sexta-feira, 30 de setembro de 2016



Passam dois meninos de uns dez anos conversando:
– Mas você não me convidou...
– Convidei, sim! Eu mandei correio pra todo mundo. Só se ele não foi lá na tua casa...
– Não foi...
– Ah, vá tomar no cu desse correio! Eu vou matar ele!
– Você vai matar ele?
– Tô brincando.
– Ah, bom!

sexta-feira, 23 de setembro de 2016


– Luazinha, você não se cansa de estar sempre tendo que voltar a ser voltar a ser voltar?

Em pé diante da pia da cozinha às três da madrugada, imaginando uma conversa com a Cristina, comendo atum ralado Hemmer direto da lata eu sinto de repente que tudo está bem, que a vida é boa e que tudo faz sentido.

Mesmo que tocasse um rock ruidoso, que a letra fosse um grito de revolta ou o lamento angustiado de um suicida; mesmo que estivesse muito quente ou que eu não quisesse dormir porque amanhã o dia vai ser um saco e eu queria poder fazer outras coisas; mesmo que me incomodasse um pouco o fato de que a lâmpada da sala está queimada há quase um ano ou de que minhas roupas estão sujas na mala ainda não desfeita da viagem; mesmo que às vezes eu me arrependa de ter dado a minha gata ou que me sinta um astronauta esquecido e sozinho em algum ponto distante do Universo; mesmo que eu não saiba muito bem como e por que: tudo está bem, a vida é boa e de repente faz sentido.

Cara, a verdade é que eu ganharia uma fortuna revivendo este momento em um comercial da Hemmer. Claro, talvez preferisse outro figurino – apesar de gostar desta camiseta verde com a estampa de uma mulher encapuzada e uma tatuagem no braço dizendo Venus in Furs, que eu acho que teria, digamos, um apelo dramático maior do que a samba-canção branca com a inscrição Amor eterno em várias línguas, embora os publicitários talvez discordem – mas enfim, a cena toda já está pronta: o cara insone que de repente abandona os seus infernos interiores e se reconcilia com a vida e com o mundo através de uma lata de atum ralado Hemmer. Originalíssimo, perfeito.

Ah, droga, já me aborreci de novo.

sábado, 17 de setembro de 2016


The Lord took her away from me.
Era o teu nome, e o de mais ninguém. Riscado com giz na calçada, com um graveto na areia da praia ou com o dedo no vidro embaçado. E em cada uma das oitocentas páginas do meu caderno. O que era inútil, porque você não respondia. A solidão descrevia um arco, arremessada desde o centro do teu silêncio imóvel, e me atingia bem no peito, em cheio. Não havia mais nada nem ninguém a quem eu quisesse pertencer. Sob o sol, a boca seca, levantei os olhos e encarei o grande deserto que se estendia além, pra qualquer lugar. Fomos felizes uma vez, depois fui triste, e agora há qualquer coisa de esperança em não querer olhar pra trás. Ainda é teu nome, eu sei. Mas nem me lembro muito bem de como ele se escreve, não depois que eu comecei a caminhar. Agora é só poeira, pedras, pés cansados e a testa coberta de suor. Pura terra. Puro ir. Dura indiferença à imensa falta que você virou.


(E ainda diremos algo inédito sobre o amor.)

sexta-feira, 9 de setembro de 2016



Depois de vinte mil atualizações de status, continuava incompleta. Nunca se convenceu, nem poderia, mas não percebia como aquilo tudo não servia de nada. Além disso, eu estava de mau humor porque era terça-feira e fazia um calor insuportável. Escrevi: “Papai e mamãe estão contando com você: não tem mais nada na vidinha deles que possa ser motivo de orgulho”. Mas aí logo em seguida apareceu esse menino defendendo o Mandamento de honrar pai e mãe e ele era uma das pessoas mais bonitas que eu já conheci. Não me envaideço de ser humilde, não acho que a minha humildade seja menos sincera e natural que a minha vaidade. Já imaginou que louco transformar defeitos em virtudes com a mesma agilidade e empenho com que fazemos o contrário? Sinto falta de pessoas sem as quais estou muito melhor e às vezes me desligo de quem me faz bem: sempre foi assim. O fato é que não temos nada a ver com aquele personagem do nosso perfil – ele é no máximo alguém que gostaríamos de ser, quando muito. Bora lá escolher qual lavagem cerebral você quer sofrer, em qual transe hipnótico você quer entrar. Não tem outra opção. Assim continuamos, e continuamos, e continuamos. Parece que seria a morte se faltasse um link.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016


