sábado, 30 de outubro de 2021
… se o nome daquela cidade tinha a palavra "porto" ou era um nome de santo… a tinta do canteiro descascava, era tão colorido, talvez ele já conhecesse pelo nome qualquer pessoa que pudesse estar passando por aquela rua àquela hora da tarde… se o nome daquela cor era fúcsia, se o nome daquela flor era dente-de-leão, por que sempre os nomes, ele não estava conseguindo pensar direito… dois anos… o nome da cidade, qual era o nome da cidade… ele não aguentava mais seu trabalho, ninguém no trabalho aguentava mais ele, dois anos em coma, a família não permitia que ele a visse, ele já não tinha mais lágrimas, duas ou três mil pessoas na cidade e nenhuma delas poderia fazer nada se ele chorasse… Dália, ninguém mais tinha estado ao seu lado quando o pai morreu, mesmo que não literalmente ao lado, quando tudo que ele via eram frustrações e abandono… como era possível que ele nunca tivesse decorado o nome da cidade, o mais próximo que conseguiu chegar de Dália depois de atravessar o Atlântico, tarde demais, havia dois anos…
… somando as sobras e os desaforos, anônimo, Afonso achava até que tinha durado bastante…
...desceu até a praia quando começou a escurecer, latido de cachorros, cheiro de manga, aqui e ali um boa tarde como vai… quem sabe… a família não permite que ele a veja, foi ela que o salvou, agora ele não podia fazer nada, a alguns milhares de milhas de casa, por ela, sem ela, sem ninguém… sentou-se à beira da praia, a brisa era morna e salgada, as ondas não lhe permitiam o silêncio… um pouco antes, então, uns cinco anos atrás, quando ele entrou no site de paquera, e todo o tempo que levou até que Dália se transformasse na única pessoa que o ouvia e logo a única pessoa para quem ele contava tudo… mas tinham sido anos depois da morte da mãe, anos depois de sua separação e ao fim de um longo tempo em que ele não tinha o menor interesse por nenhum tipo de envolvimento emocional… ajuntou um graveto no chão, escreveu…
… mas se voltasse ainda mais e mais até o princípio de todas as coisas, não estaria também chorando ou sim, ou foi assim que nasceu Afonso, aos gritos… o nome daquilo que estava sentindo, os barcos dos pescadores, aquelas cores, em breve ele já não conseguiria mais sequer distinguir o verde e o vermelho, quem dirá o salmão e o âmbar… e o que mais só vai até o poente… as ondas, pensamentos recorrentes, a espuma que se extingue tão rapidamente, Dália, adormecida há dois anos, aquele isolamento absoluto… se uma garrafa, aquelas com mensagens, mesmo que Afonso não soubesse dizer se pensava naquilo porque gostaria de enviar ou de receber alguma, mal se lembrava do que fossem mensagens e não insultos, mensagens e não recusas, mensagens humanas e não hierárquicas…
… talvez… se ainda mais e mais e ainda tão longe no passado… talvez antes que houvesse o tempo, ou nomes e dálias que também fossem flores, só o que lhe parecia óbvio era que pensar tinha deixado de ser uma opção, fazia tempo, algo ancestral e só seu inundava, agitava-se, transbordava… então ele também era a maré, seria sempre, mas então por que também para sempre aquela mágoa estanque… e se ele não voltasse nunca mais… e se ele não voltasse nunca mais para lugar nenhum...
sábado, 23 de outubro de 2021
O dinheiro tocou às seis e quarenta e cinco, já era dia claro. Levantou-se, tomou um café, arrumou os cabelos, vestiu o seu melhor dinheiro. Embarcou no dinheiro às sete e vinte e três, achou que teria tempo de sobra, estava enganada. Distraiu-se com os dinheiros na internet, tutoriais de como aplicar dinheiros postiços, desfiles de dinheiro, o último dinheiro daquele seu dinheiro preferido. Só se atrasou quatro minutos porque foi correndo feito louca desde o terminal até o dinheiro. Mas mesmo assim, seu dinheiro olhou de cara feia, é a terceira vez só este dinheiro, você não tem mais dinheiro na cara. Passou o dinheiro inteiro tendo que aguentar o deboche e o sarcasmo de colegas que a odiavam gratuitamente. Fazer o quê, talvez ser alguém na vida não fosse o dinheiro dela. Talento ela tinha, só faltava dinheiro. Achou sinceramente que não teria dinheiros pra chegar em dinheiro aquela noite, sentia que havia sido sugada até a última gota do seu dinheiro. Quando encostou a cabeça no dinheiro pra dormir, nem percebeu a lágrima caindo. E deslizou pra dentro de um sono denso, profundo e sem dinheiros, bem longe das mágoas, bem longe da melancolia que esmagava o seu dinheiro.
