sábado, 26 de junho de 2021


 

Tinha acabado de passar uma série de tornados nos Estados Unidos, os passageiros à nossa frente discutiam detalhes do casamento do Príncipe da Inglaterra, eu estava intrigado com o que tinha visto em umas placas pela rua e Joaquin, não sei, fazia meia hora que olhava para um cartaz que dizia "O diretor de cinema Francis Ford Coppola apoia a candidatura das Cataratas do Iguaçu a uma das 7 Maravilhas da Natureza".

- Ali, Joaquin - falei, apontando pela janela quando passamos por mais uma daquelas placas que tinham chamado minha atenção.



- Já ouviu falar sobre isso?

Ele revirou os olhos com uma lembrança dolorosa:

- Eu segui essas placas, uma vez, pra ver onde iam dar. Elas continuam mandando seguir em frente na próxima rua, e isso até acabar o asfalto, no limite na cidade. Eu andei até lá, as placas acabaram, cheguei a perguntar por ali, mas ninguém nunca tinha visto nem ouvido falar...

Ficou em silêncio, ainda agitando a cabeça em negação. Refleti um pouco sobre aquilo e concluí:

- Seja o que for, fez você avançar bastante.

Ele riu. Lembrei do culto budista que eu tinha perdido por aqueles dias, lembrei dos nomes Bhadra e Nantimitolo e de um guardião com seis anéis em seu cajado, poderes sobre o inferno e a promessa de salvar todos os seres que sofrem por lá.

- Eu vivo viajando - ouvimos alguém dizer ali perto. - Mal tenho tempo de ver a minha família... Mas é o meu trabalho, né? Essa história de 'meu amorzinho, eu não vivo sem você' é tudo mentira. Eu não vivo é sem dinheiro.

Então naquela hora eu me esqueci de um bom mantra para eliminar as aflições e sofrimentos, esqueci de não sentir o sonho triste que tinha tido à noite com um velho amor triste que teve um final triste, esqueci que nas Cataratas vivem devas, mas me lembrei de que a Secretaria de Turismo de Foz do Iguaçu é maior do que a Prefeitura.

- Sempre que eu passo por aqui - disse Joaquin, quando passávamos em frente a um bar chamado Wood's - tenho vontade de vir aí um dia desses. Deve tocar um rockzinho massa.

Foi a minha vez de rir.

- Um country é o mais perto disso que você vai ouvir aí. Eu não posso dizer que sei alguma coisa sobre onde que toca rock em Foz, mas sei que a Wood's não toca...

Joaquin olhava para os lados, com os olhos arregalados, ao mesmo tempo confuso e se divertindo, depois agitou os braços em direção à janela e falou, fingindo-se indignado:

- Mas como assim, Wood's? Toque!


 

sábado, 19 de junho de 2021


 

Crianças que têm medo de brincar
A densidade dos violentos a ameaça que se julga última e justificável
Uma apatia cansada um código-jaula é o preço que se paga pela segurança presumida
Morrer é o mais fácil
Rastejar à procura do céu ou pedir de joelhos pra que não te olhem de cima: isso é pior que a morte
Amar os que te baniram defender a expressão dos que te maldizem: não é bem isso que é a morte
Sob o véu há uma pérola
Há um sol subterrâneo há memórias de um voo-vinho um rio-mágica um
Abraço-bálsamo um
Ainda há muitas coisas que não morrem
E corroem mais do que a ferrugem quase uma ferrugem às avessas
Nenhum sangue inocente no teu prato
A epidemia de um querer-viver e flores inquebráveis se espalhando feito névoa
Enchendo os teus porões de claras possibilidades
Ou então vá
Puxe o gatilho essa coragem-máquina
A eternidade não se importa de verdade
Dobra a esquina entra num táxi e mal te olha
O nome dela não é força ela não é esse tédio

 


sábado, 12 de junho de 2021


 


 

And then later, when it gets dark, we go home

Achou que já fazia calor o suficiente dentro do ônibus para tirar as luvas. Ouvia as conversas em bancos à frente, confundidas com o zumbido do motor e das rodas na estrada de pedras, enquanto olhava uma vez mais para a imensidão do céu estrelado lá fora. Estava no caminho de volta a San Pedro de Atacama depois de um tour astronômico no deserto, e tinha aquela música que não saía da sua cabeça, e tinha Petra.

