sábado, 25 de setembro de 2021





 

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Hoje. Faltou ar. As queimadas, a gente via, quando passava pela estrada, campos carbonizados. Setembro no cerrado, o rastro da seca, o amarelo e o preto, hoje era sem respirar, nas cinzas. Cinzas turvam a luz. O fogo, as cinzas distorcem a luz, o fogo derrete as forças. Sem ar, sem mal poder ir. O sol se pôs na fumaça, bem antes de tocar o horizonte.

sábado, 18 de setembro de 2021



(Quatro palcos dispostos em relação ao público de modo que cada espectador seja obrigado a girar sobre seu próprio eixo para observar todos eles. Entre os palcos, tablados alternativos e telões projetando imagens de outros palcos, de modo que os espectadores não sejam obrigados a ficar girando para acompanhar o que acontece em todos eles, simultaneamente.)
PRÓLOGO

(Em um dos palcos, estão L e Pâmela; em outro, Karina; em outro, Ludo; em outro, Mano. Diogo está em um tablado alternativo e transita para o palco em que está Karina. Tudo o que Ludo e Helena falam no Prólogo é dito ao microfone, localizado no palco em que Ludo está inicialmente, mas nunca, em toda a peça, ele e Helena aparecem juntos. Para se trabalhar a musicalidade das falas, deve-se observar, ao longo de todo o texto, os momentos em que elas possam ser ligeiramente sobrepostas.)

PÂMELA: Você se lembra de como era estar presenciando um milagre?

KARINA: De novo! É a voz dela!

MANO: Milagre? Você ainda chama aquilo de "milagre"?

LUDO: Alô, alô. Som, teste.

KARINA: É ela, só pode ser. E falando em milagre.

MANO: Fala! Por que isso, agora? Você quer o quê?

LUDO: A. A. Som, testando, um, dois.

KARINA: Eu preferia até que ela não tivesse usado essa palavra. É horrível.

MANO: É me enlouquecer, que você quer? Aparece!

LUDO: Teste, som. Helena, você está me ouvindo? Alô, Helena? Um, dois, teste. A. A.

DIOGO: Isso precisava parar em algum momento.

LUDO: Eu ainda não consigo entender direito, eu não sei se eu acredito em você.

DIOGO: Isso precisa parar. Isso vai parar.

LUDO: Helena. Isso é tudo sobre você.

DIOGO: Mas como que você coloca ordem em um milagre? Uma coisa que precisa romper com tudo aquilo que você considera possível existir.

LUDO: E eu sinto como se… eu pr... você... devia estar aqui.

PÂMELA: É só isso que é importante pra você? É só o dinheiro?

L: Estar certo, também.

PÂMELA: E quando você pretende começar?

DIOGO e LUDO: Tudo começou em uma tarde de primavera há alguns anos, perto do mar, um fim de semana agradável, uma coincidência agradável reuniu este grupo improvável de pessoas, corpos entulhados de pensamentos, sentimentos, tempo, mas as pessoas que chegaram lá eram outras, elas ainda podiam acreditar que a realidade é só isso que nós podemos ver, tocar, medir e encaixar em algum sistema lógico, nenhuma daquelas pessoas voltou, levamos todos esses anos pra descobrir, ainda nem sei se já descobrimos tudo, se existe mesmo isso de descobrir tudo, mas é por isso que eu vim aqui hoje, é por isso que eu estou falando com você, esta é a minha história e ela ainda sangra como uma ferida aberta, isso precisa parar em algum momento, isso vai parar.

PÂMELA: E quando você pretende começar?, eu deveria ter dito.

KARINA: É ela, sim, tenho certeza. Isso não para.

MANO: Foi assim que isso começou. Foi assim que você disse.

KARINA: Você lembra o nome dela? Carla? Clara?

MANO: Como é que eu poderia esquecer?

KARINA: Eu acho que ela tinha tantos nomes… Verônica, Valentina…

MANO: Meu amor. Você está aí? Pâmela.

KARINA: Pâmela. O nome dela era Pâmela.

MANO: Você está aí?

HELENA: Sim, eu estou aqui. Eu sempre estive aqui. Você não me enxerga aqui, é isso?

DIOGO: Você precisa de ajuda.

KARINA: Eu posso muito bem lidar com isso sozinha, obrigada.

DIOGO: Meu amor, você tem ouvido vozes e isso está te fazendo mal.