Na segunda-feira, as ruas do Bairro Histórico estavam praticamente vazias. Caminhei meio sem rumo das onze horas até o meio-dia, enquanto garçons cheios de preguiça iam abrindo as portas dos restaurantes e uns poucos turistas comparavam preços e sugestões dos chefs escritos com giz em quadros negros. Escolhi meu restaurante pela música. Sentei-me à sombra de uma árvore em um pequeno deck com vista para o Río de la Plata. Rock’n’roll e Iate Club. Um garçom gordo e simpático chegou com o cardápio, mas eu não tirei os óculos escuros. Queria um macarrão à bolonhesa. Queria aquele filhote de gato cinza ao pé da mesa em frente. Eu era o único cliente no restaurante.

– Los lunes son mortales – comentou o garçom quando me trouxe queijo e azeitonas. – No hay casi nadie em las calles y estamos pelados... Los lunes son mortales, mortales.

Fiquei pensando se ele envenenaria o meu molho à bolonhesa; ele saiu exibindo um pedaço da bunda por cima da calça jeans. Outros filhotes de gato se juntaram ao filhote cinza, deitaram-se sob o sol. Fiquei me lembrando da temporada que passei em Santorini em mil novecentos e noventa e nove... Mentira, nunca estive em Santorini. Mas me lembrei de Santorini pelo puro prazer de dizer que me lembrei de Santorini, e porque tenho a impressão de que lá passei os meus melhores dias ao lado de Marília. Também nunca tive uma namorada chamada Marília, mas acho que lá, em Santorini, cheguei a pensar por alguns instantes que ficaríamos juntos pelo resto da vida.

O Río de la Plata refletia uma luz prateada que era a luz do sol filtrada por um fino véu de nuvens.

Queria escrever um conto sem metáforas nem simbologias, fingindo que os humores não interferem nos recortes da objetividade. E só porque nada consegue dar conta, mesmo, de traduzir a totalidade de uma experiência.

O garçom voltou com um pote de queijo ralado em uma mão e um cigarro aceso na outra. Inclinou-se sobre a mesa para deixar o queijo e derrubou uma porção de cinzas sobre a toalha azul não muito limpa. Bateu as cinzas com os dedos, sem dizer nada, e desapareceu outra vez com suas calças soltas.

Deixei as azeitonas de lado e acendi um cigarro. Era o meu jeito de dizer ao garçom que eu também não me importava nem um pouco com nada daquilo.

E que ele tinha razão, afinal. Segundas-feiras são mortais.


sexta-feira, 26 de agosto de 2016


Escadas em caracol. Vitrais. Um outdoor com o sorriso malicioso de uma moça usando apenas calças jeans. Papel prateado sobre um coração de cartolina, camafeu, o que era um camafeu além de uma palavra feia? O que era um camafeu no meio dessa história toda? Estou enjoado, ainda faltam quatrocentos e setenta e dois quilômetros, curva, curva, uma freada brusca. Tentando esconder do sol o braço esquerdo porque ele já está suficientemente mais bronzeado que o direito. Não, meu bem, a sua vontade de ajudar ao próximo não pode derrotar meu egoísmo desmedido. Não, você não entendeu: minha vontade de ajudar ao próximo é um troféu na minha estante, só serve quando me permite te acusar de um egoísmo desmedido. Será que alguém consegue não estar em nenhum lado nesse espelho? Talvez ele confesse o inconfessável no chuveiro. Bola de neve, ímã de geladeira, um ego, um ventilador paraguaio: o que era qualquer coisa no meio de todas as coisas? Um dia você já sentiu o gosto da tinta da caneta, alguma vez uma caneta já estourou na sua boca? Lembra-se de uma caneta que fazia desaparecer o maiô de uma mulher conforme você a virava? Estou enjoado. Tudo isso é mal é o mar, é o ar condicionado e uma história de aborto – por que é que não fui eu que não nasci. O meu baú cuspia as coisas meio díspares, e dedos apertavam ao redor do teu pescoço. (Agora deixo os nós e os fios serem o mesmo pensamento: é só o que ainda não tentei pra mim deixar de ser burro.) Só sei que tinha sempre a luz de tinta verde do rádio relógio, três horas e trinta minutos, três horas e trinta e um, três horas e trinta e dois. A cento e quarenta quilômetros por hora, com a palavra “agora” escrita no retrovisor.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Jericoacoara - CE
ou lágrima. uma gota grande. pensei que um tremor de choro na voz. não muito uma lamentação, mas só porque. não. esquece. valsa lenta jazz. nenhuma perda causa uma dor tão grande, nenhum abandono. a injustiça, a opressão, toda uma lista dos piores defeitos humanos que são sempre dos outros. os outros. a imaturidade dos outros, a arrogância dos outros dói, a nossa também dói, mas nada, nunca, tanto assim. é alto o preço que se paga quando se é pequeno, mas ainda não é isso o que dói mais. até pensei que. não. deixa. toda essa falta de jeito e de vontade pra ser simplesmente inteiro e real e quebradiço. bolero lancinante blues. silêncio absoluto soul.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016


