sábado, 23 de setembro de 2017



Alguma coisa te escapa

Tua opinião é uma gota de chuva caindo no oceano, melhor não olhar.

Aquele rapaz oriental que acaba de sair do prédio é um traficante de antiquadas justificativas para o ódio e vai pegar um táxi para encontrar amigos no shopping, o taxista sorri pelo retrovisor e deseja boa tarde e começa a comentar sobre os milhares de poetas fuzilados e finais de campeonatos, aqueles cartazes de milagres industrializados, você não pode abraçar todos os que estão morrendo na Síria ou passando fome na África, ainda existem os que acreditam que a Terra é plana e os que deixam suas crianças adoecerem por duvidarem de vacinas, uma menina acaba de se encontrar com um pedófilo em um alegre e colorido e confortável mundo virtual, aquela mulher atravessando a rua é humilhada diariamente por gostar de astrologia e carrega um copo de café Starbucks e pensa em terminar com o namorado hoje à noite mas depois do sexo, esvaziaram-se todas as explicações para o altruísmo, você não pode saber e não é porque é segredo mas porque você não é capaz mesmo, aqueles que se jogam do alto de montanhas numa bicicleta e moças que se prostituem para sustentar o vício em drogas e moleques arrogantes mandando bordar "doutor" em seus jalecos caros, um velho se debruça à janela e vê, pombos cagam em para-brisas e casacos e canteiros e nos bancos das praças, nenhum controle remoto pode alcançar os que não ligam, arranha-céus de vidro e nomes de furacões e colecionadores de discos de vinil, toda essa desengrenagem, libélulas e sites de notícia e bares em que se fala mal dos negros e choveu no fim da tarde e lilases e tudo o que passa, tudo, quantas senhas você tem, o que você pensa que é sorte.

Não por eu estar sentado aqui sozinho com as mãos cobrindo o rosto, mas a solidão de um homem é uma lágrima no meio do oceano.

(Ou talvez isso não importe nem um pouco agora que somente os sádicos são adorados.)

sábado, 16 de setembro de 2017


Nada, confesso: não tenho nada pra te oferecer. Ou este vale de poemas ou as pontes pra longínqua nebulosa em que fui feito. É impossível prever o que vai resultar do nosso encontro, e minhas mãos procuram as tuas por vontade própria. Não conheço ninguém mais desinteressante do que eu. Você vai me ver falar com plantas, bichos, objetos, paisagens. Penso em você na minha cama e tua pele me leva ao delírio. Muito cedo você vai se entediar e me deixar por um motivo banal. Não sei inventar alegrias. Não sei improvisar interesse. Tenho vergonha da poeira sobre os móveis, pilhas de papéis amassados, a pintura descascando, não esperava te encontrar tão cedo. Tua imagem me desperta e já começo a ensaiar qualquer assunto, mas sempre me parece que devia ser outro. Não tenho nada pra te oferecer. Ou os campos minados da minha ingenuidade explodindo em flores alaranjadas.



(Ou azuis, se você preferir.)

sexta-feira, 8 de setembro de 2017


meu irmão sinto muito eu venho de um mundo em que as guerras são bem mais sutis

em que a raiva não se mostra assim tão clara e tão direta pelo tom da voz

em que o desprezo se disfarça de ironia e chovem palavras de gelo olhos de gelo a superioridade óbvia que somente nós pobres mortais não conseguimos ver

mas ainda assim é o mesmo jogo e já não posso me deter à estrada a cada inquietação revolta o desespero e tem aí milhões de vozes que jamais foram ouvidas

se eu não enxergasse tantas léguas além do teu jogo ou se eu não estivesse farto de jogar

se você fosse o primeiro único macho de orgulho ferido querendo testar os limites da força da minha ternura

fico tentado a fazer um mea culpa só que já me demorei demais pagando pelos erros que uma vez eu cometi e pelos que não cometi também

vá me deixe viver um pouco a minha própria vida

um dia terei a palavra que te ressuscite ela está em meu coração mas falta ainda um bom caminho até que esteja na ponta da língua

