quarta-feira, 30 de outubro de 2019
A liberdade, muito mais – ou muito menos –
que um tratado
ou uma ordem das coisas no mundo,
é um homem sob a chuva numa praça da
cidade
na manhã mais calma,
andando a passos lentos,
contemplando o alto dos prédios,
perdido sabe-se lá em quais diálogos
submarinos,
numa expressão de nada,
ou qualquer coisa entre a preguiça e a
graça,
ou qualquer coisa como um puro homem
que é de músculo e de ideia – a liberdade,
tão diferente de um acordo entre os que
compartilham a jangada,
é a alma sempre pronta pra assentir com a
cabeça,
nadar sozinha, tomar os remos ou amar a
correnteza,
numa atenção contínua
que é às vezes agonia e glória
e é às vezes êxtase e castigo –
a personagem liberdade
na última página de uma novela
e a liberdade suja sobre o pó das ruas
e a liberdade música e poesia e tinta
e a liberdade regra em um artigo do
estatuto
e a liberdade sonho e a liberdade guerra e
a liberdade paga
e a liberdade voo e a liberdade corpo e a
liberdade raiva
e a liberdade tudo e a liberdade cada
ponto de uma estrada
caem por terra como folhas secas de
palavras
quando a paixão se
gosta, quando o querer dança e quando o ser se basta.
quarta-feira, 23 de outubro de 2019
[Aqui tem a fotografia de um velho negro com longas
barbas brancas, sentado em um banco, de pernas cruzadas, fumando um cachimbo.
Olha distraidamente para a câmera, com a cabeça erguida, através de uma pequena
porção de fumaça. Usa uma calça
azul-marinho, camisa branca de mangas dobradas na altura do cotovelo e uns
sapatos pretos muito bem lustrados. À direita dele, quase fora de quadro, um
espelho reflete parte do banco em que ele está sentado e uma pequena faixa
lateral de seu corpo. Acima, na parede, um pedaço de um relógio antigo de
madeira, de que não chegamos a ver os ponteiros.]
Pratos e balanças e
cegueiras e
No dia em que
reparassem em quanto tempo e energia gastam tentando superar obstáculos que
nunca estiveram lá
O ar sem vida olhos
vermelhos de raiva
Poemas publicitários e
caríssimos coquetéis de arte alternativa e discursos decompostos e paixões
desesperadas e puxando as cordas dessas marionetes um monstro de milhões de faces
gargalhando e repetindo calma calma tem mercado pra todo mundo
A lista de exigências
dicionários
Uma cidade suja
endurecida de vícios uma rua preguiçosa de ir uma soberba de querer crescer
somente igual e mais pra dentro
Se ao menos uma prévia
da utopia
[Fotografia de uma janela aberta emoldurando montanhas
longínquas, com cortinas de renda branca penduradas dos dois lados. O céu está
coberto por uma única e imensa nuvem cor de chumbo, mas as árvores das
montanhas estão banhadas pela luz do sol. No parapeito de madeira, há um pombo
cinza, desses urbanos, pousado de frente para a câmera; enquanto outro, de um
cinza mais escuro, bate as asas um pouco acima e à esquerda dele, prestes a
pousar, também. As asas do segundo pombo, em movimento, são apenas um pequeno
borrão nesta fotografia.]
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
nada no mundo
é tão logo e tão longe
quanto esse amor que
me leva
janela e paisagem
terra prometida
encontrada
nada no mundo
é tão quando e tão
onde
quanto esse amor que
me espera
labirinto de tempo
pressa contida e
chegada
nada no mundo
é tão fogo e tão água
quanto esse amor que
me envolve
essa matéria de sonhos
desejo impossível
palpável
nada é mais simples
nem mais sobre-humano
nem nada
nada no mundo
é tão meu e tão plágio
quanto eu te amo
quarta-feira, 9 de outubro de 2019
Quando Fê chegou em casa naquela tarde, encontrou Dani
dormindo sem nenhuma roupa no chão da sala, as pernas e os braços abertos como
o Homem Vitruviano do da Vinci, as luzes apagadas e o celular tocando
música clássica. Fê suspeitava de que fosse Brahms: não entendia muito de
música clássica, mas tinha aprendido alguma coisa depois de nove meses
namorando com Dani – e agora dividindo apartamento. Sentiu o cheiro de incenso de
alecrim. Teve vontade de ir deitar-se também no chão da sala, mas em vez disso foi
largando as suas coisas no caminho até o sofá e desabou de bruços sobre ele.
