sábado, 29 de julho de 2017


um estrangeiro atravessando a multidão em festa a noite colorida e calma do Médio Rio Negro, as conversas cotidianas espalhadas num cenário novo as barraquinhas de pastel de algodão-doce e bolos bandeirinhas de São João cobrindo a rua, um quadro singelo vendo os séculos ruírem, nunca mais a gravidade das filosofias e literaturas, por que elas nos afastam tanto assim da vida a vida a vida,

solitário ele vai quase de outro mundo, aprende os gestos e palavras só de olhar, mergulhado no ser-outro, o estrangeiro avança entre boas-noites e sorrisos de boas-vindas, queria ser um descendente indígena e tem um nome e cara e hábitos tão europeus, o é-assim-que-tem-que-ser que não lhe serve mais querendo dançar junto na quadrilha, querendo se casar com aquela moça,

vê correrem lado a lado uma desilusão profunda e um estar perdidamente apaixonado, ou são crianças acordadas até tarde, os pula-pulas e balões de gás hélio,

o estrangeiro tenta, erra, acerta sem saber, aprende,

os sons a música as risadas no salão a embriaguez desenrolando as horas madrugada afora enquanto lá fora o ar é renovado pela selva, onde e quando será não ser mais estrangeiro, como e com quem será, a ilha de incerteza em meio à festa arrisca um passo de dança e ri sozinha, até que nem tão solitário mas inteiro ali, na única realidade que interessa, ah sim, aquela.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A imagem se repetiu já tantas vezes na minha cabeça. Não lembro se era uma cena do livro ou só de alguma das adaptações pro cinema, ou se fui eu que inventei. O Corcunda sobe bem alto em sua Notre-Dame com Esmeralda desacordada nos braços, lá embaixo uma multidão enfurecida. Ele a levanta acima da cabeça e grita "Santuário", garantindo assim que ninguém faça mal a ela. Fico fascinado ao pensar que então ela está protegida não por uma muralha de pedras, não por um exército, mas por uma ideia. Ela não será tocada, e não porque ninguém possa alcançá-la, mas porque não devem. Santuário. Nenhum mal pode entrar aqui. Simples assim. Santuário.
Santa Isabel do Rio Negro - AM
o mundo escapou entre seus dedos.

me deixe dormir.

“é um absurdo o que estão fazendo com o meu dinheiro o meu o meu o meu”. “namore com alguém que saiba se teletransportar”. “não fale assim com seus superiores”. “veja aqui como se comportar em cada uma das diferentes situações do dia a dia”. “ligue os discursos no piloto automático e responda sem ouvir”. “a culpa é da vilma”. “beba coca-cola experimente as novidades e não fume”. o mundo está ficando chato pra quem. me deixe dormir. não é pra mim.

sua opinião morreu de velha.

só mais cinco minutinhos.

quem te ensinou a fazer arte com a cabeça da mutuca. histórias reais sobre a curupira. parece milagre quando a malhadeira vem cheia de peixes. nunca tinha ouvido falar em irapuca. chibé. segurar na mão pela primeira vez uma paquinha. conhecer o gosto do taperebá. mira será indé? mira será indé? você é gente?

sei que lá fora os espelhos não bastam pra se ver as muitas doenças desta era.

mas só me deixe.

quarta-feira, 12 de julho de 2017



enquanto você passa invisível diante dos olhos deles. eles, os que te jogam pra fora sem te ouvir, pra quem a tua dor é nada, até que estoure uma guerra até que os filhinhos deles sangrem até que a raça humana seja varrida da face da terra não espere compreensão dos que estiverem se fartando em um banquete, nenhuma compaixão por trás de vidros blindados, te estenderão a mão os banidos, os humilhados te erguerão da lama, enquanto você cai e é engolido por insetos cegos ao redor de uma lâmpada imunda, eles, aqueles que você enriquece com o suor do teu trabalho cuspirão enquanto gargalham, farão com que você implore sob seu descaso, até que a violência vença eles só falam essa língua não espere piedade dos que podem comprar exércitos, só os que sangram cuidarão das tuas feridas, só os que já secaram colherão tuas lágrimas.

