre algum outro
homem por perto investindo em uma relação mais íntima com ela – e embora ela
não desse mostras de ter se envolvido, de fato, com nenhum deles, também não
fazia nada pra que eles se afastassem. Nem chegamos a trocar celulares ou
contatos no Facebook, daquela vez; mal nos despedimos antes de seguirmos cada
qual o seu roteiro, mochilando no litoral nordestino. Agora eu estava em Barreirinhas,
no Maranhão; tinha acabado de me informar sobre como chegar aos Lençóis e fui
tomar um suco em uma padaria. Poucos minutos depois de eu ter chegado, Eva
entrou, sozinha, e imediatamente olhou em minha direção.
Rever
um rosto conhecido quando se está fazendo uma viagem longa como as nossas é
sempre emocionante. Por mais superficial que tivesse sido nosso contato um mês
antes, caímos nos braços um do outro e desatamos a conversar como velhos amigos
que se reencontram cheios de novidades. Eva pediu uma cerveja e eu passei a
acompanhá-la assim que terminei meu suco, e já estávamos na metade da segunda
garrafa quando ela se sentiu à vontade pra dizer:
–
Tenho que confessar que fiquei aliviada por você não ter dito nada do tipo “Eu
não acredito em coincidências” ou “Nada acontece por acaso” quando a gente se
encontrou...
Sorri.
Não era a primeira vez que o meu percurso coincidia em mais de um ponto com o
de outro mochileiro e, a julgar pelo comentário, o mesmo já devia ter
acontecido a ela. Mas não podia deixar passar um tema de conversa tão
interessante sem ser absolutamente sincero:
–
Quando eu tinha uns dezessete anos, – falei – entrei em um caminho pro qual eu
não estava preparado. Aconteceram umas coincidências muito estranhas na época,
envolvendo sonhos e cartas psicografadas, e logo em seguida eu li um livro
chamado A Profecia Celestina, que
fala das coincidências de uma perspectiva mística. Mas eu tive que parar com
aquelas coisas, não estavam me fazendo bem... Só depois de muitos anos voltei a
dar alguma atenção a esse assunto. A verdade é que quanto mais você presta
atenção às coincidências, mais elas acontecem. Em níveis cada vez mais
profundos, e incluindo eventos que poderiam ser chamados de telepatia, precognição,
clarividência... Pra mim, são eventos perfeitamente normais, mas entendo o
ceticismo em torno disso.
Ela
me encarava em silêncio, com um traço indisfarçável de desagrado no olhar. Era
justamente por causa daquilo que eu não costumava, mesmo, dizer coisas do tipo
“Nada acontece por acaso”. Como eu tinha acabado de falar, entendia o ceticismo
em torno do assunto, e nunca tive vocação pra ser um pregador. Daquela vez, no
entanto, o acaso tinha sido realmente generoso, e tudo o que precisei fazer foi
tirar da mochila o livro que eu estava lendo.
–
Abre aí na página marcada – falei, entregando o livro a ela.
Ela
abriu.
Bem rápido, jogou o livro na mesa de forma um pouco teatral, mas sua expressão agora misturava raiva com divertimento.
–
Eu não acredito nisso – falou.
Divertido,
também, dei de ombros.
sábado, 4 de julho de 2020
Luzalegre, 25 de julho de 2012
Ruth;
minha querida, para as nossas bodas, te preparei um poema,
mas queria mais que ele soasse como a minha voz ao teu ouvido, numa tarde
ensolarada de domingo, passeando à beira de um lago. Com alguma brisa. Ao longo
de todos esses anos, dia após dia repetimos “eu te amo”, sempre tão seguros de que
aquilo que sentimos seja amor, nunca nos fez falta explicar nada disso a nós
mesmos, e apesar de que nos amamos já de tantas formas diferentes, mesmo agora
não existe outra verdade ou por que falar de outro jeito se não “eu te amo”.
Eu. Menino da primeira vez que te encontrei, crescendo
enquanto você caminhava em minha direção no altar, vivendo, te vendo, vivendo e
envelhecendo e ainda assim menino toda vez que te encontro, sei, por ter estado
ao teu lado em cada ciclo de lua que passou, encontro na tua voz, no olhar, no
gesto, reconheço no ir e vir das tuas marés, máscaras e lentes e palavras
demais para um dia a dia vazio ou para o que é indizível, percebo o teu amor, recebo
o teu amor, sou teu, sou grato, é como se a única realidade comprovável fosse
mágica.
Te amo nas manhãs mais cinzas, nas semanas agitadas de
muito trabalho, no vermelho do outono, no verso e na melodia, naquele tempo que
você botou na cabeça que ia ser artista plástica e nós vendemos a brasília e transformamos
a garagem em ateliê, nos nossos filhos, às vezes quando te odeio e sempre que
estamos muito quietos distraídos ou maravilhados olhando uma paisagem, sinto um
vulcão de sentimentos e sentidos, desejo despertando o corpo todo ou pétala de
algum perfume que embriague, então o coração também tem personagens, então
também a alma dos santos é uma legião de luzes e de sombras, é sempre novo o
sopro que me move, e de toda vez eu me devolvo inteiro para o teu abraço.