- Não, tio, o senhor que não entendeu - ouviu uma mulher dizendo um pouco à frente. - Se a estrela mais próxima está a quatro anos-luz da Terra, quer dizer que a luz dela leva quatro anos para vir de lá até aqui.

- Proxima Centauri - ele falou para si mesmo, não alto o bastante para ser ouvido pelos outros.

- Mas isso não faz o menor sentido - protestava o tio.

Afundou-se um pouco mais no seu banco, querendo se desligar da conversa, e naquele movimento, derrubou as luvas que tinha deixado sobre os joelhos.

Then later a movie, too - and then home

Tinha derrubado a tampa da caneta e agora não conseguia mais encontrar. Estava a uns quatro mil metros acima do nível do mar, embarcada no Tren a las Nubes, no Norte da Argentina. E ia perdendo uma bela paisagem lá fora enquanto tateava pelo chão à procura de uma tampinha de caneta. Uma tampa verde horrorosa que ela vivia mordendo, mas que era, afinal, a tampa da sua caneta preferida.

Encontrou apenas um par de luvas embaixo do banco, e ninguém por perto que pudesse ser o dono delas. Achou estranho, mas não lhes deu atenção, apenas desistiu do que procurava, por um instante - e foi bem quando entrou no vagão um casal com instrumentos musicais. Ele trazia um violão e ela, um saxofone. Apresentaram-se dizendo que aquele era, seguramente, o ponto mais alto da carreira deles, e já começaram logo tocando uma das músicas de que ela mais gostava.

Olhou para o caderno e achou que já estava embriagada demais pela música, pela altitude e pelo balanço do trem, achou que estava começando a ver coisas, que não era possível, mas alguém tinha escrito algo a lápis, ali, enquanto ela não olhava. E não apenas qualquer coisa, mas "Perfect day" - que era exatamente o nome da música que estava tocando.

Oh, it's such a perfect day, I'm glad I spent it with you

Chegou um pouco mais para perto do namorado tentando se esquentar, mas ele estava concentrado afinando as cordas do violão. Olhou para as estrelas se sentindo pequena e cansada demais de ser pequena, mas ainda assim tranquila, tranquila, enquanto seus pensamentos se perdiam por aquele céu escuro. Perguntou-se qual daquelas estrelas estaria mais próxima da Terra, e por um segundo teve a impressão de ouvir claramente alguém dizendo "Proxima Centauri".

A fogueira estalou. Os grilos pareceram arquitetar-se um pouco. Estavam no alto de uma das muitas montanhas de um dos vários vales naquele ponto da fronteira entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Tinham ido passar o feriado no sítio de um parente dele. Então ele começou a tocar e ela se enrolou na coberta e ficou distraída com a fumaça que saía de sua boca quando respirava.

De repente, estranhou alguma coisa no bolso do casaco. Era um pequeno bloco de notas que ela nunca tinha visto e que não tinha a menor ideia de a quem pertencia ou como tinha ido parar ali. Vinha com um lápis de madeira que mais parecia um graveto enrolado na espiral.

- Que música é essa que você está tocando? - ela perguntou ao namorado. E ele respondeu, meio apressado entre um verso e outro, mas ela entendeu direito e anotou em seu novo bloco de notas: "Perfect day".

I thought I was someone else, someone good

A primeira coisa que viu quando abriu os olhos naquela manhã foi o rosto de Petra, mas ele ainda não sabia o nome dela. Ficou ali deitado, só olhando: era um rosto bonito, e ela dormia tão serena. As camas ficavam muito próximas naquele albergue, parecia até que se ele entendesse a mão…

Mais tarde se encontrou com ela na área comum e perguntou seu nome. Não entendeu direito da primeira vez, então perguntou "Pietra?". Ela balançou a cabeça, divertida e resignada.

