sábado, 30 de junho de 2018


Tinha essa mancha de sol na grama, folhas, frio – sobras do outono – e pássaros. Já não se usava andar de pés descalços e muito se falava sobre urgência e desperdício. Você vê: tinha o poente e casais de mãos dadas, e assovios e gritos dos desesperados e saudades passeando e era sábado. Você bem sabe. Ninguém voltaria a tempo de encontrar-se. Tinha esses ruídos e cores que se enfrentavam. Já não se acreditava mais em melodias e em palavras – sim, sobretudo não se acreditava nas palavras – tinha aquela mancha de sombra das árvores sobre a grama e tinha pedras e tinha barro. Você quer muito ser o sonho bom? Você percebe tudo o que se perde no intervalo? Sim, era sábado, tinha esse tom de alguma coisa às claras, mas ao mesmo tempo um de viver às cegas. como uma brisa fria. como uma andorinha só, fazendo inverno.
Alumbramento, de Marianne Peretti
(Salão Branco do Congresso Nacional, Brasília - DF)

sábado, 23 de junho de 2018


Depois de várias promessas e desencontros, chegou o dia em que Joaquin veio me contar a experiência mais inacreditável de sua vida envolvendo coincidências. Aconteceu quando ele era ainda muito jovem e estava em uma cidadezinha no interior do Rio Grande do Sul, meio acampado, fritando hambúrgueres numa lanchonete antes de continuar sua viagem de volta para casa. Lá, ele conheceu um rapaz mais ou menos da nossa idade chamado Antero e os dois logo ficaram muito amigos, trocando histórias sobre viagens, livros, mulheres, etc. Descobriram que tinham em comum a paixão pela ideia de fazer cinema e de criar histórias que eles sonhavam em um dia escrever, dirigir e quem sabe até protagonizar. A melhor ideia de Antero, na opinião de Joaquin, era a de um curta-metragem sobre um cara que encontrava um papel na rua com um número de telefone e decidia ligar, acabava conhecendo uma mulher e, a partir daí, se desenrolava uma história de suspense, comédia e romance. A melhor ideia de Joaquin, na opinião de Antero, era um filme de viagem ao longo da Cordilheira dos Andes com ótimas tiradas de humor, como, por exemplo, o caso de um personagem chamado Jorge Flores.

Jorge Flores não apareceria no filme. Era assim: algumas vezes, o protagonista seria mostrado em rodoviárias – esperando ônibus, dormindo em bancos, na lanchonete ou fazendo qualquer outra coisa – e todas as vezes que isso acontecesse, de alguma forma, o nome de Jorge Flores seria mencionado: ou na plaquinha de alguém esperando por um passageiro no desembarque, ou sendo chamado pelos autofalantes, ou escrito a caneta na porta de um banheiro, etc. Joaquin jurava que algo assim tinha acontecido de verdade com ele, e que até então aquela tinha sido a experiência mais inacreditável de sua vida envolvendo coincidências – mas que na versão real, pra ser sincero, as rodoviárias não ficavam aos pés da Cordilheira, mas no Brasil, e o nome que se repetia nas rodoviárias não era Jorge Flores, mas um em que Joaquin não via graça nenhuma, por isso resolveu mudar.

Quando se cansou de fritar hambúrgueres naquela cidade e quis pôr o pé na estrada outra vez, Joaquin lamentou poucas coisas além de ter que se despedir de Antero. No dia em que foi embora, andava em direção à rodoviária pensando no amigo e se lembrou das histórias dos filmes só um instante antes de enxergar um pedacinho de papel caído na calçada. Sem hesitar, abaixou-se para pegá-lo e, para sua surpresa, sim, claro, era exatamente um número de telefone que estava nele – acompanhado da palavra “salgadinhos”.

Por algum acaso que ninguém saberia explicar, Joaquin tinha no bolso uma ficha telefônica, e ali, logo em frente, estava um telefone público. Joaquin mal estava pensando, apenas tirou o fone do gancho, colocou a ficha e discou o número. Ouviu um toque de chamada, dois toques, cinco, toques demais e então já estava quase desligando quando Alô, Alô quem é, Queria falar com quem? Era uma voz de mulher, parecia velha, cansada e autoritária. Joaquin pigarreou, Estou ligando por causa dos salgadinhos, ele disse, e a mulher do outro lado ficou brava e disse que Esse assunto eu resolvi diretamente com o próprio senhor Jorge Flores, oras, passar bem.

