sábado, 24 de abril de 2021


 

era tarde aquela meia-noite
e insondáveis os sonhos dos outros
chegaram notícias
de amigos que haviam cortado os pulsos
e outros que se casariam em novembro

a brisa era muito quente pra um céu tão preto
e por que eu bebia refrigerante numa xícara

ninguém sabia onde se havia perdido o tempo
mas alguns alimentavam esperanças
chegaram notícias
mas eu já não acreditava mais em muita coisa

da janela aberta eu escutava o mundo
e as paredes tremiam quando os caminhões passavam
eu acendi um cigarro

será que alguém me sonhava
era vazia demais a madrugada da história


 

sábado, 17 de abril de 2021

Foz do Rio São Francisco,
divisa entre os estados do Alagoas e Sergipe
Eu sempre faço uma prece.

E eu sei que tinha alguma coisa na tua pele.
Me chamando pra mais perto.

Quem é R?

Eu ando tão cansada.

Já sei, tem muitos eus nessas frases.

E tinha alguma coisa na paisagem.


 

No alto da gruta ao lado da matriz, eu contava ao Lucas sobre a Serra da Canastra, a nascente do Rio São Francisco e a vontade que eu tinha tido de ficar por lá - "Não sei por que não fiquei", eu dizia, "cheguei tão perto disso". O mesmo estava acontecendo ao Lucas ali em São Tomé das Letras, mas eu ainda não sabia. Nem foi nessa ocasião que ele me contou - em vez disso, contou uma de muitas lendas transmitidas de geração em geração pela família de seu pai, algo que vinha de muitos séculos atrás e de algum lugar do sul da Ásia. Falava sobre um monte muito alto ao final de um longo e tortuoso deserto, em épocas ancestrais, e de um homem que havia sonhado a vida inteira em chegar ao topo desse monte, contemplar a imensidão da terra lá de cima. Ele se preparou durante muito tempo, era uma viagem perigosa da qual os únicos que haviam regressado tinham fracassado em completar o trajeto. E então partiu, enfrentou todos esses perigos, esteve à beira da morte, até o dia em que avistou o cume bem perto. Ele não estava cansado, nem ferido, sabia que podia chegar lá, não teria dificuldade nenhuma. Mas então algo desapareceu dentro dele, e ele já não sentia o menor impulso de continuar andando naquela direção. Parou, contemplou o alto do monte por um longo tempo, respirou fundo, deu meia volta e começou seu regresso.

Não sei quanto tempo ficamos em silêncio até que eu enxergasse lá embaixo, na rua, uma mulher dançando de um jeito que prendeu completamente a minha atenção. Meu coração acelerou, eu não podia acreditar, será, não podia ser, mas era. Eu procurei por aquela mulher por vários dias em Machu Picchu, não podia ser ela, e ao mesmo tempo era impossível não ser. E para provar que era ela, sim, claro, de lá mesmo de onde estava, longe, entre todas as pessoas possíveis na rua e na praça, foi para mim que ela olhou, sorriu e repetiu o mesmo gesto que tinha feito em Machu Picchu, cruzando as mãos em frente ao peito e inclinando levemente o tronco em uma saudação. Lucas não percebeu o meu silêncio tranquilo se tornar um silêncio perturbado, e se assustou quando me levantei de repente.

"Você está vendo aquela mulher de alaranjado?", perguntei, e ele disse "Sim, você pensou que fosse uma aparição?". "Vai atrás dela", falou, e eu disse "Eu vou, nunca vou me perdoar se eu não for. Mas não vai adiantar. Ela só veio se despedir."

E saí apressado porque a minha voz tinha começado a falhar.

Mas fui em vão, como eu já esperava. Mais uma vez, não consegui alcançar nem encontrar de novo aquela mulher, e nunca mais voltei a procurar por ela.


 

sábado, 10 de abril de 2021

Caminhada

I.

Agitação manhosa da manhã.
O longo despertar do corpo
nos passos lentos pela estrada de terra.
Eu sigo,
senhor deste templo de neblina e sono
e amo com uma preguiça espreguiçada
a sensação redescoberta de estar vivo.
Eu amo. Como se ouvisse vibrar no silêncio
a palavra viva da folha e da seiva.
Me chamam?... É só o futuro que espera.
Mas não, nada me apressa a encontrá-lo.
Não já. Logo terei chegado.
Deixo-me estar nesta ausência de formas,
deixo-me ver só desta vez este agora.


II.