segunda-feira, 3 de julho de 2017



Dormem os senhores da Terra assustados e frágeis carregados de mortos, dormem vulneráveis milionários e reis, um sono soterrado por drogas ou em progressivos pesadelos sísmicos, ou convencidos de sua grandeza dormem o seu sono de cegueira e sonham trevas com seu peso em ouro, ou realmente grandes rezam sua pequenez e insignificância e dormem esquecidos, assassinos cruéis fecham os olhos e conseguem silenciar as suas consciências carregadas de mortos, dormem vulneráveis todos os sádicos e sátiros, ególatras de todas as espécies e homens-ratos e mulheres-ratas dormem e robôs programados pra engolir todas as almas, e juízes e soldados e senhoras e senhores comuns apenas batalhando o pouco pão de cada dia dormem dramaticamente vulneráveis e ninguém ninguém ninguém nunca esteve
nem estará completamente a salvo
até que Deus
ou uma bala
ou qualquer outro detalhe
ou nos acabe
ou nos acorde.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Olinda - PE
quase eu quase feito de semente e fruto, escuta, solitário deus sobre a face das eras, carne e letra e direção, nem me despedaçar cala o silêncio dos meus ossos, nem uma gota do meu sangue se perdeu quando eu sangrei, mas ouve, esta é a verdade que você pediu, do pântano e das asas, vale das sombras e de leite e mel, nenhum vão entre as esferas, interminável eu, inacabado e sim


sexta-feira, 23 de junho de 2017


Estou à janela conversando com meu Anjo.

– Não sei, – eu digo – tenho a impressão de que alguma coisa está errada.

– Não há nada – ele diz.

Pouca gente pelas ruas, uma noite preguiçosa e agradável. Você gostou da minha blusa nova? Estou alegre, isso é tão raro. Nada de errado? Nada?

– Então é isso – eu resmungo.

O Anjo dá risada. Amanhã posso acordar tarde, não tenho o que fazer e seria capaz de passar horas falando sobre coisas boas – não estou acostumado. Devia me preocupar em achar um trabalho condizente com a minha experiência, pra não dizer “com a minha idade”. Porque isso da idade não tem nada a ver, nem foi uma coisa que escolhi, como se hoje eu tivesse acordado entediado e pensado “O que eu vou fazer hoje? Já sei: vou ter quase quarenta anos”. E afinal o que é ter quase quarenta anos? Um número carregado de palavras e códigos de conduta (!?), invenções não sei de quem seguidas de acordo com os interesses de quem as segue. Interesses que não estou bem certo de que eu tenha.

– Estou pensando em aceitar aquele emprego no escritório do seu Lauro. O trabalho é simples e vou ter bastante tempo livre. Não vou ganhar mais do que estou ganhando agora, mas também não vou ganhar muito menos. Quer dizer, acho que na questão “custo-benefício”, eu saio ganhando. O que você acha? – O Anjo arqueia as sobrancelhas, “vai fundo, o que importa?”. Observo as montanhas, nuvens noturnas, o cheiro de uma primavera que já está chegando. – E acho que eu devia pedir a Larissa em casamento. Meu amor é suficiente. Sei lá, verdade que ela consegue ser bem estúpida, às vezes, mas eu também tenho os meus dias. Todo mundo tem seus dias. Acho que fui meio arrogante conversando com ela hoje, você não acha?

– Era o teu tempo – limita-se a dizer o Anjo. Por que toda essa paz excessiva? A brisa suave, um riso distante de criança. Você gostou mesmo do meu novo corte de cabelo? Um gole d’água, um suspiro, o sono começando a dar sinal. O Anjo se debruça à janela pra cuspir na calçada.

