quinta-feira, 25 de junho de 2020

Esta é uma história que ouvi uma vez como se fosse verdade e não me lembro muito bem de onde ou quem contou, mas a julgar pelo estilo, época e cenário, acredito que tenha sido meu velho amigo antropólogo, violinista e poeta mineiro Antônio Rosales, o Tonho – e que ele me corrija se eu estiver errado. Aconteceu que, um dia, ele andava pelas ruas de uma dessas cidades muito cheias de ladeiras e casas antigas, acompanhado de seu amigo Pablo, quando, ao dobrar uma esquina, viu-se diante de um pequeno prédio que, construído ao pé do morro, lá embaixo, tinha os andares mais altos na altura de seus olhos. Assim, podiam ver quase que de frente a cena que se desenrolava no telhado, de onde outro poeta bastante conhecido na cidade ensaiava se jogar – pelo que se dizia, por causa de uma rejeição amorosa, embora isso realmente não faça nenhuma diferença. Tonho e Pablo ficaram ali, por um instante, observando o povo que se aglomerava nas calçadas, curiosos que espiavam pelas frestas das janelas e bêbados que discutiam em mesas de bares, todos sem poder desviar os olhos, enquanto o poeta, lá no alto, se alternava entre tomar notas num caderno, dar grandes goles de uma garrafa de cachaça e espiar pela beirada, lá pra baixo, como se reunisse coragem. Um perceptível tremor se espalhava, as beatas se benziam, alguns davam risada, de nervosismo ou de escárnio, e uns jovens chegavam a gritar, impacientes, “Pula logo”, mas nada acontecia, tudo demorava. Tonho e Pablo permaneceram assim, hipnotizados, absorvendo todos os detalhes, até que uma certeza súbita alcançou o Tonho, clara como água: “Amanhã tem sangue nos jornais”, falou. “Você acha que ele pula?”, perguntou Pablo, mas o Tonho se limitou a erguer as sobrancelhas, pendendo a cabeça pro lado: “Ou publica”.

terça-feira, 16 de junho de 2020

De dor e não entender
Mortos aos mil, milhares
Em circos a sangue frio
Que para não ter culpados
Não encontraram responsáveis
Cegos guiando cegos
À vala comum, às lágrimas

Um vírus
Veio enfrentar o fôlego da Terra
Tem me roubado os avós e irmãos
Amores meus
Sou eu quem não alcança o ar
Escuta
Este sopro
Entrecortado
O sussurro, um lamento
Daqueles que reparam

Quantos
Números disparam
E nenhum bolso nos salva
A falta de força, essa febre
Em fogo sobre as nossas peles
Quantos olhos se fecharam
Para não ver ou por não terem visto ou então por que POR QUE

De toda luz venham anjos envolver os corações dos que ficaram
Vesti-los de amparo
Acolham as almas partidas sob este peso arbitrário
De acaso e descaso
De todos os templos se espalhem os deuses e seus avatares
Até abrigar quem estas trevas devoram
Para que amanhã amanheçam tranquilos
Para que não chorem

Somos todos e cada um de nós
A humanidade que some
Essa esperança de máscara
Uma alegria que aguarda
Calada
Cansada
Até que os tempos recordem
Até que os céus se recobrem
E nos encontrem de novo aliados
Como os irmãos que somos
Apesar
E por causa
Dos pesares

terça-feira, 9 de junho de 2020

Ninguém ouvia o grito.

Nem poderiam fazer nada se escutassem.

Cidades inteiras desmoronavam no meu peito, eu já não tinha um reino pra oferecer em troca de um cavalo que me levasse de lá, chovia fogo, em minhas mãos começava a secar o sangue dos amigos que morreram nos meus braços.

Mas era uma quarta-feira à noite, eu estava na casa da Janaína e ela estava preparando um bolo pro aniversário de um sobrinho.

Falávamos sobre qualquer coisa do trabalho, ou sobre alguém, não lembro, e de repente reparei no quanto ela estava concentrada no que fazia. Era uma espécie de oração, tinha algo de muito sagrado em estar preparando aquele bolo.

Submersa em um tipo de transe amoroso, como se não existisse nada mais bonito e importante no mundo, sem desviar os olhos nem por um segundo, em silêncio, esquecida de mim, de tudo, espalhava os morangos sobre o bolo como se dançasse, ou como se provasse um vestido, e por um instante sorriu, encantada com o que fazia.