– Campos de centeio – disse uma voz rouca e lenta vinda do
chão.
– Não sei do que você está falando – resmungou Fê – mas acho
que eu diria “limoeiros amarelos”.
Demorou vários segundos até que Dani voltasse a falar, ainda
com a voz grave e arrastada:
– Sim, tem razão. Também os limoeiros amarelos. Claro.
Uma brisa imperceptível agitava as cortinas. Tinha feito
muito calor durante o dia, mas agora a temperatura estava começando a cair. A
música terminou, ficou tudo muito quieto, depois começou a tocar outra música de
Brahms, se é que era mesmo Brahms. Dani rolou o corpo de lado para ficar de
frente para Fê.
– Sonhei que estava indo a uma reunião de negócios em um tipo
de restaurante subterrâneo – contou. – Alguém queria me vender uma arma proibida,
a situação toda era bastante perigosa. Era só eu e um cara muito grande numa
mesa, e ele estava falando que algumas das maiores atrocidades já cometidas pela humanidade tinham sido cometidas em nome do amor. Falava que o amor não existe,
que só o que existe é o egoísmo, que foi por egoísmo que a gente inventou
o amor, blá, blá, blá, blá, blá... É engraçado como essa ideia é usada para
justificar comportamentos muito piores do que aqueles movidos pelo “egoísmo” de
se amar alguém. Mas enfim, a situação no restaurante era cada vez mais tensa, e
eu comecei a ver que ao redor da nossa mesa tinha muitos homens armados,
olhando sérios para mim. Tive uma sensação horrível, um aperto no peito, aquilo
estava começando a virar um pesadelo... Mas aí você chegou. Eu acordei, dormi
outra vez, acordei de novo, dormi...
Fê se ajeitou um pouco no sofá, também para poder olhar para
Dani. Ficaram assim, imóveis, olhando-se nos olhos por um longo tempo.
– Se uma pessoa diz uma palavra – disse Fê – por exemplo: “pêssego”...
Você tem uma imagem mental para essa palavra, você imagina um pêssego, vê
ele na sua cabeça. Mas esse pêssego que você vê aí é sempre diferente do
pêssego que eu estava pensando quando falei a palavra. Sempre. É menor, sei lá,
mais amargo, mais maduro. Mais suculento. Ou talvez você nem goste de pêssego.
Talvez ele te faça lembrar de alguma história triste da infância, ou de alguém
que você já amou e que a vida te levou embora. É um pêssego muito cheio de
informações, e todas essas informações são muito diferentes das que
estavam ligadas ao pêssego que eu pensei. Porque a minha vó tinha pessegueiros no
quintal. Porque pêssego em calda é minha sobremesa preferida. Ou sei lá por que.
A música parou de repente – o celular ficou sem bateria –
mas ninguém ali se importava com o silêncio. Começavam a piscar os olhos
demoradamente, os pensamentos vagavam cada vez menos lógicos . Foi Dani quem
insistiu em manter uma conversa:
– Eu estava pensando... Tem uns livros de autoajuda, uns discursos motivacionais... Tem umas coisas
que deviam vir com um selo dizendo: “isto aqui pode ter o mesmo efeito de jogar
água em quem está se afogando” ou sei lá... “Dar um martelo a quem só tem
parafuso”... Ou...