- Os brasileiros sempre dizem "Pietra".

Ele a convidou para fazer um tour astronômico pelo deserto naquela noite, mas ela já estava de partida. Perguntou se ele tinha visto um pequeno bloco de anotações perto de sua cama naquela manhã. Era uma lembrança, não estava mais conseguindo encontrar, então disse que, se ele encontrasse, podia ficar com ele. Ele agradeceu, depois se despediu tentando não demonstrar o quanto lamentava ter que fazer aquilo.

No meio da tarde, quando ela já tinha ido embora, procurou um pouco em volta de suas camas para ver se dava a sorte de encontrar aquela lembrança. Mas tudo que conseguiu achar foi uma tampinha toda mordida e horrorosa de caneta verde.


 

sábado, 5 de junho de 2021


 


 

Parece que faz tanto tempo e
nada mudou no trajeto:
anseios
de quando seguíamos adiante
retornam agora com as ondas.

Eu te amo
– nem é preciso que eu diga –
bem mais do que o necessário.
Oh não deixe que a sobra
fique emperrada nos vãos
do que te move.

Parece
que os sonhos sempre escapam dos teus olhos
e tudo o que acontece é intransponível.
Parece.
Parece que nunca nos encontraremos.

Mas hoje,
enquanto a brisa brincar na noite,
suaves,
eu,

sábado, 29 de maio de 2021


 

Goiânia - GO
A realidade já estava aí quando eu cheguei, acontecendo sem mim, completamente indiferente ao que eu pensava dela. As latas de lixo transbordavam nas calçadas, as lojas de armas, ônibus lotados e uma lua imensa e amarela no final da rua, eu ia pela Avenida Anhanguera desde a Leste Oeste até a Goiás, tinha um festival de teatro acontecendo na cidade e cores pelas praças e anarquistas plásticos e eu pensava se algum milagre ia chegar correndo até mim desde Trindade, ou se eu olhasse pra trás ainda podia ver as duas estrelas juntas que eram Júpiter e Vênus. Poeira, excessos e bobagens de metrópoles, a realidade é que as realidades são tantas, nenhuma é menos, nenhuma é mais. Alguns amigos me esperavam perto do Zoroastro, alguém tinha sugerido um boliche, outro falou em cerveja, realidades arremessadas à procura de qualquer consonância, o mar de concreto engolia os meus olhos e o suor e as solas dos nossos sapatos, às vezes eu tinha a impressão de que jamais havia chegado a viver ali, apenas existia. Mas real, real. Punks, sertanejos e diabos velhos e o motor das máquinas, ternura calejada, uma alegria meio árida. Tudo era demais cidade, os corações de asfalto, a essa hora já deviam ter acendido há tempo as luzes dos postes, ou de esperanças ou memórias, ou qualquer coisa que brilhasse, mas ninguém sabia muito bem onde isso começava, então só tentávamos, e achávamos bem mais verdade estar em busca do que em posse das respostas.


 


 

sábado, 22 de maio de 2021


 

Mas então nem mais uma palavra emerge na sala dos quadros
Olhos azuis refletem no espelho um flerte uma procura de flores lá e aqui
Mas então cruza os braços e evita rir alto no salão de chá pra que ninguém perceba
Lábios doces de sorrir tão fácil e belezas de estar onde se queria ou quase
Mãos e manias de afago esperanças de afago unhas anéis dentes brancos saliva
Mas então uma fonte no quintal derramando evidências demais tão depressa e tão longe
Nem mais uma letra desenhando os papéis de um desejo tão mal disfarçado
A estampa do pano da roupa essas cores gritando e pedindo mais pele e mais pele mais perto
Na pele o sussurro de um sangue fervendo aquelas correntezas cada vez mais vorazes
Mas então nem mais uma promessa atravessando o portão pra fora e pra sempre e tão cedo
Aquele andar arrastado um olhar pra trás uma vontade de aceno pesando nos braços
Cabelos tão lisos tão claros tão livres perfumando a brisa pela última vez
Mas então um recorte no espaço onde antes um corpo talvez tenha tido alguma verdade
Árvores derrubando folhas buzinas milhões de pessoas e uma ausência palpável
Mas então nem mais uma forma que se veja exata nas fotografias da memória
A solidão absoluta numa praça e do universo nunca mais chegam notícias concretas