E desligou.

Aquele barulhinho da ligação caindo, sabe, Joaquin diz que doeu.

E eu acreditava, mesmo, que sim. Mas também a dor me parecia um detalhe até sem importância no meio daquilo tudo. Até porque eu tinha essa informação a mais sobre a história e ela estava me roubando os pensamentos: o fato de que, pelas descrições que Joaquin fazia (e Joaquin sempre fazia descrições com muita riqueza de detalhes) o Antero de sua história era exatamente aquele que eu fui conhecer anos mais tarde em Machu Picchu e com quem vivi uma série de aventuras.

Olha aqui, Joaquin – falei depois de alguns segundos de silêncio de perplexidade – deixa eu te contar uma coisa: essa é, de longe, a experiência mais inacreditável da tua vida envolvendo coincidências.


domingo, 17 de junho de 2018


Tinha quebrado um vaso, tinha cacos de vidro no chão e bem naquela hora o nenê tava chorando de um jeito que parecia que o mundo ia acabar pra ele o infeliz, e era uma jovem de cabelos negros e longos debruçada à janela com um vestido de flor e tinha água, não sei, tinha muita água pelo chão, nuvens cor de chumbo escureceram o céu mas perto do horizonte ainda tinha algum azul, e espelhos giravam e cabelos ruivos e gêmeos e aposentos reais num castelo alguém dizendo adeus ou coisas sábias, houve um tempo, talvez, houve um longo intervalo de tempo, tecidos dourados, uma menina triste aconchegada no colo do avô, o peso de uma ausência, como agora, esses vazios que há nas mensagens de voz ou vídeos sem verdades, telefones que não tocam e aquela velha impressão de estar pagando pelos erros do mundo todo quando acaba a tinta, o tom, a tela, tinha um pincel pousado inutilmente e tinha um coração desencantado e tinha um mar, ou mais ou menos, ou então era um daqueles dias em que não se via nada.

(Diários de Machu Picchu #03)

sábado, 9 de junho de 2018

Só me lembro de enxergar debaixo d’água. Não de me desesperar, nem de sentir o ar faltando, nada: só me lembro da luz, de como os raios do sol se espalhavam a partir da superfície e iam afundando em direção ao nada, até sumir. É, dá pra explicar desse mesmo jeito o que estava acontecendo na minha cabeça: afundando em direção ao nada.


todo um poema acontecendo aqui e você pedindo outra colheita de crimes. eu é que não vou morrer de novo só porque as tuas palavras aleatórias são aleatoriamente bem mais importantes do que as minhas. pra você, isso não quer dizer nada, mas agora eu só consigo pensar que só umas poucas letras embaralhadas diferenciam confronto de conforto.


Escuto o som dos motores dos carros, caminhões e motos que passam pela estrada ainda a esta hora. E de repente, então, correntes contra as grades, passos na escadaria do prédio e o clic da luz acendendo, chaves, uma chave arranhando a porta e logo em seguida o molho inteiro de chaves caindo no chão, silêncio. Não pode ser ela, eu penso, ela não vem, é claro. Algum vizinho está bêbado.


Não me lembrava de nada: nem do meu nome, nem de ter existido antes de acordar naquela cama de hospital. Os primeiros dias foram os piores, porque qualquer coisa que passasse pela minha cabeça poderia ser algo que eu tivesse vivido. Cenas de filmes, sonhos, pesadelos, qualquer coisa. Passei dias acreditando, por exemplo, que eu tivesse mulher e filhos me esperando preocupados no interior do Tocantins.


Sabe aquela sensação de quando você chega na padaria de manhã bem cedo e o pão acabou de sair do forno?


sexta-feira, 1 de junho de 2018



Às vezes é inevitável respirar
o ar envenenado de melancolia
porque o relógio é único demais
pra tantos
segundos
passados.