Mistura a tua substância à minha,
a pura existência, o puro ser sem gênero.
Ou antes: mostra-te como um mapa
onde eu possa encontrar algo em mim que eu não fosse
e que és tu – algo de que eu nem suspeitava.
E me revela a mim mesmo assim: só no que pulsa lá fora.
E me contém com o me espalhar pelo mundo.
Embriagados da continuidade entre o ser e as coisas,
entre o meu corpo e o teu gesto,
entre o nosso riso e uma ideia só uma ideia de felicidade.
Desperta-me, enfim.
Devora devagar o meu desconhecer-nos.
Alimenta-me de sermos tão completamente outros.


 

III.


E permanece o mistério,
esse invisível nu.
O inalcançável, o inapreensível
– ambos preservam-se tais como eram
mesmo depois que adentramos sua morada.
“Nada?”, perguntamos, “Nem um ar de resposta?”...
Não nos respondem nada.
Onde o vazio não ampara, onde o silêncio é uma queda.
A própria sensação do indefinível
esquiva-se de ter um nome.

sábado, 3 de abril de 2021


(Diários de Machu Picchu #25)
"Não sei se eu já te contei", disse a Jéssica, "mas o meu primeiro amor foi um desastre. Eu mal sabia escrever, desenhava o nome dele com uns coraçõezinhos no caderno, até o dia em que a turma inteira descobriu. Achei que eu ia morrer de vergonha, não queria nunca mais voltar pra escola. Aí a minha mãe falou uma coisa que eu nunca mais vou esquecer, ela disse: quando zombarem dos teus sentimentos, não é de você que estão zombando. É assim que outras pessoas lidam com os sentimentos delas, é assim que elas acham que os sentimentos devem ser tratados. E você acha que elas não sentem? Você acha que elas podem tornar a tua vida um inferno, mas pra chegar a isso elas já tem que ter tido as almas delas condenadas antes."

"Não deixe", ela falou depois, "não permita nunca que uma pessoa faça você se sentir mal consigo mesmo, não acredite nunca numa pessoa assim que se diga sua amiga."


(Diários de Machu Picchu #29)

sábado, 27 de março de 2021

Colón - Argentina
Rio Uruguai, fronteira com o Uruguai


"E se vierem cantores e bailarinos e tocadores de flauta
– comprai também seus dons.
Pois eles também coletam frutas e olíbano, e o que trazem, apesar de feitos de sonhos, 
são vestimentas e alimentos para as vossas almas."

(Khalil Gibran, O Profeta)


Dia 2.
O dia inteiro subindo e descendo essa ladeira entre o camping e o centro da cidade para resolver assuntos burocráticos de uma vida que já não é minha, faz a gente pensar, será que a vida é mais minha agora? É, eu penso demais, fiquei pensando por que será que na Argentina chamam as lan houses de cyber café mesmo se na maioria dos casos não tem café nenhum sendo servido no local. Aliás, também nunca entendi por que no Brasil chamamos as lan houses de lan houses, mas é assim, a gente não pergunta o significado do rio. Ou então, antes de tudo, eu perguntaria por que é que na Argentina, no Uruguai e talvez em países de língua espanhola no geral, as pessoas dizem "de nada" como se o seu "obrigado" tivesse sido uma ofensa grave, ou sei lá, é engraçado, você diz gracias e a pessoa agita a mão no ar como se espantasse uma mosca, impaciente, ¡ah! ¡por favor!.

# Mas para que pensar nisso quando se tem pela frente toda a vastidão dourada da Terra e acontecimentos imprevisíveis de todos os tipos estão à espera, de tocaia, para te surpreender e te fazer ficar satisfeito simplesmente por estar vivo para presenciá-los?

Quem poderia imaginar, por exemplo, que eu viria acampar aqui nos mesmos dias que o grupo de teatro mais improvável de que já tive notícia: um grupo mambembe de jovens cristãos, não ligados a nenhuma igreja, com um repertório incluindo várias adaptações de histórias bíblicas, discussões de atualidades e lições dos evangelhos, além de uma prática interessante de improvisações em apresentações de rua. Andaram excursionando pelo Uruguai, agora estão fazendo uma pausa em Colón antes de iniciar um novo giro pela Argentina. Tudo ao contrário dos meus caminhos de agora... Tudo? Não, nem tudo.

