sexta-feira, 30 de outubro de 2020


 

Ainda rastejantes, agarrados aos livros de regras, desenhando seus rankings com o impulso infantil, mas vomitando teses, amontoados de palavras que se moldam às circunstâncias, convenientes, atribuídas aos deuses ou a qualquer grandeza arbitrária por trás da cegueira, desfilando a arrogância de se sacrificar por mentiras, a podridão de suas intenções mais puras, a lama escorrendo de suas consciências limpas, o demônio delicado e sorridente citando as escrituras.

A idolatria do confronto não bate palmas no portão, derruba a porta; não te pede um minuto pra falar sobre a intolerância, não tem livrinhos ilustrados com famílias felizes em seus mundinhos de gritos e agressões gratuitas, não pergunta se pode orar ou entoar louvores aos vencedores que nos desprezam, não convida a dar as mãos pra atirar outra pedra. Está em todas as mensagens, conforta com o seu humor destrutivo, embala o sono dos preguiçosos.

Seu pensamento de espuma, embriagado, não suporta por os pés no chão, vaga à deriva. Onde haveria encontro e realidade, onde pudesse haver uma prova concreta de estarmos juntos, um saber de estar sendo, há o borbulhar das bolhas virtuais e de avatares de desenho, as certezas encaminhadas de alguém qualquer de um qualquer grupo, a percepção amortecida por cliques. Agora algoritmos ditam os ritmos, a matemática de repetir o mesmo, no tom exato, o canto da sereia, as algemas, o vício de seguir alheio. E enquanto isso, a arte morreu no mercado, baleada perto do balcão das frutas, limões e pêssegos pisoteados, uvas, morangos, sangue de verdade.

Tenho ouvido as coisas mais lindas sobre o amor, mas por onde será que você anda a essa hora?

 


sábado, 24 de outubro de 2020


 

De onde eu estava, se olhasse em direção a Antero, podia ver tatuada em seu braço direito, em letra cursiva, a palavra “alhures”, embora eu não conseguisse ler àquela distância. Próximo a ele, um pouco à sua esquerda, estava a fonte do barulho constante que ouvíamos: as águas que despencavam em meio às pedras rumo ao Urubamba, lá embaixo, atravessando por entre as calçadas de Machu Picchu Pueblo. Eu estava confortável em um banco de madeira escura, e tinha a palma da mão direita virada pra cima a poucos centímetros da palma da mão esquerda de Ruth, que tinha a palma da mão direita virada pra cima a poucos centímetros da palma da minha mão esquerda, em um exercício que Antero insistiu pra que ela fizesse também comigo, depois de tê-lo impressionado tanto no dia anterior, e que ele agora retratava a lápis em seus próprios diários de Machu Picchu, perto do fim de uma tarde quente de segunda-feira.

Havia algo de muito familiar na voz de Ruth, assim como nas palavras, e uma profundidade tão grande em seu olhar que eu mal conseguia desviar os olhos. Uma transparência única, permitindo entrever o colorido assombroso de uma alma que se estendia pra muito além, misteriosa e ao mesmo tempo simples e direta, de longe uma das pessoas mais fascinantes que já tive a felicidade de conhecer. Seu exercício não era mais do que uma leitura de aura, mas feita por ela, realmente, impressionava até mesmo alguém mais acostumado a coisas do gênero, como era o meu caso. Apenas percebendo as minhas energias, Ruth foi capaz de contar detalhes sobre várias épocas da minha vida, desde a infância, segredos que talvez eu preferisse esconder até de mim mesmo, revoltas, mágoas, medos: ela não deixava passar nada, e aparentemente toda a minha história, pensamentos, sentimentos, até os menores detalhes, estavam impressos em meu corpo e minhas energias de forma que qualquer um pudesse ler.