sábado, 16 de outubro de 2021
Naquela
tarde
eu estava triste, achei que eu queria morrer
ou que eu estava desaparecendo no
...
(Música melancólica. Um quadro imóvel: o sol se pondo sobre as águas. Tempo.)
...
Devia ter uns seis ou sete anos. Puxou a cadeira ao meu lado, sentou-se e começou a falar como se fôssemos velhos conhecidos, me chamando de amigo. Conversa séria, olha aqui os meus cadernos da escola, a minha carteira de vacinação, os dinossauros desenhados. O pai esticou o pescoço por cima do balcão dizendo filho para de incomodar o cliente. O menino olhou para o pai em silêncio, depois para mim, de volta para o pai e disse eu gosto de cliente. Quando a minha comida chegou, foi até a cozinha e trouxe de lá um grande pedaço de pão e um copo com água, sentou-se outra vez ao meu lado e continuou a conversa, me acompanhando por todo o jantar. Seu nome era Santiago, meu amigo.
sábado, 9 de outubro de 2021
Sólido, se move, é lógico, mas sente. A gravidade tocando a pele, enquanto algum vulcão imaterial emerge nos gestos. Variáveis demais e improbabilidades, mosaicos de milhares de camadas mais ou menos formando uma imagem que alguns chamarão de caráter, outros, de personagem. Névoa, nada mais que um vulto da totalidade incomunicável, a unidade alongada no tempo, reconhecida no instante e às vezes diversa, dispersa, díspar. Tentando permanecer, tentando alcançar, tentando. Acumulando passo a passos. Engendrada em seus padrões, mas toda ela massa, música, eletricidade. Lábios e mãos. A impressão de que a existência pesa, embora um êxtase. De que o mistério se revela em susto, embora nunca acabe.
sábado, 2 de outubro de 2021
Há uma lenda segundo a qual o império inca surgiu às margens do Titicaca, mais precisamente onde hoje está localizada a cidade de Puno, no Peru. O lago está na fronteira entre o Peru e a Bolívia, espelhando o céu bem de perto, a quase quatro mil metros do nível do mar. Meu primeiro contato com ele foi justamente em Puno, onde peguei um barco para ver as Ilhas Uros, ilhas flutuantes povoadas por indígenas que também se chamam Uros. Em cada um daqueles quadrados de terra coberta de palha mora mais de uma família, flutuando à margem do Titicaca. O líder do conjunto que visitei contou que seus antepassados deixavam as ilhas soltas pelo lago, mas que hoje eles já não podiam fazer isso porque correriam o risco de ir parar acidentalmente na Bolívia e acabariam todos presos por falta de passaporte. Não sei se ele estava brincando, algumas pessoas riram, no mínimo era absurdo, mas achei mais triste que engraçado. Eu estava fascinado pelo que via, imerso em uma sensação de pura mágica, e bem que gostaria de me deixar ir com uma daquelas ilhas para onde já não houvesse mais nenhum império.
sábado, 25 de setembro de 2021
Hoje. Faltou ar. As queimadas, a gente via, quando passava pela estrada, campos carbonizados. Setembro no cerrado, o rastro da seca, o amarelo e o preto, hoje era sem respirar, nas cinzas. Cinzas turvam a luz. O fogo, as cinzas distorcem a luz, o fogo derrete as forças. Sem ar, sem mal poder ir. O sol se pôs na fumaça, bem antes de tocar o horizonte.
sábado, 18 de setembro de 2021
(Quatro palcos dispostos em relação ao público de modo que cada espectador seja obrigado a girar sobre seu próprio eixo para observar todos eles. Entre os palcos, tablados alternativos e telões projetando imagens de outros palcos, de modo que os espectadores não sejam obrigados a ficar girando para acompanhar o que acontece em todos eles, simultaneamente.)