HELENA: Tem que ter uma explicação lógica pra isso tudo.

KARINA: Eu quero voltar para lá, Diogo. A gente precisa fazer alguma coisa.

HELENA: Às vezes eu acho que eu morri.

DIOGO: Ela está morta! Faz anos! O que você acha que tem pra ser feito?

KARINA: Eu preciso descobrir, Diogo . É o único jeito.

HELENA: Ou… eu devo ter vivido um sonho. Não sei onde que fica a explicação lógica, ainda.

KARINA: E se você não quiser vir comigo, eu vou sozinha!

DIOGO: E aí eu fui. Claro. Pra dentro de um pesadelo, direto pra onde eu seria despedaçado, por que não? Isso não podia mais continuar, era a mulher que eu amava! Era a mulher com quem eu achei que passaria o resto da minha vida.

L: Você não vai. Fui eu quem te deu isso. Você nunca mais vai conseguir nada nessa tua vidinha de merda.

MANO: Sim, foi assim que começou. Pâmela. E você veio até a minha casa.

L: Você nunca vai ter nada!

HELENA: Isso precisa parar! (Silêncio.) Alguém… alguém poderia contar essa história direito?

DIOGO: Era o que eu estava tentando fazer aqui, mas você tinha que atrapalhar tudo.

KARINA: Helena?

HELENA: Oi!...Oi, é você?

DIOGO: Tudo! Tem que atrapalhar tudo!

KARINA: Eu vou te encontrar, Helena. Eu não vou deixar que nada aconteça com você. Não como aconteceu com ela.

DIOGO: Como eu estava contando. Direito. Como eu sempre estive.

LUDO: Eu vou te encontrar, Helena.

KARINA: Helena?

DIOGO: Era tudo sobre Helena. Eu deveria ter visto já naquela noite. Eu tinha concordado em voltar com a Karina pra onde tudo tinha acontecido. Eu não sei por quê, eu sentia que era o que eu precisava fazer. Ajudar a Karina, minha mulher. Ela não estava bem, ela estava ouvindo vozes, vozes de outras mulheres, a voz de uma mulher que tinha morrido.

KARINA: O nome dela era Pâmela.

L: Ninguém quer ouvir essa história. Você nunca vai ter nada.

(Longo silêncio.)

PÂMELA: Você se lembra. Você se lembra de como era estar presenciando um milagre.

(Blecaute.)

PÂMELA: Você sabe que é isso que está acontecendo agora?

HELENA, ao mesmo tempo: Você sabe dizer o que está acontecendo agora?

DIOGO, ao mesmo tempo: Quem está falando agora?

(Música. Cenas de praia nos telões enquanto passam os créditos iniciais.)

sábado, 11 de setembro de 2021


 

eu troco as horas jogo as chaves fora
às vezes eu te odeio pelas coisas mais idiotas
tenho umas manias que eu não vou mudar
e outras que até tudo bem
mas eu não quero que você vá embora
mas eu não quero

você nem olha você nem dá bola
é o choro que te engole se você não chora
você nunca prometeu que ia melhorar
e até que está melhor que ontem
eu só não quero que você vá embora
é só o que eu não quero

virão tempestades e destroçarão uns troços
a vida terá de trevas um tanto
dói
nem precisava eu te contar
mas não me peça pra te ver indo embora
não vai embora

eu vou sobrar eu fico quieto no meu canto

sábado, 4 de setembro de 2021


 