e quero muito te falar meu irmão eu quero mesmo

quero te ver acolhido e respeitado e reinando absoluto sobre os dias

só nos falta um silêncio mais fundo talvez

nada é realmente sobre conquistar e destruir

se eu estivesse pronto ao menos

mas talvez não conseguisse mais do que falar de novo da importância das pequenas coisas

algum discurso fácil e batido e gaguejado pela minha dúvida

porque agora eu tenho cá pra mim ou acho ou ando bem desconfiado

de que as coisas importantes mesmo caso existam

são ainda menores que as pequenas


sábado, 2 de setembro de 2017



Campomanso, 25 de julho de 2012

Débora;

Encontrei uma foto tua de muitos anos atrás e fiquei um tempão olhando pra ela e chorando, desculpa, não tinha como evitar. Queria conseguir ser sempre um poço de energias positivas, especialmente pra você, mesmo que a gente saiba que não é assim que funciona. Fiquei pensando em explicações pra estar tão longe, explicações pra não ter estado mais perto quando era possível, explicações, explicações. Fiquei procurando um jogo de palavras, alguma coisa engraçada, qualquer comentário banal sobre o clima ou o que fosse mas que pudesse expressar esse carinho eterno infinito incondicional que tenho por você. Tantas lembranças boas, minha querida. Tanta saudade, tanta.

Ainda acompanho as tuas notícias pela internet, aqui e ali, um quebra-cabeça incompleto, peças soltas que espalho pra ficar olhando como se eu ainda fosse parte da tua vida e a qualquer momento você pudesse entrar por aquela porta e me perguntar sei lá, que vestido usar na festa, ou se eu acho que você deveria namorar com Pedro ou com Paulo, ou se eu gosto de refrigerante de uva, ou se eu me lembro de quando cantamos no karaokê ou da noite em que cheguei bêbado na tua casa e quebrei a tua coruja de porcelana. A vida é cheia de trama, minha querida, e eu poderia jurar que um mundo de maldades e mal-entendidos se infiltrou entre nós dois desde a última vez em que nos vimos, mas não queria ter que derramar veneno só pra te prender a mim, e prefiro acreditar que sou eu que estou enganado quando juro assim que um rancor alheio te levou pra bem mais longe do que uma distância no espaço poderia. Estar preso a você, da minha parte, não custa nada: a saudade não é uma tristeza de trevas. Em todo o Universo, não existe força capaz de obscurecer esse amor que lhe tenho.

Amor só amor, como quando chove e não é nenhuma tempestade nem uma garoa fina e fria nem a fúria dos céus nem vontade de dormir até mais tarde nem nada: é simplesmente água caindo em gotas.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017





desde o centro, à margem do rio, a cidade se alonja pro alto das montanhas / e do alto de todas elas pode-se ver a cidade esparramada como um polvo / como um pântano de concreto / agarrada à superfície de um mar de altas montanhas verdes / ondas recortadas de gramados árvores e plantações de milho / cidade que eu vi crescer / desenhar quadradinhos de asfalto em volta da terra nua / onde antes era apenas natureza entregue ao tempo e a si própria / (e não que agora já não fosse / natureza de cimento e aço e de pessoas que aqui moram ou que daqui vêm e se vão pela razão que lhes caiba / entre os postes elétricos e a mata) / antenas de rádio alfinetando o céu / sombra de nuvens na memória de tantos domingos à tarde / minha pequena / grande / eterna cidade / a que me viu crescer / morrer / crescer de novo / alma querida de minha história / cidade navio à margem / ensaiando-se pro alto / prédios / montanhas / asas

Parabéns pelo Centenário, Joaçaba.
;)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017


Pra entender que já passou, mesmo que em algum lugar isso ainda custe tanto. E abraçar o vazio, dizer: você venceu. Pra entender que não importa de quem foi a culpa, ver a folha em branco do futuro e conseguir acreditar de novo. Não, as cicatrizes não têm peso. Vaias, gritos de escárnio e ofensas gratuitas não conseguem ecoar pra sempre. E não preenchem mais do que os aplausos, risos de contentamento ou elogios. A incompreensão é só uma regra: há outras, e há exceções. Pra entender de quantos corações você precisa pra pulsar de cada vez. Pra entender que tudo estar perdido é a única forma de possuir de verdade. Pra entender que a tua grandeza é um grão de poeira, não espere mais, não se pergunte, apenas vá. Ande. Todos os átomos recém nasceram. Não há nenhum lugar senão adiante. Você já sabe, essa é a única lei.