Aquilo tudo mexeu comigo a tal ponto que eu mal consigo me lembrar do que aconteceu no restante da noite, só que, mais tarde, quando as coisas começaram a ficar silenciosas demais, não aguentei ficar fechado em meu quarto e saí pra caminhar um pouco, tentando arejar a cabeça. Eu me sentia pesado e tenso, discutindo em pensamentos com vozes do passado e de um presente indefinido, vendo sangrarem de novo feridas fechadas havia tanto tempo, e em poucos minutos de caminhada, atravessando o silêncio desabitado de um povoado mágico demais pra minha miséria humana, estava chorando e xingando baixo, como se pudesse me livrar de tudo apenas dando um fiozinho de voz à minha raiva e agitando os braços. E quando me sentei à murada de um canteiro alto, onde havia somente uma árvore não muito maior do que eu, o choro que eu chorava já era de outra espécie, mais um lamento sem força, um choro meio que de quem desiste.

Uma oração cansada. Um desabafo pra ninguém. Eu carregava o mundo nos ombros, remorsos, fracassos, derrotas consecutivas pra inércia ou dependentes do ódio, um padrão miserável e bestial de ser homem, por que, Deus, fizeste de mim poeta em um tempo assim? Então uma vida repetidas vezes desperdiçada, aquela solidão deserta de um vazio intergaláctico, se não fosse sempre só eu esquecido na noite, sem ter sido chamado, nem ouvido, nem muito vagamente alcançado.

Acho que já não chorava quando a silhueta de um casal apareceu sobre a ponte, mas o fato é que, mesmo de longe, estava fácil de ler o quanto eu estava abatido, ali cabisbaixo, talvez ainda resmungando alguma coisa. Os dois não hesitaram em vir me ajudar – não sei se já tinham me reconhecido, é bem provável que sim. Só fui reconhecê-los quando chegaram bem perto, mas nenhum de nós disse uma única palavra. Antero se sentou à minha direita, Ruth, à minha esquerda. Passaram os braços pelas minhas costas, encostaram suas cabeças em meus ombros. E ali ficaram, quietos. Por longos, longos minutos.

Então Antero disse Eu sou teu pai, e pouco depois Ruth falou também Eu sou tua mãe.

Aí logo em seguida ele falou Eu sou teu filho, e ela também Eu sou tua filha.

E por último disseram quase ao mesmo tempo Eu sou teu irmão, Eu sou tua irmã.


 


 

domingo, 18 de outubro de 2020


 


 

Não pense que agora é tarde
Podia parecer só um filme
Eu era aquele estranho caminhando na tua lua
Por que você não foge por uns dias vai morar lá em casa
Leva o violão
Tem dias da gente ser herói
E dias da gente precisar de um
Quero namorar com você desde menino
Não pense que agora é tarde
Eu lembro o que você sempre dizia
Quero ser esse caleidoscópio de te ouvir
A gente parte pro sequestro mútuo
A culpa não é de ninguém
Tem um céu que a gente ajeita como pode
E outro que a gente gosta assim mesmo bagunçado
Vem falar beijo de língua
Não pense que agora é tarde
Aperta o mudo a gente fala tudo sobre qualquer nada
Eu lembro que você gostava da palavra almíscar
O resto a gente aposta em sinais verdes no caminho
Todo o cardápio de delícias sensoriais e metafísicas
Tem dias que não tem herói
Mas a gente faz bolinho de chuva
Arrisco até um “sem fim”
Não pense que agora é tarde


 

quarta-feira, 7 de outubro de 2020


 

como eu tinha que falar muito rápido e não sabia se você estava reparando o quanto eu mal podia acreditar que você estava ouvindo um pensamento que era um fiozinho solto e quando eu fui puxar desfiou tanta coisa que eu queria que você soubesse e nem sabia como se transforma em palavra que se entenda esse amontoado de um emaranhado de um bolo de um rolo de um novelo de um monte de coisas interligadas que a gente é




As duas foram se sentar ali porque gostavam de como podiam ter a ilusão de estarem longe da cidade ou daqueles tempos loucos em que viviam especialmente se alguém passeasse de canoa no lago mas também porque aquela era a melhor chance que tinham pra se ver durante a semana e tinham pouco mais de uma hora ela acordando pra encarar um turno da noite na farmácia e ela de passagem entre um lado e outro da cidade entre um emprego e outro entre uma angústia e outra mas naquela tarde as duas mal olhavam a paisagem distraídas que estavam com seus celulares e o wi-fi da lanchonete até que uma delas pegou do bolso um pedaço de papel rabiscou alguma coisa e entregou à outra