Valparaíso - Chile
Então agora as cordilheiras me separavam de tudo que eu já tinha vivido. Eu estava com a sensação de ter chegado a um limite, atravessado um espelho, era uma terra antípoda de tantas formas, a beira de um abismo, e então aqueles navios e máquinas imensas debruçadas sobre o Pacífico e uma ideia que me parecia um pouco impossível de algo ainda mais adiante, no sentido do amanhã. Naquela tarde, pela rua, eu havia pedido informação a uma mulher que passava meio carregando e meio sendo carregada pelas mãos por dois meninos pequenos, ela acenou com a cabeça e disse alguma coisa que para mim soou apenas como ma iá, levei um tempo para entender que era más allá, em português ninguém diria mais lá, talvez lá está, mas logo ali, claro, na direção em que ela acenava com a cabeça, e eu passei o resto do dia relembrando como aquilo soava, quase podia ouvir a forma como ela tinha dito, ma iá. Agora pensava em Pablo Neruda e em sua casa Sebastiana, em sua poltrona chamada Nuvem. Eu o sentia como uma presença real, tanto quanto é real alguém poder ser feito de América ou ter um coração ou mãos de humanidade, ele caminhava ao meu lado como um velho e tão querido amigo me mostrando a sua cidade, orgulhoso, confortável. Quando chegou a hora, ele se foi, deixando-me sozinho para que os meus pensamentos silenciassem, que já bastava a inquietação do tráfego e aqueles ventos fortes arremessando o mar contra as rochas, era o final da tarde e o ar gelado e marinho me acordava, não dava para saber direito se era um recomeço ou um fim, foi a primeira vez na vida que eu vi o sol se por no mar e não pensava em mais nada, só de vez em quando ainda escutava ao longe, mas bem ao longe mesmo, ma iá.


 

sábado, 28 de agosto de 2021

O amor existe, eu acho.

Pés descalços sobre a primavera,
corre sempre alguns passos à minha frente.

E é memória de um dia ter olhado nos olhos
e achar que estava enxergando pela primeira vez.

Sim, o amor existe, parece.

Tem o cheiro dos cabelos, o calor das mãos abertas
de alguém que não sei quem é, onde está, e que, no entanto,
vibra em algum canto do meu coração deserto.

E tem sorrisos. Lábios.
É muito vivo esse amor, se existe.

Agora o meu trabalho é no final do caminho das pedras,
semear e ser roubado, ou esmagado por máquinas;
agora eu sangro e suo e tenho o corpo sujo de fumaça
e já não penso sob o sol, secando a testa nas mangas;

mas se eu sonhasse à noite,
seriam sonhos de amor, eu acho.


 


 

sábado, 21 de agosto de 2021


(Diários de Machu Picchu #12)
A primeira vez que amadureceu, devia ter uns quatro anos, no sítio de um tio-avô
de quem gostava muito e onde sempre ia com a família passar dias seguidos.
Estava brincando com os primos e foram todos parar no alto de uma árvore
- e foi aí que aconteceu. Por toda a vida iria se lembrar de estar lá
no alto e da proximidade do céu entre as folhas, e então de ter olhado
para baixo e de compreender pela primeira vez, racionalmente,
o que era a queda e o que significava ser mortal.


 


 

Na primeira vez que amadureceu, tinha nove anos e meio e estava com o pai, que visitava um velho amigo, rico e influente, no começo de uma noite de sábado. Eles conversavam tediosamente no jardim de inverno e a criança deu um jeito de escapar, foi andar pela casa e acabou em um escritório que continha uma pequena biblioteca, o que para essa criança em particular era tão interessante quanto um quarto de brinquedos. Mas ela foi se interessar pelo livro que estava sobre a escrivaninha, e com toda a liberdade abriu-o e começou a ler. Descobriu que o amigo do pai tinha escrito em todas as margens, compulsivamente, coisas como "eles continuam tentando me derrubar", ou xingamentos, reclamações e as coisas mais estranhas que uma cabeça perturbada poderia pensar. Instantes depois, não era mais uma criança quem saiu daquele escritório.


 

A primeira vez que amadureceu, tinha acabado de completar nove anos e estava… Não, não gostava de se lembrar, muito menos de achar que algo assim pudesse ainda ter algum efeito sobre sua vida. E agora estava ocupado demais na organização de um protesto contra o monopólio da cultura norte-americana no mercado de arte nacional. Ele cresceu, suas ideias começaram a ser ouvidas. Pediram-lhe um roteiro, já tinham dois grandes atores para os papéis principais, ele quis começar com uma narração em off. "Na primeira vez que amadureci", dizia o protagonista, "eu tinha acabado de completar nove anos e estava sentado no colo do meu professor de inglês, com as mãos do cara dentro da minha cueca". Parou. Não, não gostava de lembrar, definitivamente, aquilo não prestava nem como metáfora política.