 


 

sábado, 15 de maio de 2021


 

Portoalto, 25 de julho de 2012

Daiana;

Eram planícies infinitas, córregos inesperados, a amplidão era quente e com cheiro de tantas ervas, as pontas dos meus dedos deslizavam nas costas da tua mão, tinha sol, já eram quatro ou cinco horas da tarde. E era um silêncio e duas respirações descansadas. Ou talvez na tua memória as cores não sejam assim tão vivas, nem os contornos tão claros. Depois foram séculos de pântanos e de penhascos todas as vezes que você não estava, uma visão da noite engolindo todos os espaços até que eu aprendesse as estações do nosso encontro. E eu te esperava, então, e eu te alcançava, e andei por longos caminhos onde você nunca existiu.

Muito rápido entendi que estar longe não evitaria os teus olhos grandes e redondos sempre sobre mim, conselhos não solicitados, retratos distorcidos, e já são tantas as coisas que eu não te perdoo, eu tenho tanta raiva quando você não liga, mas poucos foram os que me escutaram até o fim, raras as vezes em que gostei assim de mim mesmo por causa de impressões de alguém. Além de ser você mesma um evento de magnitude cósmica, a mordida na fruta madura, algo de mágico pairando muito depois de eu já ter descoberto o truque. Estendo a mão: tocar a tela não pulsa, a temperatura não fala, mas aí está você dançando comigo a mesma velha troca, um porto seguro entre as milhares de destruições em curso, ontem à noite sonhei que te abraçava, como foi teu dia, acho que sempre te amei.

E as distâncias que já percorremos nas galáxias, simples diálogos, a gestação eterna e constante: não te surpreende, ainda, o nosso entrelaçar cotidiano, não te parece fantástico?


 


 

sábado, 8 de maio de 2021


 

a fumaça, um zumbido. um código na tela, uma porção de regras, conspirações escancaradas. covardes que reinam, covardes que obedecem e se calam. a neblina, uma curva na estrada à beira de um penhasco, um nome apagado, a solidão, inverno, dor. dor violenta, dor brutal e contínua. aplausos sobre um coração sendo destroçado. um turbilhão, um furacão, redemoinho, a escala distorcida das relevâncias e todos juízes ao redor, de mãos tão limpas, e se é que se pode chamar de juiz alguém para quem a única sentença é sempre 'condenado'.


 

sábado, 1 de maio de 2021


 

o poeta, então,
deitou-se na relva
as palmas das mãos na terra

e em seus ouvidos, pequenos insetos começaram a sussurrar os segredos do solo, e pelas pontas de seus dedos começaram a chegar vibrações, nutrientes, mistérios...

Primeira Era
O poeta aprende, seu sangue é derramado. As pessoas que passam o agridem, vagabundo sem-vergonha, algumas chegam à violência física, a maioria apenas cospe. O poeta está escutando o planeta, já conhece os fundamentos do surgimento da vida.

Segunda Era
O poeta é esquecido por todos, em suas veias corre seiva. Aparecem as primeiras formas de vida surgidas somente pela sua vontade: fungos, vermes, aranhas tão pequenas que mal podem ser vistas a olho nu.

Última Era
O poeta é engolido pela terra, em suas veias corre magma. A sua consciência se espalha em toda a superfície, mergulha com os abismos submarinos, sente sobre si o peso de todos os mares.

no centro de qualquer cidade
junto com os raios da aurora
uma flor estranha nasceu

os transeuntes não reparam. milhares, que vão e vem enquanto o sol sobe no céu, sem ver. a não ser por ela. aquela menina se aproxima, os olhos brilhando apaixonados, "você nasceu esta manhã", ela diz, com um sorriso nos lábios. a terra não chega a saber.