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

– Tem dois jeitos de eu gostar desta rua – disse Jéssica. – No tempo das mangas e quando cai uma chuva rala nos fins de semana.

Ao longo de todo o canteiro central da avenida em que estávamos, havia mangueiras em que, segundo Jéssica, muita gente vinha colher mangas quando elas estavam maduras.

– Sabe aquelas chuvas que não chegam a molhar de verdade, mas são o suficiente pra derrubar a vontade das pessoas de saírem de casa? Fica tudo mais deserto... Aí eu gosto de andar por aqui.

Caminhávamos devagar sob o sol numa tarde quente de verão, e calculei que seria mesmo bem mais agradável andar por ali com um clima mais ameno e sem todo aquele barulho do tráfego.

Era a nossa última tarde juntos. Tinha ido visitá-la depois de quase cinco anos sem nos vermos, apenas trocando mensagens pela internet – e justamente porque o tom de suas mensagens andava me preocupando. Ela havia terminado um relacionamento longo no início daquele ano e, depois de um tempo decidida a curtir a vida sem se preocupar com as consequências de nada, mergulhou em um tipo de depressão que eu, de brincadeira, chamava em nossas conversas virtuais de “doçura evasiva”. “Pessoas que se acham inteligentes são dependentes demais do fogo”, protestava ela. “Também existe presença de espírito na fragilidade”.

E no entanto...


– Não se preocupe com os meus silêncios – ela me pediu naquela tarde. – A solidão não existe.

Aí eu me lembrei de um sonho que tinha tido havia muito tempo em que uma mulher parecida com ela me dizia: É muito cedo pra morrermos jovens.

Olhei pras mangueiras no centro da avenida, mas não enxergava mais o mundo à minha volta. Dentro de poucas horas estaria embarcando pra talvez mais cinco anos de saudades, e queria gravar a fundo a presença dela ao meu lado, aquela certeza de que ela estava ali, doce e evasiva ou presente e frágil ou o que fosse, desde que Jéssica.


sexta-feira, 4 de agosto de 2017


(Diários de Machu Picchu #18)

você não vai pagar mais caro pra escutar o óbvio
as coisas não estão melhores
eles só falam nisso
mas tem essa garota linda que trabalha no posto de gasolina
e uma cantina italiana com as melhores massas da cidade
e lírios e tulipas em canteiros que dividem avenidas
e música suave nos elevadores

você paga o que não deve quando chora de cansaço
as coisas não vão melhorar
você não precisa ficar ouvindo
poetas trágicos vomitando as sombras dos desesperados
casas que desabam, assassinatos em becos escuros, ratos
mas tem a luz do sol atravessando os cristais e se partindo em sete
tem as propagandas engraçadas
tem vinho, vai ter bolo

você não saberia se acalmar se as coisas melhorassem
você não sabe o que dizer
você lamenta o quanto custa
porque dói como se arrancassem os seus dedos um a um
depois as mãos, depois os braços, porque as opções que restam
são almas e atos que independem totalmente da sua vontade
você não pode mais pagar
mas tem fotografias, tem ar fresco entrando nas janelas
e como sempre tem um algo-mais
que ninguém nunca soube muito bem o que seja

sábado, 29 de julho de 2017


um estrangeiro atravessando a multidão em festa a noite colorida e calma do Médio Rio Negro, as conversas cotidianas espalhadas num cenário novo as barraquinhas de pastel de algodão-doce e bolos bandeirinhas de São João cobrindo a rua, um quadro singelo vendo os séculos ruírem, nunca mais a gravidade das filosofias e literaturas, por que elas nos afastam tanto assim da vida a vida a vida,