Eu poderia suportar o horror, enfrentar a morte de peito aberto, receber todos os golpes, perder tudo de novo e de novo, mas só queria que nada no mundo fosse capaz de roubar da Janaína a sensação daquele instante.

A dor maior do amor não é quando lhe falta reciprocidade. A dor maior do amor é quando ele nos obriga a olhar de frente pra essa nossa impotência.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Vem o rapaz que é de Poconé e me diz Primo
Chegue lá tomá um pretinho com nóis
Ou Primo, aqui teu prato de comida
E eu sempre tão quieto que
A primeira coisa que me perguntaram aqui foi se eu falava português
E isso depois de um bom tempo que eu já estava lá no meio da conversa
Valeu
Agradecido
Obrigado
Não tenho mais muitas palavras pra dizer o mesmo
Vem a mulher do Josias logo cedo
Chegue lá que eu trouxe um pão
Vem o Josias pedindo aos da casa
Pra tratarem o Forasteiro como um rei
E eu que nunca gostei de reis
Nunca tinha visto um rei tão bem tratado
Ontem chegou pros da casa um carro carregado de compras
Quando voltei da estrada estavam lá os homens enchendo a despensa
Botei minhas coisas de lado
Bagagem
Cansaço
Reinado
Jogue aqui um desses fardos de milho no meu ombro
Quem precisa de palavras
Se os braços também são gratos

terça-feira, 19 de maio de 2020


Eu precisava me sacrificar e não havia mais nada vivo, eu mal conseguia me lembrar de que ser sombra é necessariamente ser a sombra de outra coisa. Então estava ali, na mesa de uma padaria às duas e quinze da manhã, e a padaria estava meio suja e era dessas que não fecha nunca e sempre há muita gente circulando, uma padaria de rodoviária, eu estava sozinho e sem fome entre um punhado de pessoas sonolentas que chegavam e partiam e já não sabia mais se a moça atrás do balcão me olhava com pena ou tédio ou se queria apenas ir embora, então pedi um pingado, então pedi que ela mudasse a estação de rádio, então risquei a mesa de madeira com a minha última chave, então me olhei de fora e também passei por mim como se não me visse, então eu quis imaginar o que diria se estivesse em um teatro e realmente precisasse estar falando alguma coisa, então falei Menina você passe na farmácia e traz de lá tudo o que achar porque eu preciso me curar de todas as doenças do Universo, porque o meu corpo está vazio da mágica do mundo, porque eu só tenho imagens e lembranças e um carinho inconfessável por desconhecidos, porque você precisa caminhar um pouco eu sei você precisa tropeçar na sua alma gêmea a qualquer momento, porque de alguma forma eu já me sinto em algum lugar onde você não está presente e porque nada em minha vida se resolveria simplesmente por eu afrouxar o nó da minha gravata. Do lado de fora, até mesmo os motores dos carros e dos ônibus pareciam irritantemente silenciosos. Eu precisava de uma sinfonia que me ensurdecesse, eu precisava ser atropelado e que a matéria do meu corpo fosse estraçalhada, eu precisava ser consumido pelo fogo, eu precisava morrer em todos os sentidos, eu precisava pelo menos rir de alguém que passasse e me jogasse uma moeda como se eu fosse um mendigo, mas não tinha graça, eu odiava aqueles relógios iluminados só com riscos pretos no lugar dos números, eu sentia uma falta sem fim de alguém que não viria só porque sei lá porque seu ônibus levantou voo na estrada e estava agora a poucos metros de alcançar a lua.


segunda-feira, 11 de maio de 2020

Esse teu espelho bobo que reflete a superfície, que gosto que ele tem de sangue, já vai se partir sob o peso das sombras, nem os assassinados em praça pública te importam mais que o teu direito (!!!!!) de fazer piadas com pretos pobres bichas todos que se arrastam humilhados até o último grão de amor-próprio, a pólvora que você adora está inquieta pelas suas vidas, essa lente boba que só faz com que você enxergue os próprios olhos, ninguém quer conhecer a verdade, em subterrâneos almas inteiras devoradas pelos monstros que elas mesmas esconderam lá, já são bem mais de mil os motivos que temos pra querer a morte (e só precisávamos de um único), isso não passa em seu filme, você mudaria o canal se passasse, mas lancem à jaula os poetas, silenciem os artistas delicados, condenem à fome, é preciso não saber, ignorar qualquer vestígio, somente assim a crueldade acaba, qualquer outra maneira custaria muito caro e você não paga, não, não você, você não paga e nunca pagará.