Fê estava de olhos fechados, e Dani já não conseguia mais
manter a linha de raciocínio. Ficou pensando por alguns segundos, e tudo que
conseguiu acrescentar à lista foi:
– “Pérolas aos porcos”...
Desistiu de tentar manter os olhos abertos assim como
desistiu de pensar. Já estava quase
cochilando de novo quando ouviu Fê dizer:
– E eu vou ter que insistir nos limoeiros amarelos.
– E eu vou ter que insistir nos limoeiros amarelos.
“💜”,
pensou Dani. Mas já não conseguia dizer mais nada.
terça-feira, 1 de outubro de 2019
o horizonte e o ar das
montanhas altas. quando o vento varre o ardor do sol. flor entre as pedras,
pequenas frutas nos arbustos, caminhos de terra, a paisagem e algo como a sua
voz. suaves riachos. asas. patas. o amor dos grilos por constelações.
sussurros, sopros,
sensações. o corpo de batalha, de ausência ou de prazer. o corpo de todos, o
corpo que é só de si. sentindo. sendo o sentido de ser.
se a minha gratidão
não transbordasse.
abraços, risadas, a
eletricidade que perpassa. mãos que se dão, palavras que se despejam,
pálpebras, misérias e mistérios misturados. essa lembrança é de quem. de onde
nasceu tanto brilho.
se eu não acreditasse,
então.
segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Tudo
estará bem enquanto você adorar os semideuses certos. Eles terão rios de
dinheiro, milhares de seguidores, livros sérios publicados, armas de fogo,
fogo, vocação para o escárnio. Desde toda a eternidade, afeto é uma fraqueza e só
com violência se responde ao fato de que somos todos igualmente vulneráveis. Vão
brigar pelo direito à exclusão com muito mais empenho do que para erguer moradas.
Uma vez que te aprisionem sob um rótulo, não demorarão a te esquecer enquanto
abraçam monstros bem maiores, enquanto aplaudem atitudes bem mais baixas. E,
sobretudo, estarão prontos para te ferir a cada vez que lhes pareça de passagem
que você está errado, mesmo se você não estiver errado.
Agarram-se
a preconceitos
Agarram-se
à intolerância
Agarram-se
desesperadamente
Ao
desejo de agredir
Adoram-se
em negação ao outro
Idólatras
de espelhos
Indigentes
indiversos
Fantoches
do medo
Podem
dar a explicação que quiserem para não abrir as portas quando alguém bate, mas
suas explicações ainda serão portas fechadas. Podem destruir sem piedade os
sonhos mais iluminados de um mundo bom, mas não podem culpar por isso nada além
do fato de já não sonharem. Podem lutar, tanto quanto lutam como bestas
digitalizadas, cumprindo alguma fantasia egoica de missão divina, purificadora,
revolucionária. Mas sempre que derramarem sangue em nome de valores elevados, ficarão
mais próximos de se tornarem seus inimigos que de tê-los derrotado.
terça-feira, 17 de setembro de 2019
Antero
ficou morando em Machu Picchu Pueblo por mais dois anos depois que nos conhecemos
lá. Ele e Ruth acabaram se casando, então ela engravidou e os dois foram morar
no leste da África, onde uma prima dela arrumou um bom emprego pra ele. E é onde
estão até hoje, com duas filhas lindas que a cada dia que passa se parecem mais
com a mãe. Trocamos notícias de vez em quando, e ainda espero que algum dia
possamos todos nos reencontrar.
Na
tarde em que os dois se conheceram, eu estava sozinho à margem do Urubamba, meditando,
como costumava fazer algumas vezes no tempo que passei por lá. Quando voltei ao
pueblo, no fim daquele dia, fiquei sabendo por um menino de uns oito
anos – que veio perguntar o que eu estava escrevendo em meu caderno – que
ficaríamos sem energia elétrica até a manhã seguinte. Voltei pra hospedagem
antes que escurecesse totalmente, e aí fiquei um bom tempo à janela do quarto, enquanto
anoitecia, vendo as ruelas se encherem de luzes de velas, lanternas e displays
de celulares.