No fim da tarde, terminei de ler O Profeta e fiz como decidi que ia fazer em toda a viagem: larguei o livro exatamente no lugar em que acabei de ler. No caso, era um pequeno muro de pedras perto do rio. Fotografei, antes, o desenho que fiz no verso da capa, aquela rosa em chamas – a parte mais triste de me desfazer do livro é ter que me desfazer também desse desenho. Mas aí aconteceu isso, agora há pouco voltei a ver o livro nas mãos de uma moça lá na arquibancada da quadra de esportes. Eu estava voltando dos vestiários, tinha ido escovar os dentes, e de repente escutei alguém gritar "Cristina, Cristina", aí fui olhar, ela estava lá, com apenas a capa do livro aberta. Acho que na hora eu sorri. Não sorri? Devo ter sorrido.

* Tente ter amor pelas próprias perguntas, como quartos fechados e como livros escritos em uma língua estrangeira. Não investigue agora as respostas que não lhe podem ser dadas, porque não poderia vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Viva agora as perguntas.





Dia 5.
Ficamos conversando na arquibancada da quadra de esportes, nem vimos quando anoiteceu. Eu e o Juan começamos a provocar os outros dois para descer até a quadra e declamar um poema cada um, já que eles insistiam em dizer que gostavam, sim, de teatro, que conheciam poetas, que não eram pibes sem cultura. No fim fui eu que acabei abrindo o meu caderno e lendo para eles alguns trechos do

(#) On the road, de Jack Kerouac; e do
(*) Cartas a um jovem poeta, do Rainer Maria Rilke.

– Vocês vão gostar disso aqui, olha só – falei, mostrando no caderno. – É uma carta de um titereiro venezuelano que queria morar em Colón e escreve pedindo ajuda para comprar uma casa. E termina dizendo: “Mas a casa tem que ter uma árvore. Entendeu? Mesmo que a casa seja somente uma árvore. Eu sei que à sombra de uma árvore em Colón podem viver maravilhosamente uma mulher, um homem, seis crianças, uma cadela, dois gatos e alguns amigos que queiram conversar e tomar vinho.”

Todos concordaram, é claro, estava óbvio. Bom, pelo menos assim deixei passar mais uma ótima oportunidade de declamar um dos sete mil, oitocentos e trinta e dois sonetos que decorei entre a infância e a adolescência – lamento, Cruz e Souza, eu nem saberia como fazer isso em espanhol. Aí o Juan se animou, desceu as arquibancadas e parou perto do círculo central, virou-se para nós para o que esperávamos que fosse a apresentação de algo bíblico ou cristão ou, sei lá, qualquer das coisas que ele faça lá na trupe, mas ele começou a dizer o coração da noite é escuro e eu não sei onde estou indo e não sei se vale o perigo de ir, embora o perigo seja quase um destino em si mesmo, e dentro do casaco tem um bilhete que eu não entreguei por covardia, um número de telefone que eu não tenho, uma voz que eu não tenho, pernas, movimento, o vento seco vem dançar sem graça na concha vazia de um ponto de ônibus, e ali

Nunca soubemos como terminava aquilo porque nessa hora a quadra foi invadida por um grupo pequeno mas terrivelmente barulhento de crianças com uma dessas bolas gigantes e leves e muito alaranjadas e fluorescentes.

* Não temos motivo algum para desconfiar de nosso mundo, pois ele não está contra nós. Caso possua terrores, são nossos terrores, caso surjam abismos, esses abismos pertencem a nós; caso existam perigos, então precisamos aprender a amá-los.





Dia 7.
Éramos apenas eu, Juan e Cristina à beira do Uruguai. Eles contavam histórias da trupe, eu falava sobre as minhas próprias crenças cristãs e de como é raro encontrar pessoas que consigam diferenciar o cristianismo desse igrejismo todo de hoje. Quem dirá um grupo grande de pessoas que, além disso, viajam juntas por aí fazendo arte. Eu mal sabia expressar o quanto admirava os dois, e como sabia que aquele momento que estávamos já estava sendo gravado para sempre na minha memória. Os dois seguravam as mãos, às vezes, depois soltavam, livres e um do outro - e em paz. Sim, estávamos em paz, os três.

Então eu contei que não era batizado porque na igreja dos meus pais uma pessoa só se batiza quando ela quer, se quer. E o Juan disse que Jesus mandou batizar todo mundo, inclusive as crianças, e eu disse é mesmo, ele fez isso quando foi se batizar no deserto e falou pra multidão sair e batizar todo mundo, não que só os sacerdotes podiam batizar ou que elas só podiam ser batizadas depois de duzentos séculos de escola dominical. Aí a Cristina disse muito bem, mas se não precisa nem de um sacerdote para se batizar então você não tem nenhuma desculpa para não ser batizado ainda. E depois falou vamos te batizar agora se você quiser.