PRÓLOGO
(Em um dos palcos, estão L e Pâmela; em outro, Karina; em outro, Ludo; em outro, Mano. Diogo está em um tablado alternativo e transita para o palco em que está Karina. Tudo o que Ludo e Helena falam no Prólogo é dito ao microfone, localizado no palco em que Ludo está inicialmente, mas nunca, em toda a peça, ele e Helena aparecem juntos. Para se trabalhar a musicalidade das falas, deve-se observar, ao longo de todo o texto, os momentos em que elas possam ser ligeiramente sobrepostas.)
PÂMELA: Você se lembra de como era estar presenciando um milagre?
KARINA: De novo! É a voz dela!
MANO: Milagre? Você ainda chama aquilo de "milagre"?
LUDO: Alô, alô. Som, teste.
KARINA: É ela, só pode ser. E falando em milagre.
MANO: Fala! Por que isso, agora? Você quer o quê?
LUDO: A. A. Som, testando, um, dois.
KARINA: Eu preferia até que ela não tivesse usado essa palavra. É horrível.
MANO: É me enlouquecer, que você quer? Aparece!
LUDO: Teste, som. Helena, você está me ouvindo? Alô, Helena? Um, dois, teste. A. A.
DIOGO: Isso precisava parar em algum momento.
LUDO: Eu ainda não consigo entender direito, eu não sei se eu acredito em você.
DIOGO: Isso precisa parar. Isso vai parar.
LUDO: Helena. Isso é tudo sobre você.
DIOGO: Mas como que você coloca ordem em um milagre? Uma coisa que precisa romper com tudo aquilo que você considera possível existir.
LUDO: E eu sinto como se… eu pr... você... devia estar aqui.
PÂMELA: É só isso que é importante pra você? É só o dinheiro?
L: Estar certo, também.
PÂMELA: E quando você pretende começar?
DIOGO e LUDO: Tudo começou em uma tarde de primavera há alguns anos, perto do mar, um fim de semana agradável, uma coincidência agradável reuniu este grupo improvável de pessoas, corpos entulhados de pensamentos, sentimentos, tempo, mas as pessoas que chegaram lá eram outras, elas ainda podiam acreditar que a realidade é só isso que nós podemos ver, tocar, medir e encaixar em algum sistema lógico, nenhuma daquelas pessoas voltou, levamos todos esses anos pra descobrir, ainda nem sei se já descobrimos tudo, se existe mesmo isso de descobrir tudo, mas é por isso que eu vim aqui hoje, é por isso que eu estou falando com você, esta é a minha história e ela ainda sangra como uma ferida aberta, isso precisa parar em algum momento, isso vai parar.
PÂMELA: E quando você pretende começar?, eu deveria ter dito.
KARINA: É ela, sim, tenho certeza. Isso não para.
MANO: Foi assim que isso começou. Foi assim que você disse.
KARINA: Você lembra o nome dela? Carla? Clara?
MANO: Como é que eu poderia esquecer?
KARINA: Eu acho que ela tinha tantos nomes… Verônica, Valentina…
MANO: Meu amor. Você está aí? Pâmela.
KARINA: Pâmela. O nome dela era Pâmela.
MANO: Você está aí?
HELENA: Sim, eu estou aqui. Eu sempre estive aqui. Você não me enxerga aqui, é isso?
DIOGO: Você precisa de ajuda.
KARINA: Eu posso muito bem lidar com isso sozinha, obrigada.
DIOGO: Meu amor, você tem ouvido vozes e isso está te fazendo mal.
HELENA: Tem que ter uma explicação lógica pra isso tudo.
KARINA: Eu quero voltar para lá, Diogo. A gente precisa fazer alguma coisa.
HELENA: Às vezes eu acho que eu morri.
DIOGO: Ela está morta! Faz anos! O que você acha que tem pra ser feito?
KARINA: Eu preciso descobrir, Diogo . É o único jeito.
HELENA: Ou… eu devo ter vivido um sonho. Não sei onde que fica a explicação lógica, ainda.
KARINA: E se você não quiser vir comigo, eu vou sozinha!
DIOGO: E aí eu fui. Claro. Pra dentro de um pesadelo, direto pra onde eu seria despedaçado, por que não? Isso não podia mais continuar, era a mulher que eu amava! Era a mulher com quem eu achei que passaria o resto da minha vida.