(Diários de Machu Picchu #10)


Você não pode ver porque eu pareço muito sério, mas na verdade estou bem de boa. Ontem entrou um morcego no meu quarto, aprendi a andar de moto, não tem nada de grandioso nem de mágico no mundo, Olívia me contou histórias engraçadas e eu também fiz ela rir: ganhei o dia. Passei a vida inteira dividido entre os que se odeiam, todos diziam que eu estava “em cima do muro” e que esse é um lugar de covardes, mas você vê: é mais fácil acertar uma pedrada em quem está em cima do muro do que em quem está do outro lado. “Saia de cima do muro”, eles gritavam, até que um dia eu disse o muro é meu e eu fico nele onde bem entender, mas foi aí que ninguém mais ficou do meu lado, mesmo. E ainda temos que falar de muitas outras coisas importantes, por exemplo: você já imaginou se os gafanhotos comerem toda a floresta amazônica e virarem gigantes e começarem a devorar cabeças de gente? Chega uma hora em que tudo começa a se repetir, você já sabe quem vai encontrar, o que vai ouvir e o que vai dizer e aí você percebe que a vida é só isso, não é uma questão de quantas cores você tem na tua caixinha de lápis. Você não pode ver porque eu pareço muito sério, mas na verdade estou me divertindo. Me convidaram pro futebol, fui avistado por um boto, vou ali tomar um chope – não, espera: não existe choperia aqui. Um dia alguém tentando ser cruel me perguntou “Onde estão teus amigos?”, porque eu estava tão sozinho que doía, mas coloquei a mão no peito e respondi: Comigo. Corre lá dizer pra eles. Não fique tão chateada quando eu falo sério.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016


Naquela tarde à margem do rio, os pensamentos desapareceram. Só o que existia era a realidade concreta à minha volta: os barcos ancorados, as crianças nadando e os cachorros correndo pela praia. Sensação de pertencer: se as palavras voltassem, se eu voltasse a pensar, tenho certeza de que pensaria “estou em casa”. Mas somente o ponto em que dois braços do Rio Negro se encontravam, barcos que passavam carregados de famílias, peixes, pedras, árvores altas para além das outras margens. O tempo amarrado à correnteza do rio passava devagar, quase não passava, quase uma lagoa, só, de luz intensa e viva sobre pele escura, folhas verdes, uma areia muito branca. Um pássaro pescava; outros, menores, cantavam à minha volta, pássaros brancos e amarelos. Superfície refletindo as casas de madeira em uma ilha – mas eu não pensava “ilha”, nem conseguia ver a água cercando a terra por todos os lados, só aquele pedaço de rio negro quieto, muito quieto. O que uma vez eu chamava de Eternidade Imediata: o puro instante; o puro não-eu, inteiro a paisagem.

Em casa, sim, se “casa” fosse uma palavra em que coubesse tanto.

quinta-feira, 28 de julho de 2016


Antes do inferno tinha um céu.

Mas então o inferno dizia que o céu era inventado. Que o céu era vaidade. Que o céu era uma projeção no inferno, tipo um filme em 3D ganhador do Oscar. Basicamente, o inferno dizia que tudo que existia era o inferno.

Depois vieram os tempos da mais absoluta indiferença.

Você me ama? Não. Me odeia? Não. O que é que você sente? Nada, eu só estou aqui. Nem faria diferença se eu não estivesse. E a verdade é que, no fim das contas, eu nunca não estive.

Sete chakras
dia e noite circulando
e ela pensa que “Nirvana” é só uma banda.

Antes do inferno tinha um céu, que era tão nada quanto o inferno – e no meio do nada a Terra gira sendo nada.

Parece – ela me diz –
que ele tem um par de asas,
mas é só porque na hora da fotografia
ele estava bem na frente de um dos anjos do cenário.