No
fim, não resisti: fui andar também pelas ruas escuras. Ia passando por pessoas
sem rosto, por pequenos focos de luz que dançavam na calçada, sem saber muito
bem pra onde estava indo, se é que estava indo pra algum lugar, quando passou
por mim essa mulher alta, de pele escura e com os cabelos muito lisos, com um
sorriso tão luminoso e um par de olhos tão brilhantes que, infelizmente pra
quem não gosta de clichês, a escuridão em volta dela desaparecia por completo. Uns
dez metros adiante, depois que a vi, cheguei ao pé de uma escada e reconheci,
sentado no quarto ou quinto degrau, Antero, com os olhos igualmente brilhantes
e uma expressão de felicidade no rosto. Tentou disfarçar quando me reconheceu
também.
–
Ó, R, você acha que a gente pode achar um significado no apagão assim como
antigamente davam significados pra um eclipse?
–
Ãh... – hesitei. – Tenho a impressão de que hoje em dia ainda tem muita gente que
dá significado pra um eclipse.
Ele
sorriu e balançou a cabeça, contrariado, enquanto eu me sentava ao seu lado na
escada.
–
Um pouco antes de vir pra cá – ele falou – quando eu estava em Cuzco, fui
almoçar com uma amiga italiana e um cara muito novo que era israelense. Aí, lá
pelas tantas, do nada, no meio da conversa, a mulher começa a dizer pro moço que
não é nada pessoal, veja bem, longe dela dizer uma coisa assim, mas que por
razões políticas, ideológicas, ela prefere a Palestina. O rapaz baixa os olhos,
diz “se você gosta de terroristas”, pega o prato e sai pra se servir outra vez
no buffet. A italiana fica olhando pra mim com os olhos arregalados. “Eu e a
minha língua imensa”, ela diz. O rapaz contou depois sobre os anos de serviço
obrigatório que tinha prestado ao exército israelense. – Fez uma pequena pausa,
depois concluiu: – Uma pessoa de carne e osso, sabe, que viveu tudo aquilo, sentado,
ali, almoçando com a gente. Isso invade um pouco o nosso campo de autoridade pra
expressar qualquer opinião que seja sobre o assunto.
–
Foda – comentei. Aguardei uns segundos e depois falei: – Não seja mentiroso.
Deixei
que ele soubesse que eu estava olhando pra sua mão esquerda, onde alguém tinha
feito a inscrição à caneta: Ama Llulla, que em quechua quer dizer
exatamente isso, “não seja mentiroso” – um dos três maiores princípios morais
dos incas.
Ele
sorriu, agora como uma criança que foi pega numa travessura. Levantou os olhos
em direção aonde tinha ido a mulher de olhos brilhantes, mas agora, ali, só era
possível enxergar o mais absoluto breu. Levantou-se, de repente, um pouco sem
jeito e visivelmente agitado.
– Desculpa aí – ele disse. – Não tem como eu
falar nada sobre isso agora. – Desceu os degraus e fez menção de que ia embora,
mas aí parou e começou a me contar o que podia: – Quando caiu aquela chuva toda
na hora do almoço... Eu estava na porta do restaurante, não tinha como sair,
quando parou uma mulher do meu lado e começou a puxar conversa. Era bonita, se
chamava Elizete. Disse que era casada e que tinha uma filha de dois anos, mas
que estava viajando sozinha, de férias de algum trabalho ligado a produtos de
beleza. “Eu me sinto solteira”, ela falou. Aí eu fiquei olhando pra ela de um
jeito que deixou ela meio desconcertada, eu acho, mas é porque eu também fiquei
desconcertado, na hora... Quando a chuva passou, saí caminhar sem rumo pela
cidade. Andei por umas duas horas e, no fim, foi ali na frente da igreja que a
Ruth... Na frente da fonte...
