domingo, 26 de agosto de 2018


porque hoje não há nada que mereça ser cantado começando em mi maior.

você mal me deixou dormir e sonhar com você outra vez fugindo roubou toda a graça de voar sobre as calçadas.

é inútil amar quem não quer ser amado.

já te expliquei: não existe explicação nenhuma que dê conta da verdade mas bem que eu gostaria de te provar umas palavras.

hoje não há nada que mereça o poder que tem.

exceto talvez este olhar preguiçoso se espalhando no quintal da casa junto com a água da chuva entre as lajotas irregulares.




nem bem três da tarde e estão acesas as luzes dos postes.

mentira, eu dormi muito bem. tenho dormido melhor que vivido.

você mal me deixou viver.

mal acredita que eu viva.

e isso não é nada que se possa provar.

mi maior, lá, ré, mi, lá, ré, mi, já vai amanhecer.

sem voz.

sem merecer.

sem.

sem.

tanto faz pra você.

pra mim é essa poesia meio oca em caneta vermelha escrita numa folha de rascunho do escritório numa tarde de quinta de segunda-feira.


segunda-feira, 20 de agosto de 2018


Pensei que eu fosse morrer em Buenos Aires. Depois de cinco meses desempregado, de empréstimos intermináveis e de depender da caridade de amigos, pensei que eu fosse morrer em Buenos Aires. Aquela semana em particular tinha sido muito difícil. Três recusas de emprego, uma entrevista em que me saí muito mal e no meio disso tudo fui chutado do apartamento em que estava e tive que ir bater de novo na porta de Dona Elvira, Só uma semaninha vai a próxima não tem como ser pior que esta. Ela me aceitou com a cara mais feia do mundo, no começo, mas aceitou, depois acabei ficando um pouco mais do que só uma semaninha.

Foi por aqueles mesmos dias que apareceu por lá um casal de catadores de papel, levando uma carroça cheia, e decidiu ficar vivendo na calçada em frente à "nossa" por uns dias. Eu reparava neles sempre que passava, e acabei percebendo como eram silenciosos e como se concentravam em seus pequenos afazeres cotidianos, sentados no meio-fio ou na carroça, geralmente próximos um do outro. Uma vez entreguei ao homem um bloco de papel que encontrei num canteiro ali perto: ele agradeceu com a voz baixa e uma expressão tranquila, mas séria, e nunca mais vi nem ouvi ele dizendo uma só palavra.

Na madrugada de uma quinta pra sexta-feira, eu estava lendo uma revista pra distrair a insônia, tentando não pensar em como aquilo tudo que eu estava lendo era desinteressante e sem importância, quando comecei a ouvir a voz do homem vinda da calçada. No começo era um lamento que eu não conseguia escutar direito e que não durava muito tempo, mas que aos poucos foi ficando mais alto e mais compreensível. Ele dizia que estava cansado daquela vida, que não aguentava mais nada daquilo, que não suportava - e a voz de lamento ia se tingindo de raiva, virando um rio de raiva em uma correnteza quente e cada vez mais forte, uma tormenta desesperada, uma fúria de lágrimas, aquela voz ia ficando mais alta e mais alta ecoando no asfalto e no concreto dos prédios, no final repetindo um mesmo refrão:

Necesito una puta pausa.

Necesito una puta pausa.

Foi assim, ali, mais até do que em qualquer outro momento, que eu pensei que fosse morrer em Buenos Aires.

Pensei que eu estivesse morto em Buenos Aires.

domingo, 12 de agosto de 2018

até que se torne só um murmúrio sem sentido
tantos eu-queria-que-fosse tantos ainda-espero inúteis
andar pela cidade à noite andar na chuva andar sozinho andar andar
sozinho e se apaixonar por estranhos que passam
poema sem palavras dando um ritmo ao desejo
como se estivesse na ponta da língua e eu soubesse exatamente o que dizer
a voz em tom emocionado não triste apenas profundamente amoroso
sentar à mesa de um café e ficar observando os casais e as famílias por lá que
tão ocupados com aquelas maquininhas em suas mãos
não há nada de grandioso acontecendo
sempre achar que se fosse comigo seria diferente
ou então é uma lembrança de carícias
entrar sozinho em um bar e pedir uma dose do que for mais forte
andar sozinho pela praia pela praça pelos prédios sempre estar pensando em versos
música interminável quase saltando dos lábios
todos os transbordamentos
murmúrio
murmúrio