* As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou.

Tantas coisas convergiam naquele instante, era um desses momentos tão raros em que nos sentimos fazendo algo que estávamos predestinados a fazer, ao mesmo tempo em que não abrimos mão do livre arbítrio. Sim, somente assim eu poderia ter sido batizado, só poderia ter sido aqui, só neste amanhecer.

# ... e enquanto o rio descia pelo centro da América, sob a luz das estrelas, compreendi loucamente que tudo que eu jamais conhecera e tudo o quanto haveria de conhecer era apenas Um.





Dia 10.
Um jogo de amarelinha na calçada e complexas relações de ideias que eu levaria muito tempo tentando explicar me levaram de repente a fantasiar que voltarei a encontrar Juan e Cristina em algum outro lugar da Argentina em minha viagem, que os nossos caminhos vão se cruzar de novo sem que seja preciso fazer nada para garantir isso, que é só continuar indo em frente, cada um por seus caminhos, e vamos nos encontrar de novo como se estivéssemos nos procurando.

# Que sensação é essa, quando você está se afastando das pessoas e elas retrocedem na planície até você ver o espectro delas se dissolvendo? - é o vasto mundo nos engolindo, e é o adeus. Mas nos jogamos em frente, rumo à próxima aventura louca sob o céu.

Terminei de guardar as coisas na mochila e saí sem ter mais de quem me despedir. O camping parecia mais triste sem o grupo deles por lá, mas nem por isso achei fácil ir embora. Talvez ainda pensasse naquela história da casa-com-uma-árvore-mesmo-que-a-casa-seja-só-a-árvore. Mas também ainda pensava que eu podia ter ido embora com a trupe, ou que podia ir a Buenos Aires antes de cruzar a fronteira com o Uruguai, ou que tantas coisas, tantas. A bagunça ainda está grande, afinal, não caiu nenhum raio do céu, não adquiri nenhum superpoder inesperado, o que doía continua doendo, às vezes muito, às vezes igual.

* Não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem temor de que o verão não possa vir depois. Ele vem apesar de tudo.

Comprei passagem para o próximo horário, mas tinha ainda muito tempo e decidi começar a ler meu próximo livro ali mesmo, enquanto esperava. Resisti à tentação do cyber café, mas não à de um café de verdade, que no fim acabou combinando muito bem com a leitura. Quando estava saindo, me despedi do garçom, e quando agradeci pelo atendimento, ele revirou os olhos e respondeu aborrecido ¡no hay por que!.


 

sábado, 20 de março de 2021

Os moralistas vigiam à esquerda e à direita, a humanidade, como eles gostam de lembrar, fracassou, talvez só haja esperança na expiação dos pecados, mas claro, não da perspectiva dos pecadores. E há também este ser iluminado de onde jorram milagrosa e espontaneamente as palavras divinas da verdade última, é incrível, dele e só dele irradiam todas as nossas maiores virtudes, a salvação social, o único e verdadeiro guia, nosso herói, tecle seu número e aperte CONFIRMA. Tem dado tão certo nos últimos anos. Não tanto pelo poder: é mais uma disputa por estar do lado de lá das coisas continuarem como sempre. Aqui entre nós, mortais, qualquer protagonismo é estranhamente impessoal, embora continue nos custando a vida. Espere, abaixe a cabeça para responder, por precaução use apenas estas frases.




Você tem razão, não há polarização nenhuma. Os extremistas em questão estão longe demais de extremos, é tudo um show de riscos calculados, até as soluções mais progressistas soam pateticamente conservadoras. É claro que é falsa a simetria, não se diz que são simétricas as coisas idênticas, você não consegue mesmo enxergar os fios das marionetes? Não é uma escolha difícil quando um só dos mentirosos conta mentiras bonitas, como se um vazio pudesse ser menos vazio que os outros, mas você tem razão: os salvadores dos dois lados não são tão idênticos assim, é só que a expressão "falsa simetria" às vezes é o refúgio de tantas coisas ruins que são deveras simétricas, sabe, e estando a autocrítica tão fora de moda, acaba que a vida não tem sido muito mais do que um xadrez de cegos dentro de um só bloco incolor de ódio maciço.


Sincretismo é tudo.




Não, inclusão. Inclusão é tudo.




 Poesia. Definitivamente, poesia é tudo.