Às vezes é tão simples:
o que passou, passou,
menos as frases feitas
e o medo de fantasmas.

Às vezes a sede
de nos virarmos pra trás
vem simplesmente do receio
de há muito tempo termos virado
estátuas de sal.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Eu bem que pedi pra ele: não faça a tua poesia triste hoje não. No outro quarto tem uma menina enrolada num cobertor, pensando na morte. Faça uma daquelas profecias sobre quando o amor vencer, ou música alegre, ou reze, mas pelo amor de Deus, não faça a tua poesia triste hoje não. Amanheceu chovendo, fez frio, tem coração demais que já perdeu a fé, tem fé errada demais justificando maldade, faça um bolo de frutas, uma escultura de barro, berre, assista a um filme bobo qualquer. Mas por favor, por favor, não faça a tua poesia triste hoje não.


Porque são três da madrugada estou pensando em dormir e tenho tantas coisas pra pensar vou colocar umas vírgulas aqui pra facilitar mas não tem nada disso no meu pensamento é mais uma linha reta através de universos paralelos que às vezes muda totalmente a direção ou para de repente por exemplo acho que esse para não podia ter perdido o acento na última reforma ortográfica, pára, tá vendo, bem mais fácil de entender, ou antes eu tava escrevendo assim vou por umas vírgulas aqui mas aí achei melhor escrever vou colocar umas vírgulas porque sem acento em pôr também ia ficar difícil de entender tipo eu vou por umas vírgulas pode ser lido como eu to indo através das vírgulas entende, é tudo tão difícil de entender, mas eu que nunca pensei como deveria eu acho, sempre tive a própria cabeça e isso custa a própria cabeça às vezes, sei que eu preciso mudar alguns comportamentos mas não tô muito ansiosa pra fazer concessões a coisas que eu desprezo no mundo dito civilizado, é tanto despropósito sei lá, queria no mínimo guardar umas rezas pra quando isso acontecer porque meu coração aperta e vai ficando tão pequenininho toda vez que eu penso nisso e me pergunto será mesmo deus do céu não pode ser não é possível é isso mesmo que inventaram que precisa ser e todo mundo acha tão lindo né só pode, ou por que que só não junta todo mundo e fala pára porra a gente não vai mais ser desse jeito e ponto final é a gente que decide ou não é caramba, sem essa de que as coisas são assim qual é mas que burrice, só que não, nada acontece e eu tenho que engolir que sou eu que tô errada mesmo e ninguém liga quando a dor é dos outros, uma novela interminável daquelas que sou eu quem chora entende, e só porque eu não quero mais ser obrigada, nem fingir que não sangro, não quero mais fingir que não morro ou que não vivo e não quero mais ter fingir coisa nenhuma saco. E aí quem é que dorme, com esse buzinaço na cabeça da gente. Ou no silêncio denso de um cortejo infinito, lá na frente o meu máximo potencial humano assassinado muito bem vestido em um caixão e as ruas tomadas por miseráveis recortes de mim, eus alternativos andando devagar desolados desiludidos desamparados com velinhas bobas pingando cera em suas mãos. Ah, estou perdida de novo, aí fico olhando as luzes dos carros brancas escorrendo no meu teto branco escorrendo devagar em branco às vezes rápido escorrendo eu pensando só num dia que não vem que não virá que eu não verei que desperdício de estar indo eu penso então por que estar indo hem por nada. Nem dá pra ser brutal só com os brutos não que ideia boba ultrapassada, a brutalidade há muito tempo que ela é pré-requisito, brutalidade é o novo preto, brutalidade é amor brutalidade é nóis a gente assistindo nem se importa mais se é só outro filme horrível passando à tarde ou um programa policial ou um desconhecido de olhos injetados esmurrando a porta. Por entre os dedos cobertos de sangue você vê o corpo no chão da tua sala e descobre ainda sem culpa que o inimigo não era aquele, ops você diz, mas tudo bem muda o canal e relaxa pensando que os gritos de guerra soam tão bonitos até mesmo se você não tem um cinco ponto um surround system, mas você precisa tanto ter um cinco ponto um surround system é essa a tua necessidade mais vital nesse ridículo da nossa era, todo um cinismo reinante e já despreocupado em se dissimular sendo aplaudido eleito retuitado um eco percorrendo as ruas da cidade em só mais uma só mais outra só mais esta madrugada iluminada e barulhenta e oca e sem alívio, quem é que dorme com essas cortinas balançando a brisa em minhas mãos cruzadas sobre o coração exausto eu penso que os poetas são tão bons em convocar à luta, poetas são tão bons em traduzir motivos pra luta e eu não quero nem saber sim bem que eu queria mas não sei se eu quero que me contem onde estão banidos e ridicularizados os que um dia já souberam só fazer dormir talvez sonhar segura e quieta uma criança da minha idade.