 

sábado, 14 de agosto de 2021


 

Ainda ontem eram animais estranhos lascando pedras pra virarem flechas
Hoje mesmo, quando amanheceu, ainda eram animais estranhos lascando pedras pra virarem flechas
Na hora do almoço, ergueram civilizações sobre muito sangue
Só que eu não posso estar triste
O momento é de fazer apostas em hipódromos políticos
Ou será que não aprendemos nada com os grandes mestres artistas de algoritmos
Ainda agora sustentam civilizações com sangue
E fogem ao menor sinal de verdadeira humanidade
Não muda nada se dói em mim
Me falta ouvir o oráculo das suas celebridades
Mais sombras áridas a transbordar de celulares
A fumaça do café, a fumaça de um cigarro subindo em espirais brancas, cinzas e
Maçãs na tarde, quem sabe o vermelho imprevisto das camélias
Nem sei mais o que eu digo
O pôr do sol através da chuva lambuza de luz o concreto
Mas nunca se está longe o bastante pra se deixar de ouvi-los
Gritando orgulhosos
Enquanto ainda atiram suas flechas


 

sábado, 7 de agosto de 2021


 

O mofo não saía da sua parede, o calo no calcanhar do único sapato bom que tinha pro trabalho. Era muito baixo, magro e desajeitado, as pessoas costumavam tropeçar nele, literal e metaforicamente de maneiras até demais. Ao que tudo indicava, seu maior defeito, além da falta de bíceps definidos, era gostar de poesia e vodca barata. Mas também pagava o dízimo - o farelo da migalha que sobrava - e trabalhava como um condenado de segunda a sábado.

E amava Lili, que não amava ninguém. Menina de igreja numa faculdade de artes, artista plástica extraordinária, um amor, cheia de vida e curiosidade. Foi ela que lhe falou pela primeira vez sobre Andy Warhol, Gaudi, foi ela que lhe ensinou o que significava a palavra "vanguarda". E gostava dele, mas não assim, nem queria pensar nisso agora, eles eram tão jovens. Até que ela conheceu o filho de um empresário meio famoso de uma capital meio conhecida em um país meio importante e desapareceu.

- Arte, ok, desde que seja bela - repetia o herdeiro que ela tomou por príncipe encantado. Dizia isso e depois dava uma risadinha arrogante, de quem conhece com profundidade a Matemática das Belas Artes, e como se a sua noiva fosse uma criança ingênua brincando de pintura em uma escolinha de fundo de quintal.

Ele não discutia política, é claro, mas achava que se todo mundo se esforçasse bastante, mas bastante mesmo de verdade, qualquer um poderia se tornar assim como ele! Falava sem parar e sempre encontrava um jeito de fazer a pessoa que ouvia se sentir mal consigo mesma, e ainda achar que se reagisse, estaria apenas confirmando que ela não prestava. Meio que o contrário do amor, ele era. Mas quando falava de amor, ninguém mais tinha razão, ninguém além dele mesmo compreendia.

O mofo não saía da parede. O calo no calcanhar, migalhas.


 


 

sábado, 24 de julho de 2021


 


 

Naquela noite, começamos a criar as cenas no improviso e a escrever as primeiras linhas do texto. Escolhemos nossos próprios nomes pros personagens, apesar de que, como era tudo inspirado em contos de autores nacionais, ficava claro o tempo todo que eram só personagens. Começamos a discutir o título enquanto esperávamos a pizza e alguns de nós terminavam de se arrumar pra voltar pra casa. Frases dos contos, títulos dos contos, a Gabriella sugeriu que a peça se chamasse "Gabriella", o Mateus olhava em silêncio pela janela: a noite iluminada e barulhenta no centro de Curitiba.

Entre clichês e absurdos, a Larissa telefonou pra casa e o Mateus foi se sentar do lado da Gabriella, assim como quem não quer nada. Eu e a Jéssica imediatamente nos olhamos - tínhamos falado sobre os dois naquela mesma tarde...

- "Três lírios no peito" - falou a Larissa, voltando pra perto de nós.

Todo mundo ficou pensando naquilo por um tempo, parecia que tínhamos chegado a algum lugar. Mas era sempre uma história de que isso favorece só um conto, só um personagem, ou então é bobo, brega, alguém fazia uma piada e tudo se perdia.

Em pouco tempo, a Jéssica se cansou e decidiu colocar uma música, mas no fim, o interfone tocou antes do refrão, começou um movimento todo de juntar o dinheiro, ir pegar os copos, o Mateus e a Gabriella entraram em uma conversa só deles e eu fui até a janela olhar um pouco pra cidade do décimo andar.