– Porco – eu digo.

E se tudo der errado, e se eu morrer de tédio no caminho que escolhi? E se eu morrer ignorado, esquecido por todos, sem um tostão furado no bolso – posso culpar meu Anjo, esse anjo torto que acaba de cuspir na calçada?

– Acho que vou meditar um pouco...

– Achei que você já estivesse fazendo isso.

– Estou?

Não consigo esconder uma pontada de irritação. E a fome no mundo, e a guerra eterna dos eternos oprimidos, e todo esse lixo do capitalismo inventando necessidades que não temos, e a violência, e a maldade, e, e...

– Acho que estou enlouquecendo...

Sem sair do lugar, o Anjo dá uma cambalhota. É uma manobra dos anjos que nem mesmo os anjos sabem explicar, mas que costuma divertir bastante as crianças.

– Nada de errado, nada?! E o que eu faço agora?

O Anjo me olha com uma cara de “quando é que você vai aprender isso?” e fala muito sério:

Saboreia.


quinta-feira, 15 de junho de 2017


o futuro será sombrio, mas ainda temos um ao outro. mares de corações petrificados, vastas florestas secas de braços e mãos incapazes de oferecer afeto, inférteis auroras de recusas virão, mas ainda teremos um ao outro. ao teu lado, um irmão sempre a postos pra um acolhimento enquanto a descrença imperar, enquanto o vazio o tédio a indiferença escorrerem pelas ruas entre a poeira e o sangue entre a inveja e o descaso, você não precisará ter medo, e eu também não. ao meu lado, amiga de todos os pedaços naufragados do que fui voltando finalmente à tona e navegando enfim sábio enfim seguro entre as portas de arrogância fechadas multidões gritando eu sou mais sou melhor eu eu eu o amor não existe o sonho é vão a noite é tudo, nada nos apagará, nada alimentará amargura. enquanto tivermos um ao outro – abrigo, mel, esperança ventilada e indevassável, nós, transbordantes e pra nós, em nós, teremos.


sexta-feira, 9 de junho de 2017


Tinha um jeito de promover o que é ruim pela crítica em vez de falar do que é bom se recusavam a ser os responsáveis pela própria raiva e tinha aquelas celas de siga-o-modelo eu tinha que caber ali ou nada feito mas não vem com essa de que a culpa a culpa a culpa a a a a. Aquela gente de plástico uma gente que ai-meu-deus-amadureça gente com preguiça de ser gente acho só pode. Tinha uma lá por exemplo reclamando cadê as pessoas inteligentes mais amor por favor é muita hipocrisia a que ponto chegamos e eu pensando minha querida mas também morro de tédio se sou eu que viro o pregador o moralista ou eu-que-sei o o o. Tenho que pedir licença que eu também sei reclamar mas gente que é isso não se faz outra coisa agora. A verdade meus queridos é que se a gente só ouve aquilo que quer é o mesmo que ficar falando sozinho a vida inteira e vá lá se você acha isso uma vida interessante mas só vou passar por aí de vez em quando. E estou acostumado isso não é uma reclamação mas quando uma pessoa não está a fim de te incluir você pode dizer exatamente o que ela pensa e ela vai te rejeitar só porque sei lá porque você colocou uma vírgula onde não devia diz-que. Ou você pode usar o argumento que destroça a lógica dela e ela vai dizer nada me atinge vindo de alguém que isso ou aquilo sendo que isso ou aquilo não tem nada a ver com o que está sendo discutido mas você não tem moral pronto já era. A verdade é que é muito discurso sobre os defeitos mas tudo bem às vezes eu também fico enjoado acho que não é bem essa a palavra às vezes eu também fico incrédulo com os discursos de amor e de bondade como se alguém tivesse uma fórmula ou uma cura que te faltasse e aí continua sendo sobre os teus defeitos. Tá vendo é tudo vento isso aí. A culpa não é de ninguém minha gente vão dormir se divertir um pouco ou só cuidar da própria vida gente que que custa.


