quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Escuridão completa. Ar que faltava. Era quase impossível se mover ali: estava embaixo da terra. Debateu-se o quanto pode, tentou abrir caminho através da terra que pesava sobre seu corpo – em vão. Estava em desespero e não podia mais respirar, tentou gritar, mas isso serviu apenas para que entrasse ainda mais terra em sua boca. Era o fim, o oxigênio tinha acabado. Seu coração em breve pararia de bater.

Demorou um pouco para entender quando simplesmente desapareceu dali e ressurgiu em um espaço aberto. Seus olhos, ainda recuperando a visão, custaram a entender o chão de pedras soltas e as altas paredes escuras de um buraco muito fundo. Uma espécie de poço que havia secado, mas bem mais largo que o comum. As pedras do tamanho de punhos sobre as quais estava tinham, quase todas, alguma mancha de sangue. E em sua boca, também: sentia gosto de sangue.

Não conseguia se lembrar direito de nada que vivera antes, mas quando apalpou o próprio corpo e encontrou um pequeno aparelho em um dos bolsos do casaco, soube imediatamente que era um aparelho de trocar mensagens e que sempre o havia carregado consigo. Num impulso, começou a escrever com urgência: “Não entendo o que houve. Estou com medo.” A mensagem permaneceu ali pelo que pareceram várias horas antes que a resposta viesse, simples, mas profundamente reconfortante: “Nós te amamos”.

Inspirou profundamente, sentindo seu corpo e seu espírito se encherem outra vez de confiança – e, neste exato momento, vinda não se sabe de onde, uma pedra acertou em cheio a sua nuca, ofuscando outra vez a sua visão e roubando-lhe o equilíbrio por alguns instantes.

Quando se recobrou, percebeu que havia se teletransportado uma vez mais. Estava agora em um antigo parque de diversões abandonado, com barracas e brinquedos enferrujados e retorcidos sendo já engolidos por uma vegetação muito alta. No entanto, estava escuro demais, mal se conseguia distinguir todas essas coisas. E logo se deu conta, com uma pontada de apreensão, que a vegetação farfalhava, a cada pouco, como se um bicho grande se movesse por ali.

– Isso sim é que é saúde! – disse uma voz forte, acompanhada por uma animada música de fundo, em uma televisão que simplesmente se ligou sozinha a uns poucos metros dali. Era um programa de ginástica, aparentemente, com homens e mulheres de corpos esculturais, sorrisos de plástico e belezas previsíveis. – Observem essas formas perfeitas – dizia o apresentador. – Vejam que curvas mais maravilhosas! Que deliciosos esses peitos, você não tem vontade de comer aquelas coxas?

Conforme o apresentador falava, os homens e mulheres que até então repetiam os gestos de algum exercício aeróbico iam pouco a pouco se despindo e se aproximando uns dos outros, em uma dança sensual que lentamente foi se transformando em uma grande orgia, sempre sob a narração animada do homem que ressaltava a perfeição e atração irresistíveis daqueles corpos e movimentos.

Então a TV foi desligada, sobrando apenas um sussurro de centenas de bocas espalhadas pelo parque dizendo coisas incompreensíveis. Demorou para que seus olhos voltassem a se adaptar ao escuro e começassem a perceber os vultos, os pares de olhos vermelhos e brilhantes voltados em sua direção. “Não sobrará nada”, era o que diziam – e iam falando cada vez mais alto, até que, de repente, algo muito grande se destacou em meio à vegetação e começou a avançar rápido em sua direção.

No instante seguinte, estava em uma sala dourada e muito movimentada que era a recepção de algum grande edifício, diante de um balcão sobre o qual um pequeno cachorro latia à sua chegada, enquanto uma mulher de roupas e maquiagem a um mesmo tempo formais e vulgares, de trás do balcão, tentava acalmar o cãozinho com carinhos e sussurros e biscoitos. Na parede às costas dela, em letras douradas e muito grandes, lia-se: ESTAMOS CRESCENDO ECONOMICAMENTE. À esquerda do balcão, uma grande porta fechada por onde ninguém entrava nem saía; e à direita, uma pequena porta por onde entravam e saíam pessoas o tempo todo, identificada pela legenda: “Entrada dos trabalhadores”. Ao lado da porta, em letras minúsculas, havia um cartaz dizendo: “Se você entrar descalço, estará colocando em risco a própria vida e a de outras pessoas”.

Reparou, então, nos pés das pessoas que circulavam por ali e constatou, para sua surpresa, que a maioria delas entrava e saía descalça por aquela porta.

– Por que vocês estão fazendo isso? – perguntou bem alto aos que passavam. E, apontando para o cartaz: – Vocês não estão vendo o que está escrito ali?

Quase ninguém pareceu escutar; somente duas ou três pessoas pararam e um único homem ficou parado por tempo o suficiente para responder:

– Bem, nós precisamos trabalhar para comprar sapatos.

E tudo continuou exatamente como antes.

Aproximou-se, então, do balcão e perguntou à recepcionista se não era possível fazer nada para reduzir aquele risco, ou se, no mínimo, não era possível oferecer sapatos aos trabalhadores.