sábado, 19 de maio de 2018


Não seria importante.
Sábado.
Os ruídos eram poucos e chovia,
estava começando o outono,
esfriou um pouco desde ontem e chovia à tarde. No asfalto, escorrendo pelos prédios e escorregadores dos parquinhos uma chuva cinza de concreto fria e sem vontade, não seria nada. Um
figurante
de uma cena que ficou de fora na hora da edição,
não acrescentava nada,
nem se debruçaram à janela pra vê-lo acenando, adeus,
talvez ninguém mais saísse de casa e as lojas estivessem fechadas e os cachorros escondidos e dormissem nos sofás com as televisões desligadas.
Passaria.
Seria esquecido.
Voltaria a acontecer e não seria lembrado.
Uma cidade sem fim de calçadas e grafites, árvores úmidas e um dois três quatro milhões de pares de mãos enluvadas ou nos bolsos, uma espera inútil de quando já não falte nada,
uma espera esquecida de si,
quase-mudez,
friozinho.


sábado, 12 de maio de 2018

Da história que vamos contar juntos, quem vai se lembrar das flores de ouvido, de que ela estava me convencendo a adotar um filhotinho de tigre, de um passeio de carro em que a sombra de um pássaro escorria pelo asfalto bem à nossa frente, de quando levantamos um castelo de água, de quando choveu e a gente estava em um barco sem teto mas ela não se molhou porque tinha uma capa de chuva enquanto eu passava frio sem saber que a água do mar estava quente, de quando faltou luz e estávamos no alto da roda gigante, de como o céu estava escuro por causa das nuvens, daquele pedacinho de céu sem nuvens e lá, bem no meio dele, exatamente, as Três Marias, da tempestade que caiu na estrada, de quando atravessei a estrada no escuro enxergando só com a luz da vela que ela me emprestou, de quando atravessamos a estrada debaixo do sol desesperado do meio-dia e quando chegamos em casa tiramos toda a roupa e dormimos até o meio da tarde, na história que vamos contar juntos estaremos abraçados e confortáveis na mesma espreguiçadeira, sorrindo e falando tudo muito devagar, como pra descansar quem escuta, e por gostar da paisagem.


Vai ter amor, sim.

Vai ter amanhã, vai ter paz, sim, na tevê e fora dela, na favela, na floresta, no beco, à beira d'água. Vai ter paz e vai ter amor, e vai ter alguém estendendo a mão pra ajudar quando for preciso, sim, vai ter irmão, e também vai ter convite pra festa. Sorriso e abraço, música, brindes, um barulhinho bom até tarde. Vai ter alegria, sim. Risada. Pele. Gosto.

Vai ter amor, sim.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

mas com que esperança, ou com o quê?
(pra onde estou indo?, perguntei
e quando levantei os olhos vi:
teu olhar repousando em mim)


o desejo, afinal,
(sussurrei pra ninguém no escuro daquela noite)
o desejo, afinal, é só uma das muitas faces do amor
– e eu te vejo se espalhando em todos os espelhos

devagar
e viva
de uma semente recém posta sob a terra
espreguiçando em direção à superfície a sua metamorfose milagrosa

de uma serenidade atenta
de uma avidez atenta
lentamente
reconhecendo

ao redor do meu discurso anárquico
no coração da minha dispersão cansada
teu rosto, aquele
ponto