VOCÊ SE LEMBRA DE COMO ERA CONHECER PESSOAS 
ANTES DOS CELULARES E DA INTERNET?


como eu não tinha ideia do quanto faltava pra quem via de fora até que estivesse completa a imagem o sentimento a ideia cuja realidade reunia aquelas frases todas que iam como locomotiva eu achava que você só conhecia uma parte e parecia que se eu parasse então a própria essência de quem eu era se dissolveria assim de repente como se a voz fosse a minha substância e aquele conjunto pobre de sons espalhados no tempo algo que realmente manifestasse a totalidade da minha existência


 

quarta-feira, 30 de setembro de 2020


 

choveu mas tinha sol, e era uma sexta-feira à tarde e eu estava apaixonado e ela disse que também estava, e a gente ficou se olhando com aquela cara de quem não acredita em tanta coincidência, e eu me lembrei do que vinha a seguir e foi quando passou o carro do sorvete, e um gato veio se enrolar em nossas pernas, e o ar da praça era ao mesmo tempo alaranjado e prateado e tinha umas pequenas flores amarelas e vermelhas, e à noite ia passar um filme bom e alguém riu alto e tinha um cheiro de terra molhada e brisa fresca e úmida e suave, e era tudo ao vivo, e ela deu um passou à frente e parecia que a existência inteira flutuava através dela e nela e só por ela, e que ela estava em tudo e que era tudo ela e ela e ela e


 

sábado, 26 de setembro de 2020


 

Estive tentando reunir alegria suficiente
Ou graça ou glória
Pra escrever um poema de amor quase místico
Sobre a grandeza de tuas paisagens, cidadezinha
E da tua gente silenciosa
E das tuas ruas aéreas
Tua praça iluminada pra festa
Fervendo de fome e de frutas na feira
Estive tentando encontrar minha calma e a terra
Sólida sob meus pés pra sondar as beiradas de teus abismos
E as profundezas de teus rios
Dos corações inundados que aqui vivem
Ou vêm pra despistar cansaços
Tua lua cheia ao alcance das mãos, as milhares de mãos
Erguidas em templos de adorações tão diversas
Porque eu te amei quanto pude
Mais muito

quinta-feira, 17 de setembro de 2020


 

teu castelinho de história vai ficar bonito com mais essa postagem. distorce informações pra elas caberem no alerta: “eles são a causa de todos os males do mundo”. só um pouquinho aqui, outro pouquinho ali, estica e puxa e faz parecer que temos que escolher entre uma tirania e outra, as nossas com certeza são as melhores. o fato é que ninguém se relaciona mais com os fatos. não só os que sonham alto os paraísos interiores, também os que rastejam pelas ruas suas camisetas e bandeiras viciadas em só isso. mas ei não pare agora o teu castelinho de história está ficando lindo com todo esse combate heroico aos mais novos sintomas de doenças que ah deixa pra lá. toda essa guerra entediante e teatral e sem avanço esse chove não molha uma bola de neve estamos andando em círculos e o melhor que temos pro nosso próximo ato é repetir algo de antes. e se quiséssemos realmente melhorar o mundo? sei lá, só perguntando.


 


 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020


 


 

Conheceram-se no caixa de um restaurante, depois descobriram que tinham ambos o resto da tarde livre, então por que não, o rapaz conhecia uns lugares interessantes pra visitar ali perto. Mas não conhecia ninguém na cidade: tanto quanto Joaquin, estava lá só de passagem. “Ninguém gosta de mim”, repetiu algumas vezes com os olhos baixos, e Joaquin via algo de sua própria tristeza refletida no rapaz. Naquela época, trabalhava como representante comercial, tentando vender sucos de frutas que não nasciam a menos de mil quilômetros das cidades onde ia. Passava muito tempo na estrada e muito pouco tempo em cada cidade – e também não conhecia ninguém naquela, mal lembrava seu nome. Também tinha a impressão, muitas vezes, de que ninguém gostava dele.

– Vezes até demais – confessou.

E quando contou essa história, demorou-se, nesse ponto, em alguma lembrança silenciosa, os olhos perdidos por um longo instante, sem revelar mais nada.