– Ah, aquilo ali... – desdenhou a recepcionista. – É invenção da mídia alarmista, não tem nada acontecendo de verdade.

Mas naquele instante, quatro pessoas descalças saíram cambaleando pela porta pequena e tombaram, visivelmente mortas, ali mesmo no saguão de entrada.

Sem se conformar, exigiu, então, uma audiência com os responsáveis por aquilo – o que só fez deixar o cachorrinho sobre o balcão cada vez mais agitado. E foi essa, aliás, a única inquietação que mereceu alguma atenção por parte da recepcionista.

– Calma, Governo, não precisa ficar bravo – repetia, acariciando-lhe a cabeça. E depois, toda sorridente, explicou: – É o cachorrinho deles, sabe? Não é uma gracinha? Mas ciumento demais, coitadinho, não deixa ninguém chegar perto dos papaizinhos dele, né, meu amorzinho? Os Senhores da Vida na Terra não podem receber ninguém, neste momento, é óbvio. Você não sabe ler? – disse, apontando para a frase em letras imensas na parede às suas costas.

Viu-se então em uma espécie de açougue ou abatedouro, com corpos humanos esquartejados ou ensanguentados pendurados por todos os cantos, enquanto uma voz macabra, grave e muito baixa, repetia lentamente: “Observem essas formas perfeitas... Vejam que curvas mais maravilhosas...”

E, finalmente, vindo de lugar nenhum, um ser encapuzado e imenso saltou, de repente, à sua frente, pousando garras afiadas bem no centro do seu peito.

– Não sobrará nada de você! – urrou.

Tombou para trás com o susto e com o impacto de algo que aparentemente acabara de se desprender do seu corpo, exatamente a partir daquele ponto que havia sido tocado. Sentiu as pedras ao cair, percebeu a escuridão à sua volta e soube que estava de volta ao mesmo buraco de antes. Tentou se concentrar em entender o que havia se desprendido, o que era aquilo que continuava sentindo para além de si, mas era uma sensação confusa, totalmente inexplicável. Não sabia dizer onde acabava o seu corpo e começava aquela enorme figura luminosa que se espalhava, leve e fluida, à sua frente. “Alma”, pensou, e lhe pareceu então que tudo no mundo se encheu de serenidade e de sentido, que tudo era uma coisa só e que só o que existia de verdade era o Amor.

Quando a figura desapareceu, restava apenas o céu estrelado, lá no alto, recortado pelas bordas sombrias daquele buraco. Mas tudo era paz, tudo era de uma beleza interminável. “A vida é boa”, sussurrou, talvez até com um sorriso nos lábios.

Não demorou para as pedras começarem a chover. De qualquer forma, não teve tempo de entender que era uma chuva: logo as pedradas apagaram o que ainda lhe restava de consciência.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

O que havia de mais estranho naquele buraco que lhe serviu de prisão por tanto tempo era que suas paredes não eram feitas de pedras, nem de terra, nem de nada sólido o suficiente para que se pudesse escalar: eram paredes feitas simplesmente de trevas. Algumas vezes tinha tentado avançar dentro delas, mas era como se se movesse em uma piscina cheia de um líquido muito denso, e invariavelmente acabava caindo de volta para dentro do buraco.

Outra característica que logo se tornou evidente era que toda vez que tentava invocar a Alma, ou se lhe ocorressem sentimentos positivos e muito intensos, especialmente de amor-próprio (ou mesmo uma simples alegria), pedras eram arremessadas das direções mais improváveis para lhe atingir, geralmente até a inconsciência.

E, por fim: havia pouco tempo, tinha começado a receber a visita dos Abutres.

Todos os dias, a uma certa hora da tarde, seus braços e pernas eram amarrados nas extremidades de uma espécie de mesa de pedra e os Abutres conversavam, animados, à sua volta, no que para eles era um delicioso e interminável banquete.

– Vocês acham que um serzinho tão insignificante – perguntavam uns aos outros – merece o mais vago lampejo, que seja, de uma sensação de liberdade?

Então gargalhavam e respondiam-se “não”, “nunca”, “jamais”, e depois lhe arrancavam alguma parte do corpo com seus grandes e afiados bicos.

A dor era insuportável e durava um longo tempo até que, de repente, a parte do corpo que tinha sido arrancada voltava a crescer - o que, por um lado, era bom e provocava um certo alívio, mas por outro, significava apenas mais comida para os Abutres.

“Não sei se algum dia isso vai parar”, escreveu, certa vez, no pequeno aparelho de trocar mensagens que carregava sempre em seu bolso. “Não sei se eu consigo aguentar: a dor e a solidão são insuportáveis. Não há nada de bom nessa existência estúpida, nada neste mundo foi feito para mim. Será que alguém se importa de verdade? Será que vocês estão aí, realmente, ouvindo?” E a resposta vinha, sempre e invariavelmente dizendo: “Nós te amamos.”

