quarta-feira, 29 de abril de 2020


Numa das nossas muitas paradas pra descanso enquanto subíamos a Montanha Machu Picchu, encontramos uma dupla de italianos acomodados em uma grande pedra baixa e achatada. Nunca ficamos sabendo se os dois eram mãe e filho, amigos ou amantes, mas logo ficou evidente que o que estavam fumando ali, por mais que parecesse um cigarro comum, era, na verdade, maconha. Antero chegou a hesitar quando lhe ofereceram um trago, mas acabou recusando, ajeitou-se ao meu lado e resmungou baixinho: “Eu já estou lá”, o que me fez sorrir e lembrar de uma história de quando visitei os terraços circulares de Moray.

– Você esteve em Moray? – perguntei. Antero confirmou com a cabeça e eu continuei: – Também tinha um monte de gente meditando no alto ou no centro dos círculos? – Mais uma vez ele confirmou com a cabeça. – Eu estava incomodado com isso, no dia em que estive lá. Tinha tanta paz em volta da gente, era tão bonito. Tão forte. De alguma forma aquela coisa toda de meditação parecia desnecessária, até meio teatral.

Antero sorriu, compreendendo, e ia responder quando os italianos começaram a fazer perguntas sobre nós e as nossas viagens recentes. Queriam saber muitas coisas a respeito do Brasil, que era o próximo lugar que queriam conhecer. Rio de Janeiro. Cataratas do Iguaçu, Rio Amazonas. Não sabiam se iam conseguir ver tudo em uma só viagem, porque, pra isso, iam precisar de muito tempo e muito dinheiro, ou só muito tempo, ou só muito dinheiro.

Estávamos nessa conversa quando chegou um casal de meia idade, vindo do alto da Montanha, e parou diante da pedra, mas sem olhar em nossa direção. A mulher tirou da bolsa uma bala embrulhada em plástico vermelho, colocou sobre a pedra como sobre um altar e fechou os olhos pra uma oração silenciosa. Ficou ali um bom tempo, durante o qual chegamos a diminuir bastante o ritmo e o volume da conversa, em respeito ao seu momento. Assim que ela acabou, porém, olhou pra nós com uma expressão de censura, agitou o dedo indicador em nossa direção e disse em inglês:

– E vocês, mais respeito com o que é sagrado!

Depois, simplesmente se virou e continuou sua descida, acompanhada pelo homem. Nós nos entreolhamos tão surpresos quanto divertidos, e logo os italianos começaram a falar bem alto uma porção de coisas que não chegamos a entender por completo, porque falavam em italiano, mas que podíamos imaginar muito bem o que eram. Antero, inconformado, comentou comigo:

– Que grande gesto espiritual condenar uma planta enquanto oferece aos deuses uma pedrinha de açúcar embrulhada em plástico!

– Pois é – respondi.

Ficamos nos divertindo com isso durante alguns minutos, mas logo a conversa esfriou, o cigarro acabou e todos nós sentimos que era o momento de continuar a nossa caminhada. Os italianos já tinham partido quando terminamos de ajeitar nossas coisas nas mochilas, e estávamos de saída quando apareceram dois rapazes vindos do alto, conversando em espanhol, relaxados e distraídos. Pararam por um instante pra tomar fôlego, um deles com o pé apoiado na pedra em que estávamos sentados, mas sem parar de conversar, até que o outro abaixou os olhos e exclamou, animado:

– Oh, uma bala!