quinta-feira, 7 de maio de 2020


mal conseguia dividir com vírgulas e eu tentando lhe explicar que a luz distorce o espaço,

que a luz anda tão rápido que o tempo deixa de fazer sentido,

nem gostava de poesia e eu tentando lhe explicar que num poema “eu” e “você” são pura imagem e não pessoas reais,

não querendo caminhar na superfície, longe dos bares e cafés onde as definições de tudo tinham que ser sempre as menos óbvias como “solidão é não ter pra quem ligar numa segunda à tarde”,

mas ela gostava do lugar-comum e eu nunca acreditei nos homens que não choram,

gostava mesmo era dela,

acho até que muito mais do que seria aconselhável se gostar de alguém,

não éramos opostos, só atraídos, até o dia em que ela me deu as costas como se eu morresse, ou ela, e todos os sonhos despencaram do seu castelo nas nuvens sem deixar nem ao menos um cheiro de chuva,

seria mais fácil se as histórias inventadas tivessem menos consequências reais,

seria mais fácil entender que um mais um não são dois do que seguir em frente só um,

segunda-feira eu não liguei, ainda febril e delirante achando que

sua raiva atravessava a cidade e reverberava nas paredes do quarto em que eu passava a noite escura da minha alma,

durou bem mais do que mil anos,

e quando amanhecia,

saí pelas ruas visitando universos em que ela, em nossos tempos, nunca teve coragem de me acompanhar,

casas de umbanda, teatro interativo, livros de foucault,

numa conversa alguém me disse “amarelo-almodóvar”,

um balconista a quem pedi cigarros perguntou “há quanto tempo a gente tenta te dizer que não?”,

uma garota punk ao pé da escada me abraçou ao meio-dia

e eu já não era aquele ser barroco estilhaçado agonizante estranho aos deuses e à vida prática,

no fundo de um mar de mágoas

tentando respirar entre as algas.


quarta-feira, 29 de abril de 2020


Numa das nossas muitas paradas pra descanso enquanto subíamos a Montanha Machu Picchu, encontramos uma dupla de italianos acomodados em uma grande pedra baixa e achatada. Nunca ficamos sabendo se os dois eram mãe e filho, amigos ou amantes, mas logo ficou evidente que o que estavam fumando ali, por mais que parecesse um cigarro comum, era, na verdade, maconha. Antero chegou a hesitar quando lhe ofereceram um trago, mas acabou recusando, ajeitou-se ao meu lado e resmungou baixinho: “Eu já estou lá”, o que me fez sorrir e lembrar de uma história de quando visitei os terraços circulares de Moray.

– Você esteve em Moray? – perguntei. Antero confirmou com a cabeça e eu continuei: – Também tinha um monte de gente meditando no alto ou no centro dos círculos? – Mais uma vez ele confirmou com a cabeça. – Eu estava incomodado com isso, no dia em que estive lá. Tinha tanta paz em volta da gente, era tão bonito. Tão forte. De alguma forma aquela coisa toda de meditação parecia desnecessária, até meio teatral.

Antero sorriu, compreendendo, e ia responder quando os italianos começaram a fazer perguntas sobre nós e as nossas viagens recentes. Queriam saber muitas coisas a respeito do Brasil, que era o próximo lugar que queriam conhecer. Rio de Janeiro. Cataratas do Iguaçu, Rio Amazonas. Não sabiam se iam conseguir ver tudo em uma só viagem, porque, pra isso, iam precisar de muito tempo e muito dinheiro, ou só muito tempo, ou só muito dinheiro.

Estávamos nessa conversa quando chegou um casal de meia idade, vindo do alto da Montanha, e parou diante da pedra, mas sem olhar em nossa direção. A mulher tirou da bolsa uma bala embrulhada em plástico vermelho, colocou sobre a pedra como sobre um altar e fechou os olhos pra uma oração silenciosa. Ficou ali um bom tempo, durante o qual chegamos a diminuir bastante o ritmo e o volume da conversa, em respeito ao seu momento. Assim que ela acabou, porém, olhou pra nós com uma expressão de censura, agitou o dedo indicador em nossa direção e disse em inglês:

– E vocês, mais respeito com o que é sagrado!