(E a menina também se vai, o coração aquecido,
uma luz tão mais viva.
E nem se lembra da flor, e segue uma vez mais absorvida
por seu dia a dia, alheia
à completa banalidade
daquele milagre.)


 

sábado, 24 de abril de 2021


 

era tarde aquela meia-noite
e insondáveis os sonhos dos outros
chegaram notícias
de amigos que haviam cortado os pulsos
e outros que se casariam em novembro

a brisa era muito quente pra um céu tão preto
e por que eu bebia refrigerante numa xícara

ninguém sabia onde se havia perdido o tempo
mas alguns alimentavam esperanças
chegaram notícias
mas eu já não acreditava mais em muita coisa

da janela aberta eu escutava o mundo
e as paredes tremiam quando os caminhões passavam
eu acendi um cigarro

será que alguém me sonhava
era vazia demais a madrugada da história


 

sábado, 17 de abril de 2021

Foz do Rio São Francisco,
divisa entre os estados do Alagoas e Sergipe
Eu sempre faço uma prece.

E eu sei que tinha alguma coisa na tua pele.
Me chamando pra mais perto.

Quem é R?

Eu ando tão cansada.

Já sei, tem muitos eus nessas frases.

E tinha alguma coisa na paisagem.


 

No alto da gruta ao lado da matriz, eu contava ao Lucas sobre a Serra da Canastra, a nascente do Rio São Francisco e a vontade que eu tinha tido de ficar por lá - "Não sei por que não fiquei", eu dizia, "cheguei tão perto disso". O mesmo estava acontecendo ao Lucas ali em São Tomé das Letras, mas eu ainda não sabia. Nem foi nessa ocasião que ele me contou - em vez disso, contou uma de muitas lendas transmitidas de geração em geração pela família de seu pai, algo que vinha de muitos séculos atrás e de algum lugar do sul da Ásia. Falava sobre um monte muito alto ao final de um longo e tortuoso deserto, em épocas ancestrais, e de um homem que havia sonhado a vida inteira em chegar ao topo desse monte, contemplar a imensidão da terra lá de cima. Ele se preparou durante muito tempo, era uma viagem perigosa da qual os únicos que haviam regressado tinham fracassado em completar o trajeto. E então partiu, enfrentou todos esses perigos, esteve à beira da morte, até o dia em que avistou o cume bem perto. Ele não estava cansado, nem ferido, sabia que podia chegar lá, não teria dificuldade nenhuma. Mas então algo desapareceu dentro dele, e ele já não sentia o menor impulso de continuar andando naquela direção. Parou, contemplou o alto do monte por um longo tempo, respirou fundo, deu meia volta e começou seu regresso.

Não sei quanto tempo ficamos em silêncio até que eu enxergasse lá embaixo, na rua, uma mulher dançando de um jeito que prendeu completamente a minha atenção. Meu coração acelerou, eu não podia acreditar, será, não podia ser, mas era. Eu procurei por aquela mulher por vários dias em Machu Picchu, não podia ser ela, e ao mesmo tempo era impossível não ser. E para provar que era ela, sim, claro, de lá mesmo de onde estava, longe, entre todas as pessoas possíveis na rua e na praça, foi para mim que ela olhou, sorriu e repetiu o mesmo gesto que tinha feito em Machu Picchu, cruzando as mãos em frente ao peito e inclinando levemente o tronco em uma saudação. Lucas não percebeu o meu silêncio tranquilo se tornar um silêncio perturbado, e se assustou quando me levantei de repente.

"Você está vendo aquela mulher de alaranjado?", perguntei, e ele disse "Sim, você pensou que fosse uma aparição?". "Vai atrás dela", falou, e eu disse "Eu vou, nunca vou me perdoar se eu não for. Mas não vai adiantar. Ela só veio se despedir."

E saí apressado porque a minha voz tinha começado a falhar.

Mas fui em vão, como eu já esperava. Mais uma vez, não consegui alcançar nem encontrar de novo aquela mulher, e nunca mais voltei a procurar por ela.


 

sábado, 10 de abril de 2021

Caminhada

I.