Ele se chamava Martim, disse, afinal. Estava hospedado em um albergue ali perto e parecia bastante chateado com alguma coisa que tinha acontecido lá, mas não dava pra entender direito, ele falava sem parar e às vezes eram coisas sem nenhum sentido, repetindo o refrão “Ninguém gosta de mim” muitas vezes, vezes até demais. Mostrou o nome do ex-namorado tatuado no braço, teve que abaixar um pouco a calça e a cueca pra mostrar a tatuagem de pequenas e delicadas flores ligadas por um fio. Disse várias vezes que achava o Joaquin lindo, lindo, lindo demais pra estar solteiro, acariciava o seu braço, uma vez ou outra tentou segurar sua mão.

– Mas eu não me importava com isso – disse Joaquin. – Acho que até aquele dia eu não tinha me dado conta do verdadeiro peso da minha solidão.

Martim. Eles andaram juntos a tarde inteira, depois acabaram em alguma lanchonete tomando o suco de uma fruta que só nascia naquela região e de que Joaquin nunca tinha ouvido falar. Foi com o rapaz até o portão do albergue, deixou-o lá, despediu-se, já estava outra vez andando em direção à rua. Martim se sentou em um banco encostado ao muro, debaixo de uma árvore, e parecia mergulhado em sombras quando Joaquin se virou pra trás pelo que pensou que fosse a última vez. O rapaz escrevia em um caderno pra depois procurar por ele no Facebook, em letras garrafais: JOAQUIN. Ninguém gosta de mim, estava dizendo ainda, ninguém gosta de mim, ninguém gosta, ninguém. Por que você está indo embora? O que foi que eu fiz?

– Aí nessa hora eu fui até ele – contou Joaquin, – segurei seu rosto entre as mãos e beijei... não, beijei não... mordi seu lábio inferior.

Fez uma pausa, durante a qual perguntei:

– Mas por que você fez isso, Joaquin?

E ele:

– Ah, sei lá, pô... Acho que... Todas as frutas.


 

quarta-feira, 2 de setembro de 2020


 


 

por que ainda estou ouvindo essa gente? quando olhei pro lado, alguém importante já não estava mais lá. houve um tempo em que era tão fácil a certeza de sentirmos amor, agora uma longa interminável tentativa de cura. nunca, jamais se permitir a falha imperdoável de não levar tudo tão a sério o tempo todo. nunca descansar numa ilusão qualquer de leveza, se é que é mesmo uma ilusão. por que ainda acredito em crenças que se adaptam aos interesses de uns poucos de acordo com as circunstâncias? o que eu tinha de melhor se perdia e ninguém se importava então eu me refiz, mas o que eu tinha de melhor se perdia e ninguém se importava então eu me refiz, mas o que eu tinha de melhor se perdia então eu me refiz, mas ninguém se importava e a uma certa altura eu já não tinha mais nem como acreditar que o problema era comigo. e onde você estaria se eu enxergasse no espelho o ser mais desprezível da face da terra? há coisas demais em mim que você não quer ver pra alguém que está parado propositalmente à minha frente. e se é pra ser esse bobo, o ingênuo, por ter feito a escolha de trilhar os caminhos do afeto, a maldade do mundo que você diz que combate, não é aí que ela nasce? ah porque é assim que são as coisas, não são, é você quem prefere, a poesia que está morta é só a dos sonhadores, apedrejada pelos corações que apodreceram, como é conveniente transformar os sentimentos em vaidade, fraqueza, estratégia, puro desejo, nada. por que ainda estão ouvindo essa gente? por que então é só essa gente que ainda fala?