sábado, 3 de junho de 2017




Perdi a medida dos extremos que eu pensava equilibrar
Na vida há muito mais que só dois pratos na balança
Ou duas pontas na gangorra
O ponto de equilíbrio avança e cada lado é o outro e muitos outros

Perdi o rumo acreditando em fronteiras e limites
Mapas que só existem na mente
Mentes mentindo a si mesmas sobre posse e controle
Escolhendo o seu pouco pelo que lutar

Perdi a fé no significado das palavras
Essas arquiteturas ocas
Em que cada um assopra o ar que tem
Ou as mentiras que lhe deram

Perdi a conta de quantas dimensões tem meu corpo
Almatéria pulsante e vontade se movendo ou sendo rejeitada
Percepção e tempo
A invenção do vazio e de qualquer totalidade

Perdi tanto e às vezes me ganhei
Algumas coisas doei sem pedir nada em troca
Só sei que nunca experimentei não ser
O resto é talvez

sábado, 27 de maio de 2017


O próximo ônibus pra El Bolsón sairia só na noite seguinte, então resolvi voltar a Puerto Madryn e aproveitar pra ver as baleias. Da primeira vez que passei por lá, elas ainda não tinham chegado. Desembarquei às oito da manhã. A cidade estava fria e mergulhada numa névoa densa, e fui direto a um café pra esquentar o corpo e espantar o sono. Foi a primeira vez que reparei no item “Submarino” em um cardápio na Argentina. O garçom explicou que era uma taça de leite fervendo e vinha com uma barrinha de chocolate que você afundava no leite pra derreter. Decidi experimentar. Conversa vai, conversa vem, o garçom me contou que a “névoa” lá fora eram na verdade cinzas vulcânicas que estavam se espalhando desde o Chile. Fez até um desenho num guardanapo pra mostrar como o vento estava arrastando as cinzas pro leste e nordeste, passando por Buenos Aires, pelo Uruguai e chegando até ao sul do Brasil. Ele disse que eu corria um risco muito grande indo pra El Bolsón, porque era muito perto do vulcão e estaria carregada de cinzas.

Passei numa oficina de turismo pra saber o horário da maré alta, que é quando as baleias chegam mais perto da praia, e aproveitei pra perguntar a respeito de El Bolsón. A moça falou que lá estava melhor que em Puerto Madryn – que havia um alerta, sim, mas que estava tudo bem e que eu não correria risco nenhum. Saí de lá um pouco mais tranquilo, e agora tinha até às cinco da tarde – hora da maré alta – sem absolutamente nada pra fazer. Pensei em ligar pra umas pessoas, acessar a internet em algum canto, mas depois me lembrei de que no Brasil era Dia dos Namorados e fiquei ligeiramente – e ridiculamente – deprimido. Não ajudou muito quando entrei noutro café e encontrei tocando uma versão eletro-bossa de Is This Love. Enfim, é impressionante a quantidade de estados emocionais diferentes que uma pessoa pode experimentar ao longo de um único dia.

O céu estava limpo à tarde, o sol brilhava forte e só uma fina faixa cinza cobria o mar na linha do horizonte. Meu humor estava bem melhor quando embarquei no táxi pra El Doradillo. O motorista ficou calado durante todo o trajeto, e achei até melhor assim. Estava animado pra ver as baleias. Não sei nem expressar o grau de fascinação que tenho por esses bichos. Quando chegamos, elas estavam lá, bem perto da praia. E durante quarenta e cinco minutos, eu fui uma completa criança. Corria de um lado pro outro, dançava acompanhando elas, conversava em baleiês – lembrando o filme Procurando Nemo – e ria porque tinha que falar o baleiês em espanhol, já que estávamos na Argentina. As baleias saltavam, espirravam água, giravam, batiam as nadadeiras na superfície, ficavam um tempo com a cabeça fora d’água enquanto pássaros lhes faziam uma limpeza. Pareciam brincar. Pareciam absolutamente felizes. E eram absolutamente livres.