Pegou-a, assim, sem mais, desembrulhou e pôs na boca. Depois, continuaram andando, normalmente, sem nem por um segundo terem parado de conversar.

quarta-feira, 22 de abril de 2020


Tinha este sábio chamado Mahavira há muitas centenas de anos dizendo que toda afirmação que se faça contém apenas um único aspecto da realidade. Pra se conhecer a realidade toda, dizia, é preciso fazer sete afirmações, e elas serão necessariamente contraditórias. Fui contar isso a um amigo e ele disse que só um louco pensaria assim, mas louco ou não, a verdade é que Mahavira tá certo. E Mahavira tá errado. E tá certo e errado. E não tá certo nem errado. E às vezes tá certo, mas tá muito errado. E às vezes tá errado, mas tá muito certo. E ninguém tá nem aí pra Mahavira.


terça-feira, 14 de abril de 2020


Outro dia
Escreveram meu nome num muro e avisaram
Você não é bem vindo
Outro dia
Meu nome estava em tantos muros da cidade
Pra mim as piores palavras
Meu amor
Eu sou a criatura mais triste do universo
A mais despreocupada
Nada que eu faça
Desata
Outro dia
Um velho numa praça me falou boa tarde
E eu percebi pela sua voz
Que ele não me desejava nada além de uma boa tarde
Outro dia
Passou um boiadeiro e disse ei irmão
E éramos irmãos de verdade
Meu amor
Eu sou a criatura mais errada
Mais boba e perfeita
De toda a História
Nada
Nada que eu faça ou que me façam
Devasta

segunda-feira, 6 de abril de 2020



Ondas e rios que se espalham formando pequenos córregos, pessoas que medem distâncias pelo tempo que dura a viagem, prismas espelhados, constelações alheias aos desenhos que formam, raiz e raios, artérias de uma folha e seiva atravessando as horas. Uma sombra ainda paira sobre todas as almas, e todas elas, dóceis, entregam-se a todo custo à negação contínua de si mesmas. Interiores não alcançáveis, sentidos proibidos palpitam em tocaias, tudo desaba, deságua, tudo vem à tona mais cedo ou mais tarde.

Tomou um fósforo, acendeu o seu cigarro. O dia estava com o tom perfeito de melancolia e azul claro. Da janela, assistia ao vaivém dos carros entre a Avenida Paraná, a Costa e Silva e a República Argentina. Gostava de caleidoscópios. Podia passar a vida inteira jogando amarelinha com Cortázar. Se tivesse algum superpoder, queria estar além do tempo todo, mas tinha que viver nos intervalos.

Imagine se um mapa desenhasse por acaso as suas linhas exatas no vidro quebrado. Tente não chorar, sem ser um personagem, nem ver o que há de nuvem nas palavras de certeza, manchas de nascença ou cardumes de peixinhos prateados.

Todo um amor, sim, porque não existe outra palavra pra isso, aconchega a Terra no manto atmosférico, é o movimento dos passos, vibra, cheira a vida, brilha e colore ainda quando é saudade escurecendo as pinturas, um paraíso perdido, a solidão de conhecer tão bem as diferenças entre iguais. Anúncios publicitários prometem mares nunca navegados, banqueiros e grandes empresários tentam lustrar os seus jardins carnívoros, o tempo exige que se gaste, es muss so sein, abismos de incompreensão se abrem. Mas o chão é de humanidade. O entorno é bem mais dentro. E quem pode fazer com que se afastem, assim como se a dança pudesse escolher entre a música, a poesia e o teatro?

Pensou em ligar pra Cristina ou pro Roger, depois achou que era egoísmo demais querer dividir com alguém o seu fardo.

Procure não julgar, aprenda a discernir, amarre os cadarços e não leia os manuais completos. Siga as suas teias, atenha-se às sinapses. Talvez você não conheça a sensação de estar a centenas de quilômetros de casa e de repente dar de cara com um velho conhecido ou um colega do trabalho, mas percorra com mais tempo e mais atentamente os muitos substratos do seu ser, você vai encontrar vidas inteiras tão diferentes da sua, e ainda assim tão suas.