sábado, 28 de julho de 2018

Esperava que as palavras.
Nunca.
A substância sem forma do sentir.
Porque tua boca, porque eu.
Verdade, eu procurava por
perdão, eu que matei
com estas mesmas mãos amor e culpa e tudo o que inventei
e vi morrer assim toda esperança e nunca adivinhei
talvez nenhum.
Tropeço,
vaidade do sim.
Queria que um gesto, um abraço, um adeus.
Ainda naquele tempo em que
nunca passou.
Mas esperava que agora, ou não sei, ou

sábado, 21 de julho de 2018

- já tantas vezes mil milhares já bilhões de vezes eu enlouqueci e não era amor nem anjos me abraçavam, bobo em pele de cordeiro, a ausência acumulou nos poros e mais nada respirava a não ser noite absurdo amargo inverno ou ódio, sim, a solidão despedaçava abraços e eu queria apenas o meu ouro ou minha glória, talvez ambos, nunca a minha vida ou minha paz inteiras, ainda me lembro bem, e sei de cor o mal que faz quando nos falta amor ou falta amar ou faltam ambos, mil, milhares, bilhões de vezes qualquer coisa aqui dentro de nós morre e mata e nos maltrata ainda mais na longa marcha em direção ao nada onde ainda, ainda, ainda erguemos a cabeça em guerra e por orgulho ou fábula, pura matéria, toda a pura gravidade inescapável e sem fim das eras e das horas.



sábado, 14 de julho de 2018



Vulcão Misti
(Arequipa - Peru)
Terrabela, 25 de julho de 2012

Marina;

Não entendo você achar que eu possa estar arrependido. Essas feridas abertas, esse perrengue todo que estou passando não são nada perto de uma vida sem você  achei que estivesse claro.

Uma vida de mentira e crueldade, foi o que deixei pra trás. Eu estava era me arrastando por aí, covarde demais pra sair das sombras, já nem acreditava no amor, você sabe. Quando te conheci, a impressão que eu tinha era de que a felicidade me espreitava como uma fera na selva, salivando, mirando meu coração pela garganta. Já não tinha mais como escapar. E eu tinha medo, sim, mas ao mesmo tempo nem queria escapar. Não temos culpa desses corações de pedra à nossa volta, desse ódio à alegria, dessa gente meio morta querendo nos castigar por não sermos eles, por fazer tudo à nossa maneira. Gosto da pessoa que me tornei, nem conseguiria mais ser outra e quero mais é que todos saibam logo de uma vez, que todos vejam que é por você, que é só porque eu te amo.

Só porque eu quero olhar o teu sorriso se espalhando. Quero te ver gostar, não sei, quero te assimilar porque me convenceu a tua razão de ser, e é só porque você dança bem, não foi por nada não, foi por um milhão de motivos e até agora nenhum deles me desenganou, foi só porque sim. Faria tudo outra vez, iria até o fim, como fui, vou até o fim e estou indo, vou fazer o que for pra ver de novo outra vez ficar revendo repetidamente o céu noturno do teu olho, toda noite, de pertinho, esse universo com mundos demais pra gente conseguir contar.

Agora não é mais questão de acreditar: a gente sabe, simplesmente. A gente sente. A gente é. Porque você está comigo em todos os momentos de alegria  e não pra que só existam eles, ou pra te pedir que sempre faça eles acontecerem  mas porque você também está comigo quando eles não existem e isso já resolve tanta coisa, sabe, não sei se me explico bem, não sei se é coisa que se explique, só sei que é com você e que é sempre que você está, e que eu quero mais é que você esteja mesmo, e seja sempre muito mais, e continue sendo.

domingo, 8 de julho de 2018


Sobre a queda

No princípio, era o alto.
Não me lembro de ter chão.

A morte passou como um filme. A vida, não.
A vida era um voo e não pesava nada.
Eu não pensava em rimas nem em soluções, mas acho
que na hora me ocorreram três ou quatro.