 





mas aí fui dar um tempo na livraria e acabei passando horas lá. fiquei lendo um romance do beckett, quando estava pra sair começou uma apresentação de piano com músicas do tom jobim, nem levantei da poltrona em que estava. na mesinha ao lado, uma grande quantidade de livros espalhados, histórias infantis, tragédias adolescentes, cadernos de receitas e estranhas combinações de ciência, religião e arte.

quando o cientista faz a pergunta, ele define a resposta. não existe pesquisa objetiva, nem neutra.

tradições xamânicas falam em "ferida sagrada", um "trauma" que impulsiona a busca de novos valores e sentidos.

sincronicidade: princípio de conexão "acausal" para explicar a ocorrência de uma coincidência significativa. uma imagem inconsciente vem à consciência direta ou indiretamente, literal ou simbolicamente, e uma situação objetiva coincide com esse conteúdo.

o tempo fechou
céu de chumbo no meio da tarde e o pior de tudo
foi que eu não entendi nada, aquilo era uma
linha
de raciocínio?



















(onde alcançar o vento)

















sábado, 13 de março de 2021


 


 

Queria te contar de quando abri as cortinas de manhã, e que você pudesse ver, bateram à porta para me cobrar por coisas que eu mesmo nunca recebi, derramaram meu sangue de graça, o céu estava azul bem limpo exceto por aquela nuvem com traços lilases. Pensei no teu sorriso e em morangos, exigiram de mim que eu cantasse com uma alegria redobrada para suportar as trevas que eles mesmos criaram. Vim o mais rápido que pude, acho que nunca te falei, ainda me lembro da primeira vez que te vi usando esses brincos, era uma sexta-feira à noite, em breve chegarão instruções, erratas, agressões, evasivas, tudo descontado do meu salário, é claro, é importante sobretudo que a culpa seja minha, eu tinha vontade era de segurar tua mão, e tanta, quem sabe até me sentisse mais perto. Espero que você perdoe a ternura atrasada, estão entre nós e nos separam, insistem em ditar o nosso gosto, em calar o grito, em minar o esforço, no que depender de mim, daqui para a frente, o que acontecer será carícia. Teria trazido crisântemos, na estrada havia somente os confrontos de sempre, tentei ao menos evitar o óbvio, é triste, mas o fato é que nós todos acabamos perdendo, de novo. Então eu trouxe amor que não se acaba e só, não sei, mas acho que o bastante. Se alguém olhasse da janela agora, talvez ainda pudesse ver o resto desabando.

sábado, 6 de março de 2021


 

Mas a poesia, não.
A poesia abriu meus olhos.

E talvez só ela tenha
estado sempre ao meu lado, até
quando era escuro demais pra ver - e talvez
também fosse ela no escuro,
o escuro,
não ver.

Mas a poesia, sim,
a poesia é uma oferta de abraço,
é meio que assim que eu respiro.

Você tem que estar muito, muito ferido mesmo, ou não saber
nada da vida pra dizer que ela está morta.
A poesia é um estado de exceção, é um estado independente, a poesia pode
e não deve, a poesia começou primeiro, ela está livre, ela acontece.

Não existe outro lugar mais dentro.
A poesia é o movimento, é se alcançar todos os dias.

É o dia.


 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Escuridão completa. Ar que faltava. Era quase impossível se mover ali: estava embaixo da terra. Debateu-se o quanto pode, tentou abrir caminho através da terra que pesava sobre seu corpo – em vão. Estava em desespero e não podia mais respirar, tentou gritar, mas isso serviu apenas para que entrasse ainda mais terra em sua boca. Era o fim, o oxigênio tinha acabado. Seu coração em breve pararia de bater.

Demorou um pouco para entender quando simplesmente desapareceu dali e ressurgiu em um espaço aberto. Seus olhos, ainda recuperando a visão, custaram a entender o chão de pedras soltas e as altas paredes escuras de um buraco muito fundo. Uma espécie de poço que havia secado, mas bem mais largo que o comum. As pedras do tamanho de punhos sobre as quais estava tinham, quase todas, alguma mancha de sangue. E em sua boca, também: sentia gosto de sangue.

Não conseguia se lembrar direito de nada que vivera antes, mas quando apalpou o próprio corpo e encontrou um pequeno aparelho em um dos bolsos do casaco, soube imediatamente que era um aparelho de trocar mensagens e que sempre o havia carregado consigo. Num impulso, começou a escrever com urgência: “Não entendo o que houve. Estou com medo.” A mensagem permaneceu ali pelo que pareceram várias horas antes que a resposta viesse, simples, mas profundamente reconfortante: “Nós te amamos”.