exato
(no vasto horizonte)
em direção ao qual, sem notar
tenho sido

quinta-feira, 26 de abril de 2018


Aceitei o copo de aguardente que o casal simpático me oferecia. Fui me sentar ao lado deles no cercado de concreto de um canteiro, Alonzo e Clarita, hippies que estavam na cidade de passagem e no momento bebiam acompanhados por Diego, morador dali mesmo de Tilcara, norte da Argentina. O sol começava a se por e o vento ia ficando cada vez mais gelado, enquanto se armava uma feira noturna ao nosso redor, na praça. Tinha conhecido o Diego mais cedo a caminho da Laguna de los Patos, agora ele me reconheceu e perguntou se eu tinha gostado do passeio, o que me fez parar pra conversar com eles. Alonzo disse que não gostava da lagoa, que lhe parecia só uma poça grande, mas que tinha gostado muito das Cuevas del Wayra e do sítio arqueológico de Pucará. Eu tinha visitado Pucará também, e de fato, tinha gostado muito. Era um povoado pré-hispânico muito bem preservado e cheio de placas informativas com conteúdo interessante – como por exemplo algo sobre antigos rituais em que se usava cebil, uma planta alucinógena. Foi sobre isso que perguntei ao Diego antes de me estenderem o copo de aguardente, mas ele apenas sorriu – e essa foi a única resposta que me deu a respeito da tal planta.

Por outro lado, acabou falando bastante sobre os nativos da região e sua relação com a terra, seus pontos de culto e sua cosmologia. Deu praticamente uma palestra, apesar do álcool enrolar um pouco sua língua, às vezes, e de muitas mudanças de assuntos e momentos de pura diversão. Clarita estava o tempo todo fazendo interrupções sem sentido, comentários absurdos do tipo “Eu sou uma quase-louca que ficou no meio da fonte”, e sempre que isso acontecia, Alonzo balançava a cabeça olhando pra ela e dizia “Você está fora da órbita”, depois dava mais um gole generoso em seu copo de aguardente. Não lembro exatamente como a conversa chegou a questões de certo e errado, limites, culpa, só sei que a essa altura já tínhamos começado uma segunda garrafa. Diego defendia que todos os limites e juízos são abstrações, que só existem na cabeça da gente, e que tudo é permitido nos desejos e na imaginação: internamente somos absolutamente livres, nem tinha como ser diferente.

Não lembro quanto tempo durou o assunto e se ainda estávamos nele quando um artista ambulante tocou Let it be numa flauta de bambu, mas a conversa se desenrolou até questões mais puramente religiosas, acontecimentos sobrenaturais e entidades do tipo Exu, que bebem, fumam, falam palavrão e não se constrangem de dizer que fazem tanto o bem quanto o mal. Citei uns nomes de Exu que eu conhecia – Tranca Ruas, Caveira, etc – e expliquei mais ou menos o que ele significava na Umbanda. Alonzo, atento à conversa, mencionou o medo que os cristãos sentem de entidades como essa; aí o Diego, arregalando os olhos, olhou pra ele e disse:

– Pois se eu sou cristão, suponho que acredito em Deus. E se acredito em Deus, então o que existe pra ter medo?

Isso encerrou a discussão, ficamos todos pensando sobre o que ele tinha dito. Clarita dançava entre os músicos, rindo como uma louca completa, e agora a praça estava muito cheia de cores, luzes, sons. O ar gelado fez com que eu me perguntasse se nevaria por lá, e em seguida considerei o fato de que a região era bastante seca. A embriaguez se afastou um pouco e deu lugar a uma sensação recorrente desde que eu tinha chegado a Tilcara: um certo assombro pelo quanto a paisagem toda me era familiar. Deduzi que eu tivesse morado ali em uma encarnação anterior, só podia ser isso, na hora achei que era indiscutível. E parecia que nada no mundo fazia mais sentido que adorar um deus do sol, um da montanha, um do vento...


domingo, 22 de abril de 2018


Nascemos em violência, arrancados, expulsos, com violência aprendemos a andar, num desafio ao chão, da nossa força se fez a estrada, o trigo antes do pão, a pedra antes do abrigo, da minha luta eu fiz crescer sete filhos, mais quatro que ficaram no caminho, por violência atravessamos a vida, amamos, sofremos, em violência deixaremos a vida, há violência em que sejamos esquecidos, há violência em que não sejamos, no que não atende à nossa vontade, em ter vontades, é violento existir, quando alguém mais se dá o direito de violentar nossa vontade, é violento resistir, é violento que tenhamos perdurado.