Agitação manhosa da manhã.
O longo despertar do corpo
nos passos lentos pela estrada de terra.
Eu sigo,
senhor deste templo de neblina e sono
e amo com uma preguiça espreguiçada
a sensação redescoberta de estar vivo.
Eu amo. Como se ouvisse vibrar no silêncio
a palavra viva da folha e da seiva.
Me chamam?... É só o futuro que espera.
Mas não, nada me apressa a encontrá-lo.
Não já. Logo terei chegado.
Deixo-me estar nesta ausência de formas,
deixo-me ver só desta vez este agora.


II.


Mistura a tua substância à minha,
a pura existência, o puro ser sem gênero.
Ou antes: mostra-te como um mapa
onde eu possa encontrar algo em mim que eu não fosse
e que és tu – algo de que eu nem suspeitava.
E me revela a mim mesmo assim: só no que pulsa lá fora.
E me contém com o me espalhar pelo mundo.
Embriagados da continuidade entre o ser e as coisas,
entre o meu corpo e o teu gesto,
entre o nosso riso e uma ideia só uma ideia de felicidade.
Desperta-me, enfim.
Devora devagar o meu desconhecer-nos.
Alimenta-me de sermos tão completamente outros.


 

III.


E permanece o mistério,
esse invisível nu.
O inalcançável, o inapreensível
– ambos preservam-se tais como eram
mesmo depois que adentramos sua morada.
“Nada?”, perguntamos, “Nem um ar de resposta?”...
Não nos respondem nada.
Onde o vazio não ampara, onde o silêncio é uma queda.
A própria sensação do indefinível
esquiva-se de ter um nome.

sábado, 3 de abril de 2021


(Diários de Machu Picchu #25)
"Não sei se eu já te contei", disse a Jéssica, "mas o meu primeiro amor foi um desastre. Eu mal sabia escrever, desenhava o nome dele com uns coraçõezinhos no caderno, até o dia em que a turma inteira descobriu. Achei que eu ia morrer de vergonha, não queria nunca mais voltar pra escola. Aí a minha mãe falou uma coisa que eu nunca mais vou esquecer, ela disse: quando zombarem dos teus sentimentos, não é de você que estão zombando. É assim que outras pessoas lidam com os sentimentos delas, é assim que elas acham que os sentimentos devem ser tratados. E você acha que elas não sentem? Você acha que elas podem tornar a tua vida um inferno, mas pra chegar a isso elas já tem que ter tido as almas delas condenadas antes."

"Não deixe", ela falou depois, "não permita nunca que uma pessoa faça você se sentir mal consigo mesmo, não acredite nunca numa pessoa assim que se diga sua amiga."


(Diários de Machu Picchu #29)

sábado, 27 de março de 2021

Colón - Argentina
Rio Uruguai, fronteira com o Uruguai


"E se vierem cantores e bailarinos e tocadores de flauta
– comprai também seus dons.
Pois eles também coletam frutas e olíbano, e o que trazem, apesar de feitos de sonhos, 
são vestimentas e alimentos para as vossas almas."

(Khalil Gibran, O Profeta)


Dia 2.
O dia inteiro subindo e descendo essa ladeira entre o camping e o centro da cidade para resolver assuntos burocráticos de uma vida que já não é minha, faz a gente pensar, será que a vida é mais minha agora? É, eu penso demais, fiquei pensando por que será que na Argentina chamam as lan houses de cyber café mesmo se na maioria dos casos não tem café nenhum sendo servido no local. Aliás, também nunca entendi por que no Brasil chamamos as lan houses de lan houses, mas é assim, a gente não pergunta o significado do rio. Ou então, antes de tudo, eu perguntaria por que é que na Argentina, no Uruguai e talvez em países de língua espanhola no geral, as pessoas dizem "de nada" como se o seu "obrigado" tivesse sido uma ofensa grave, ou sei lá, é engraçado, você diz gracias e a pessoa agita a mão no ar como se espantasse uma mosca, impaciente, ¡ah! ¡por favor!.