Inspirou profundamente, sentindo seu corpo e seu espírito se encherem outra vez de confiança – e, neste exato momento, vinda não se sabe de onde, uma pedra acertou em cheio a sua nuca, ofuscando outra vez a sua visão e roubando-lhe o equilíbrio por alguns instantes.

Quando se recobrou, percebeu que havia se teletransportado uma vez mais. Estava agora em um antigo parque de diversões abandonado, com barracas e brinquedos enferrujados e retorcidos sendo já engolidos por uma vegetação muito alta. No entanto, estava escuro demais, mal se conseguia distinguir todas essas coisas. E logo se deu conta, com uma pontada de apreensão, que a vegetação farfalhava, a cada pouco, como se um bicho grande se movesse por ali.

– Isso sim é que é saúde! – disse uma voz forte, acompanhada por uma animada música de fundo, em uma televisão que simplesmente se ligou sozinha a uns poucos metros dali. Era um programa de ginástica, aparentemente, com homens e mulheres de corpos esculturais, sorrisos de plástico e belezas previsíveis. – Observem essas formas perfeitas – dizia o apresentador. – Vejam que curvas mais maravilhosas! Que deliciosos esses peitos, você não tem vontade de comer aquelas coxas?

Conforme o apresentador falava, os homens e mulheres que até então repetiam os gestos de algum exercício aeróbico iam pouco a pouco se despindo e se aproximando uns dos outros, em uma dança sensual que lentamente foi se transformando em uma grande orgia, sempre sob a narração animada do homem que ressaltava a perfeição e atração irresistíveis daqueles corpos e movimentos.

Então a TV foi desligada, sobrando apenas um sussurro de centenas de bocas espalhadas pelo parque dizendo coisas incompreensíveis. Demorou para que seus olhos voltassem a se adaptar ao escuro e começassem a perceber os vultos, os pares de olhos vermelhos e brilhantes voltados em sua direção. “Não sobrará nada”, era o que diziam – e iam falando cada vez mais alto, até que, de repente, algo muito grande se destacou em meio à vegetação e começou a avançar rápido em sua direção.

No instante seguinte, estava em uma sala dourada e muito movimentada que era a recepção de algum grande edifício, diante de um balcão sobre o qual um pequeno cachorro latia à sua chegada, enquanto uma mulher de roupas e maquiagem a um mesmo tempo formais e vulgares, de trás do balcão, tentava acalmar o cãozinho com carinhos e sussurros e biscoitos. Na parede às costas dela, em letras douradas e muito grandes, lia-se: ESTAMOS CRESCENDO ECONOMICAMENTE. À esquerda do balcão, uma grande porta fechada por onde ninguém entrava nem saía; e à direita, uma pequena porta por onde entravam e saíam pessoas o tempo todo, identificada pela legenda: “Entrada dos trabalhadores”. Ao lado da porta, em letras minúsculas, havia um cartaz dizendo: “Se você entrar descalço, estará colocando em risco a própria vida e a de outras pessoas”.

Reparou, então, nos pés das pessoas que circulavam por ali e constatou, para sua surpresa, que a maioria delas entrava e saía descalça por aquela porta.

– Por que vocês estão fazendo isso? – perguntou bem alto aos que passavam. E, apontando para o cartaz: – Vocês não estão vendo o que está escrito ali?

Quase ninguém pareceu escutar; somente duas ou três pessoas pararam e um único homem ficou parado por tempo o suficiente para responder:

– Bem, nós precisamos trabalhar para comprar sapatos.

E tudo continuou exatamente como antes.

Aproximou-se, então, do balcão e perguntou à recepcionista se não era possível fazer nada para reduzir aquele risco, ou se, no mínimo, não era possível oferecer sapatos aos trabalhadores.

– Ah, aquilo ali... – desdenhou a recepcionista. – É invenção da mídia alarmista, não tem nada acontecendo de verdade.

Mas naquele instante, quatro pessoas descalças saíram cambaleando pela porta pequena e tombaram, visivelmente mortas, ali mesmo no saguão de entrada.

Sem se conformar, exigiu, então, uma audiência com os responsáveis por aquilo – o que só fez deixar o cachorrinho sobre o balcão cada vez mais agitado. E foi essa, aliás, a única inquietação que mereceu alguma atenção por parte da recepcionista.