Ficou
em silêncio, olhando adiante, como se pudesse ver alguma coisa, depois tornou a
se agitar, voltou-se pra mim e disse apressado:
–
Não tem como eu falar sobre isso agora. Desculpa. Amanhã. Vocês vão acabar se
conhecendo, de qualquer jeito.
E,
dizendo isso, desapareceu no escuro.
Sorri.
“Com
certeza”, pensei, “a gente vai acabar se conhecendo.” Depois, divertido, quase
falei em voz alta: “Já não está suficientemente claro pra todo mundo?”
quarta-feira, 11 de setembro de 2019
Cinco segundos de olhos fechados e dez mil anos
imaginários ondulam até o instante. Arrastam retratos e objetos do dia a dia como
xícaras ou chaves, pele morta, pensamentos de profundidades insondáveis, um
desejo antigo ardendo cansado. Se eu conseguisse organizar todas as lições que
recebi da vida em uma só enciclopédia, se ao menos esse conjunto apontasse em
uma única direção, clara e definida, sem margens de erro. Oito segundos, uma
inspiração, um fluxo invisível carregando cálculos e caminhadas, cascas secas de
ideias que já foram frutas suculentas, ou uma foice, ou um bálsamo. Gostaria
especialmente que você, mais do que todos, mais do que tudo, gostaria que você soubesse
que merece amor, paz, força de fé e acreditar de ciência, a liberdade e os
meios, e espero sinceramente, de todo o meu coração eu espero que você tenha
coragem de ser. Em meus melhores sonhos e preces. Um mar, um maremoto de
silêncios milenares, mergulho intradimensional, doze, talvez vinte ou trinta
segundos de olhos fechados através de todo o vasto mundo ainda não visto, ou
inventando, ou já vivido, o sempre novo e repetido outro, igual e de improviso.
Até que alguma coisa emerge do nada, há pouco não havia nada ali, aí você
começa a se perguntar se o nada não seria o mesmo que todas as possibilidades
juntas. A alegria observa, trêmula de imprecisão e pressa, aquecida ao sol
desesperado do início da tarde. Um minuto, só, talvez alguns segundos a menos
ou a mais. À sombra de árvores esparsas, disperso e contínuo, na grama que se
espalha à espera de algum vento inquieto, bebendo o vento inquieto, quieto, perdidamente
submerso na inquietude sagrada.
domingo, 8 de setembro de 2019
Não
fale o silêncio, disseram.
Melhor
ficar em silêncio, disseram na noite.
Diga
o que dizemos, diga o que queremos ouvir.
Não
diga o que não nos diz.
Se
eu ouço vozes?, perguntam-me.
Sim.
Sempre
ouvi.
Atentamente,
cada uma delas e todas.
ela
caminha devagar até a janela, apoia-se no parapeito e espia lá fora. “Então é
só um jogo”, ela sussurra. Ouve-se o ruído de carros e motocicletas, mais nada,
por alguns minutos. Qualquer palavra ganha um peso muito grande, cada pequeno
gesto é um significado demais. “Meu pensamento”, ela diz, “é aquele casal
atravessando a rua de mãos dadas a esta hora.”
(Será
que ainda pode piorar?, às vezes eu acho que isso tudo ainda é só a antessala
do Absurdo.
Derramaram
uma gota do meu sangue, não era nada. Roubaram frutos do meu trabalho, nasceram
outros. Me feriram sem querer, por querer, por prazer, por nada. Na manhã
seguinte, eu já nem me lembrava. Derramaram três ou quatro gotas do meu sangue,
se doeu, foi pouco. Trataram-me com desprezo, acontece o tempo todo, acontece
com todo mundo, acontece, coisas ruins acontecem. Fizeram coisas ruins
acontecer comigo. Fizeram de propósito, eu sei, quiseram mesmo que eu soubesse.