Tenho a ideia que eu quiser e nada disso é o mundo.

E tudo isso é o mundo.

E

quinta-feira, 21 de julho de 2016


Estou farto de semideuses e discursos desligados da ação.
(Não sou menos culpado.)
(Eu era a encarnação de um buraco-negro.)
Na entrada de um prédio, lia-se em letras garrafais:

A ERA DA COMUNICAÇÃO REPRESENTA
O COLAPSO DE TODOS OS SISTEMAS DE PENSAMENTO

Estava coando um café numa tarde de sexta-feira, sentado sozinho no banco da praça, alimentando as caldeiras de um barco a vapor, na fila do supermercado vendo um grupo de jovens sair da balada no fim da madrugada de domingo quando a Jéssica agitou um jornal na frente do meu rosto e disse animada Ouça isto!

Tanto faz correr pra barra da saia da torcida de um time ou da esquerda ou direita nessa Guerra Fria Requentada, ou de uma religião ou de uma ciência, ou de uma gangue, desde que as afirmações do grupo continuem firmes o bastante pra garantirem ao indivíduo a ilusão de um mundo objetivo, consensual, como uma tábua de salvação em meio à tempestade solitária de experimentar a existência.

Antes de qualquer mudança concreta acontecer, veremos o esvaziamento de todos os discursos pelo seu confronto mútuo, e justamente por sua falta inerente de correspondência total com a realidade,

estou falando igual a eles, me pare. já somos muitos budas renascidos, muitos super-homens, muitos cristos. qualquer coisa que nos reduza a uma só coisa está fadada ao naufrágio.

_era absolutamente necessário que não fizesse nenhum sentido, em nome da verdade_ mas sim, amor, ternura, compaixão, blá blá_ pra todo o sempre: menos sectarismo, menos, menos_ não existem razões sólidas, as coisas ou são sólidas ou são razões, as conclusões me aborrecem_ era absolutamente necessário que o céu desabasse? não. só quando faltasse o chão_ o mundo regido por contas bancárias está condenado, sempre foi só uma questão de tempo_ espera um pouco, estou tentando me importar_ não consegui_ da última vez que fui feliz choveram pedras, foram vinte e cinco terremotos, trinta e nove tsunamis, setenta e dois vulcões entrando em erupção e doze mil anos de era do gelo_ dizem que o sangue é o preço de ter asas_ mas e se a terra for o paraíso de outro planeta?_ menos eu sei, blá blá blá blá só eu sei_ menos raivinhas, menos, muito menos_

Alguém me diz “Isto não é sobre você”,
mas desde que eu ouça, é, sim.
Alguém me diz “Você só pensa em você mesmo”.

É, sim.
(Mas é porque eu não tenho outro lugar onde pensar.)

sexta-feira, 15 de julho de 2016


Poderiam ir embora os vampiros seus sorrisos falsos palavras de amor que não conseguem disfarçar o cheiro da maldade, não você. Poderiam ir embora os paladinos cegos poços de orgulho defendendo uma justiça que contempla apenas os seus egos, não você. Se uma lágrima lavasse a dor, se a tinta da caneta, se um retrato em que sorrimos abraçados, se, mas não, sangra bem mais que o sangue que eu pensei que tinha. Poderiam duvidar de mim aqueles pra quem nunca fui abrigo e me lançar os seus desprezos infantis aqueles que algum dia ignorei sem nenhum remorso, não você. Que me pintem como um bobo, que transformem cada palavra minha em farsa, que prefiram as arenas mitos de gravata as santidades automutiladas, que me importa? Que eu seja de fato capaz de rir e me sentir bem-vindo e de brincar na chuva em campos de batalha em festas multidões ou no silêncio solitário do meu quarto, nada elimina a falta. Sim, porque te adoro aceito os teus caminhos tuas escolhas lutarei eu mesmo pra que seja plena a tua liberdade – mas porque lá fora, mas porque tão longe e tão esquecida de que eram sinceros o carinho o respeito a admiração que sempre tivemos um pelo outro, poderiam ser os sádicos, poderiam ser os verdadeiros monstros, poderiam ser aqueles que já não semeiam mais do que discórdia.