Depois, o impacto.

sábado, 30 de junho de 2018


Tinha essa mancha de sol na grama, folhas, frio – sobras do outono – e pássaros. Já não se usava andar de pés descalços e muito se falava sobre urgência e desperdício. Você vê: tinha o poente e casais de mãos dadas, e assovios e gritos dos desesperados e saudades passeando e era sábado. Você bem sabe. Ninguém voltaria a tempo de encontrar-se. Tinha esses ruídos e cores que se enfrentavam. Já não se acreditava mais em melodias e em palavras – sim, sobretudo não se acreditava nas palavras – tinha aquela mancha de sombra das árvores sobre a grama e tinha pedras e tinha barro. Você quer muito ser o sonho bom? Você percebe tudo o que se perde no intervalo? Sim, era sábado, tinha esse tom de alguma coisa às claras, mas ao mesmo tempo um de viver às cegas. como uma brisa fria. como uma andorinha só, fazendo inverno.
Alumbramento, de Marianne Peretti
(Salão Branco do Congresso Nacional, Brasília - DF)

sábado, 23 de junho de 2018


Depois de várias promessas e desencontros, chegou o dia em que Joaquin veio me contar a experiência mais inacreditável de sua vida envolvendo coincidências. Aconteceu quando ele era ainda muito jovem e estava em uma cidadezinha no interior do Rio Grande do Sul, meio acampado, fritando hambúrgueres numa lanchonete antes de continuar sua viagem de volta para casa. Lá, ele conheceu um rapaz mais ou menos da nossa idade chamado Antero e os dois logo ficaram muito amigos, trocando histórias sobre viagens, livros, mulheres, etc. Descobriram que tinham em comum a paixão pela ideia de fazer cinema e de criar histórias que eles sonhavam em um dia escrever, dirigir e quem sabe até protagonizar. A melhor ideia de Antero, na opinião de Joaquin, era a de um curta-metragem sobre um cara que encontrava um papel na rua com um número de telefone e decidia ligar, acabava conhecendo uma mulher e, a partir daí, se desenrolava uma história de suspense, comédia e romance. A melhor ideia de Joaquin, na opinião de Antero, era um filme de viagem ao longo da Cordilheira dos Andes com ótimas tiradas de humor, como, por exemplo, o caso de um personagem chamado Jorge Flores.

Jorge Flores não apareceria no filme. Era assim: algumas vezes, o protagonista seria mostrado em rodoviárias – esperando ônibus, dormindo em bancos, na lanchonete ou fazendo qualquer outra coisa – e todas as vezes que isso acontecesse, de alguma forma, o nome de Jorge Flores seria mencionado: ou na plaquinha de alguém esperando por um passageiro no desembarque, ou sendo chamado pelos autofalantes, ou escrito a caneta na porta de um banheiro, etc. Joaquin jurava que algo assim tinha acontecido de verdade com ele, e que até então aquela tinha sido a experiência mais inacreditável de sua vida envolvendo coincidências – mas que na versão real, pra ser sincero, as rodoviárias não ficavam aos pés da Cordilheira, mas no Brasil, e o nome que se repetia nas rodoviárias não era Jorge Flores, mas um em que Joaquin não via graça nenhuma, por isso resolveu mudar.

Quando se cansou de fritar hambúrgueres naquela cidade e quis pôr o pé na estrada outra vez, Joaquin lamentou poucas coisas além de ter que se despedir de Antero. No dia em que foi embora, andava em direção à rodoviária pensando no amigo e se lembrou das histórias dos filmes só um instante antes de enxergar um pedacinho de papel caído na calçada. Sem hesitar, abaixou-se para pegá-lo e, para sua surpresa, sim, claro, era exatamente um número de telefone que estava nele – acompanhado da palavra “salgadinhos”.