– Vocês acham – perguntavam-se os Abutres – que um pequeno verme como este, vitimista e nada autêntico, um animalzinho sujo e repugnante assim poderia algum dia conhecer verdadeiramente o amor?

E os outros riam e diziam “não”, “nunca”, “jamais”, e arrancavam-lhe outra parte do corpo.

Numa dessas ocasiões, no mesmo instante em que o bico de um Abutre perfurou sua carne, desapareceu dali e reapareceu em um cubículo tão apertado que mais parecia um caixão colocado na vertical – mas com uma tampa de vidro que lhe permitia ver, muito ao longe, um bebê deitado no chão, iluminado por um pequeno feixe de luz, agitando os braços e as pernas.

Não fosse isso prendendo a sua atenção, talvez entrasse em desespero. Mas logo o bebê se revirou e começou a engatinhar em sua direção, incrivelmente devagar, crescendo na exata velocidade em que se aproximava. E então reconheceu seus próprios traços no rosto do bebê, e foi assistindo ao que era claramente o seu próprio crescimento: primeiro, deixou de engatinhar para se equilibrar sobre as duas pernas; depois avançou sem nenhuma pressa por toda a infância até chegar à puberdade; então, passou a adolescência se distraindo e vagando em várias direções aleatórias; até que finalmente chegou à idade adulta e voltou a levar mais tempo andando em linha reta, rumo ao que pelo visto era o seu túmulo final, mas sem nunca deixar de experimentar outras direções até chegar à velhice. E mesmo quando passou a se apoiar em uma bengala, ou quando seus ombros e costas encurvaram e os passos foram ficando cada vez mais arrastados e curtos, ainda se desviava, às vezes, perseguindo qualquer outra coisa diferente de apenas seguir em frente.

– Vocês acham – ouviu um Abutre perguntar – que é correto uma pessoa dessa idade se comportar dessa maneira?

“Não”, “nunca”, “jamais”, responderam os outros, às gargalhadas, e lhe arrancaram outra parte do corpo.

– Vocês acham que um homem de verdade – começou a perguntar um deles, mas então todos se calaram de repente, subitamente incertos.

– Uma mulher, talvez...? – arriscou outro.

Começaram a discutir, expressando as mais variadas opiniões e sem conseguirem chegar a uma conclusão satisfatória, até que um deles perguntou bem alto e com raiva:

– Vocês acham que uma criatura tem o direito de não ser claramente macho ou fêmea?

“Não”, “nunca”, “jamais”, responderam os outros, cheios de nojo e indignação, e atacaram todos juntos até lhe despedaçarem completamente o corpo.

Reapareceu, então, diante de um grande prédio onde sabia, de alguma forma, que se encontravam os Senhores da Vida na Terra. Em frente ao prédio, soldados fortemente armados defendiam a entrada e, diante deles, havia essa figura que mais parecia uma pequena montanha de medalhinhas reluzentes e tiritantes.

– Estamos crescendo economicamente! – bradava. – Nada é mais importante do que isso, nada pode nos atrapalhar agora! Portanto, atenção, soldados! Esmaguem até os menores focos de rebeldia e insubordinação!

Ao que todos os outros respondiam em coro:

– Sim, senhor, General. Sim, senhor.

– Como é que a gente lida com os problemas? – gritou o General.

– Tiro, porrada e bomba! – cantaram os soldados, repetindo várias vezes o refrão e parecendo, por um instante, que estavam em uma grande festa.

Das janelas do prédio, cadáveres eram arremessados a todo momento, num espetáculo de horror tão doloroso quanto ter seu próprio corpo constantemente dilacerado. Sem a menor sombra de medo, aproximou-se do General para pedir que aquilo parasse, ou que ele ao menos lhe permitisse falar com os Senhores da Vida na Terra para apresentar seus argumentos. Quando se aproximava, ouviu o General se gabando de suas medalhas para um dos soldados, que ouvia fascinado, como se estivesse sendo agraciado pela presença de um deus:

– Esta aqui foi por não ter assediado uma jovem qualquer que eu encontrei na rua. Esta outra, por ter inventado a missão onde eu ganhei esta outra, e esta aqui foi quando eu aprendi a abrir uma lata de sardinha. Esta aqui...

Nunca soube como aquilo terminava, se terminava, porque no instante seguinte estava de volta à sua prisão no buraco. Os Abutres não estavam mais lá, mas não havia a menor garantia de que não retornariam em breve. Deitou-se, ajeitando-se como pode sobre as pedras, para quem sabe alguns minutos de um sono restaurador - se tivesse sorte. E isso se ter sorte demais não fosse lhe render também umas pedradas.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Sonhou que estava caminhando havia muitos anos sem encontrar ninguém quando se deparou com um grande buraco no chão no qual uma pessoa suja e ferida jazia de bruços. Calculou a profundidade do buraco e se deu conta, primeiro, de que a pessoa não conseguia subir sozinha e, segundo, olhando bem à sua volta, de que não havia nada por perto que pudesse servir para ajudar a tirá-la de lá. Sentou-se, portanto, à borda do buraco e começou a gritar para acordá-la – e foi então que acordou com os seus próprios gritos.