solitário ele vai quase de outro mundo, aprende os gestos e palavras só de olhar, mergulhado no ser-outro, o estrangeiro avança entre boas-noites e sorrisos de boas-vindas, queria ser um descendente indígena e tem um nome e cara e hábitos tão europeus, o é-assim-que-tem-que-ser que não lhe serve mais querendo dançar junto na quadrilha, querendo se casar com aquela moça,

vê correrem lado a lado uma desilusão profunda e um estar perdidamente apaixonado, ou são crianças acordadas até tarde, os pula-pulas e balões de gás hélio,

o estrangeiro tenta, erra, acerta sem saber, aprende,

os sons a música as risadas no salão a embriaguez desenrolando as horas madrugada afora enquanto lá fora o ar é renovado pela selva, onde e quando será não ser mais estrangeiro, como e com quem será, a ilha de incerteza em meio à festa arrisca um passo de dança e ri sozinha, até que nem tão solitário mas inteiro ali, na única realidade que interessa, ah sim, aquela.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A imagem se repetiu já tantas vezes na minha cabeça. Não lembro se era uma cena do livro ou só de alguma das adaptações pro cinema, ou se fui eu que inventei. O Corcunda sobe bem alto em sua Notre-Dame com Esmeralda desacordada nos braços, lá embaixo uma multidão enfurecida. Ele a levanta acima da cabeça e grita "Santuário", garantindo assim que ninguém faça mal a ela. Fico fascinado ao pensar que então ela está protegida não por uma muralha de pedras, não por um exército, mas por uma ideia. Ela não será tocada, e não porque ninguém possa alcançá-la, mas porque não devem. Santuário. Nenhum mal pode entrar aqui. Simples assim. Santuário.
Santa Isabel do Rio Negro - AM
o mundo escapou entre seus dedos.

me deixe dormir.

“é um absurdo o que estão fazendo com o meu dinheiro o meu o meu o meu”. “namore com alguém que saiba se teletransportar”. “não fale assim com seus superiores”. “veja aqui como se comportar em cada uma das diferentes situações do dia a dia”. “ligue os discursos no piloto automático e responda sem ouvir”. “a culpa é da vilma”. “beba coca-cola experimente as novidades e não fume”. o mundo está ficando chato pra quem. me deixe dormir. não é pra mim.

sua opinião morreu de velha.

só mais cinco minutinhos.

quem te ensinou a fazer arte com a cabeça da mutuca. histórias reais sobre a curupira. parece milagre quando a malhadeira vem cheia de peixes. nunca tinha ouvido falar em irapuca. chibé. segurar na mão pela primeira vez uma paquinha. conhecer o gosto do taperebá. mira será indé? mira será indé? você é gente?

sei que lá fora os espelhos não bastam pra se ver as muitas doenças desta era.

mas só me deixe.

quarta-feira, 12 de julho de 2017



enquanto você passa invisível diante dos olhos deles. eles, os que te jogam pra fora sem te ouvir, pra quem a tua dor é nada, até que estoure uma guerra até que os filhinhos deles sangrem até que a raça humana seja varrida da face da terra não espere compreensão dos que estiverem se fartando em um banquete, nenhuma compaixão por trás de vidros blindados, te estenderão a mão os banidos, os humilhados te erguerão da lama, enquanto você cai e é engolido por insetos cegos ao redor de uma lâmpada imunda, eles, aqueles que você enriquece com o suor do teu trabalho cuspirão enquanto gargalham, farão com que você implore sob seu descaso, até que a violência vença eles só falam essa língua não espere piedade dos que podem comprar exércitos, só os que sangram cuidarão das tuas feridas, só os que já secaram colherão tuas lágrimas.