# Mas para que pensar nisso quando se tem pela frente toda a vastidão dourada da Terra e acontecimentos imprevisíveis de todos os tipos estão à espera, de tocaia, para te surpreender e te fazer ficar satisfeito simplesmente por estar vivo para presenciá-los?

Quem poderia imaginar, por exemplo, que eu viria acampar aqui nos mesmos dias que o grupo de teatro mais improvável de que já tive notícia: um grupo mambembe de jovens cristãos, não ligados a nenhuma igreja, com um repertório incluindo várias adaptações de histórias bíblicas, discussões de atualidades e lições dos evangelhos, além de uma prática interessante de improvisações em apresentações de rua. Andaram excursionando pelo Uruguai, agora estão fazendo uma pausa em Colón antes de iniciar um novo giro pela Argentina. Tudo ao contrário dos meus caminhos de agora... Tudo? Não, nem tudo.

No fim da tarde, terminei de ler O Profeta e fiz como decidi que ia fazer em toda a viagem: larguei o livro exatamente no lugar em que acabei de ler. No caso, era um pequeno muro de pedras perto do rio. Fotografei, antes, o desenho que fiz no verso da capa, aquela rosa em chamas – a parte mais triste de me desfazer do livro é ter que me desfazer também desse desenho. Mas aí aconteceu isso, agora há pouco voltei a ver o livro nas mãos de uma moça lá na arquibancada da quadra de esportes. Eu estava voltando dos vestiários, tinha ido escovar os dentes, e de repente escutei alguém gritar "Cristina, Cristina", aí fui olhar, ela estava lá, com apenas a capa do livro aberta. Acho que na hora eu sorri. Não sorri? Devo ter sorrido.

* Tente ter amor pelas próprias perguntas, como quartos fechados e como livros escritos em uma língua estrangeira. Não investigue agora as respostas que não lhe podem ser dadas, porque não poderia vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Viva agora as perguntas.





Dia 5.
Ficamos conversando na arquibancada da quadra de esportes, nem vimos quando anoiteceu. Eu e o Juan começamos a provocar os outros dois para descer até a quadra e declamar um poema cada um, já que eles insistiam em dizer que gostavam, sim, de teatro, que conheciam poetas, que não eram pibes sem cultura. No fim fui eu que acabei abrindo o meu caderno e lendo para eles alguns trechos do

(#) On the road, de Jack Kerouac; e do
(*) Cartas a um jovem poeta, do Rainer Maria Rilke.

– Vocês vão gostar disso aqui, olha só – falei, mostrando no caderno. – É uma carta de um titereiro venezuelano que queria morar em Colón e escreve pedindo ajuda para comprar uma casa. E termina dizendo: “Mas a casa tem que ter uma árvore. Entendeu? Mesmo que a casa seja somente uma árvore. Eu sei que à sombra de uma árvore em Colón podem viver maravilhosamente uma mulher, um homem, seis crianças, uma cadela, dois gatos e alguns amigos que queiram conversar e tomar vinho.”

Todos concordaram, é claro, estava óbvio. Bom, pelo menos assim deixei passar mais uma ótima oportunidade de declamar um dos sete mil, oitocentos e trinta e dois sonetos que decorei entre a infância e a adolescência – lamento, Cruz e Souza, eu nem saberia como fazer isso em espanhol. Aí o Juan se animou, desceu as arquibancadas e parou perto do círculo central, virou-se para nós para o que esperávamos que fosse a apresentação de algo bíblico ou cristão ou, sei lá, qualquer das coisas que ele faça lá na trupe, mas ele começou a dizer o coração da noite é escuro e eu não sei onde estou indo e não sei se vale o perigo de ir, embora o perigo seja quase um destino em si mesmo, e dentro do casaco tem um bilhete que eu não entreguei por covardia, um número de telefone que eu não tenho, uma voz que eu não tenho, pernas, movimento, o vento seco vem dançar sem graça na concha vazia de um ponto de ônibus, e ali

Nunca soubemos como terminava aquilo porque nessa hora a quadra foi invadida por um grupo pequeno mas terrivelmente barulhento de crianças com uma dessas bolas gigantes e leves e muito alaranjadas e fluorescentes.