Depois, simplesmente se virou e continuou sua descida, acompanhada pelo homem. Nós nos entreolhamos tão surpresos quanto divertidos, e logo os italianos começaram a falar bem alto uma porção de coisas que não chegamos a entender por completo, porque falavam em italiano, mas que podíamos imaginar muito bem o que eram. Antero, inconformado, comentou comigo:

– Que grande gesto espiritual condenar uma planta enquanto oferece aos deuses uma pedrinha de açúcar embrulhada em plástico!

– Pois é – respondi.

Ficamos nos divertindo com isso durante alguns minutos, mas logo a conversa esfriou, o cigarro acabou e todos nós sentimos que era o momento de continuar a nossa caminhada. Os italianos já tinham partido quando terminamos de ajeitar nossas coisas nas mochilas, e estávamos de saída quando apareceram dois rapazes vindos do alto, conversando em espanhol, relaxados e distraídos. Pararam por um instante pra tomar fôlego, um deles com o pé apoiado na pedra em que estávamos sentados, mas sem parar de conversar, até que o outro abaixou os olhos e exclamou, animado:

– Oh, uma bala!

Pegou-a, assim, sem mais, desembrulhou e pôs na boca. Depois, continuaram andando, normalmente, sem nem por um segundo terem parado de conversar.

quarta-feira, 22 de abril de 2020


Tinha este sábio chamado Mahavira há muitas centenas de anos dizendo que toda afirmação que se faça contém apenas um único aspecto da realidade. Pra se conhecer a realidade toda, dizia, é preciso fazer sete afirmações, e elas serão necessariamente contraditórias. Fui contar isso a um amigo e ele disse que só um louco pensaria assim, mas louco ou não, a verdade é que Mahavira tá certo. E Mahavira tá errado. E tá certo e errado. E não tá certo nem errado. E às vezes tá certo, mas tá muito errado. E às vezes tá errado, mas tá muito certo. E ninguém tá nem aí pra Mahavira.


terça-feira, 14 de abril de 2020


Outro dia
Escreveram meu nome num muro e avisaram
Você não é bem vindo
Outro dia
Meu nome estava em tantos muros da cidade
Pra mim as piores palavras
Meu amor
Eu sou a criatura mais triste do universo
A mais despreocupada
Nada que eu faça
Desata
Outro dia
Um velho numa praça me falou boa tarde
E eu percebi pela sua voz
Que ele não me desejava nada além de uma boa tarde
Outro dia
Passou um boiadeiro e disse ei irmão
E éramos irmãos de verdade
Meu amor
Eu sou a criatura mais errada
Mais boba e perfeita
De toda a História
Nada
Nada que eu faça ou que me façam
Devasta

segunda-feira, 6 de abril de 2020



Ondas e rios que se espalham formando pequenos córregos, pessoas que medem distâncias pelo tempo que dura a viagem, prismas espelhados, constelações alheias aos desenhos que formam, raiz e raios, artérias de uma folha e seiva atravessando as horas. Uma sombra ainda paira sobre todas as almas, e todas elas, dóceis, entregam-se a todo custo à negação contínua de si mesmas. Interiores não alcançáveis, sentidos proibidos palpitam em tocaias, tudo desaba, deságua, tudo vem à tona mais cedo ou mais tarde.

Tomou um fósforo, acendeu o seu cigarro. O dia estava com o tom perfeito de melancolia e azul claro. Da janela, assistia ao vaivém dos carros entre a Avenida Paraná, a Costa e Silva e a República Argentina. Gostava de caleidoscópios. Podia passar a vida inteira jogando amarelinha com Cortázar. Se tivesse algum superpoder, queria estar além do tempo todo, mas tinha que viver nos intervalos.

Imagine se um mapa desenhasse por acaso as suas linhas exatas no vidro quebrado. Tente não chorar, sem ser um personagem, nem ver o que há de nuvem nas palavras de certeza, manchas de nascença ou cardumes de peixinhos prateados.

Todo um amor, sim, porque não existe outra palavra pra isso, aconchega a Terra no manto atmosférico, é o movimento dos passos, vibra, cheira a vida, brilha e colore ainda quando é saudade escurecendo as pinturas, um paraíso perdido, a solidão de conhecer tão bem as diferenças entre iguais. Anúncios publicitários prometem mares nunca navegados, banqueiros e grandes empresários tentam lustrar os seus jardins carnívoros, o tempo exige que se gaste, es muss so sein, abismos de incompreensão se abrem. Mas o chão é de humanidade. O entorno é bem mais dentro. E quem pode fazer com que se afastem, assim como se a dança pudesse escolher entre a música, a poesia e o teatro?