Estava de bruços sobre um chão de pedras soltas e sentia o corpo todo dolorido. Percebeu que as pedras tinham o tamanho de punhos e que em quase todas havia alguma mancha de sangue. Virou-se, a muito custo, e logo compreendeu que era justamente a pessoa que tinha acabado de ver em seu sonho, dormindo no fundo de um buraco. Olhou para o alto, para a borda em que havia se sentado e, quase sem surpresa, descobriu que ainda estava lá, exatamente na mesma posição de minutos antes.

– Só você pode se ajudar – disse a versão de si que estava lá em cima.

Piscou. Sua cabeça latejava. A frase parecia não se acomodar direito dentro de nenhuma lógica.

Quando abriu os olhos outra vez, estava em uma cela escura de pedras, com não mais de um metro quadrado e sendo uma das paredes de vidro, com muito espaço dali para fora. E exatamente ali, do outro lado do vidro, acenando em sua direção, estavam três pessoas, duas delas crianças, parecendo uma família incompleta. A sua família, talvez. Mas não pareciam tristes, preocupadas, nem mesmo muito amorosas em seus gestos. Pelo contrário: pareciam até estar se divertindo.

Não durou muito tempo. No instante seguinte, aquelas pessoas foram embora e deram lugar a outras, completos desconhecidos que passavam, acenavam em sua direção, divertiam-se por alguns minutos e depois iam embora outra vez, até que chegassem os próximos. Tentou gritar, bater com força no vidro para ver se conseguia quebrá-lo, mas ele sequer se moveu, nem houve ninguém do outro lado que parecesse se importar com os seus gritos. Teve até a impressão de que as pessoas se divertiam ainda mais diante do seu desespero.

Viu-se outra vez no mesmo buraco em que estava antes, com a diferença agora de que o seu “outro eu” já não estava mais no alto, mas ali mesmo, ao seu lado – e já não era um só, senão dois “outros eus”. Um deles permanecia imóvel e em silêncio, observando atentamente todos os seus gestos, enquanto o outro acabava de abrir um livro mais alto que uma pessoa, começando a ler logo em seguida:

– “Não aceitar favores de estranhos” – disse, apontando para o alto da primeira página. E depois, correndo o indicador ao longo da folha, conforme ia lendo: – “Dizer ‘por favor’ e ‘obrigado’”. “Ser gentil”. “Não tentar dar um passo maior do que a perna”.

Não interrompeu a leitura nem por um segundo, o que durou várias horas naquele mesmo tom de voz monótono e sem expressão, até que chegou à última linha. Então, virou a página, pousou o indicador no alto da folha e recomeçou:

– “Não falar mal pelas costas”. “Não trair”. “Não abandonar”. “Lavar a louça logo depois de sujá-la”. “Praticar esportes”. “Escovar os dentes pelo menos três vezes ao dia”.

Ficar ouvindo aquilo era terrivelmente entediante – exceto quando se tratava de alguma regra desobedecida desde há tempos ou sempre, aí então sua impressão variava entre combinações de irritação e culpa. Por sorte, lembrou-se de que guardava no bolso um pequeno aparelho de trocar mensagens e decidiu tirá-lo de lá para se distrair um pouco. “Estou me sentindo uma pessoa horrível”, escreveu, e a resposta veio rápida, simples e certeira: “Nós te amamos”. Saboreou as palavras por instantes, enquanto a ladainha das regras continuava e um olhar silencioso ainda pesava sobre todas as suas reações. Ergueu o aparelho e escreveu de novo: “Mesmo que eu seja incapaz de seguir todas as regras?” A resposta, desta vez, demorou um pouco mais, mas quando veio, trouxe-lhe até mais coforto do que da primeira vez: “Nós te amamos”.

Quando olhou ao redor, estava em um grande pátio entre milhares de pessoas que pareciam revoltadas ao mesmo tempo em que esperavam por algo, conversando entre si com a voz grave, baixa e entre dentes. Um pouco depois, um homem muito bem vestido começou a se destacar logo adiante, subindo em alguma espécie de púlpito que não se podia ver desde ali, e na mesma hora o burburinho à sua volta começou a diminuir, e foi diminuindo até desaparecer por completo. Quando o silêncio se fez, o homem falou em alto e bom som:

– Estou aqui representando os Senhores da Vida na Terra e trago uma ótima notícia: Estamos crescendo economicamente!

A audiência toda explodiu em resmungos e gemidos de reprovação, até que alguém gritou bem alto:

– Quem está crescendo?! Somos nós que estamos trabalhando por isso todos os dias, e é como se essas palavras não tivessem nada a ver com ninguém aqui.

– Não sejam ingratos – vociferou o homem no palanque, com um tom de absoluto desprezo em sua voz. – Trabalhem. Não é hora de duvidar. Estamos quase chegando lá!

– ONDE? – gritaram várias pessoas, mas o homem já tinha desaparecido outra vez.