* Não temos motivo algum para desconfiar de nosso mundo, pois ele não está contra nós. Caso possua terrores, são nossos terrores, caso surjam abismos, esses abismos pertencem a nós; caso existam perigos, então precisamos aprender a amá-los.





Dia 7.
Éramos apenas eu, Juan e Cristina à beira do Uruguai. Eles contavam histórias da trupe, eu falava sobre as minhas próprias crenças cristãs e de como é raro encontrar pessoas que consigam diferenciar o cristianismo desse igrejismo todo de hoje. Quem dirá um grupo grande de pessoas que, além disso, viajam juntas por aí fazendo arte. Eu mal sabia expressar o quanto admirava os dois, e como sabia que aquele momento que estávamos já estava sendo gravado para sempre na minha memória. Os dois seguravam as mãos, às vezes, depois soltavam, livres e um do outro - e em paz. Sim, estávamos em paz, os três.

Então eu contei que não era batizado porque na igreja dos meus pais uma pessoa só se batiza quando ela quer, se quer. E o Juan disse que Jesus mandou batizar todo mundo, inclusive as crianças, e eu disse é mesmo, ele fez isso quando foi se batizar no deserto e falou pra multidão sair e batizar todo mundo, não que só os sacerdotes podiam batizar ou que elas só podiam ser batizadas depois de duzentos séculos de escola dominical. Aí a Cristina disse muito bem, mas se não precisa nem de um sacerdote para se batizar então você não tem nenhuma desculpa para não ser batizado ainda. E depois falou vamos te batizar agora se você quiser.

* As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou.

Tantas coisas convergiam naquele instante, era um desses momentos tão raros em que nos sentimos fazendo algo que estávamos predestinados a fazer, ao mesmo tempo em que não abrimos mão do livre arbítrio. Sim, somente assim eu poderia ter sido batizado, só poderia ter sido aqui, só neste amanhecer.

# ... e enquanto o rio descia pelo centro da América, sob a luz das estrelas, compreendi loucamente que tudo que eu jamais conhecera e tudo o quanto haveria de conhecer era apenas Um.





Dia 10.
Um jogo de amarelinha na calçada e complexas relações de ideias que eu levaria muito tempo tentando explicar me levaram de repente a fantasiar que voltarei a encontrar Juan e Cristina em algum outro lugar da Argentina em minha viagem, que os nossos caminhos vão se cruzar de novo sem que seja preciso fazer nada para garantir isso, que é só continuar indo em frente, cada um por seus caminhos, e vamos nos encontrar de novo como se estivéssemos nos procurando.

# Que sensação é essa, quando você está se afastando das pessoas e elas retrocedem na planície até você ver o espectro delas se dissolvendo? - é o vasto mundo nos engolindo, e é o adeus. Mas nos jogamos em frente, rumo à próxima aventura louca sob o céu.

Terminei de guardar as coisas na mochila e saí sem ter mais de quem me despedir. O camping parecia mais triste sem o grupo deles por lá, mas nem por isso achei fácil ir embora. Talvez ainda pensasse naquela história da casa-com-uma-árvore-mesmo-que-a-casa-seja-só-a-árvore. Mas também ainda pensava que eu podia ter ido embora com a trupe, ou que podia ir a Buenos Aires antes de cruzar a fronteira com o Uruguai, ou que tantas coisas, tantas. A bagunça ainda está grande, afinal, não caiu nenhum raio do céu, não adquiri nenhum superpoder inesperado, o que doía continua doendo, às vezes muito, às vezes igual.

* Não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem temor de que o verão não possa vir depois. Ele vem apesar de tudo.

Comprei passagem para o próximo horário, mas tinha ainda muito tempo e decidi começar a ler meu próximo livro ali mesmo, enquanto esperava. Resisti à tentação do cyber café, mas não à de um café de verdade, que no fim acabou combinando muito bem com a leitura. Quando estava saindo, me despedi do garçom, e quando agradeci pelo atendimento, ele revirou os olhos e respondeu aborrecido ¡no hay por que!.