Pensou em ligar pra Cristina ou pro Roger, depois achou que era egoísmo demais querer dividir com alguém o seu fardo.

Procure não julgar, aprenda a discernir, amarre os cadarços e não leia os manuais completos. Siga as suas teias, atenha-se às sinapses. Talvez você não conheça a sensação de estar a centenas de quilômetros de casa e de repente dar de cara com um velho conhecido ou um colega do trabalho, mas percorra com mais tempo e mais atentamente os muitos substratos do seu ser, você vai encontrar vidas inteiras tão diferentes da sua, e ainda assim tão suas.

terça-feira, 31 de março de 2020


Ninguém foi esperá-lo na rodoviária. Eram dez horas da noite e Joaquin parado ali sozinho, fumou um cigarro e acabou embarcando num táxi, rua tal, número tal, mas vai pela avenida. Aí na avenida aconteceu uma cena: o táxi andou por um tempo ao lado de outro carro, e lá, dirigindo esse outro carro estava a sua amiga Soraia, e ela também viu e reconheceu Joaquin, e os dois sorriram, depois ela dobrou uma esquina e desapareceu de vez. Ele ainda estava distraído quando o motorista reduziu a marcha, um bom tempo depois, e estacionou à beira de uma praça mal iluminada de onde partiam vários becos ainda mais escuros. O taxista apontou pra um desses becos e disse rua tal é aquela ali, é uma passagem só de pedestres. Ele pagou a corrida e desembarcou carregando o malão com todas as amostras de venda, todo o seu trabalho. Quando o carro se foi, tudo ficou mais escuro, e só então ele reparou nos diversos grupos de pessoas espalhados pela praça. Olhavam pra ele e conversavam entre si falando baixo. Por um segundo, ele teve medo, depois atravessou pelo meio deles, caminhou pelo beco, a passos meio rápidos, atento, até encontrar a pequena porta de madeira escura em um muro coberto de folhas verdes, número tal era aquele ali, ele apertou a campainha. Quién és?, perguntou alguém, ele falou Soy Joaquin, então uma senhora abriu a porta e disse Seja bem-vindo, querido, estávamos te esperando.

Joaquin passou quase um mês naquela casa enorme em pleno centro histórico da cidade, uma construção de uns duzentos anos, no mínimo. Durante o dia, saía trabalhar, e à noite ia parar quase sempre na biblioteca da casa, uma biblioteca daquelas com escadinhas de correr na frente das prateleiras. Eram livros demais, títulos demais, e ele acabava escolhendo vários, meio aleatoriamente, depois sentava no sofá e lia até quase de madrugada. Folheou os livros mais estranhos, biografias de gente sem graça, filosofias obscuras, geometria, palavras de origem árabe na língua portuguesa. Passava mais tempo com os de poesia, utopias sociais, romances de aventura e fantasia, humor inglês, fotografias, pseudo-ciências. Já não sentia medo ao andar pelo largo, à noite, já conhecia pelo nome um bom tanto daquelas pessoas suspeitas que falavam baixo por ali até mais tarde. Mas na maior parte do seu tempo livre, apenas leu e observou das janelas a escuridão dos becos do centro histórico, e viu a cidade como nunca tinha visto antes, dramática e suja, meio cega, brilhante, oca.

A cidade que ele amou uma vez. Em que ele tinha amado. A cidade.

No dia em que foi embora, ninguém foi levá-lo na rodoviária, nem encontrou ninguém pela avenida. Embarcou sozinho, sentou à janela do ônibus, olhou pra multidão que se juntava nas plataformas de embarque, onde, com quase toda a certeza, não conhecia ninguém, e acenou em despedida.

Estava tão cansado que dormiu logo em seguida, um sono profundo que durou várias horas. Numa delas, acordou sendo empurrado pela moça que ocupava a poltrona ao lado: sem querer, a cabeça dele tinha caído no ombro dela enquanto dormia. Pediu desculpas e ela disse que não, assim seco, numa voz bem grave. Ele ia dar uma resposta mal-educada, mas dormiu de novo na mesma hora, e quando acordou, muitas horas depois, ela já não estava mais lá.