L: Você não vai. Fui eu quem te deu isso. Você nunca mais vai conseguir nada nessa tua vidinha de merda.
MANO: Sim, foi assim que começou. Pâmela. E você veio até a minha casa.
L: Você nunca vai ter nada!
HELENA: Isso precisa parar! (Silêncio.) Alguém… alguém poderia contar essa história direito?
DIOGO: Era o que eu estava tentando fazer aqui, mas você tinha que atrapalhar tudo.
KARINA: Helena?
HELENA: Oi!...Oi, é você?
DIOGO: Tudo! Tem que atrapalhar tudo!
KARINA: Eu vou te encontrar, Helena. Eu não vou deixar que nada aconteça com você. Não como aconteceu com ela.
DIOGO: Como eu estava contando. Direito. Como eu sempre estive.
LUDO: Eu vou te encontrar, Helena.
KARINA: Helena?
DIOGO: Era tudo sobre Helena. Eu deveria ter visto já naquela noite. Eu tinha concordado em voltar com a Karina pra onde tudo tinha acontecido. Eu não sei por quê, eu sentia que era o que eu precisava fazer. Ajudar a Karina, minha mulher. Ela não estava bem, ela estava ouvindo vozes, vozes de outras mulheres, a voz de uma mulher que tinha morrido.
KARINA: O nome dela era Pâmela.
L: Ninguém quer ouvir essa história. Você nunca vai ter nada.
(Longo silêncio.)
PÂMELA: Você se lembra. Você se lembra de como era estar presenciando um milagre.
(Blecaute.)
PÂMELA: Você sabe que é isso que está acontecendo agora?
HELENA, ao mesmo tempo: Você sabe dizer o que está acontecendo agora?
DIOGO, ao mesmo tempo: Quem está falando agora?
(Música. Cenas de praia nos telões enquanto passam os créditos iniciais.)
sábado, 11 de setembro de 2021
eu troco as horas jogo as chaves fora
às vezes eu te odeio pelas coisas mais idiotas
tenho umas manias que eu não vou mudar
e outras que até tudo bem
mas eu não quero que você vá embora
mas eu não quero
você nem olha você nem dá bola
é o choro que te engole se você não chora
você nunca prometeu que ia melhorar
e até que está melhor que ontem
eu só não quero que você vá embora
é só o que eu não quero
virão tempestades e destroçarão uns troços
a vida terá de trevas um tanto
dói
nem precisava eu te contar
mas não me peça pra te ver indo embora
não vai embora
eu vou sobrar eu fico quieto no meu canto
eu vou cantar faltar falar mais alto não saber
eu não sei
eu sinto muito
eu só te peço pra não ir embora
não vai
sábado, 4 de setembro de 2021
Então agora as cordilheiras me separavam de tudo que eu já tinha vivido. Eu estava com a sensação de ter chegado a um limite, atravessado um espelho, era uma terra antípoda de tantas formas, a beira de um abismo, e então aqueles navios e máquinas imensas debruçadas sobre o Pacífico e uma ideia que me parecia um pouco impossível de algo ainda mais adiante, no sentido do amanhã. Naquela tarde, pela rua, eu havia pedido informação a uma mulher que passava meio carregando e meio sendo carregada pelas mãos por dois meninos pequenos, ela acenou com a cabeça e disse alguma coisa que para mim soou apenas como ma iá, levei um tempo para entender que era más allá, em português ninguém diria mais lá, talvez lá está, mas logo ali, claro, na direção em que ela acenava com a cabeça, e eu passei o resto do dia relembrando como aquilo soava, quase podia ouvir a forma como ela tinha dito, ma iá. Agora pensava em Pablo Neruda e em sua casa Sebastiana, em sua poltrona chamada Nuvem. Eu o sentia como uma presença real, tanto quanto é real alguém poder ser feito de América ou ter um coração ou mãos de humanidade, ele caminhava ao meu lado como um velho e tão querido amigo me mostrando a sua cidade, orgulhoso, confortável. Quando chegou a hora, ele se foi, deixando-me sozinho para que os meus pensamentos silenciassem, que já bastava a inquietação do tráfego e aqueles ventos fortes arremessando o mar contra as rochas, era o final da tarde e o ar gelado e marinho me acordava, não dava para saber direito se era um recomeço ou um fim, foi a primeira vez na vida que eu vi o sol se por no mar e não pensava em mais nada, só de vez em quando ainda escutava ao longe, mas bem ao longe mesmo, ma iá.
sábado, 28 de agosto de 2021
O amor existe, eu acho.