Por algum acaso que ninguém saberia explicar, Joaquin tinha no bolso uma ficha telefônica, e ali, logo em frente, estava um telefone público. Joaquin mal estava pensando, apenas tirou o fone do gancho, colocou a ficha e discou o número. Ouviu um toque de chamada, dois toques, cinco, toques demais e então já estava quase desligando quando Alô, Alô quem é, Queria falar com quem? Era uma voz de mulher, parecia velha, cansada e autoritária. Joaquin pigarreou, Estou ligando por causa dos salgadinhos, ele disse, e a mulher do outro lado ficou brava e disse que Esse assunto eu resolvi diretamente com o próprio senhor Jorge Flores, oras, passar bem.

E desligou.

Aquele barulhinho da ligação caindo, sabe, Joaquin diz que doeu.

E eu acreditava, mesmo, que sim. Mas também a dor me parecia um detalhe até sem importância no meio daquilo tudo. Até porque eu tinha essa informação a mais sobre a história e ela estava me roubando os pensamentos: o fato de que, pelas descrições que Joaquin fazia (e Joaquin sempre fazia descrições com muita riqueza de detalhes) o Antero de sua história era exatamente aquele que eu fui conhecer anos mais tarde em Machu Picchu e com quem vivi uma série de aventuras.

Olha aqui, Joaquin – falei depois de alguns segundos de silêncio de perplexidade – deixa eu te contar uma coisa: essa é, de longe, a experiência mais inacreditável da tua vida envolvendo coincidências.


domingo, 17 de junho de 2018


Tinha quebrado um vaso, tinha cacos de vidro no chão e bem naquela hora o nenê tava chorando de um jeito que parecia que o mundo ia acabar pra ele o infeliz, e era uma jovem de cabelos negros e longos debruçada à janela com um vestido de flor e tinha água, não sei, tinha muita água pelo chão, nuvens cor de chumbo escureceram o céu mas perto do horizonte ainda tinha algum azul, e espelhos giravam e cabelos ruivos e gêmeos e aposentos reais num castelo alguém dizendo adeus ou coisas sábias, houve um tempo, talvez, houve um longo intervalo de tempo, tecidos dourados, uma menina triste aconchegada no colo do avô, o peso de uma ausência, como agora, esses vazios que há nas mensagens de voz ou vídeos sem verdades, telefones que não tocam e aquela velha impressão de estar pagando pelos erros do mundo todo quando acaba a tinta, o tom, a tela, tinha um pincel pousado inutilmente e tinha um coração desencantado e tinha um mar, ou mais ou menos, ou então era um daqueles dias em que não se via nada.

(Diários de Machu Picchu #03)

sábado, 9 de junho de 2018

Só me lembro de enxergar debaixo d’água. Não de me desesperar, nem de sentir o ar faltando, nada: só me lembro da luz, de como os raios do sol se espalhavam a partir da superfície e iam afundando em direção ao nada, até sumir. É, dá pra explicar desse mesmo jeito o que estava acontecendo na minha cabeça: afundando em direção ao nada.


todo um poema acontecendo aqui e você pedindo outra colheita de crimes. eu é que não vou morrer de novo só porque as tuas palavras aleatórias são aleatoriamente bem mais importantes do que as minhas. pra você, isso não quer dizer nada, mas agora eu só consigo pensar que só umas poucas letras embaralhadas diferenciam confronto de conforto.


Escuto o som dos motores dos carros, caminhões e motos que passam pela estrada ainda a esta hora. E de repente, então, correntes contra as grades, passos na escadaria do prédio e o clic da luz acendendo, chaves, uma chave arranhando a porta e logo em seguida o molho inteiro de chaves caindo no chão, silêncio. Não pode ser ela, eu penso, ela não vem, é claro. Algum vizinho está bêbado.


Não me lembrava de nada: nem do meu nome, nem de ter existido antes de acordar naquela cama de hospital. Os primeiros dias foram os piores, porque qualquer coisa que passasse pela minha cabeça poderia ser algo que eu tivesse vivido. Cenas de filmes, sonhos, pesadelos, qualquer coisa. Passei dias acreditando, por exemplo, que eu tivesse mulher e filhos me esperando preocupados no interior do Tocantins.


Sabe aquela sensação de quando você chega na padaria de manhã bem cedo e o pão acabou de sair do forno?


sexta-feira, 1 de junho de 2018



Às vezes é inevitável respirar
o ar envenenado de melancolia
porque o relógio é único demais
pra tantos
segundos
passados.