Derramaram mares do meu sangue, agonizei, tiraram de mim o quase nada que no
fim já era menos do que um resto de migalhas, derrotaram até a mais remota
chance de talvez ter esperanças. Agora ficou só um imenso NÃO esvaziando as
sobras. E ainda está tudo bem comigo. A vida continua.
(Há
muitos anos frequento este mesmo café e só agora reparei, ao lado da cristaleira,
em um pequeno tripé de ferro com um tampo de mármore muito branco e, sobre ele,
um pequeno vaso de porcelana contendo uma única rosa que daqui até parece de
verdade, mas que é de um azul meio improvável.
“Por que será que desenham flores em vasos de flores”, eu penso, e suponho
que nada disso acrescentará nada em absolutamente nada na minha vida. Melhor
não reduzir tudo a uma única explicação, sabe, é melhor girar de novo as
lentes.)
Ou
porque eu tenho as palavras erradas
Ou
porque eu não tenho nenhuma
Ou
porque eu tenho palavras demais
Ou
por que cargas d'água meu Deus
Há
quando o conhecer dispersa há quando o não saber concentra
Há
quando o pertencer liberta há quando o ter quer ir não deixa
Há
de antes
Adiantes
{à
sombra de um delírio em flor}
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
luz enquanto susto, um raio rasgando a noite
insuportável e também enlouquecido contraste, a luz enquanto miserável querer
de quem descobre o paraíso é de mentira é pura tinta em painéis de cartolina,
luz que se derrama indiferente sobre os condenados presos pelos nós de suas vísceras
amarrados em cadeiras velhas é melhor começar a falar tudo que sabem, luz
enquanto angústia de quem vê através das grades a provocação risada que se
escuta e sombra já tomando fôlego, luz enquanto uma arma apontada para a sua
testa, luz no canto do olho onde a cegueira é obrigação imposta pelos deuses,
luz assassinando o frágil e desesperado sono dos exaustos, luz enquanto
ausência do conforto de não ter que ver, luz que não corresponde claramente ao
não ser trevas, luz enquanto arrastado andar sobre montanhas monstros gigantes
e brutais devorando o sol nos mais sangrentos e espetaculares crepúsculos, luz
pontilhada de estrelas e insuficiente chuva para a sede dos que ardem, luz
enquanto esmagadora falta de opção de existência, enquanto ideia impossível impessoal
de alma, enquanto alvoroço dos átomos, enquanto um eterno e contraditório
enquanto.
terça-feira, 20 de agosto de 2019
Se aquele silêncio me engolisse. Aquela imensidão de
ser nada ou de tanto fazer, porque é uma palavra muito grande
"acolhimento", desaparecer evaporado, ou liquefeito, fim. Sempre que
você levanta a cabeça, encara o fato de que tem que andar, não importa o que
sangre, e sangra, os músculos nem sempre acordam, dias inteiros se vão enquanto
uma interrogação perpassa todos os impulsos. Chacais, aves de rapina e
serpentes espreitam, lágrima é pedra, acho que tudo é. Será outro peso acusar a
si mesmo, ou sentir raiva ou pena, ou invocar algum herói submerso e destruir o
que depois será você mesmo quem terá que refazer do nada, a milhares de
anos-luz de que alguém se importe. Ficar, ser apagado por um sopro, um contínuo
pensamento de paisagem que não sabe nem pergunta a sua razão de estar sendo, se
aquela terra me assimilasse, ou nuvem ou lava, abraça a minha recusa a este
mundo de raivas e cegueiras que só não duvidam de si mesmas, ainda que
"abraço" seja pedir muito. Às feras, dores de feridas; para quem já
secou, água de rio, até não existir mais margem, por toda e qualquer alegria que
possa caber em não ter nome algum, e porque sim e adeus, é tudo embora.
terça-feira, 13 de agosto de 2019
Do alto de sua arrogância você diz mais uma vez
‘Você não é nada’, e nunca lhe ocorreu que alguém possa pensar
Que se “ser alguém” significa ser igual a você
É preferível ser nada
Em seu conforto você fala que sou eu o vagabundo
Enquanto não respeito uma só gota do suor que você derrama
Contando a grana que recebe
Do suor dos outros
Quantas milhas você percorreu nos cafezais, quantas
Boias frias já almoçou nos canaviais, em que setor da fábrica
Repetiu dia a dia os mesmos gestos, qual caminhão você guiou na estrada
Até tomar o cafezinho em sua sala?