Na silenciosa viagem de volta, encostei a cabeça no vidro e fiquei observando o sol se por, sentindo que as palavras já não importavam, que jamais alcançariam o êxtase que eu havia experimentado. Pedi ao taxista que ele me deixasse na rodoviária e ele quis saber pra onde eu ia. Era uma pergunta e tanto naquele momento reflexivo. Fiquei tentado a dizer ninguém sabe pra onde vamos meu amigo, mas no final falei simplesmente que ia pra El Bolsón. Ele também disse que eu colocaria a vida em risco indo pra lá, por causa das cinzas vulcânicas. “Na oficina de turismo me disseram que não”, falei. “Me disseram que sim”, falou ele. Pensei um pouco naquilo tudo e concluí: “Bom, acho que amanhã vou saber ao certo”. Ele sorriu: “Então amanhã você me conta”.

Encostei outra vez a cabeça no vidro e sorri também. Ah, sim. Eu gostaria mesmo de contar.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Tinha um poste no meio do caminho,
da verdade,
da vida.


Faltou luz e todos os sorvetes da cidade derreteram.

Fiquei olhando o teto antes de dormir pensando eu pago as minhas contas lavo as minhas cuecas troco as lâmpadas queimadas os pneus furados as pastilhas contra insetos não bebo não fumo não falo palavrão nem conto piada que todo mundo conhece e é assim que Ele me trata.

Pode ser Ela também.

O Acaso, a Providência ou por que não Deus ou a Deusa.

Ia dizer eu só acreditaria num deus que risse de si próprio mas acho que ele ri mesmo se existe.

Ou ela.

Seja uma consciência ou não essa força que rege os destinos da gente tem um senso de humor afiadíssimo e uma noção de Bem e Mal muito diferente do que se imagina.

Existe uma Ordem, claro, que é quando os sorvetes estão congelados por exemplo, mas tem que ver que isso aí é só um entre infinitos eventos possíveis no Caos, e não é legal ficar forçando pra que seja sempre assim dizendo que “é assim que tem que ser ou se não você vai arder pra sempre no fogo do inferno”.

Quer dizer, a Ordem só faz sentido quando é natural porque pensa bem, se fossem obrigatórios, ou quando são impostos, se forem exigidos incondicionalmente o amor, a bondade, a gentileza, então eles não existem de verdade, certo? Se forem apenas uma imitação de determinados gestos, se apenas o cumprimento mecânico de dogmas, então é só isso que eles são, né, cópias vazias.

Ok, Acaso, tá perdoado por me deixar sem sorvete. Agora vá e não peque mais.

É muito chato ter que ficar perdoando o tempo todo.


sexta-feira, 12 de maio de 2017



                              (     ) Córdoba, Argentina

                              (     ) Curitiba

                              (     ) João Pessoa

                              (     ) Porto Alegre

                              (     ) Salvador

                              (     ) Santiago, Chile
Arranha
céus entre árvores anônimas em seus pequenos recortes na calçada, mulheres de tantas pernas pra que tantas pernas meu deus pra que tantas faces e quem é que ainda canta, quem é que ainda ama, quem é que pode informar onde a gente colhe uma jabuticaba, os carros passam rápido os cachorros passam rápido responde rápido o whatsapp e rápido rápido a vida nunca mais foi besta ó Carlos. só que né. tá sendo.