– Calma, Governo, não precisa ficar bravo – repetia, acariciando-lhe a cabeça. E depois, toda sorridente, explicou: – É o cachorrinho deles, sabe? Não é uma gracinha? Mas ciumento demais, coitadinho, não deixa ninguém chegar perto dos papaizinhos dele, né, meu amorzinho? Os Senhores da Vida na Terra não podem receber ninguém, neste momento, é óbvio. Você não sabe ler? – disse, apontando para a frase em letras imensas na parede às suas costas.

Viu-se então em uma espécie de açougue ou abatedouro, com corpos humanos esquartejados ou ensanguentados pendurados por todos os cantos, enquanto uma voz macabra, grave e muito baixa, repetia lentamente: “Observem essas formas perfeitas... Vejam que curvas mais maravilhosas...”

E, finalmente, vindo de lugar nenhum, um ser encapuzado e imenso saltou, de repente, à sua frente, pousando garras afiadas bem no centro do seu peito.

– Não sobrará nada de você! – urrou.

Tombou para trás com o susto e com o impacto de algo que aparentemente acabara de se desprender do seu corpo, exatamente a partir daquele ponto que havia sido tocado. Sentiu as pedras ao cair, percebeu a escuridão à sua volta e soube que estava de volta ao mesmo buraco de antes. Tentou se concentrar em entender o que havia se desprendido, o que era aquilo que continuava sentindo para além de si, mas era uma sensação confusa, totalmente inexplicável. Não sabia dizer onde acabava o seu corpo e começava aquela enorme figura luminosa que se espalhava, leve e fluida, à sua frente. “Alma”, pensou, e lhe pareceu então que tudo no mundo se encheu de serenidade e de sentido, que tudo era uma coisa só e que só o que existia de verdade era o Amor.

Quando a figura desapareceu, restava apenas o céu estrelado, lá no alto, recortado pelas bordas sombrias daquele buraco. Mas tudo era paz, tudo era de uma beleza interminável. “A vida é boa”, sussurrou, talvez até com um sorriso nos lábios.

Não demorou para as pedras começarem a chover. De qualquer forma, não teve tempo de entender que era uma chuva: logo as pedradas apagaram o que ainda lhe restava de consciência.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

O que havia de mais estranho naquele buraco que lhe serviu de prisão por tanto tempo era que suas paredes não eram feitas de pedras, nem de terra, nem de nada sólido o suficiente para que se pudesse escalar: eram paredes feitas simplesmente de trevas. Algumas vezes tinha tentado avançar dentro delas, mas era como se se movesse em uma piscina cheia de um líquido muito denso, e invariavelmente acabava caindo de volta para dentro do buraco.

Outra característica que logo se tornou evidente era que toda vez que tentava invocar a Alma, ou se lhe ocorressem sentimentos positivos e muito intensos, especialmente de amor-próprio (ou mesmo uma simples alegria), pedras eram arremessadas das direções mais improváveis para lhe atingir, geralmente até a inconsciência.

E, por fim: havia pouco tempo, tinha começado a receber a visita dos Abutres.

Todos os dias, a uma certa hora da tarde, seus braços e pernas eram amarrados nas extremidades de uma espécie de mesa de pedra e os Abutres conversavam, animados, à sua volta, no que para eles era um delicioso e interminável banquete.

– Vocês acham que um serzinho tão insignificante – perguntavam uns aos outros – merece o mais vago lampejo, que seja, de uma sensação de liberdade?

Então gargalhavam e respondiam-se “não”, “nunca”, “jamais”, e depois lhe arrancavam alguma parte do corpo com seus grandes e afiados bicos.

A dor era insuportável e durava um longo tempo até que, de repente, a parte do corpo que tinha sido arrancada voltava a crescer - o que, por um lado, era bom e provocava um certo alívio, mas por outro, significava apenas mais comida para os Abutres.

“Não sei se algum dia isso vai parar”, escreveu, certa vez, no pequeno aparelho de trocar mensagens que carregava sempre em seu bolso. “Não sei se eu consigo aguentar: a dor e a solidão são insuportáveis. Não há nada de bom nessa existência estúpida, nada neste mundo foi feito para mim. Será que alguém se importa de verdade? Será que vocês estão aí, realmente, ouvindo?” E a resposta vinha, sempre e invariavelmente dizendo: “Nós te amamos.”

– Vocês acham – perguntavam-se os Abutres – que um pequeno verme como este, vitimista e nada autêntico, um animalzinho sujo e repugnante assim poderia algum dia conhecer verdadeiramente o amor?