Às vezes é tão simples:
o que passou, passou,
menos as frases feitas
e o medo de fantasmas.

Às vezes a sede
de nos virarmos pra trás
vem simplesmente do receio
de há muito tempo termos virado
estátuas de sal.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Eu bem que pedi pra ele: não faça a tua poesia triste hoje não. No outro quarto tem uma menina enrolada num cobertor, pensando na morte. Faça uma daquelas profecias sobre quando o amor vencer, ou música alegre, ou reze, mas pelo amor de Deus, não faça a tua poesia triste hoje não. Amanheceu chovendo, fez frio, tem coração demais que já perdeu a fé, tem fé errada demais justificando maldade, faça um bolo de frutas, uma escultura de barro, berre, assista a um filme bobo qualquer. Mas por favor, por favor, não faça a tua poesia triste hoje não.


Porque são três da madrugada estou pensando em dormir e tenho tantas coisas pra pensar vou colocar umas vírgulas aqui pra facilitar mas não tem nada disso no meu pensamento é mais uma linha reta através de universos paralelos que às vezes muda totalmente a direção ou para de repente por exemplo acho que esse para não podia ter perdido o acento na última reforma ortográfica, pára, tá vendo, bem mais fácil de entender, ou antes eu tava escrevendo assim vou por umas vírgulas aqui mas aí achei melhor escrever vou colocar umas vírgulas porque sem acento em pôr também ia ficar difícil de entender tipo eu vou por umas vírgulas pode ser lido como eu to indo através das vírgulas entende, é tudo tão difícil de entender, mas eu que nunca pensei como deveria eu acho, sempre tive a própria cabeça e isso custa a própria cabeça às vezes, sei que eu preciso mudar alguns comportamentos mas não tô muito ansiosa pra fazer concessões a coisas que eu desprezo no mundo dito civilizado, é tanto despropósito sei lá, queria no mínimo guardar umas rezas pra quando isso acontecer porque meu coração aperta e vai ficando tão pequenininho toda vez que eu penso nisso e me pergunto será mesmo deus do céu não pode ser não é possível é isso mesmo que inventaram que precisa ser e todo mundo acha tão lindo né só pode, ou por que que só não junta todo mundo e fala pára porra a gente não vai mais ser desse jeito e ponto final é a gente que decide ou não é caramba, sem essa de que as coisas são assim qual é mas que burrice, só que não, nada acontece e eu tenho que engolir que sou eu que tô errada mesmo e ninguém liga quando a dor é dos outros, uma novela interminável daquelas que sou eu quem chora entende, e só porque eu não quero mais ser obrigada, nem fingir que não sangro, não quero mais fingir que não morro ou que não vivo e não quero mais ter fingir coisa nenhuma saco. E aí quem é que dorme, com esse buzinaço na cabeça da gente. Ou no silêncio denso de um cortejo infinito, lá na frente o meu máximo potencial humano assassinado muito bem vestido em um caixão e as ruas tomadas por miseráveis recortes de mim, eus alternativos andando devagar desolados desiludidos desamparados com velinhas bobas pingando cera em suas mãos. Ah, estou perdida de novo, aí fico olhando as luzes dos carros brancas escorrendo no meu teto branco escorrendo devagar em branco às vezes rápido escorrendo eu pensando só num dia que não vem que não virá que eu não verei que desperdício de estar indo eu penso então por que estar indo hem por nada. Nem dá pra ser brutal só com os brutos não que ideia boba ultrapassada, a brutalidade há muito tempo que ela é pré-requisito, brutalidade é o novo preto, brutalidade é amor brutalidade é nóis a gente assistindo nem se importa mais se é só outro filme horrível passando à tarde ou um programa policial ou um desconhecido de olhos injetados esmurrando a porta. Por entre os dedos cobertos de sangue você vê o corpo no chão da tua sala e descobre ainda sem culpa que o inimigo não era aquele, ops você diz, mas tudo bem muda o canal e relaxa pensando que os gritos de guerra soam tão bonitos até mesmo se você não tem um cinco ponto um surround system, mas você precisa tanto ter um cinco ponto um surround system é essa a tua necessidade mais vital nesse ridículo da nossa era, todo um cinismo reinante e já despreocupado em se dissimular sendo aplaudido eleito retuitado um eco percorrendo as ruas da cidade em só mais uma só mais outra só mais esta madrugada iluminada e barulhenta e oca e sem alívio, quem é que dorme com essas cortinas balançando a brisa em minhas mãos cruzadas sobre o coração exausto eu penso que os poetas são tão bons em convocar à luta, poetas são tão bons em traduzir motivos pra luta e eu não quero nem saber sim bem que eu queria mas não sei se eu quero que me contem onde estão banidos e ridicularizados os que um dia já souberam só fazer dormir talvez sonhar segura e quieta uma criança da minha idade.