Todo mundo sabe que, no exato instante em que se abre a primeira caixa, não tem nenhuma importância se é o maior clichê um ensaio terminar em pizza. Os ruídos de conversa desapareceram nos primeiros minutos, depois o silêncio terminou em comentários como "essa de frango com catupiry está uma delícia''. Mais alguns minutos de silêncio e de repente o Mateus falou:

- "Já pretendia amar".

E todo mundo gostou, mas ficou se perguntando se ele ainda estava falando de um título pra peça.

 



 

sábado, 17 de julho de 2021


 

Era o sorriso mais claro, uma ternura assim de sono ou qualquer coisa tão macia, sem contar a pele, as ondas da voz dela dizendo eu te levo lá não se preocupe, o nome dela combinava com tudo, era leve, usava a sua roupa mais alegre,

por muito menos eu esqueceria quem eu era ou onde estava indo, e ela me deixando olhar aquelas pernas, um balanço quase distraído caminhando à minha frente, perto o bastante pro perfume dos cabelos, os pelos meio arrepiados do seu braço,

quando um caminho na floresta as árvores mais altas das mais densas matas só nós dois libertos, lábios úmidos trocando uma conversa boba e então a blusa meio levantada, a risada de deleite e nervosismo, um gesto aproximando os corpos como num repuxo,

o quente se juntou ao quente, um grande afeto transbordado pra mais dentro, os dedos, o delírio até sons graves cantam pássaros terrestres, mergulho mais maravilhado, fluidez de busca encontro busca e êxtase encontrado, o paraíso então é carne,

espalha num repouso largo a sede satisfeita e pétalas e pólen, silêncio em todo o vasto território da união das nossas palmas, eu ficaria ali pra sempre entrelaçado a ela no oceano verde, o instante quieto de depois de ter nascido um universo,

mas me lembro com o corpo inteiro de ter visto a claridade do sorriso dela, murmurar seu nome o cheiro a pele que eu pensava que sonhava, doçura adormecida de nudez da selva, céu achegado, calma, a sensação de que no mundo tudo nos adora.


 


 

sábado, 10 de julho de 2021


 


 

Dormir na rede nunca foi um problema, e apesar de estar fazendo um frio meio fora do normal, naquela noite, também não era por isso que eu não estava conseguindo dormir direito. Eram por volta de três ou quatro horas quando resolvi me levantar um pouco e caminhar até a beira do rio, arejar a cabeça, não sei, quem sabe encontrava o sono em algum canto. Ninguém se moveu nas outras redes enquanto eu me afastava, nem havia nenhum sinal de gente acordada, ou que acordasse enquanto eu cruzava a comunidade em direção ao rio com a minha lanterna.

O rio estava cheio, e caía uma garoa fria e fina que eu jamais pensei que fosse ver cair no meio da Amazônia. Sentei-me à beira da água embrulhado em meu casaco, o gorro protegendo a cabeça, e por um instante a familiaridade do clima me distraiu, não estranhei quando reparei na canoa que vinha subindo o rio, lentamente, com um único homem que usava um remo muito grande. Ele se aproximou devagar e eu apenas esperei, como se estivesse prestes a receber um velho amigo.

- Boa noite - ele falou ao chegar mais perto.

- Boa - respondi, e eu mesmo reparei na animação da minha voz, quase destoando do clima e do horário.

Ele encostou o barco e desceu, deixando para trás o grande remo que, notei então, tinha algum tipo de escultura na alça. O homem era pequeno e meio claro para os padrões dali, com uma barba cujo avermelhado se destacava até na luz fraca e meio indireta da minha lanterna.

Ele se sentou ao meu lado e começou a enrolar fumo sem conversar muito, disse que se chamava Aru e que estava indo até a cabeceira do rio, mas estava com uma preguiça gigante - ou pelo menos foi isso que eu achei que ele tivesse dito, não entendi direito. Era calmo, falava pouco e devagar, parecia perfeitamente confortável com a garoa fria e fina e fumou tranquilamente embaixo dela até não restar mais quase nada em seu palheiro. Quando foi embora, remando muito devagar rio acima, eu tinha tanto sono que podia dormir ali mesmo. Para ser sincero, nem me lembro direito de como voltei para a rede, tenho só lembranças meio borradas como as de um sonho, ou como se elas fossem inventadas.