(Diários de Machu Picchu #07)

domingo, 7 de maio de 2017



Estive outra vez sob os holofotes e não gostei. Meu amor se espalhou pra muito além de uma identidade, até que não soubesse mais ter direção. Eu também era a plateia atônita ao me ver ali tão quieto, uma estrela implodida no peito: quando eu cantava a dor, nem sempre doía, mas quando me calei foi porque a dor ultrapassava qualquer possibilidade de expressão. Meus filhos, meus irmãos, meus companheiros de luta levaram pro mundo pedaços de mim e eu estava sozinho na berlinda, e meu momento presente havia se tornado um vácuo. Você vai se lembrar de alguma vez que eu te fiz rir, mas não de que hoje é meu aniversário. Você vai percorrer estradas que eu abri pra te ver livre ou se abrigar em fortalezas que ergui, mas não vai citar meu nome em seu discurso de vitória. No fim, nem era mais pelos aplausos, nem era mais pra alimentar a alma do meu público que eu me movia: eu era um títere que recusou todos os titereiros e que por isso quase foi estraçalhado por eles, mas que aprendia então o próprio impulso. O que sobrou, o que está aqui não é minha presença. Você me vê falar? Pode enxergar lugares em que estive, alguns percursos lógicos e emocionais, desenhos ruins, fiapos de boas ideias? O sujeito deles, se existiu, passou faz tempo. Isto, agora, é só você escolhendo espelhos.

sábado, 29 de abril de 2017


– A vida é cheia de som, fúria, alarmes e surpresas –
ela disse.
no alto de um prédio cavalgar violoncelos desafia a
morte ela será tua roupa é hora de acordar e ainda
ter vencido de uma forma inexplicável mas na
boca um gosto de querida eu acho que nós não
devíamos ter fumado aquele pássaro
– Sei lá – ele respondeu. 
Jesus não me quer pra rockstar.

eu fico mudo de espanto. esse milagre de ser, multiplicado e diverso, o balé do acaso em multidões pelas ruas e crianças em parques ou pátios de escola, eu mal consigo acreditar, meus olhos se prendem e eu me esqueço de tudo. ou por exemplo quando você fala. quando um sorriso se abre e quando os teus olhos brilham ou também se prendem nos meus como se me investigassem ou estivessem à espera. eu não me canso de olhar. olhar de curioso, de ignorar por completo as combinações e graus de pensamentos emoções e instintos que agitam os gestos. fala, por favor, não pare nunca de falar. que força escolhe o tom da voz, que força vibra o ar e o que pretende que se agarre – eu posso olhar eternamente, embriagado, agradecido e triste de saber que nada pode aprisionar e preservar indefinidamente no meu corpo as vidas que observo. no meu corpo, sim, este que é o único palco de eu também ainda estar vivo. nem mesmo a memória vai poder reproduzir cada pequeno instante, cada desconhecido íntimo ou anônimo que observei alguma vez por horas e observaria ainda por outras, mudo de espanto. não, não tenho como acreditar. porque existir não é possível, só não é. e ainda assim se existe.

sábado, 22 de abril de 2017




um sono intranquilo, levantar à uma e meia, ler mais um ou dois capítulos de um livro, olhar a noite, excessivo silêncio, fantasmas, o mundo recomeçou a andar e as possibilidades são infinitas e belas e assustadoras, sonhos confusos, mais uma ou duas horas de sono, levantar e preparar um sanduíche, excessivo silêncio, uma vontade de chorar por nada, a escuridão completa caberia bem melhor numa hora dessas, mas um medo de verdade, ou quase, lábios que se movem sutilmente acompanhando uma canção imaginada, excessivo silêncio, dormir outro sono intranquilo, levantar às cinco ou cinco e meia ou quase, o que terá restado da realidade apenas uma ideia vaga, delírios diurnos, essa coragem injustificável.