terça-feira, 31 de março de 2020


Ninguém foi esperá-lo na rodoviária. Eram dez horas da noite e Joaquin parado ali sozinho, fumou um cigarro e acabou embarcando num táxi, rua tal, número tal, mas vai pela avenida. Aí na avenida aconteceu uma cena: o táxi andou por um tempo ao lado de outro carro, e lá, dirigindo esse outro carro estava a sua amiga Soraia, e ela também viu e reconheceu Joaquin, e os dois sorriram, depois ela dobrou uma esquina e desapareceu de vez. Ele ainda estava distraído quando o motorista reduziu a marcha, um bom tempo depois, e estacionou à beira de uma praça mal iluminada de onde partiam vários becos ainda mais escuros. O taxista apontou pra um desses becos e disse rua tal é aquela ali, é uma passagem só de pedestres. Ele pagou a corrida e desembarcou carregando o malão com todas as amostras de venda, todo o seu trabalho. Quando o carro se foi, tudo ficou mais escuro, e só então ele reparou nos diversos grupos de pessoas espalhados pela praça. Olhavam pra ele e conversavam entre si falando baixo. Por um segundo, ele teve medo, depois atravessou pelo meio deles, caminhou pelo beco, a passos meio rápidos, atento, até encontrar a pequena porta de madeira escura em um muro coberto de folhas verdes, número tal era aquele ali, ele apertou a campainha. Quién és?, perguntou alguém, ele falou Soy Joaquin, então uma senhora abriu a porta e disse Seja bem-vindo, querido, estávamos te esperando.

Joaquin passou quase um mês naquela casa enorme em pleno centro histórico da cidade, uma construção de uns duzentos anos, no mínimo. Durante o dia, saía trabalhar, e à noite ia parar quase sempre na biblioteca da casa, uma biblioteca daquelas com escadinhas de correr na frente das prateleiras. Eram livros demais, títulos demais, e ele acabava escolhendo vários, meio aleatoriamente, depois sentava no sofá e lia até quase de madrugada. Folheou os livros mais estranhos, biografias de gente sem graça, filosofias obscuras, geometria, palavras de origem árabe na língua portuguesa. Passava mais tempo com os de poesia, utopias sociais, romances de aventura e fantasia, humor inglês, fotografias, pseudo-ciências. Já não sentia medo ao andar pelo largo, à noite, já conhecia pelo nome um bom tanto daquelas pessoas suspeitas que falavam baixo por ali até mais tarde. Mas na maior parte do seu tempo livre, apenas leu e observou das janelas a escuridão dos becos do centro histórico, e viu a cidade como nunca tinha visto antes, dramática e suja, meio cega, brilhante, oca.

A cidade que ele amou uma vez. Em que ele tinha amado. A cidade.

No dia em que foi embora, ninguém foi levá-lo na rodoviária, nem encontrou ninguém pela avenida. Embarcou sozinho, sentou à janela do ônibus, olhou pra multidão que se juntava nas plataformas de embarque, onde, com quase toda a certeza, não conhecia ninguém, e acenou em despedida.

Estava tão cansado que dormiu logo em seguida, um sono profundo que durou várias horas. Numa delas, acordou sendo empurrado pela moça que ocupava a poltrona ao lado: sem querer, a cabeça dele tinha caído no ombro dela enquanto dormia. Pediu desculpas e ela disse que não, assim seco, numa voz bem grave. Ele ia dar uma resposta mal-educada, mas dormiu de novo na mesma hora, e quando acordou, muitas horas depois, ela já não estava mais lá.

Uma pena, pensou, enquanto um cheiro adocicado ainda exalava do banco ao lado.


quarta-feira, 25 de março de 2020


entra poeira da rua pela porta aberta. amanhã tem que comprar um- ah, droga, esqueci de pagar outra conta, de novo. já seria difícil sem nenhum idiota vomitando opiniões porcas no meu caminho, mas parece que é disso, agora, que os caminhos são feitos. rezar pelo silêncio dos fins de semana. não é o sofá mais confortável do mundo, mas é o bastante pra uma tarde de domingo. as janelas tremem quando o trem passa duas quadras lá adiante. ainda falta preparar o almoço, mas só quero pensar nisso depois das três e meia ou quatro horas. ou cinco. ainda tem uns filmes legais pra assistir, pelo menos. esmagado, é assim que eu me sinto, não exausto, não despedaçado, preso, não, nada disso, eu me sinto esmagado por essa merda toda que insistem em jurar que é o único jeito, porque é assim que foi sempre. não, seus merdas, é a gente quem decide como são as coisas e- ah, esse protesto ridículo. um sopro muito leve no meio do tumulto. numa rua esquecida de um bairro esquecido de uma cidade surda em um dia de (risos) descanso. em qual dessas gavetas eu guardei meu coração, era pra hoje. deixa eu ver, deve estar por aqui, pronto, encontrei. esmagado.