segunda-feira, 3 de julho de 2017



Dormem os senhores da Terra assustados e frágeis carregados de mortos, dormem vulneráveis milionários e reis, um sono soterrado por drogas ou em progressivos pesadelos sísmicos, ou convencidos de sua grandeza dormem o seu sono de cegueira e sonham trevas com seu peso em ouro, ou realmente grandes rezam sua pequenez e insignificância e dormem esquecidos, assassinos cruéis fecham os olhos e conseguem silenciar as suas consciências carregadas de mortos, dormem vulneráveis todos os sádicos e sátiros, ególatras de todas as espécies e homens-ratos e mulheres-ratas dormem e robôs programados pra engolir todas as almas, e juízes e soldados e senhoras e senhores comuns apenas batalhando o pouco pão de cada dia dormem dramaticamente vulneráveis e ninguém ninguém ninguém nunca esteve
nem estará completamente a salvo
até que Deus
ou uma bala
ou qualquer outro detalhe
ou nos acabe
ou nos acorde.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Olinda - PE
quase eu quase feito de semente e fruto, escuta, solitário deus sobre a face das eras, carne e letra e direção, nem me despedaçar cala o silêncio dos meus ossos, nem uma gota do meu sangue se perdeu quando eu sangrei, mas ouve, esta é a verdade que você pediu, do pântano e das asas, vale das sombras e de leite e mel, nenhum vão entre as esferas, interminável eu, inacabado e sim


sexta-feira, 23 de junho de 2017


Estou à janela conversando com meu Anjo.

– Não sei, – eu digo – tenho a impressão de que alguma coisa está errada.

– Não há nada – ele diz.

Pouca gente pelas ruas, uma noite preguiçosa e agradável. Você gostou da minha blusa nova? Estou alegre, isso é tão raro. Nada de errado? Nada?

– Então é isso – eu resmungo.

O Anjo dá risada. Amanhã posso acordar tarde, não tenho o que fazer e seria capaz de passar horas falando sobre coisas boas – não estou acostumado. Devia me preocupar em achar um trabalho condizente com a minha experiência, pra não dizer “com a minha idade”. Porque isso da idade não tem nada a ver, nem foi uma coisa que escolhi, como se hoje eu tivesse acordado entediado e pensado “O que eu vou fazer hoje? Já sei: vou ter quase quarenta anos”. E afinal o que é ter quase quarenta anos? Um número carregado de palavras e códigos de conduta (!?), invenções não sei de quem seguidas de acordo com os interesses de quem as segue. Interesses que não estou bem certo de que eu tenha.

– Estou pensando em aceitar aquele emprego no escritório do seu Lauro. O trabalho é simples e vou ter bastante tempo livre. Não vou ganhar mais do que estou ganhando agora, mas também não vou ganhar muito menos. Quer dizer, acho que na questão “custo-benefício”, eu saio ganhando. O que você acha? – O Anjo arqueia as sobrancelhas, “vai fundo, o que importa?”. Observo as montanhas, nuvens noturnas, o cheiro de uma primavera que já está chegando. – E acho que eu devia pedir a Larissa em casamento. Meu amor é suficiente. Sei lá, verdade que ela consegue ser bem estúpida, às vezes, mas eu também tenho os meus dias. Todo mundo tem seus dias. Acho que fui meio arrogante conversando com ela hoje, você não acha?

– Era o teu tempo – limita-se a dizer o Anjo. Por que toda essa paz excessiva? A brisa suave, um riso distante de criança. Você gostou mesmo do meu novo corte de cabelo? Um gole d’água, um suspiro, o sono começando a dar sinal. O Anjo se debruça à janela pra cuspir na calçada.

– Porco – eu digo.

E se tudo der errado, e se eu morrer de tédio no caminho que escolhi? E se eu morrer ignorado, esquecido por todos, sem um tostão furado no bolso – posso culpar meu Anjo, esse anjo torto que acaba de cuspir na calçada?

– Acho que vou meditar um pouco...

– Achei que você já estivesse fazendo isso.

– Estou?

Não consigo esconder uma pontada de irritação. E a fome no mundo, e a guerra eterna dos eternos oprimidos, e todo esse lixo do capitalismo inventando necessidades que não temos, e a violência, e a maldade, e, e...

– Acho que estou enlouquecendo...

Sem sair do lugar, o Anjo dá uma cambalhota. É uma manobra dos anjos que nem mesmo os anjos sabem explicar, mas que costuma divertir bastante as crianças.