- tortillas, señor?


no, gracias, pero...
vivir acá.
el horizonte aplastador y tragado por las rocas de tilcara.
casas de piedras.
puertas coloridas.

quarta-feira, 11 de abril de 2018


(comece pelo 2o parágrafo, volte para o 1o e depois pule para o 3o e siga adiante)

- como aquele menino é parecido com o Fabiano, e aquela moça é igualzinha à Cristina quando tinha dezesseis, e que saudade da Cristina aos dezesseis, e do Fabiano, e de todos os passados bons que tive, e de outros que inventei, saudade que às vezes é um sopro suave já passa, às vezes é ter o coração arrancado a unhas às seis horas da manhã, quando o despertador toca. <///>

- etapas da cidade, a cor do céu sobre o asfalto em ruas comerciais e residenciais várias quadras de cima abaixo aquela distância do horizonte no Planalto Central meio verde meio já Goiás e meio ainda DF. Semanas inteiras pensando em cachoeiras de Pirenópolis ou da Chapada, aquela água fria no verão sem chuva, Jardim Céu Azul, uma igreja em construção da poeira vermelha, o fim da linha de um ônibus, apenas uma quarta-feira. Aqui teu sonho é muito branco, muito burguês – imaginei que diriam os olhos daquele menino, e como aquele menino é parecido com o Fabiano...

<///> – Aqui é a Terceira Etapa? – perguntei. – Céu Azul? – O menino me olhou com uma cara que parecia que era um raio x com um detector de metais e de mentiras mais uma investigação completa da minha vida, e tudo isso só me olhando.

Dez horas da manhã e eu me lembrei do jeito que a Cristina cantava Asa Branca.

Este planalto é o sertão, longe demais de tudo. E eu gosto, não gosto, não entendo. Aquela praça ali parece uma de Porto Alegre, aquele prédio parece um outro em que eu morava em BH. Aqui meio que é todo mundo estrangeiro, mas meio que nem todo mundo é. O horizonte grande demais também oprime às vezes; estranhos familiares ainda são estranhos; nem tudo são cartazes de boas-vindas. Tenho que caminhar talvez mais alguns quilômetros, e faz muito calor, mas o menino confirmou que estou no bairro certo – meio resmungando, sem desfazer a expressão de desconfiança, mas confirmou. Jardim Céu Azul em Valparaíso de Goiás, no auge do verão. Algumas ruas acima, estarei no Distrito Federal, hoje só um palco de comédias tristes com roteiristas esnobes. No calor do cerrado. Tão no centro de tudo, dentro demais de tudo. E ainda. Tão. Longe.

(Diários de Machu Picchu #23)

sábado, 7 de abril de 2018



Na casa vazia, o vento era a voz de Verônica, até meio quente, escorrendo na concha do ouvido. Falava em filmes do Fellini, versos do Ginsberg, coisas que eu não entendia, coisas que eu entendia bem, coisas que tanto fazia escutar ou não. Às vezes vinha com o Vinícius, quase sempre com um vinho, às vezes com um bom livro ou um bom som. No silêncio da casa vazia, a solidão parecia a presença de Antônia ou de seu filho Felipe, ou de Manfred, o cão, ou de Marina meia beba atirada no sofá da sala, e tantas outras vidas que se misturaram com a minha, mais todas as que não se misturaram nunca, ainda que estivessem lá, bebessem meu café. Na casa já velha havia o vazio que vinha então com cara de menino, só pra jogar um videogame ou pra brincar com Manfred, o cão, sempre às segundas e quintas-feiras perto das cinco, quando voltava da escola, e me dizia do seu amor platônico pela afilhada de uma prima minha, e acreditava em quase tudo que lia na internet, mas não gostava de ler, e ficava comigo muitas vezes até quase a hora de dormir. E tinha um vazio que não cabia na casa, a falta dos tempos de Maria Luiza, Maria, querida Maria que se espalhava tanto pelo espaço e pelas horas, tanto, tanto que agora não era nem possível que já não estivesse mais ali em lugar nenhum, nem mais um pedacinho de Maria, vazio que não podia ser, mesmo que um vazio assim, a olhos vistos.