E os outros riam e diziam “não”, “nunca”, “jamais”, e arrancavam-lhe outra parte do corpo.

Numa dessas ocasiões, no mesmo instante em que o bico de um Abutre perfurou sua carne, desapareceu dali e reapareceu em um cubículo tão apertado que mais parecia um caixão colocado na vertical – mas com uma tampa de vidro que lhe permitia ver, muito ao longe, um bebê deitado no chão, iluminado por um pequeno feixe de luz, agitando os braços e as pernas.

Não fosse isso prendendo a sua atenção, talvez entrasse em desespero. Mas logo o bebê se revirou e começou a engatinhar em sua direção, incrivelmente devagar, crescendo na exata velocidade em que se aproximava. E então reconheceu seus próprios traços no rosto do bebê, e foi assistindo ao que era claramente o seu próprio crescimento: primeiro, deixou de engatinhar para se equilibrar sobre as duas pernas; depois avançou sem nenhuma pressa por toda a infância até chegar à puberdade; então, passou a adolescência se distraindo e vagando em várias direções aleatórias; até que finalmente chegou à idade adulta e voltou a levar mais tempo andando em linha reta, rumo ao que pelo visto era o seu túmulo final, mas sem nunca deixar de experimentar outras direções até chegar à velhice. E mesmo quando passou a se apoiar em uma bengala, ou quando seus ombros e costas encurvaram e os passos foram ficando cada vez mais arrastados e curtos, ainda se desviava, às vezes, perseguindo qualquer outra coisa diferente de apenas seguir em frente.

– Vocês acham – ouviu um Abutre perguntar – que é correto uma pessoa dessa idade se comportar dessa maneira?

“Não”, “nunca”, “jamais”, responderam os outros, às gargalhadas, e lhe arrancaram outra parte do corpo.

– Vocês acham que um homem de verdade – começou a perguntar um deles, mas então todos se calaram de repente, subitamente incertos.

– Uma mulher, talvez...? – arriscou outro.

Começaram a discutir, expressando as mais variadas opiniões e sem conseguirem chegar a uma conclusão satisfatória, até que um deles perguntou bem alto e com raiva:

– Vocês acham que uma criatura tem o direito de não ser claramente macho ou fêmea?

“Não”, “nunca”, “jamais”, responderam os outros, cheios de nojo e indignação, e atacaram todos juntos até lhe despedaçarem completamente o corpo.

Reapareceu, então, diante de um grande prédio onde sabia, de alguma forma, que se encontravam os Senhores da Vida na Terra. Em frente ao prédio, soldados fortemente armados defendiam a entrada e, diante deles, havia essa figura que mais parecia uma pequena montanha de medalhinhas reluzentes e tiritantes.

– Estamos crescendo economicamente! – bradava. – Nada é mais importante do que isso, nada pode nos atrapalhar agora! Portanto, atenção, soldados! Esmaguem até os menores focos de rebeldia e insubordinação!

Ao que todos os outros respondiam em coro:

– Sim, senhor, General. Sim, senhor.

– Como é que a gente lida com os problemas? – gritou o General.

– Tiro, porrada e bomba! – cantaram os soldados, repetindo várias vezes o refrão e parecendo, por um instante, que estavam em uma grande festa.

Das janelas do prédio, cadáveres eram arremessados a todo momento, num espetáculo de horror tão doloroso quanto ter seu próprio corpo constantemente dilacerado. Sem a menor sombra de medo, aproximou-se do General para pedir que aquilo parasse, ou que ele ao menos lhe permitisse falar com os Senhores da Vida na Terra para apresentar seus argumentos. Quando se aproximava, ouviu o General se gabando de suas medalhas para um dos soldados, que ouvia fascinado, como se estivesse sendo agraciado pela presença de um deus:

– Esta aqui foi por não ter assediado uma jovem qualquer que eu encontrei na rua. Esta outra, por ter inventado a missão onde eu ganhei esta outra, e esta aqui foi quando eu aprendi a abrir uma lata de sardinha. Esta aqui...

Nunca soube como aquilo terminava, se terminava, porque no instante seguinte estava de volta à sua prisão no buraco. Os Abutres não estavam mais lá, mas não havia a menor garantia de que não retornariam em breve. Deitou-se, ajeitando-se como pode sobre as pedras, para quem sabe alguns minutos de um sono restaurador - se tivesse sorte. E isso se ter sorte demais não fosse lhe render também umas pedradas.