“Agradeça por ter um trabalho”, foi a primeira regra que ouviu quando se deu conta de que estava de volta ao mesmo buraco de sempre. Mas não ficou ali por muito mais tempo, dessa vez: num piscar de olhos, regressou à pequena cela de onde via desconhecidos passarem e acenarem em sua direção.

Já estava entrando em desespero quando se deu conta de algo tão óbvio que até se envergonhou por não ter percebido antes: ninguém nunca havia lhe acenado ali, nem uma única vez. Todos acenavam a si mesmos, refletidos no vidro – e apenas dali, de dentro da cela escura, o vidro ficava completamente transparente.

“Não se envaideça”, foi a próxima regra que ouviu, voltando ao buraco, “ninguém está prestando atenção em você”. À sua volta, não havia mais somente dois daqueles “outros eus”, mas quatro. Os dois primeiros continuavam exatamente como antes – lendo e observando em silêncio – e os recém-chegados estavam olhando curiosos em direções opostas: um, para cima, outro, para baixo.

– A única maneira de alguém gostar de você – disse aquele que até então apenas observava em silêncio – é simplesmente não sendo você.

– Eu morri! – gritou, de repente, a versão recém-chegada que ficava olhando para baixo. – Meu corpo está enterrado embaixo dessas pedras. Preciso tirá-las daqui! Preciso recuperar o meu corpo!

– Sim, faça isso! – disse a versão que olhava para o alto. – Vá jogando umas pedras para cá, vou empilhá-las até chegar lá em cima.

Então, pela primeira vez em muito mais tempo do que era capaz de se lembrar, sentiu uma pontada de esperança – o suficiente para relaxar a expressão do seu rosto e acender um brilho nos olhos. E imediatamente começou a receber as pedradas. Várias, por todo o corpo, pedras do tamanho de um punho arremessadas com força, não se sabia de onde, por quem, até quando.

“Não se envaideça”, leu a versão de si no grande livro, “todos estão reparando em você, o tempo inteiro, atentamente”.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Sentiu a brisa tocar seu rosto, inspirou profundamente. Estava em um vasto planalto, mal conseguia enxergar até onde ele ia, não importava para que lado olhasse. Um chão de terra batida, bastante pedregoso e sem nenhuma vegetação, exceto, aqui e ali, por alguns arbustos e pequenas árvores de galhos secos e retorcidos. Ou talvez lá, muito ao longe, houvesse algum tom de verde... Era difícil dizer com certeza, olhando dali.

– Você não precisa se preocupar – disse, de repente, uma mulher que surgiu ao seu lado, translúcida como um fantasma ou uma holografia, – já sabemos do que você gosta. Com nosso serviço de streaming, você terá acesso ao que de melhor está sendo produzido em arte no mundo atualmente. É muito mais conteúdo do que você terá tempo para consumir. Mas você não pode ficar sem, uma vez que...

Parou de prestar atenção, mas a mulher continuou lá, falando sem parar, obviamente sem ter o menor conhecimento de sua presença ali. Tentou encontrar alguma coisa – qualquer coisa – que pudesse usar como justificativa para escolher uma direção a seguir, mas não havia absolutamente nada que se destacasse na paisagem. A própria brisa parecia vir de várias direções diferentes e aleatórias. O sol – se houvesse algum por trás daquele manto cinza que se estendia em todo o céu – poderia estar em qualquer lugar. “Toda escolha que eu fizer será arbitrária”, pensou, como se não fosse igualmente arbitrário estabelecer qualquer referência para justificar uma direção a seguir.

– Todas as pessoas inteligentes estão usando camisetas com as nossas frases inteligentes – falou um rapaz translúcido que também apareceu subitamente ao seu lado, enquanto a outra mulher ainda continuava lá, falando e falando. – Qualquer pessoa que queira ser respeitada usará uma das nossas roupas feitas com as mais exclusivas palavras que todo mundo espera ouvir. Amarre você também em sua cabeça uma das nossas melhores ideias se quiser que alguém dê algum valor para você.

Então estava em um vasto salão dourado que – soube imediatamente – servia de antessala ao lugar onde se encontravam os Senhores da Vida na Terra. Longe, incrivelmente longe, havia uma única porta que levava para fora dali – e, sobre ela, piscando em enormes letras de luz vermelha, os dizeres: ESTAMOS CRESCENDO ECONOMICAMENTE. Não havia mais ninguém por perto. Só quando se moveu para andar em direção à porta foi que se deu conta da grossa camada de sangue já quase seco sob seus pés, o que deixava o chão ligeiramente escorregadio. Avançou com cuidado, uma travessia que durou longas e silenciosas horas – e ainda não havia ninguém por perto, nada, somente as letras vermelhas piscando sobre uma porta desproporcionalmente pequena.

Só quando se aproximou foi que pode constatar que na porta não havia trinco ou fechadura. Tentou empurrá-la, movê-la em qualquer sentido, sempre inutilmente. Então decidiu bater à porta e esperar. E esperou. E esperou, depois bateu outra vez à porta e esperou mais um pouco e então começou a bater com mais força e com mais insistência, até que por fim passou a esmurrar e chutar a porta com todas as suas forças.