sábado, 31 de março de 2018


Aos doze anos, Jéssica teve uma briga feia com os pais bem no centro da cidade. Ficou tão enfurecida que não só berrou que ia fugir, como costumava fazer sempre, como realmente embarcou em um ônibus de linha que estava passando por ali e desapareceu antes que os pais pudessem fazer qualquer coisa pra impedir. Pagou sua passagem e foi se sentar bem ao fundo, na última fileira de assentos, onde chorou de raiva com o rosto virado pra janela durante muito tempo antes de começar a se preocupar com onde estava e pra onde estava indo. Calculou que o melhor a fazer então era esperar o ônibus dar um giro completo em seu trajeto e desembarcar de volta onde embarcou, onde talvez seus pais ainda esperassem por ela. Mas quanto mais o ônibus demorava pra fazer a volta e avançava por ruazinhas estreitas de bairros desconhecidos, mais a pequena Jessica sentia medo e pensava na possibilidade terrível de nunca mais rever os pais. Já estava quase em desespero quando reparou em um menino que se aproximou com a família e acabou se sentando bem ao lado dela. Era bonito e parecia tão seguro e tão alegre que ela teve vontade de falar com ele. E teve a impressão de que ele também tinha reparado nela, que ele também tinha vontade de falar com ela, e mais: havia alguma coisa na forma como os corpos deles iam sendo jogados um contra o outro pelo movimento do ônibus, alguma coisa que fazia com que ela quisesse se entregar, abandonar totalmente o controle e nunca mais parar de sentir o toque da pele daquele garoto. Não entendia muito bem aquilo tudo, mas sabia que estava apaixonada. Já tinha imaginado toda uma vida de casamento, filhos, casa com cerquinha branca e um cachorro, quando o ônibus parou em um terminal e todos os passageiros começaram a desembarcar. Jéssica ficou sentada, vendo todos saírem, e gostou de saber que o menino estava se deixando ficar por último na fila do desembarque. Arrastava os pés pelo corredor, andando devagar e sem vontade, até que finalmente, quando todos os passageiros desceram e só restavam os dois dentro do ônibus, ele se virou pra trás e olhou diretamente pra ela, meio sem entender também, mas fascinado. Ela achou que o tempo tinha parado, ficou olhando pro menino e se perguntando como era possível um menino tão lindo ali parado olhando pra ela também. Depois do que pareceu uma eternidade, alguém chamou por ele, um nome que ela não ouviu, e ele desapareceu correndo porta afora. Então ela nos conta que, sozinha ali no ônibus, sem saber se ele voltaria a andar ou como se comunicar com os pais, perdida, assustada, mesmo assim, sua única preocupação era que o menino tinha ido embora sem que ela tivesse tido coragem de falar com ele, e em vez de rezar a Deus ou pedir ajuda a alguém pra voltar pra casa, ela só conseguia repetir a si mesma, sonhando que ele ouviria: Me perdoa... por favor, por favor, me perdoa.


sexta-feira, 23 de março de 2018


Preciso urgentemente de ir pro século dezenove
Ou menos
Cê tinha que ter visto aquela vida real
Penso nisso toda vez que escuto esse assoviozinho do whatsapp
Cê não tem a menor ideia do que é o tempo
Dias semanas meses enxergando só a mesma paisagem
Como um papel de parede sem nenhum ícone pra clicar
Cê tinha que ter aprendido aquele espaço
Cê não sabe nada do que é vida de verdade
De tanto que não para no teu corpo
Não
Cê acha que não custa nada
Mas tua urgência ainda é maior e pior que a minha
Cê precisa de no mínimo uns quinhentos likes na tua máscara
Comentar o vídeo de uma banda russa que faz bossa-nova com instrumentos árabes
Pesquisar o significado de “Butô” comprar comida assistir filme
Dizer pra todo mundo o que cê pensa sobre isso
Tão inteligente
E cê não faz nenhuma ideia
Se sentisse só uma parte do tédio que eu sinto
Voltaria correndo comigo
Pro século dezenove antes de Cristo
Ou antes