Belo Horizonte - MG

quarta-feira, 6 de julho de 2016


Em meio a soluções viciadas, havia uma pergunta curativa. No meio do fim do mundo, um riso solto. Em meio a uma canção de adeus, caiu um meteoro: quando abri os olhos, estava imerso em estar aqui. Nunca saberei dizer “Aceite o meu deserto”. São princípios insondáveis que me movem. Estou pronto pra ser da tua casa, tenho tanto bem-querer, posso beber do teu copo e até oferecer histórias, mas não alimente o ódio. Também me frustro com os meus acasos. Também colho esmeraldas. Calma, o tempo está fazendo um desenho. Não me devore em resumos, é assim: um não-sou que acontece. Repara bem. Transborda.


(Diários de Machu Picchu #26)

quinta-feira, 30 de junho de 2016


“Já estive aqui antes”, pensei. E uma voz muito clara, muito mais 
profunda do que aquela respondeu: “O tempo todo”.
Cerro Campanário, Bariloche

Antes de sair, dei um bom tempo na cozinha do albergue conversando com as mulheres que trabalham lá. Quando disse que a próxima cidade que eu visitaria era Mendoza, elas fizeram a maior propaganda das mendozinas. E não era a primeira vez que eu escutava aquilo. É engraçado: todo mundo nesta viagem fica tentando me arrumar namorada. Especialmente uma namorada mendozina. No ônibus a caminho do Cerro Campanário, fiquei me perguntando se eu estava pronto pra isso, se eu queria realmente me envolver com alguém. Acabei concluindo que não, que meu coração estava “fechado como dedos”, como no poema do e. e. cummings. Mas foi só me vestir dessa certeza que embarcou no ônibus um grupo grande de mulheres, e as três mais bonitas delas pararam no corredor bem ao meu lado, de frente pra mim. Aí eu fiquei achando aquilo tudo uma piada sem sentido – enquanto o ar ia se enchendo com um cheiro delicado e quente que parecia pão-de-mel e chá de maçã.

sexta-feira, 24 de junho de 2016



De atenção contínua, imperturbável pela divisão dos segundos, pelo movimento dos ponteiros, número que some e dá lugar a outro nos relógios digitais, tudo existe e não há maiores ou menores formas de existir, nem com mais ou menos intensidade, nem há dentro ou fora, essa atenção-sujeito agindo e reagindo e indo e indo e indo, e sendo absorvida por aquilo que absorve e absorvendo aquilo que a absorve, e sendo, e sendo, a solidez sem forma, a fluidez que não passa, ser dois e ser dez e ser dez milhões e bilhões e incontáveis um só, sobre a linha invisível, no ponto de encontro, no centro da ponte que liga.

sexta-feira, 17 de junho de 2016



Sou você.

Ouço teu coração batendo em meu peito quando fecho os olhos. Antes era uma selva escura, um pântano habitado por mágoas incontáveis, nada mais nascia. Tua mão segurou a minha, camarada, nos dias de maior desencanto.

Quando eu já quase morria, tão único a ponto de achar possível que eu não merecesse a Terra. Ao teu lado me deitei mais uma vez na grama – e as estrelas eram outras e multiplicadas. Tua voz ressoava em mim tambores, ventanias e cascatas. Como é nascer de novo com o mesmo nome em um mesmo corpo, oh sim eu pude vê-la quando ela voltou, a vida, os raios de luz de muitas cores e de imensas asas explodindo em risos, gritos, lágrimas de maravilhamento.

Você veio, meu querido irmão, sentou-se ao meu lado no alto das chapadas e falou com ternura sobre os pescadores em seus barcos no Rio São Francisco, e caminhou comigo nas areias quentes e continentais do Nordeste e nos cafezais de Minas, e bebeu comigo a água gelada que escorria das bordas celestes do Monte Roraima, e chorou comigo aos pés do Monte Pascoal onde os Pataxós amam ainda os povos extintos pela ganância europeia, e dançou comigo em bailes do Sul e em boates paulistas e nos carnavais cariocas e perfumou de pitanga as minhas matas e do alto dos arranha-céus me fez ver de novo os caleidoscópios da cidade – homens e mulheres de todas as idades, etnias, línguas, crenças, profissões e nacionalidades vieram repovoar a minha alma que era então inteira o teu amor que sempre esteve em mim, o meu amor que sempre esteve nos teus versos que eu ignorava.

Sim, serei leal enquanto vivermos.