– Você possui alguma herança, por acaso? – perguntou um homem parado a alguns metros às suas costas. Mas antes que pudesse responder, o homem desapareceu e reapareceu vários passos adiante com outras perguntas: – Tirou a sorte grande? Alguém te chamou aqui? – Desapareceu de novo e ressurgiu quase ao seu lado, apontou para o chão e perguntou: – Alguma vez você derramou uma só gota do sangue de um trabalhador?

Ia responder, mas só então se deu conta de que o sangue vinha escorrendo pelas paredes a partir do letreiro luminoso sobre a porta, e no instante seguinte estava outra vez no mesmo lugar de antes, no planalto, agora no meio de umas dez ou doze pessoas translúcidas que falavam sem parar.

“É uma explosão de sabores na sua boca”, dizia uma delas, “você precisa provar”. E outra: “O melhor lugar da cidade para passear e comprar aquilo que está procurando”. E outra, ainda: “Todos os nossos cursos são preparados por renomados profissionais de cada área”, e várias vozes iam se confundindo ao comentar sobre mensalidades acessíveis, anuidades quase gratuitas, quantidades de parcelas, formas de pagamento – o número de pessoas translúcidas era cada vez maior e o barulho estava se tornando insuportável.

Tirou do bolso o pequeno aparelho de trocar mensagens que sempre carregava consigo, mas que vinha usando cada vez menos nos últimos tempos. “Estou livre”, escreveu, e em poucos segundos apareceu a resposta, a mesma resposta de sempre, a que dizia apenas: “Nós te amamos”. “Alguém está vindo?”, perguntou, por fim, e dessa vez não houve resposta por um longo tempo, até que apareceu, igual a todas as outras: “Nós te amamos”.

À sua volta, agora, havia centenas de pessoas translúcidas, talvez milhares. Estava prestes a começar a andar quando todas elas disseram em sincronia: “É só baixar o nosso aplicativo” – e, a partir daí, terminaram a frase cada uma à sua maneira. Parou, por um instante, chegou a pensar que alguma coisa importante viria a partir daí. Mas era só isso mesmo. Achou engraçado, respirou fundo e começou sua caminhada em direção a qualquer lugar.

Para sua tristeza, constatou que as pessoas translúcidas também se moviam para acompanhar a sua caminhada. E, no entanto, não tinha dúvidas de que andar era a sua melhor alternativa. Avançou a passos firmes, sem saber para onde nem conseguir enxergar muito adiante. Avançou, apenas, e continuou avançando.

Algumas horas depois, percebeu que parte de si se espalhava e se expandia, como uma espécie de nuvem luminosa, para o alto e rente ao chão, em todas as direções, a partir de algum ponto entre as suas omoplatas. Algo que talvez sempre tivesse carregado em seu corpo – e que, de certa forma, parecia mesmo ser a sua verdadeira natureza, o seu estado e a sua substância “originais”, sendo que o corpo, sim, é que era apenas uma ilusão, ou projeção, ou só uma impressão delirante. Era difícil entender como aquilo funcionava, onde acabava uma coisa e começava a outra, e em quantos níveis as duas estavam entrelaçadas. “Talvez seja tudo uma coisa só”, pensou, mas não tinha muita certeza de quem, exatamente, estava pensando aquilo.

– Alma – sussurrou, então, compreendendo, com um leve sorriso nos lábios.

E naquele instante, uma pedra simplesmente atravessou a sua cabeça, arremessada não se sabe de onde, às suas costas, seguindo no ar por mais alguns metros adiante dos seus olhos.

“Em algum lugar”, pensou, “aquela pedra acabou de me acertar em cheio”.

E isso era um fato puro e simples.

Achou melhor fazer silêncio durante todo o resto da caminhada.

sábado, 30 de janeiro de 2021


 


 

Tendo assim o silêncio assoprado suas sombras sobre o pântano
Olhares inundados de saudades e alegrias e pesares
Penas de asas renovadas, portas e cortinas balançando ao vento e roupas brancas em varais
Inquieta alma que sonha as trilhas e segredos de montanhas altas
Poesia preguiçosa das manhãs de sábado, os ensolarados
Pés e palmas e ondas de rios e frios da brisa
Canções quase completas, portos, barcos
Verdes folhas vivas arrastando as árvores em direção ao céu
E espalhando os ares
Peixes de cores, couro, escama e correnteza cruzam as distâncias entalhadas
Nuvens que passeiam calmas
E se dissolvem e se espalham em prismas
Espelhos quebrados refletindo ainda a luz sempre encontrada
Tendo assim a verdade aceitado a sua fragilidade de vidro
Cristais, ou pérolas ou mágica
Eternidades de água e poemas que são copos cheios: vem
Abraça o sim que te adora
Esse jardim de bem-me-quer, um por do sol com pétalas de ágata
Vem
Agora alguma coisa há de ser casa


 

sábado, 23 de janeiro de 2021


 