domingo, 18 de março de 2018

nota extraordinária
marginal

meu país está morrendo
a tiros, no centro da cidade

Cidadãos de bem seguem lavando as mãos, mas vejam bem, os ricos estão mais ricos. Nenhum soldado revistando seus filhos a caminho da escola, nenhuma violência explícita em seu quintal. Nenhum grito ecoando no morro alcança os castelos de suas ilhas, não veem que todos veem ou veem e já não se importam em expor toda a brutalidade, tanta boçalidade, a falta do amor cristão de que se envaidecem e se vangloriam na postagem seguinte, não, não está tudo bem que se declare abertamente apoio a um assassinato, nada justifica o sangue derramado, nada justifica, nada.

Minha raiva escorre nas palavras, ressoam os sinos da guerra e continuo não querendo ter que pegar em armas, mas tem muito peso nessas malas, é muita lágrima borrando essa paisagem. Não posso deixar que o mundo siga desse jeito, não posso aceitar que a humanidade a que eu pertenço seja essa. Não posso. Não vou.

Nossa esperança à prova de balas, o abraço acolhedor enviado a quem sofre, aquela multidão pelas ruas irradiando a chama ainda acesa de uma ideia imortal, sou eu, somos milhares.

E estamos de volta, agora. Esta é a programação normal.

sábado, 17 de março de 2018


Você ganhou mais uma chance.
Hoje
tem mel e tem balanço da rede.
tem rio tem uma luz jovem brincando.
Você percebe
depois de tanto tempo uma alegria tão calma
se espalhando pelos cantos
(pelas
canções).
pelos poros.
Tuas mãos se abrem – você não consegue ver, mas
passou um anjo de muitas cores,
deixou nelas o azul.
Sólido.
O horizonte inteiro te abraça, a fonte que jorra está
dentro do teu coração lavado.
Você ganhou.
Dance.
Alto Paraíso de Goiás - GO

sábado, 10 de março de 2018

Eu costumava sorrir durante o voo. Fechava os olhos, uma vez me deixei cair até quase o chão, vertigem, vício de vento no rosto. Eu costumava sorrir no alto da torre. Eu costumava sorrir quando percebia o barco se soltar do cais, o rum enchendo os porões, o vasto horizonte aberto e uma liberdade a velas. Não sorria muito quando voltava da caçada sem nada além de botas sujas, mas apesar da barriga doendo, eu tinha que limpar o piso todo de novo. Não sorria entre as bombas, nem entrincheirado, não sorria acusado de crimes que eu já tinha visto os meus acusadores todos cometer com indiferença. Sonhava em lençóis de seda ou quando dormia no estábulo, sozinho ou embalado pelo som do coração de Guadalupe, olhando estrelas eu sonhava, era feliz, jamais desacreditei da felicidade. Andei esquecido dela em campos devastados, garimpos e sertões em que acordei tantas noites com a boca seca e coberto de suor, num susto e com medo de lembrar por quê. Mas costumava sorrir sempre que me lembrava de ter sido criança ou via as crianças sonharem ou sonhava que a Via Láctea era uma estrada de luz que eu percorria com um cavalo alado, e frutas frescas me bastavam, eu costumava sorrir acompanhado, nada no mundo me fazia mais feliz do que sorrir acompanhado. Das sensações de traição e de abandono, tive a parte que me coube, uma porção amarga de escuridão da noite mais escura. Sobrevivi pra contar, não pra acertar as contas. Teve um tempo em que ninguém mais vinha me chamar pra um passeio na praia ou trazer doces nem nada, a tinta descascou nas paredes e tinha folhas secas pelo chão do meu quarto, e às vezes parecia que sonhar, nesse tempo, tinha um gosto de inútil. Mas eu costumava sonhar mesmo assim com o gosto de inútil, sentado em silêncio à varanda de tábuas, a cuia do mate na mão e a chaleira ao lado, um cobertor nas pernas contra o vento sul, o céu sem desabar, as pálpebras pesadas.