Outro
dia me ocorreu, é possível que eu tenha mais lembranças de nós dois juntos que de
mim sozinho. E isso me pareceu grandioso e admirável, algo que poderíamos
gravar em uma placa de bronze. Se era esse o livro da minha vida, se é assim que
acaba, então aceito, sim, e pode até deixar que eu mesmo conto. Nenhum outro
final faria mais justiça a esse ser feliz para sempre, desde aqui, para qualquer
dos lados que se vá no tempo.
quinta-feira, 25 de junho de 2020
Esta é uma história que ouvi uma vez como se
fosse verdade e não me lembro muito bem de onde ou quem contou, mas a julgar
pelo estilo, época e cenário, acredito que tenha sido meu velho amigo
antropólogo, violinista e poeta mineiro Antônio Rosales, o Tonho – e que ele me
corrija se eu estiver errado. Aconteceu que, um dia, ele andava pelas ruas de
uma dessas cidades muito cheias de ladeiras e casas antigas, acompanhado de seu
amigo Pablo, quando, ao dobrar uma esquina, viu-se diante de um pequeno prédio
que, construído ao pé do morro, lá embaixo, tinha os andares mais altos na
altura de seus olhos. Assim, podiam ver quase que de frente a cena que se
desenrolava no telhado, de onde outro poeta bastante conhecido na cidade ensaiava
se jogar – pelo que se dizia, por causa de uma rejeição amorosa, embora isso
realmente não faça nenhuma diferença. Tonho e Pablo ficaram ali, por um instante,
observando o povo que se aglomerava nas calçadas, curiosos que espiavam pelas
frestas das janelas e bêbados que discutiam em mesas de bares, todos sem poder
desviar os olhos, enquanto o poeta, lá no alto, se alternava entre tomar notas
num caderno, dar grandes goles de uma garrafa de cachaça e espiar pela beirada,
lá pra baixo, como se reunisse coragem. Um perceptível tremor se espalhava, as
beatas se benziam, alguns davam risada, de nervosismo ou de escárnio, e uns
jovens chegavam a gritar, impacientes, “Pula logo”, mas nada acontecia, tudo
demorava. Tonho e Pablo permaneceram assim, hipnotizados, absorvendo todos os
detalhes, até que uma certeza súbita alcançou o Tonho, clara como água: “Amanhã
tem sangue nos jornais”, falou. “Você acha que ele pula?”, perguntou Pablo, mas
o Tonho se limitou a erguer as sobrancelhas, pendendo a cabeça pro lado: “Ou
publica”.
terça-feira, 16 de junho de 2020
De dor e não entender
Mortos aos mil, milhares
Em circos a sangue frio
Que para não ter culpados
Não encontraram responsáveis
Cegos guiando cegos
À vala comum, às lágrimas
Um vírus
Veio enfrentar o fôlego da Terra
Tem me roubado os avós e irmãos
Amores meus
Sou eu quem não alcança o ar
Escuta
Este sopro
Entrecortado
O sussurro, um lamento
Daqueles que reparam
Quantos
Números disparam
E nenhum bolso nos salva
A falta de força, essa febre
Em fogo sobre as nossas peles
Quantos olhos se fecharam
Para não ver ou por não terem visto ou então por que POR
QUE
De toda luz venham anjos envolver os corações dos que
ficaram
Vesti-los de amparo
Acolham as almas partidas sob este peso arbitrário
De acaso e descaso
De todos os templos se espalhem os deuses e seus avatares
Até abrigar quem estas trevas devoram
Para que amanhã amanheçam tranquilos
Para que não chorem
Somos todos e cada um de nós
A humanidade que some
Essa esperança de máscara
Uma alegria que aguarda
Calada
Cansada
Até que os tempos recordem
Até que os céus se recobrem
E nos encontrem de novo aliados
Como os irmãos que somos
Apesar
E por causa
Dos
pesares
terça-feira, 9 de junho de 2020
Ninguém
ouvia o grito.
Nem
poderiam fazer nada se escutassem.
Cidades
inteiras desmoronavam no meu peito, eu já não tinha um reino pra oferecer em
troca de um cavalo que me levasse de lá, chovia fogo, em minhas mãos começava a
secar o sangue dos amigos que morreram nos meus braços.
Mas
era uma quarta-feira à noite, eu estava na casa da Janaína e ela estava preparando
um bolo pro aniversário de um sobrinho.
Falávamos
sobre qualquer coisa do trabalho, ou sobre alguém, não lembro, e de repente
reparei no quanto ela estava concentrada no que fazia. Era uma espécie de
oração, tinha algo de muito sagrado em estar preparando aquele bolo.
Submersa
em um tipo de transe amoroso, como se não existisse nada mais bonito e importante
no mundo, sem desviar os olhos nem por um segundo, em silêncio, esquecida de
mim, de tudo, espalhava os morangos sobre o bolo como se dançasse, ou como se provasse
um vestido, e por um instante sorriu, encantada com o que fazia.
Eu
poderia suportar o horror, enfrentar a morte de peito aberto, receber todos os
golpes, perder tudo de novo e de novo, mas só queria que nada no mundo fosse
capaz de roubar da Janaína a sensação daquele instante.
A dor maior do amor
não é quando lhe falta reciprocidade. A dor maior do amor é quando ele nos obriga
a olhar de frente pra essa nossa impotência.
sexta-feira, 5 de junho de 2020
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