sábado, 19 de maio de 2018


Não seria importante.
Sábado.
Os ruídos eram poucos e chovia,
estava começando o outono,
esfriou um pouco desde ontem e chovia à tarde. No asfalto, escorrendo pelos prédios e escorregadores dos parquinhos uma chuva cinza de concreto fria e sem vontade, não seria nada. Um
figurante
de uma cena que ficou de fora na hora da edição,
não acrescentava nada,
nem se debruçaram à janela pra vê-lo acenando, adeus,
talvez ninguém mais saísse de casa e as lojas estivessem fechadas e os cachorros escondidos e dormissem nos sofás com as televisões desligadas.
Passaria.
Seria esquecido.
Voltaria a acontecer e não seria lembrado.
Uma cidade sem fim de calçadas e grafites, árvores úmidas e um dois três quatro milhões de pares de mãos enluvadas ou nos bolsos, uma espera inútil de quando já não falte nada,
uma espera esquecida de si,
quase-mudez,
friozinho.


sábado, 12 de maio de 2018

Da história que vamos contar juntos, quem vai se lembrar das flores de ouvido, de que ela estava me convencendo a adotar um filhotinho de tigre, de um passeio de carro em que a sombra de um pássaro escorria pelo asfalto bem à nossa frente, de quando levantamos um castelo de água, de quando choveu e a gente estava em um barco sem teto mas ela não se molhou porque tinha uma capa de chuva enquanto eu passava frio sem saber que a água do mar estava quente, de quando faltou luz e estávamos no alto da roda gigante, de como o céu estava escuro por causa das nuvens, daquele pedacinho de céu sem nuvens e lá, bem no meio dele, exatamente, as Três Marias, da tempestade que caiu na estrada, de quando atravessei a estrada no escuro enxergando só com a luz da vela que ela me emprestou, de quando atravessamos a estrada debaixo do sol desesperado do meio-dia e quando chegamos em casa tiramos toda a roupa e dormimos até o meio da tarde, na história que vamos contar juntos estaremos abraçados e confortáveis na mesma espreguiçadeira, sorrindo e falando tudo muito devagar, como pra descansar quem escuta, e por gostar da paisagem.


Vai ter amor, sim.

Vai ter amanhã, vai ter paz, sim, na tevê e fora dela, na favela, na floresta, no beco, à beira d'água. Vai ter paz e vai ter amor, e vai ter alguém estendendo a mão pra ajudar quando for preciso, sim, vai ter irmão, e também vai ter convite pra festa. Sorriso e abraço, música, brindes, um barulhinho bom até tarde. Vai ter alegria, sim. Risada. Pele. Gosto.

Vai ter amor, sim.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

mas com que esperança, ou com o quê?
(pra onde estou indo?, perguntei
e quando levantei os olhos vi:
teu olhar repousando em mim)


o desejo, afinal,
(sussurrei pra ninguém no escuro daquela noite)
o desejo, afinal, é só uma das muitas faces do amor
– e eu te vejo se espalhando em todos os espelhos

devagar
e viva
de uma semente recém posta sob a terra
espreguiçando em direção à superfície a sua metamorfose milagrosa

de uma serenidade atenta
de uma avidez atenta
lentamente
reconhecendo

ao redor do meu discurso anárquico
no coração da minha dispersão cansada
teu rosto, aquele
ponto

exato
(no vasto horizonte)
em direção ao qual, sem notar
tenho sido