Uma pena, pensou, enquanto um cheiro adocicado ainda exalava do banco ao lado.


quarta-feira, 25 de março de 2020


entra poeira da rua pela porta aberta. amanhã tem que comprar um- ah, droga, esqueci de pagar outra conta, de novo. já seria difícil sem nenhum idiota vomitando opiniões porcas no meu caminho, mas parece que é disso, agora, que os caminhos são feitos. rezar pelo silêncio dos fins de semana. não é o sofá mais confortável do mundo, mas é o bastante pra uma tarde de domingo. as janelas tremem quando o trem passa duas quadras lá adiante. ainda falta preparar o almoço, mas só quero pensar nisso depois das três e meia ou quatro horas. ou cinco. ainda tem uns filmes legais pra assistir, pelo menos. esmagado, é assim que eu me sinto, não exausto, não despedaçado, preso, não, nada disso, eu me sinto esmagado por essa merda toda que insistem em jurar que é o único jeito, porque é assim que foi sempre. não, seus merdas, é a gente quem decide como são as coisas e- ah, esse protesto ridículo. um sopro muito leve no meio do tumulto. numa rua esquecida de um bairro esquecido de uma cidade surda em um dia de (risos) descanso. em qual dessas gavetas eu guardei meu coração, era pra hoje. deixa eu ver, deve estar por aqui, pronto, encontrei. esmagado.

quarta-feira, 18 de março de 2020


Sabe quando você sente as mãos frias de uma tempestade ao redor do seu pescoço
O ar cortando a voz de todo grito de socorro é cheio de pequenas lâminas de gelo
Não dá pra encostar a testa na janela do ônibus e sonhar em uma estrada tão esburacada
E nenhuma luz engana a cegueira de quem viaja rumo ao leste na hora em que amanhece
Eu ando assim despedaçado em sacos de lixo rasgados por todas as ruas de todas as cidades
Não estou muito à vontade com a completa falta de horizontes nas paredes do seu quarto
Nunca fui habituado a ter a imaginação dependendo de internet rápida
Sabe quando você quer aquele gosto preto e fresco de uma noite cravejada de grilos
A transparência água limpa o milagre jorrando de uma só palavra de amizade
E tudo que há ao redor são só milhares de milhares de anos-luz de vácuo
A dor espalhada como um brilho quieto e derramada quente sobre o coração em chamas
Ninguém pode provar por a+b que a culpa é minha por qualquer justiça que me subtraiam
E você não precisa repetir os códigos que já me provocaram tantas cicatrizes
Nem por isso eu tenho a obrigação de concordar que o medo dite as regras daqui pra frente
Nem por isso eu tenho a obrigação de nada ou acho que uma coisa deva necessariamente levar a outra
Sabe quando as lágrimas pesam como inacreditáveis gotas de chumbo sobre suas asas
Sabe quando o sangue chove e mesmo assim há multidões ajoelhadas adorando o céu de sacrifício
Sabe quando as jaulas não vêm com passagens secretas
O perdão pode soar como um remendo em roupas muito gastas e com um design ultrapassado
Mas bem que eu gostaria que chegasse até você um pouquinho só desse eu estar me importando de verdade
E que você pudesse ver o que estou vendo
E que também o que não sou eu pudesse ser visto de dentro pra fora
Pelo menos uma vez só que fosse
Em minha vida toda

quarta-feira, 11 de março de 2020


(Diários de Machu Picchu #08)

Todos os portos, todos os aeroportos são iguais, rodoviárias e estações com suas televisõezinhas de partidas e chegadas, anúncios de colares-travesseiros, estufas com pães-de-queijo, armários, homens e mulheres de coletes, malas com rodinhas, carrinhos pra levar as malas com rodinhas, rodinhas, campainhas e companhias, rodinhas, relógios, mãos acenando e lágrimas em plataformas de embarque.

Todos os barcos, ônibus, todos os trens e os aviões sobre os seus trens de pouso são iguais, bancos de couro imitando couro, as manchas de sol e sombra dançando em todas as superfícies, as suas televisõezinhas com programações duvidosas, os dedos indo e vindo nas telas dos celulares, os olhos indo e vindo na paisagem, sono entrecortado e o pescoço de mal jeito, as costas de mal jeito, as pernas de mal jeito, estranhos com conversas estranhas e biscoitos distraindo a fome, mantas, memórias, mãos acenando e lágrimas correndo nas janelas.

Todas as partidas, todos os caminhos e chegadas são iguais.