São meus irmãos lá fora
E não é esforço que lhes falta
Nem há oportunidades de sobra
Há inércia, há estupidez e olhos cegos
De indiferença
Mas quantas pedras foi você que carregou
Pra construir o seu castelo entre as muralhas?
Não é com sua força que ele não desaba
Nem você
Você depende de um milagre químico qualquer
Em cápsulas, ou envelhecido em carvalho
Mortificando o coração que sabe
Pra conseguir chegar aqui, do alto de sua arrogância
Me exigindo sacrifícios e obediência cega
Enquanto apodrece escondido em seu Sempre-Foi-Assim
Essa razão que eu vomito
E pensa
Que a sua alma é boa, grande e generosa ainda agora
Que promove apenas medo e sede de sangue?
E pensa
Que há menos miséria, ridículo e insignificância
Quanto mais dinheiro você guarda?
segunda-feira, 5 de agosto de 2019
segunda-feira, 29 de julho de 2019
–
Talvez depois de dobrar a próxima esquina – era o que dizíamos toda vez que
algum dos nossos planos ia por água abaixo. E foi a última coisa que dissemos
um ao outro depois de tanto tempo viajando juntos pelo Nordeste e Norte do
Brasil.
Em
nossa última tarde juntos, em um passeio de barco pelo Rio Amazonas, Eva
compartilhava comigo uma playlist de
rocks aleatórios,
cada
um de nós com uma das pontas do fone, quando passou pra frente uma música que,
como ela explicou, tinha enjoado de ouvir com Marina e lhe fazia lembrar de
tempos muito bons com ela, coisas em que preferia não pensar naquela hora.
Não
tocou mais no assunto até muito mais tarde, no momento em que nos despedíamos.
Ela estava falando de novo sobre como lamentava, um pouco, não poder voltar
direto pra Santos, mas ter que ir a Porto Alegre resolver questões burocráticas
sem nenhum sentido, quando parou de repente, com uma expressão vaga no rosto, e
ficou assim parada por vários segundos. Quando afinal olhou pra mim, sorriu sem
jeito, cantou baixinho she lives on love street e depois falou, numa voz
profunda e seca:
–
Eu me senti como se tivesse morrido, sabe? – Tinha um sorriso tranquilo e
triste ao mesmo tempo. Ficou me olhando assim um pouco e depois disse: – Me
chame quando resolver terminar de atravessar a floresta até a Colômbia. Não
sei, parece uma metáfora de nascimento.
Tenho
a impressão de ter visto os seus olhos se encherem de lágrimas, mas ela virou o
rosto e mudou de assunto, uma conversa que já não acompanhei mais muito bem
sobre o ar muito úmido e os meninos jogando bola na praia. Era minha vez de
mergulhar por um instante em pensamentos e sensações que se misturavam e me
arrastavam um pouco pra longe. Ou não tão longe assim, porque ainda tinham a
ver com Eva: a verdade era que uma parte minha estava prestes a morrer também, quando
eu me despedisse dela.
–
Que música você passaria pra frente? – ela perguntou..
–
Agora? – eu disse. – Aquela musiquinha lá do “deu pra ti, baixo astral, vou pra
Porto Alegre, tchau”.
Ela
riu e deu um soco no meu braço.
–
Ela nunca deixa de aparecer – resmungou.
–
Sim – respondi. – Parece que as músicas não dão a mínima.
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