Só muito tempo depois me falaram sobre este ser mítico que sempre aparece no Médio e Alto Rio Negro em época de cheia. Ele provoca o frio e a chuva fina com seu remo de alça entalhada - um remo que pode dar poderes especiais a quem se apossar dele. Em sua viagem, Aru acaba provocando um dia ou dois de frio e garoa, às vezes uma névoa tão densa que mal se pode enxergar a outra margem de um rio, mesmo durante o dia.

Mas naquele tempo, eu ainda não sabia de nada disso. Quando acordei, pela manhã, só achei que a névoa caía bem na paisagem, por mais que ainda a estranhasse ali. Todos na comunidade pareciam mais quietos e lentos, o café demorou um pouco mais a sair. Seu Filisbino, nosso anfitrião, apareceu quando já começávamos a encher os primeiros copos.

- Chegou Aru - disse ele, animado.

- É, ele parou um pouco à noite - falei - mas continuou subindo o rio.

Aí Seu Filisbino passou o resto do dia olhando para mim com cara de desconfiado.


 

sábado, 3 de julho de 2021


 


 

Por que esses jovens em aquários em armários enlatados
Em telas alienados em ideologias nas igrejas nas escolas
Apartados
Doutrinados de algoritmos mercados e descaso
Porque esses jovens bravos bárbaros fantásticos
Arremessados sempre em frente reinventando o agora
Inteiros suas respostas
Ardem e ignoram o quanto ardem e ignoram tanto
Até quando
A juventude não existe a juventude nunca deixou de existir
Promessa contínua agitação de espera
Não importa o que ela faça ainda não é sua vez
A juventude já caducou faz séculos
Parece que ela acaba de voltar à moda


 

sábado, 26 de junho de 2021


 

Tinha acabado de passar uma série de tornados nos Estados Unidos, os passageiros à nossa frente discutiam detalhes do casamento do Príncipe da Inglaterra, eu estava intrigado com o que tinha visto em umas placas pela rua e Joaquin, não sei, fazia meia hora que olhava para um cartaz que dizia "O diretor de cinema Francis Ford Coppola apoia a candidatura das Cataratas do Iguaçu a uma das 7 Maravilhas da Natureza".

- Ali, Joaquin - falei, apontando pela janela quando passamos por mais uma daquelas placas que tinham chamado minha atenção.



- Já ouviu falar sobre isso?

Ele revirou os olhos com uma lembrança dolorosa:

- Eu segui essas placas, uma vez, pra ver onde iam dar. Elas continuam mandando seguir em frente na próxima rua, e isso até acabar o asfalto, no limite na cidade. Eu andei até lá, as placas acabaram, cheguei a perguntar por ali, mas ninguém nunca tinha visto nem ouvido falar...

Ficou em silêncio, ainda agitando a cabeça em negação. Refleti um pouco sobre aquilo e concluí:

- Seja o que for, fez você avançar bastante.

Ele riu. Lembrei do culto budista que eu tinha perdido por aqueles dias, lembrei dos nomes Bhadra e Nantimitolo e de um guardião com seis anéis em seu cajado, poderes sobre o inferno e a promessa de salvar todos os seres que sofrem por lá.

- Eu vivo viajando - ouvimos alguém dizer ali perto. - Mal tenho tempo de ver a minha família... Mas é o meu trabalho, né? Essa história de 'meu amorzinho, eu não vivo sem você' é tudo mentira. Eu não vivo é sem dinheiro.

Então naquela hora eu me esqueci de um bom mantra para eliminar as aflições e sofrimentos, esqueci de não sentir o sonho triste que tinha tido à noite com um velho amor triste que teve um final triste, esqueci que nas Cataratas vivem devas, mas me lembrei de que a Secretaria de Turismo de Foz do Iguaçu é maior do que a Prefeitura.

- Sempre que eu passo por aqui - disse Joaquin, quando passávamos em frente a um bar chamado Wood's - tenho vontade de vir aí um dia desses. Deve tocar um rockzinho massa.

Foi a minha vez de rir.

- Um country é o mais perto disso que você vai ouvir aí. Eu não posso dizer que sei alguma coisa sobre onde que toca rock em Foz, mas sei que a Wood's não toca...

Joaquin olhava para os lados, com os olhos arregalados, ao mesmo tempo confuso e se divertindo, depois agitou os braços em direção à janela e falou, fingindo-se indignado:

- Mas como assim, Wood's? Toque!