sábado, 15 de abril de 2017


Por trás da nuvem de fumaça, o rosto, o olho, a alma – a noite que atravessa a vidraça e encontra o cigarro aceso – multidões querendo sangue, hordas de guerreiros nas calçadas, lobos salivando à porta – Por trás da nuvem branca há um gemido de angústia engolido sem pressa, uma esperança de flor numa terra pisada – vermes, fantasmas, anjos pintados com giz e uma lembrança sem maquiagem – livros saturados de palavras – inúteis considerações binárias – Por trás desta nuvem de fumo ainda resiste um nome, uma pele, a passagem – a poeira do asfalto e dos pneus de borracha – no prédio em frente, três tevês ligadas em um mesmo filme – Por trás da nuvem de fumaça (não se vê) há qualquer coisa que só quer ser nada
entretenham-nos

sábado, 8 de abril de 2017

Santos - SP
Fez quarenta graus à tarde.

Trocamos a cerveja por água de coco.

Fui visitar Eva em Santos me perguntando se aquele seria o nosso último encontro. Muitas vezes, em nossas viagens, andando ao seu lado pelas ruas de uma cidade qualquer ouvi ela dizer que nada ia durar até depois de virarmos a próxima esquina. Eu costumava brincar dizendo que sim, claro, a qualquer momento uma erupção solar pode transformar o planeta em um caldo fumegante de civilização avançada – mas daquela vez eu não estava achando graça. Nem apoiava a sua decisão de não ter um perfil no Facebook e outras restrições à tecnologia que dificultavam bastante uma comunicação à distância. Sobre o Fecebook, ela explicava:

– Eu ficaria muito tentada a falar com todo mundo ao mesmo tempo... E ficaria louca vendo cada um falar de uma coisa diferente ou alimentar o ódio dos dois lados de uma coisa só.

Caminhávamos sem pressa do Canal 2 ao 4, parando aqui e ali pra que eu fotografasse alguma coisa, e falávamos sobre ilusões de avanço, de como pensávamos que a esta altura de nossas vidas já teríamos conquistado o mundo, do que é envelhecer, da diferença óbvia pra nós dois entre maturidade e cinismo.

– Nada pode ser mais triste – considerei – do que a impressão de que a gente já esgotou todos os discursos capazes de despertar bons sentimentos. De que toda e qualquer palavra que a gente disser pode e vai ser explicada à luz de uma teoria qualquer que reduza o ser humano a puro egoísmo.

– É claustrofóbico – definiu ela.

Pensávamos que a esta altura de nossas vidas já nos sentiríamos livres.

– “Liberdade” não é uma palavra muito adolescente? – provoquei.

– Só sei que quando eu tinha dezesseis – ela falou – achava que a função dos adultos era eles se acharem melhores e mais importantes que os adolescentes. – Fez uma pausa, como se refletisse. – Agora que eu sou adulta, tenho certeza!

Rimos.

– Quando eu tinha dezesseis, – eu disse – às vezes parecia que tinha oito. Ou oitenta.

– Mesmo agora, que estou com cinquenta e cinco, às vezes ainda parece que eu tenho oito ou oitenta – emendou ela, que ainda estava longe de ter cinquenta e cinco.

Rimos outra vez, depois seu olhar se perdeu em direção ao mar.

– Tem dias que eu nem nasci – filosofou. Aí olhou pra mim com um sorriso meio triste e meio malicioso, arqueando as sobrancelhas: – E tem dias que eu não morro nunca.

sábado, 1 de abril de 2017


Este
aquele espírito de vento e pólen, reflexo autônomo no espelho, um transparente fio de arremessar galáxias, mãos de involuntária magia branca, este aquele imperturbável persistente aqueles olhos inundados de ter visto e de inventar e de ter fé porque sim de relâmpago e LEIA-ME DEVAGAR amanhã nada disso terá insubstância, castelo d’água transformado em vinho, aquele um abraço incandescente de alívio, isso mesmo a vitrine de uma satisfação gratuita, pomares amadurecendo ávida vida e vertigem de resoluções em sementes, aquele inquebrável delírio escorrendo paz, escrever no diário o dia hoje foi perfeito, impermeável sussurro, só isso, só isso.