Sim, eu te confirmo a Eternidade.

domingo, 22 de maio de 2016



cantarei assim como se a música não existisse e fosse preciso inventá-la, abraçado às sombras e solar sobrevivendo uma vez mais nos guetos numa pulsação ingovernável de deleites, tenho pensado que os caminhos levam sempre a becos sem saída e que talvez a única saída seja não haver caminhos, cantarei a minha devoção gratuita e sem fim por alegrias vulcânicas tingidas de neon nos bares ou submersas numa névoa de histeria nos salões mais sérios ou serenas de velhice ou infantis correndo com os pés descalços pelo asfalto sujo, não espalho as minhas frases com tanto cuidado só pra parecer que elas choveram mas porque eu gosto mesmo  é de colorir a razão ignorando os seus contornos, adoro que o meu tempo seja uma sequência apaixonada de ilusões e jaulas desmentidas por um corpo que é sua própria alma e emoção e pensamento em trânsito e adoro quando me demoro indiferente e sonolento numa só verdade confortável, tanto faz se estou sendo arrastado uma vez mais à margem do que é sóbrio e sigo bem no centro do que não tem órbita, tanto faz se o que nos revela é o que nos disfarça ou vice-versa, cantarei não porque a vida é um erro ou porque deus queira ou não queira – eu sou também a voz que silencia, e sou todas as vozes que jamais se calam – cantarei meus hinos e meus gritos de revolta e minhas lágrimas e risos e meu nada e minha ausência e meu vazio e meus lábios, cantarei porque já cantava muito antes que surgissem as palavras, inteiro e a plenos pulmões embriagado de uma lucidez que sobra e panfletário e me abstendo cantarei todas as nuvens e castelos que me cabem, porque não sei por que, nem saberei quando terei cantado.

sábado, 14 de maio de 2016

Uberaba - MG     
O professor falava do Acaso como método de criação artística. Falava de conexões intuitivas entre os atores-dançarinos; trocas que aconteciam naturalmente, independentes da intenção de dar e receber algo. No exercício daquela noite, nossos olhos eram vendados e devíamos deixar o corpo se mover por vontade própria, o mais livre possível das decisões conscientes. Músicas variadas se alternavam, e aos poucos o professor distribuía objetos entre nós, deixando-os ao nosso alcance para que interagíssemos com eles da maneira que o corpo escolhesse. Era assim como uma escrita automática em que as palavras eram os gestos.

Metade da turma realizava o exercício de cada vez, enquanto a outra metade observava. Poucos de nós deram importância ao fato de que Bernardo e Jéssica ficaram juntos para o segundo grupo – eles costumavam ignorar um ao outro, simplesmente, mas tinham brigado feio naquela tarde, por um motivo bobo de que já nem me lembro. De olhos vendados, cada um em um canto da sala, pareciam confortáveis em seus corpos-mundos isolados, movendo-se de maneiras tão diferentes quanto pareciam ser as suas almas, ou caráteres, ou como queira se chamar essa porção abstrata da identidade mais profunda de cada um.

Muitos perceberam quando os dois abriram os braços ao mesmo tempo. Alguns de nós sorriram com a coincidência, trocando olhares cúmplices: então lá estavam Jéssica e Bernardo, inimigos declarados, parecendo pedir abraço, cada um desde sua ilha – e isso já seria suficiente para ilustrar a ideia de Acaso-Criativo ou conexão intuitiva. Mas era só o começo. Todos prendemos o fôlego quando eles começaram a caminhar exatamente na direção um do outro, traçando uma linha reta ao longo de toda a sala, devagar, tomando cuidado para não tropeçar em nada e à procura do que fosse.

A menos de um passo de se alcançarem, no meio da sala, pararam. E ficaram assim por pelo menos um minuto, sentindo, certamente, o calor da proximidade, espelho um do outro, irradiação de desejo e espera, oferta de abrigo, irmandade, reconciliação, até que finalmente

sábado, 7 de maio de 2016

Na beira da estrada encontraram uma carcaça abandonada. Conchas na praia. Os fundamentos do universo imóveis, sustentando vácuo e matéria, equilibrando sua dança. Num bilhete, ele escreveu “Você está a salvo”, mas sua caligrafia era horrível. De dentro do cadáver, fluíam borboletas sem parar: um rio de seda amarela em ondas mecânicas simétricas.

Uma vez aberto o livro, era impossível não ter aprendido. Não era uma promessa de clareza, embora incêndios no céu da cidade. Aprisionaram o Mal dentro de um pote de vidro e ninguém sabia muito bem o que fazer com o resto.

Na garganta, o gosto era de choro e de esperança. Se por trás do véu, no toque, essa ferida imensa alimentando os pesadelos não seria a sua própria solução cifrada. O elo estava feito. No alto da montanha, era um sussurro tão sopro uma lagoa aérea.

Os fundamentos do universo começaram a se mover para equilíbrios outros.