(Diários de Machu Picchu #17)

sexta-feira, 28 de agosto de 2020


 


 


 

Pra quem só a lógica é uma abstração e uma armadura
Mostra-se a epiderme da existência
Numa nudez tão pouca que
Quase não pulsa

Ar que lhe falta
Imensidão de abismos submersos
Labirintos que assaltem a solidão da linha reta

Essa alma seca
Soando como mera matemática
Convencida de ser pedra então rasteja sendo alada

E para além de todos os delírios permitidos aprovados
Pétalas de joias com seus raios de estelares auras
Espalham-se num mar tão claro que
Ninguém repara

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

 

Era uma noite de muito vento e na Casa Velha ficava impossível dormir quando ventava daquele jeito à noite. Talvez por isso tantas pessoas tivessem enlouquecido ali, ao longo da tortuosa e ridiculamente comprida história de nossa família, e talvez por isso ela tenha ficado vazia por tantos anos antes que eu voltasse a morar lá, na vida adulta, muito mais por força das circunstâncias do que por vontade própria. Àquela altura, já estava em minhas mãos decidir o que fazer com ela, e se soubesse o que me custariam os anos que acabei ficando, com certeza teria me desfeito de tudo já naquela época – mas decidi lhe dar uma chance, e agora enfrentava as consequências da minha escolha conveniente e preguiçosa. Aquela noite de maio já seria triste o bastante sem o vendaval, porque a imagem de todas as coisas e pessoas que eu amava estava se dissolvendo em chuvas frias desde o início do outono, porque era um período obscuro na história do meu povo e milhares de pessoas morriam lá fora, porque naquela tarde eu tinha enterrado o último dos meus sonhos mais loucos e lá se iam dezenove anos que eu vivia sem mais ninguém na Casa Velha, ou talvez fossem trinta e cinco, ou cento e quarenta e quatro. Muitas vezes me perguntei se não teria me tornado só mais um dos fantasmas das histórias de meus avós, arrastando os pés pelos corredores intermináveis com as minhas mágoas e meus candelabros; às vezes, se me demorava, por exemplo, em uma das cadeiras do jardim de inverno, tinha a impressão de que já começava a fazer parte dela, de que não havia mais nenhuma diferença entre mim e qualquer outro móvel da casa; quase sempre me perdia na passagem do tempo, e me parecia que tinha acabado de fazer coisas que havia feito semanas ou até meses antes, ou podia achar que alguma coisa que eu tinha acabado de fazer, tinha feito anos atrás. Não sei o que me desprendeu da Casa Velha, afinal, de maneira tão definitiva, como uma força centrífuga, me arremessando para muito longe – alguma coisa que gritava, alucinada, no vento daquela noite de maio?, alguma coisa sangrava e rasgava em meu peito os últimos farrapos que de mim haviam restado, e aquilo queimava e era alívio, ardia como lava ardendo sob o fogo de um milhão de sóis e ao mesmo tempo era um bálsamo, uma surpresa tão única, tão grandiosa, como se só então o ar tivesse começado a existir e aquela fosse apenas a primeira vez que eu respirasse.

 

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020


(Diários de Machu Picchu #31)
Porque esse farol constante entre os olhos, percepção de que eu sou eu e de que sou assim, sempre um fluxo de palavras e de sensações, coisas sem nome.

Deus me deu duas mãos para semear e construir moradas, pés de ir adiante,
Deus me deu uma razão para compreender e calcular verdades, Deus me fez bicho
E senhor do meu desejo, do meu gesto e minha direção.

Quando também há um só fechar os olhos e deixar-se ir fundo na noite, o temperar pulsante do sono e do sonho, Deus me deu o delírio, tanto um esvoaçar de nuvem quanto o silêncio quente em corações de rochas, trevas da morte e uma porção de pólen, barco intergaláctico.

E apesar de mentiras em papéis timbrados, câmeras de segurança e muros erguidos sobre linhas imaginárias, toda a Terra me foi dada para eu andar por onde bem quiser, colher os frutos e beber das fontes, reconhecer pelo caminho os meus irmãos e irmãs, assistir maravilhado ao poente.

Sim, o céu também me pertence, e cada uma das estrelas sobre o mar, e mais
O mar é meu, e anêmonas e peixes, cores de corais, e ainda as árvores são minhas,
Do espinho à pétala, pois ter nascido é ter tomado posse, é ter colocado na cabeça a coroa.

Procure em vão no universo ou nos séculos o mais vago vestígio de uma prova em contrário.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

De que forma é o não? Como foi
A sua experiência com o não?

Estive em lugares onde as pessoas andavam com os corpos retorcidos, gestos interrompidos ou arrastados e as vozes trêmulas de tanto não pesando sobre elas.