quarta-feira, 18 de março de 2020


Sabe quando você sente as mãos frias de uma tempestade ao redor do seu pescoço
O ar cortando a voz de todo grito de socorro é cheio de pequenas lâminas de gelo
Não dá pra encostar a testa na janela do ônibus e sonhar em uma estrada tão esburacada
E nenhuma luz engana a cegueira de quem viaja rumo ao leste na hora em que amanhece
Eu ando assim despedaçado em sacos de lixo rasgados por todas as ruas de todas as cidades
Não estou muito à vontade com a completa falta de horizontes nas paredes do seu quarto
Nunca fui habituado a ter a imaginação dependendo de internet rápida
Sabe quando você quer aquele gosto preto e fresco de uma noite cravejada de grilos
A transparência água limpa o milagre jorrando de uma só palavra de amizade
E tudo que há ao redor são só milhares de milhares de anos-luz de vácuo
A dor espalhada como um brilho quieto e derramada quente sobre o coração em chamas
Ninguém pode provar por a+b que a culpa é minha por qualquer justiça que me subtraiam
E você não precisa repetir os códigos que já me provocaram tantas cicatrizes
Nem por isso eu tenho a obrigação de concordar que o medo dite as regras daqui pra frente
Nem por isso eu tenho a obrigação de nada ou acho que uma coisa deva necessariamente levar a outra
Sabe quando as lágrimas pesam como inacreditáveis gotas de chumbo sobre suas asas
Sabe quando o sangue chove e mesmo assim há multidões ajoelhadas adorando o céu de sacrifício
Sabe quando as jaulas não vêm com passagens secretas
O perdão pode soar como um remendo em roupas muito gastas e com um design ultrapassado
Mas bem que eu gostaria que chegasse até você um pouquinho só desse eu estar me importando de verdade
E que você pudesse ver o que estou vendo
E que também o que não sou eu pudesse ser visto de dentro pra fora
Pelo menos uma vez só que fosse
Em minha vida toda

quarta-feira, 11 de março de 2020


(Diários de Machu Picchu #08)

Todos os portos, todos os aeroportos são iguais, rodoviárias e estações com suas televisõezinhas de partidas e chegadas, anúncios de colares-travesseiros, estufas com pães-de-queijo, armários, homens e mulheres de coletes, malas com rodinhas, carrinhos pra levar as malas com rodinhas, rodinhas, campainhas e companhias, rodinhas, relógios, mãos acenando e lágrimas em plataformas de embarque.

Todos os barcos, ônibus, todos os trens e os aviões sobre os seus trens de pouso são iguais, bancos de couro imitando couro, as manchas de sol e sombra dançando em todas as superfícies, as suas televisõezinhas com programações duvidosas, os dedos indo e vindo nas telas dos celulares, os olhos indo e vindo na paisagem, sono entrecortado e o pescoço de mal jeito, as costas de mal jeito, as pernas de mal jeito, estranhos com conversas estranhas e biscoitos distraindo a fome, mantas, memórias, mãos acenando e lágrimas correndo nas janelas.

Todas as partidas, todos os caminhos e chegadas são iguais.

quarta-feira, 4 de março de 2020



– Machu Picchu já foi cruel com você? – perguntou Antero, na segunda e última vez que estivemos juntos no “Santuário”, que é como são chamadas as ruínas. Aliás, a bem da verdade, estávamos no topo da montanha de nome Machu Picchu, a mais alta dos arredores, e embora o acesso à montanha passe pelas ruínas, não há indícios de nenhuma construção inca no alto dela.