Eu ria toda vez que ela me chamava de “meu fío”, porque ela tinha seis anos e estava falando sério. Estávamos sentados em frente à casa da avó dela, que era responsável pelo quarto que eu queria alugar, e enquanto alguém saiu pra chamá-la em algum outro lugar, a menina ficou ali pra me fazer companhia. Falando sem parar, ela me contava sobre os colegas da escola e as coisas que gostava de fazer nas férias, mal disfarçando uma careta sempre que seus olhos passavam pela tatuagem no meu braço. Estávamos em uma vila – ou, como eles chamam por lá, um arraial – junto ao Parque Nacional da Serra da Canastra, onde nasce o Rio São Francisco. Tinha ouvido falar desse lugar algumas vezes desde que cheguei a Minas, mas só me convenci a ir pra lá depois de conhecer um pessoal em Uberlândia que me falou tão apaixonadamente de lá que afastou qualquer dúvida que eu ainda tivesse. Isso fazia umas duas semanas, mais ou menos. Conheci outras cidades no Triângulo Mineiro até parar no município mais próximo ao arraial, de onde achei que poderia pegar um ônibus pra lá, mas não havia nenhum, e acabei indo pra estrada pedir carona. Era longe, acabaram sendo várias caronas, fui pulando de um caminhão pra outro até que um carro veio reduzindo a velocidade ao se aproximar de mim, abaixando o vidro do caroneiro, e então dois rostos familiares apareceram, sorridentes.

– A gente se conheceu em Uberlândia – disse um deles, o que era desnecessário, porque eu me lembrava bem.

O carro parou. O cara que estava dirigindo desceu pra me cumprimentar e abrir uma das portas do banco de trás.

– Mundo pequeno, né? – ele comentou, apertando a minha mão. Concordei, talvez com menos entusiasmo do que ele esperava, acostumado que estava às coincidências.

Mas não tinha como ser mais grato àqueles dois, pela carona e por tudo o que vim a encontrar mais tarde no arraial, um dos lugares mais incríveis em que já estive. Enquanto arrumava o quarto em que eu ia ficar, a avó daquela menina me falava sobre como é bom sair de casa sem se preocupar com ter que chavear a porta. Da pequena varanda em frente ao quarto, eu via, olhando pra um lado, um imenso mar de montanhas de vegetação rasteira e, do outro lado, mais mar – o mesmo mar verde se perdendo ao longe. Um silêncio pontilhado pelo canto dos grilos e dos pássaros, vez ou outra um cachorro latindo, raramente uma moto ou cascos de cavalo. Fiquei ali sentado por no mínimo umas duas horas, contemplando a paisagem e desejando ficar lá pelo resto da vida.

– Um dos caminhoneiros que me deu carona até aqui falou que são trezentos habitantes no arraial, verdade? – eu tinha perguntado à senhora.

– Claro que não – ela respondeu, e por um momento achei mesmo que era um exagero, que não podiam ser tão poucos assim, mas ela completou: – São uns duzentos e cinquenta.

Mais tarde, saí pra conhecer a vila, já completamente apaixonado por ela. Eram só duas ruas, e ao final fui parar em um campo de futebol onde havia umas crianças brincando. À sombra de uma árvore, no fim do campo, entre várias meninas, reconheci aquela que me fez rir me chamando de “meu fío”. Ela me viu também, acenou sorrindo e, quando cheguei mais perto, falou, parecendo impressionada:

– É a segunda vez que te encontro hoje!

– Pois é – eu disse. E depois não resisti: – Mundo pequeno...


 


 

domingo, 17 de janeiro de 2021


 


 

Sem ninguém no porto, um aceno sem bússola.
Sumir pra sempre no longe.

Ser
essa matéria do tempo e ir ser
a primavera a cerejeira a flor
– ah por favor
me dê um gole só
desse estar sendo infinito.

Se
das fachadas dos edifícios
explodissem as selvas e se
ao derrubarem as paredes
vissem o Universo expandindo.

Mas
só mais um cigarro na noite
mais um cigarro na noite
na noite
não
não precisamos de outro fim do mundo.

Os lugares pra onde vamos, eles
chegam quando querem e
se querem.

Ou
numa rede num túnel
numa teia que espalhasse pelo chão
todo o dourado de Órion
Betelgeuse
Alfa-Centauro – a verdade é que
todas as janelas são o céu,
não só essa chuva escorrendo no vidro.

(Vê
que a soma das minhas partes
é muito maior do que eu.)

(E então levanta
a barra da saia
das nuvens pra ver também
se não sou eu do outro lado.)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021


 

não me traga até aqui pra repetir o que foi sempre
a quem interessa o desperdício de uma sintonia
em minha casa eu não uso fantasias hierárquicas
devolva à terra
não quero nada da arrogância com que se devoram
não me impressionam fogueirinhas de vaidades
eu não moro em fachadas
não me traga até aqui pra me odiar num personagem
se eu não posso te emprestar meus olhos
e você nem olha
mais um entre milhares de reis cegos

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Numa daquelas noites, teve um eclipse da lua.