– Nada de errado, nada?! E o que eu faço agora?

O Anjo me olha com uma cara de “quando é que você vai aprender isso?” e fala muito sério:

Saboreia.


quinta-feira, 15 de junho de 2017


o futuro será sombrio, mas ainda temos um ao outro. mares de corações petrificados, vastas florestas secas de braços e mãos incapazes de oferecer afeto, inférteis auroras de recusas virão, mas ainda teremos um ao outro. ao teu lado, um irmão sempre a postos pra um acolhimento enquanto a descrença imperar, enquanto o vazio o tédio a indiferença escorrerem pelas ruas entre a poeira e o sangue entre a inveja e o descaso, você não precisará ter medo, e eu também não. ao meu lado, amiga de todos os pedaços naufragados do que fui voltando finalmente à tona e navegando enfim sábio enfim seguro entre as portas de arrogância fechadas multidões gritando eu sou mais sou melhor eu eu eu o amor não existe o sonho é vão a noite é tudo, nada nos apagará, nada alimentará amargura. enquanto tivermos um ao outro – abrigo, mel, esperança ventilada e indevassável, nós, transbordantes e pra nós, em nós, teremos.


sexta-feira, 9 de junho de 2017


Tinha um jeito de promover o que é ruim pela crítica em vez de falar do que é bom se recusavam a ser os responsáveis pela própria raiva e tinha aquelas celas de siga-o-modelo eu tinha que caber ali ou nada feito mas não vem com essa de que a culpa a culpa a culpa a a a a. Aquela gente de plástico uma gente que ai-meu-deus-amadureça gente com preguiça de ser gente acho só pode. Tinha uma lá por exemplo reclamando cadê as pessoas inteligentes mais amor por favor é muita hipocrisia a que ponto chegamos e eu pensando minha querida mas também morro de tédio se sou eu que viro o pregador o moralista ou eu-que-sei o o o. Tenho que pedir licença que eu também sei reclamar mas gente que é isso não se faz outra coisa agora. A verdade meus queridos é que se a gente só ouve aquilo que quer é o mesmo que ficar falando sozinho a vida inteira e vá lá se você acha isso uma vida interessante mas só vou passar por aí de vez em quando. E estou acostumado isso não é uma reclamação mas quando uma pessoa não está a fim de te incluir você pode dizer exatamente o que ela pensa e ela vai te rejeitar só porque sei lá porque você colocou uma vírgula onde não devia diz-que. Ou você pode usar o argumento que destroça a lógica dela e ela vai dizer nada me atinge vindo de alguém que isso ou aquilo sendo que isso ou aquilo não tem nada a ver com o que está sendo discutido mas você não tem moral pronto já era. A verdade é que é muito discurso sobre os defeitos mas tudo bem às vezes eu também fico enjoado acho que não é bem essa a palavra às vezes eu também fico incrédulo com os discursos de amor e de bondade como se alguém tivesse uma fórmula ou uma cura que te faltasse e aí continua sendo sobre os teus defeitos. Tá vendo é tudo vento isso aí. A culpa não é de ninguém minha gente vão dormir se divertir um pouco ou só cuidar da própria vida gente que que custa.


sábado, 3 de junho de 2017




Perdi a medida dos extremos que eu pensava equilibrar
Na vida há muito mais que só dois pratos na balança
Ou duas pontas na gangorra
O ponto de equilíbrio avança e cada lado é o outro e muitos outros

Perdi o rumo acreditando em fronteiras e limites
Mapas que só existem na mente
Mentes mentindo a si mesmas sobre posse e controle
Escolhendo o seu pouco pelo que lutar

Perdi a fé no significado das palavras
Essas arquiteturas ocas
Em que cada um assopra o ar que tem
Ou as mentiras que lhe deram

Perdi a conta de quantas dimensões tem meu corpo
Almatéria pulsante e vontade se movendo ou sendo rejeitada
Percepção e tempo
A invenção do vazio e de qualquer totalidade

Perdi tanto e às vezes me ganhei
Algumas coisas doei sem pedir nada em troca
Só sei que nunca experimentei não ser
O resto é talvez