Onde cabe o não? Com o que,
Exatamente, se parece o não?

Às vezes, quando explodia alguma vida por perto, ou se uma paixão vibrasse em todo o ar em volta delas, encolhiam-se, puxando sobre si as montanhas de não que nunca existiram e ficavam assim, imóveis, como que soterradas em nada.

Cadê, então, o não? Me mostra
Do que é feito esse não que você tanto fala?

E quando a agitação terminava, e a poeira ia caindo de novo através daquelas tantas camadas de não que lá nunca estiveram, retornavam às suas rotinas, obcecadas por controle e por um punhado de tradições já sem sentido, reencenando o velho e sempre o mesmo vazio de verdades, apáticas e só meio vivas, deformadas dentro de um abraço inventado.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

vem essa tempestade e lava
ainda correm os rios espelhando cidades e matas e
raios noturnos
ainda bradam os mares contra as rochas
vem essa água
e leva

algas e peixes e sede
vem essa tempestade e lembra
lágrimas de amor e raiva
suor

lambe essa tempestade aqui fora
ainda tombam cascatas ainda repousam lagos
ainda verte da terra e do céu sem que se saiba por
onde
começa

água
sobre as feridas sobre as calçadas
águas
passadas sobre os gramados e sobre os
telhados e asas
a tempestade ainda se arma
ainda
desaba

sexta-feira, 24 de julho de 2020

prece

por só mais um encontro casual com a sua urgência

a sua
IRRESPONSABILIDADE
a sua
INCONSEQUÊNCIA

morarei na sua memória só mais um instante, serei
abrigo ainda que os mesmos vidros que você estilhaça
sonharei nos seus sentidos, beberei
do seu sorriso o líquido suave e quente da alegria e graça
ainda que o mesmo bobo de que você tanto ri

SEUS OLHOS VOLTADOS PRA MIM
PRA MAIS UMA FOTGRAFIA

só mais um dia do seu amanhã-nós-vemos
mergulharei
na eternidade do seu agora
entre os braços entre as pernas entre
em glória

quarta-feira, 15 de julho de 2020

No princípio era um som eu só gostei de como soavam as três palavras juntas
Fragilidade
Frustração
Fracasso
Mas imagine isso na parede em vez daqueles quadros com diplomas e fotografias familiares
Nas salas de visitas
Meu deus as crianças não podem ver essas coisas
Cadê a redenção da arte
Pensei em construir um quarto triste um labirinto de nanquim ou duas lágrimas de arame
Ciclones
Em céus de
Celofane
E o silêncio segue sendo as sombras sobre a folha em branco assim sem brincadeira

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Viajei sozinho pelo Nordeste por mais de um mês depois de ter conhecido Eva em João Pessoa. Daquela vez, tínhamos conversado muito pouco; havia sempre algum outro homem por perto investindo em uma relação mais íntima com ela – e embora ela não desse mostras de ter se envolvido, de fato, com nenhum deles, também não fazia nada pra que eles se afastassem. Nem chegamos a trocar celulares ou contatos no Facebook, daquela vez; mal nos despedimos antes de seguirmos cada qual o seu roteiro, mochilando no litoral nordestino. Agora eu estava em Barreirinhas, no Maranhão; tinha acabado de me informar sobre como chegar aos Lençóis e fui tomar um suco em uma padaria. Poucos minutos depois de eu ter chegado, Eva entrou, sozinha, e imediatamente olhou em minha direção.

Rever um rosto conhecido quando se está fazendo uma viagem longa como as nossas é sempre emocionante. Por mais superficial que tivesse sido nosso contato um mês antes, caímos nos braços um do outro e desatamos a conversar como velhos amigos que se reencontram cheios de novidades. Eva pediu uma cerveja e eu passei a acompanhá-la assim que terminei meu suco, e já estávamos na metade da segunda garrafa quando ela se sentiu à vontade pra dizer:

– Tenho que confessar que fiquei aliviada por você não ter dito nada do tipo “Eu não acredito em coincidências” ou “Nada acontece por acaso” quando a gente se encontrou...