– Quer saber se eu fui atacado por algum cachorro? – brinquei, em referência ao dia em que nos conhecemos, logo depois dele ter sido inexplicavelmente atacado por um cachorro amigável. – Teve umas pequenas crueldades – confessei, mas não me sentia muito disposto a ter aquela conversa ali, naquele lugar, então mantive o tom de humor: – Mas acho que o pior é quando eu quero andar por aí e começa a chover.

Antero ficou em silêncio, sequer sorriu. Já tínhamos conversado mais de uma vez sobre as sombras que existem no que quer que possamos chamar de processo de iluminação espiritual, uma ideia muito bem ilustrada por Jung ao dizer que nenhuma árvore cresce até o céu sem ter raízes tão profundas a ponto de tocar o inferno. Talvez naquele momento eu só quisesse desfrutar da proximidade com o céu, sem pensar em mais nada. Mas Antero não era dado a períodos muito longos de silêncio contemplativo, e quem sabe, até, seu interesse em retomar o tema fosse só mais uma das pequenas crueldades de Machu Picchu comigo.

Então ele me contou uma história.

Lembrou, mais uma vez, de quando atravessou a fronteira do Brasil com a Bolívia em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, acrescentando que vinha de uma série de relacionamentos frustrados e até nocivos, incluindo casos com mulheres casadas que quase tinham destruído a sua vida e as de muitos outros. Nunca tinha falado sobre isso, o que, no fim das contas, fez com que o meu estado de ânimo em relação à conversa mudasse e eu começasse a prestar atenção.

Falou um pouco sobre o sentimento de solidão durante todo o trajeto do Trem da Morte, mas também sobre uma certa resistência que sentia ao impulso de procurar por alguém ou flertar com desconhecidas. Disse que tinha a impressão de que sua cabeça “esvaziava” conforme ia ganhando altitude até chegar a La Paz, e que se sentia “em branco” no momento em que avistou o Lago Titicaca pela primeira vez, no caminho até Puno, no Peru.

– Quando cheguei lá – disse, – era como se toda a minha vida até então nunca tivesse acontecido. Era como se eu nunca tivesse amado ninguém.

Fez uma pausa, lançando para mim um olhar significativo de quem se lembrava de eu ter-lhe dito algo muito parecido em uma de nossas conversas. Depois voltou a olhar para a paisagem com a expressão um pouco enevoada e prosseguiu:

– Foi quando ela apareceu. Achei que era o destino, sei lá, era uma das mulheres mais lindas que eu já tinha visto na vida, parada, sozinha, na beira do lago, a luz batendo de um jeito que só aumentava a sensação de sonho. A gente conversou por uns quinze minutos antes de aparecer o namorado dela. Eu não sabia que existia um.

Fez outra pausa, dessa vez mais curta e carregada de um pouco de raiva, mas quando recomeçou, estava se divertindo.

– Ficamos amigos, Julio, Mirela e eu. Passeamos juntos, saímos para beber, dançar, conversávamos sobre qualquer coisa... E eu até que estava me saindo bem fingindo que não sentia nada por Mirela. Mas era forte demais, custava muito. Chegou uma hora que eu não aguentei, aí eu só segui viagem...

Acenou com a cabeça em direção às ruínas lá embaixo:

– Cheguei aqui mais de um mês depois. Passei por Arequipa, Nazca, fiquei um bom tempo em Cusco. Mas assim que botei os pés no Santuário, adivinha quem eu encontrei.

Não consegui conter um sorriso, mas imagino que era esse o efeito que ele pretendia. Então ele se virou para mim cheio de energia, como para dizer que ainda não tinha acabado, e que o que vinha a seguir era ainda pior do que aquilo.

­– Julio fingiu indignação quando me viu. Caminhou na minha direção agitando os braços e perguntou: “O que você faz aqui? Essa é a nossa Machu Picchu!”