A gente foi ver juntos na praia do Porto da Barra.

Quando encontrei Eva em Salvador, achei que aquela poderia ser, talvez, a última vez que nos víamos. Ela estava lá a trabalho, mas tinha bastante tempo livre, e passamos boa parte dele visitando pontos turísticos da cidade ou simplesmente caminhando pelas ruas como nos velhos tempos. “Em frente até não existir mais ‘em frente’?”, brinquei, numa dessas caminhadas, achando que ela embarcaria no que era uma subversão de um velho bordão nosso, mas ela pareceu nem notar, só deu um sorriso meio torto de canto de boca, muito mais cabisbaixa do que de costume. Seu novo trabalho começava a lhe consumir bem mais do que estava disposta a dar, e Eva andava com vontade de pegar a estrada de novo.

– Eu sinto um misto de pena e repulsa – ela explicou – por essas pessoas que vivem se agarrando desesperadamente a qualquer pequena oportunidade de ferir as outras. Coitadas, elas tem uma existência irrelevante, acham que precisam se sentir melhores que as outras e esse é o único caminho que elas encontram pra isso. Mas o pior de tudo é que não é só um padrão, não, o pior é que essa que é a regra do jogo, mesmo. Essas que vão ser as pessoas que vão “chegar longe”.

– Sim, porque faz muito sentido – falei, – quando o trabalho inclui se relacionar com outras pessoas, é melhor que você esteja competindo e tentando acabar com elas do que somando esforços pra fazer um bom trabalho.

Ficamos um tempo sem dizer nada, observando a lua conforme ela escurecia, em meio ao murmúrio da pequena multidão que se juntou por lá naquela noite. Então alguém perto de nós falou bem alto:

– É todo mundo Ph.D. em Ciências Passionais e Seletivas.

Algumas pessoas riram, Eva e eu não conseguimos conter um sorriso.

E tudo se dissolveu no momento presente. O ar era agradável, o mar continuava a arremessar aquelas suas pequenas e transparentes ondas contra a praia.

– Eu gosto de você, R. – disse Eva, de repente.

– Eu também, Eva. Gosto muito de você.

E a gente já não tinha mais nada pra dizer. Em poucos instantes, a lua estaria completamente encoberta pela sombra da Terra.

domingo, 27 de dezembro de 2020


 

Tinha uma festa na sua rua, mas ela estava lá porque era a sua rua, e não porque era festa, e tinha um ar meio que de ter sido roubada, de não saber mais o caminho de casa, de quem me via pela primeira vez. E foi assim: no instante em que me viu, me abraçou, demorou-se um pouco no abraço.

Não houve um tremor de terra, nem um arrebatamento.

Gesto comum em roupas de rotina. Gesto puro gesto, não mais do que abrir uma torneira e encher um copo com água, dar duas voltas na chave pra trancar a porta. Noite animada esparramada na rua, as crianças correndo as músicas maçãs do amor luzes da praça.

Talvez fosse o abraço mais melancólico da História, mas o momento engolia o que quer que se pudesse dizer a seu respeito.

Nem houve uma suspensão do tempo, ao contrário: era quase como se desemperrasse uma engrenagem.

A vida acontece, e acontece, e acontece.

A imagem, só ela se guardou. Mais uma pedra arremessada com displicência no rio, alterando sutilmente – e pra sempre – o curso de suas águas.


 

sábado, 19 de dezembro de 2020


 

Que eu quisesse ser outro e não este bandido que é um senhor da noite
e vaga sem rumo em todas as direções contrárias
faria com que o teu olhar se fixasse em mim
e brilhasse outra vez como o antigo mar das estrelas roubadas
por nosso medo do escuro?

Se em vez de te buscar em todas as mulheres que me escapam
ou despir continuamente a minha alma cada vez mais solitária
eu me jogasse aos teus pés e confessasse que não te pertenço
mas que ofereço todo o meu não-pertencer por uma vida de encontros
aceitarias finalmente que eu me acomodasse em nós?

Onde eu guardasse o meu ouro e meu temor de já não tê-lo
entrarias nua e vendada ao risco de ser feita prisioneira
de um amor desigual até que eu me livrasse dos espelhos
e só me quisesse em teu rosto – centro do meu universo
e tempo da minha história inteira?

Porque eu não fosse de rua e de tantos segredos
nem me lembrasse dos monstros que há por trás das máscaras
teria abrigo em teu corpo para ser só um homem
feliz e agradecido por haver chegado ao termo
que é o princípio e o caminho e nosso único propósito?

Como eu deixasse o silêncio e o vazio dos meus sentidos
para me embriagar do som estranho de uma vida a duas vozes
inventando um mesmo canto, deixarias também a tua descrença
para fingir comigo algum encantamento
que deveras nos encante?

Quando eu chegasse exausto e velho da jornada
feita de tantos não-ter-ido para ficar ao teu lado
te encontraria ainda presente nessa mesma esfera de delírio
no haver escolhido o mesmo passo ainda que não os caminhos
e além de ser e de estar, o ter inexistido em boa companhia?