Sorri. Não era a primeira vez que o meu percurso coincidia em mais de um ponto com o de outro mochileiro e, a julgar pelo comentário, o mesmo já devia ter acontecido a ela. Mas não podia deixar passar um tema de conversa tão interessante sem ser absolutamente sincero:

– Quando eu tinha uns dezessete anos, – falei – entrei em um caminho pro qual eu não estava preparado. Aconteceram umas coincidências muito estranhas na época, envolvendo sonhos e cartas psicografadas, e logo em seguida eu li um livro chamado A Profecia Celestina, que fala das coincidências de uma perspectiva mística. Mas eu tive que parar com aquelas coisas, não estavam me fazendo bem... Só depois de muitos anos voltei a dar alguma atenção a esse assunto. A verdade é que quanto mais você presta atenção às coincidências, mais elas acontecem. Em níveis cada vez mais profundos, e incluindo eventos que poderiam ser chamados de telepatia, precognição, clarividência... Pra mim, são eventos perfeitamente normais, mas entendo o ceticismo em torno disso.

Ela me encarava em silêncio, com um traço indisfarçável de desagrado no olhar. Era justamente por causa daquilo que eu não costumava, mesmo, dizer coisas do tipo “Nada acontece por acaso”. Como eu tinha acabado de falar, entendia o ceticismo em torno do assunto, e nunca tive vocação pra ser um pregador. Daquela vez, no entanto, o acaso tinha sido realmente generoso, e tudo o que precisei fazer foi tirar da mochila o livro que eu estava lendo.

– Abre aí na página marcada – falei, entregando o livro a ela.

Ela abriu.




Bem rápido, jogou o livro na mesa de forma um pouco teatral, mas sua expressão agora misturava raiva com divertimento.

– Eu não acredito nisso – falou.

Divertido, também, dei de ombros.

sábado, 4 de julho de 2020

Luzalegre, 25 de julho de 2012

Ruth;

minha querida, para as nossas bodas, te preparei um poema, mas queria mais que ele soasse como a minha voz ao teu ouvido, numa tarde ensolarada de domingo, passeando à beira de um lago. Com alguma brisa. Ao longo de todos esses anos, dia após dia repetimos “eu te amo”, sempre tão seguros de que aquilo que sentimos seja amor, nunca nos fez falta explicar nada disso a nós mesmos, e apesar de que nos amamos já de tantas formas diferentes, mesmo agora não existe outra verdade ou por que falar de outro jeito se não “eu te amo”.

Eu. Menino da primeira vez que te encontrei, crescendo enquanto você caminhava em minha direção no altar, vivendo, te vendo, vivendo e envelhecendo e ainda assim menino toda vez que te encontro, sei, por ter estado ao teu lado em cada ciclo de lua que passou, encontro na tua voz, no olhar, no gesto, reconheço no ir e vir das tuas marés, máscaras e lentes e palavras demais para um dia a dia vazio ou para o que é indizível, percebo o teu amor, recebo o teu amor, sou teu, sou grato, é como se a única realidade comprovável fosse mágica.

Te amo nas manhãs mais cinzas, nas semanas agitadas de muito trabalho, no vermelho do outono, no verso e na melodia, naquele tempo que você botou na cabeça que ia ser artista plástica e nós vendemos a brasília e transformamos a garagem em ateliê, nos nossos filhos, às vezes quando te odeio e sempre que estamos muito quietos distraídos ou maravilhados olhando uma paisagem, sinto um vulcão de sentimentos e sentidos, desejo despertando o corpo todo ou pétala de algum perfume que embriague, então o coração também tem personagens, então também a alma dos santos é uma legião de luzes e de sombras, é sempre novo o sopro que me move, e de toda vez eu me devolvo inteiro para o teu abraço.

Outro dia me ocorreu, é possível que eu tenha mais lembranças de nós dois juntos que de mim sozinho. E isso me pareceu grandioso e admirável, algo que poderíamos gravar em uma placa de bronze. Se era esse o livro da minha vida, se é assim que acaba, então aceito, sim, e pode até deixar que eu mesmo conto. Nenhum outro final faria mais justiça a esse ser feliz para sempre, desde aqui, para qualquer dos lados que se vá no tempo.