– Ai – foi só o que consegui comentar.

Antero balançou a cabeça, reprovando a lembrança, algo entre divertido e profundamente magoado. Eu quase podia ver o casal brincando de ter um Santuário só deles, onde ninguém mais podia entrar, e a frustração de Antero logo em sua chegada a Machu Picchu. Não era a primeira vez que eu via o destino brincar assim com alguém, com aquela dose concentrada de crueldade e ironia. E – infelizmente, devo dizer – sabia que não seria também a última.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020




De repente, do nada, por nenhuma razão,
Surge essa voz interior lembrando que você fez bem, um dia,
Por ter ajudado aquela senhora a carregar as compras,
Por ter devolvido um troco que lhe deram errado,
Por ter poupado um desafeto de uma ofensa gratuita.

Às vezes, quando você está distraído com qualquer outra coisa,
Surge essa voz dizendo que você agiu mal, muito mal, mal mesmo,
Quando ignorou um pedinte que obviamente passava fome,
Quando não segurou a porta de um elevador para um atrasado,
Quando riu dos defeitos de alguém, ou não retribuiu gentilezas.

Quase sempre, ao fazer coisas por aí, surge essa voz dizendo
Que você fez bem, ou que você fez mal, no instante em que você as faz,
De modo que algumas vezes dá tempo até de desfazer um mal feito, ou
Só pedir desculpas, ou, se ninguém reparar numa atitude louvável,
Você pode dizer a si mesmo Parabéns, quem sabe até dar-se um prêmio.

Mas sempre, o tempo todo, não importa o que você faça,
Surgem essas duas vozes simultâneas repetindo, contínuas,
Você fez bem e Você fez mal, sem que se possa nunca ter certeza de
Qual delas diz a verdade, qual delas está mentindo – e é este não saber, afinal,
A maldição de todos os seres, além de ser a sua liberdade.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020


Mas o teu ódio é santo. Sim, porque teu deus ficou chateado, eu acho, de ter sacrificado o próprio filho por um bando de idiotas, agora ele quer sacrificar os filhos dos outros. Quase dois mil anos estudando evangelhos pra acabar chamando de messias alguém que quer distribuir fuzis em nome de Jesus. Você acha engraçado, pra mim é muito triste que um deus de amor possa derramar tanto sangue com essa indiferença sempre que você ache conveniente. Com a facilidade de fechar os olhos. O mundo, você pensa, talvez seja só a maior das fake news que rolam na internet. Você ouve os seus iguais, chama de engajamento religioso o que é fanatismo político, a adoração pela força bruta, pela trindade do obrigar-proibir-castigar, deixa os adultos cuidando das Coisas Sérias e vai ver um filme de homens com força impossível explodindo tudo no cinema. É só tuitar reclamando de quem reclama, não como se silenciar a dor pudesse fechar uma ferida, mas porque as feridas não existem, é tudo entretenimento. Você pode se arrastar como só mais um, quem sabe um dia os patrões generosos se lembrem de você, desde que você se mate o bastante pra fortalecê-los. Fantoche à margem, é melhor mesmo não ouvir nada além da voz mansa e confiante que te vende mentira em cima de mentira, ou você pode se dar conta de que se enganou e isso seria o fim do mundo. Repete, como se fizesse parte de um clube pro qual nunca foi nem será convidado, que é tudo sobre dinheiro e poder, mocinhos e vilões, todas essas coisas que se tornaram a mesma e que já não dão espaço a nenhuma outra, embora ainda sejam só um grande e redundante vazio. Aplaude o teu governo missionário como quem canta um hino de louvor diante do espelho, tanto faz que o mundo seja devastado, toda a sua riqueza ambiental e cultural destruída pra caber no teu ego. De onde nada retorna, nem acrescenta, nem agradece. Pela glória do que te ensinaram, pra engrandecer o que te esmaga, nada, absolutamente nada é mais seguro que estar morto. Ser invenção dos outros. Pagar teu dízimo de se omitir e, como isso é coisa que sobra, continuar pagando.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020


Ou o que eu não devo
A idade da História
A lista de títulos
Ou o que eu não leio
Dentro da madrugada
Rios de rancor e sangue
Ou o que não veio


Ou o que nunca foi segredo
Cartazes de medo e desprezo
Aqui vocês só vendem as trevas
Ou o silêncio batido


Ou um delírio
Diamantes e araçás coloridos
Às vezes você só quer um abraço
Ou o que eu não tenho
Obrigação de ferir
Faróis infalíveis
Ou o que eu não creio
Ou o que eu não vejo
Ou o que ninguém quer saber
Ou o ou

domingo, 9 de fevereiro de 2020



É de manhã. Quem dera prolongar essa promessa espreguiçosa no ar puro. Você não gosta de linhas retas, da luz matemática, das horas sem rastros de sonhos. Tem cheiro de orvalho e de pão, uma eletricidade que se espalha sobre o sono e colore as paredes de espera. É tão cedo. Só sei que te adoro, algum muito, uma delicarícia nas mãos, um beijo deitado na pálpebra. Você pulveriza o céu, despedaça, você está diluindo o céu no peso do teu corpo. Borbulha em bule de café, mas bem antes da pressa. Enfim. É o princípio. Vestir o ir em frente com o teu mistério, eu quero tatuar a tua pele em mim, a tua profundidade inspiralada. Você mora em tantos labirintos. E vai chegar logo mais, recarregada de noites.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2020



Andando pela rua a noite escura a música me acalma
Alarmes e sirenes e animadas festas e gemidos de prazer e risos
Um ronronar de toda a terra e de motores e de corações em disparada
Ainda as luzes amarelas sempre essas luzes amareladas com cara de sono
Quando te encontro nos meus pensamentos é com o corpo todo
Alguma coisa me acorda é como se você tivesse estado sempre em mim
Debaixo da pele e mesmo assim pairando ao meu redor pela calçada
Bússola em meu peito
Esse é o caminho de casa
Adivinho as tevês ligadas e chaleiras e lençóis e conversas sobre como foi o dia
Ao longo das janela e varandas e milhões de nomes de redes de wi-fi
O verde dos canteiros
O cheiro do asfalto
Dentro dos fones de ouvido
As coisas todas são este meu ir ao teu encontro e já não pesam nada
Papéis que me cabem
A longa jornada
Eu
Te amo
Aérea é a cidade e nunca me esqueci de que eu também tenho asas
Nada no caminho nem o apocalipse nada pode me impedir de estar indo
Eu já te amava muito antes desse tempo todo
Apresso o passo
Já estava a teu lado bem antes de qualquer um de nós dois ter chegado a este mundo
Estaremos juntos até muito depois de termos ido embora do mundo
Não é pelo mundo
É
Do outro lado desta praça
Até o final desta música
No mesmo lugar
Em tudo

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020



Onde o... Você sabe que... Placas ~ ondas batendo nas pedras
Olha a pamonha... Nem te contei... Gasolinas palavras
Calçada | Edifício
Teve uma vez que... Foi tarde... Ei!... A dor não deve ser adorno
Ecos de um mar de gente _ asfalto quente _ ente _
(E falta algum tanto de senso de humor)
Sobram doentes se vendendo como a cura
Sorvete
Bilhetes de loteria
E leveza água mineral refrigerante
Onde o... Você sabe que... Ruas de um barco em desorizontes
Blá blá blá ontem blá blá sei blá gente que blá blá blá blá
Faltava uma ironia pichada no muro,
“Não quer meu decassílabo perfeito?”,,,
A cor da pele sobre o líquido vermelho,,,,,
E sobre o caos de informações e quando se tratar de arte abstrata,,,,,,,,,,
nada
mais
concreto
(Mas ainda faltam avenidas que nos tragam, não que nos traguem
E que nos entreguem
Não que nos estraguem no trajeto)