Pés descalços sobre a primavera,
corre sempre alguns passos à minha frente.
E é memória de um dia ter olhado nos olhos
e achar que estava enxergando pela primeira vez.
Sim, o amor existe, parece.
Tem o cheiro dos cabelos, o calor das mãos abertas
de alguém que não sei quem é, onde está, e que, no entanto,
vibra em algum canto do meu coração deserto.
E tem sorrisos. Lábios.
É muito vivo esse amor, se existe.
Agora o meu trabalho é no final do caminho das pedras,
semear e ser roubado, ou esmagado por máquinas;
agora eu sangro e suo e tenho o corpo sujo de fumaça
e já não penso sob o sol, secando a testa nas mangas;
mas se eu sonhasse à noite,
seriam sonhos de amor, eu acho.
sábado, 21 de agosto de 2021
A primeira vez que amadureceu, devia ter uns quatro anos, no sítio de um tio-avô
de quem gostava muito e onde sempre ia com a família passar dias seguidos.
Estava brincando com os primos e foram todos parar no alto de uma árvore
- e foi aí que aconteceu. Por toda a vida iria se lembrar de estar lá
no alto e da proximidade do céu entre as folhas, e então de ter olhado
para baixo e de compreender pela primeira vez, racionalmente,
o que era a queda e o que significava ser mortal.
Na primeira vez que amadureceu, tinha nove anos e meio e estava com o pai, que visitava um velho amigo, rico e influente, no começo de uma noite de sábado. Eles conversavam tediosamente no jardim de inverno e a criança deu um jeito de escapar, foi andar pela casa e acabou em um escritório que continha uma pequena biblioteca, o que para essa criança em particular era tão interessante quanto um quarto de brinquedos. Mas ela foi se interessar pelo livro que estava sobre a escrivaninha, e com toda a liberdade abriu-o e começou a ler. Descobriu que o amigo do pai tinha escrito em todas as margens, compulsivamente, coisas como "eles continuam tentando me derrubar", ou xingamentos, reclamações e as coisas mais estranhas que uma cabeça perturbada poderia pensar. Instantes depois, não era mais uma criança quem saiu daquele escritório.
A primeira vez que amadureceu, tinha acabado de completar nove anos e estava… Não, não gostava de se lembrar, muito menos de achar que algo assim pudesse ainda ter algum efeito sobre sua vida. E agora estava ocupado demais na organização de um protesto contra o monopólio da cultura norte-americana no mercado de arte nacional. Ele cresceu, suas ideias começaram a ser ouvidas. Pediram-lhe um roteiro, já tinham dois grandes atores para os papéis principais, ele quis começar com uma narração em off. "Na primeira vez que amadureci", dizia o protagonista, "eu tinha acabado de completar nove anos e estava sentado no colo do meu professor de inglês, com as mãos do cara dentro da minha cueca". Parou. Não, não gostava de lembrar, definitivamente, aquilo não prestava nem como metáfora política.
sábado, 14 de agosto de 2021
Ainda ontem eram animais estranhos lascando pedras pra virarem flechas
Hoje mesmo, quando amanheceu, ainda eram animais estranhos lascando pedras pra virarem flechas
Na hora do almoço, ergueram civilizações sobre muito sangue
Só que eu não posso estar triste
O momento é de fazer apostas em hipódromos políticos
Ou será que não aprendemos nada com os grandes mestres artistas de algoritmos
Ainda agora sustentam civilizações com sangue
E fogem ao menor sinal de verdadeira humanidade
Não muda nada se dói em mim
Me falta ouvir o oráculo das suas celebridades
Mais sombras áridas a transbordar de celulares
A fumaça do café, a fumaça de um cigarro subindo em espirais brancas, cinzas e
Maçãs na tarde, quem sabe o vermelho imprevisto das camélias
Nem sei mais o que eu digo
O pôr do sol através da chuva lambuza de luz o concreto
Mas nunca se está longe o bastante pra se deixar de ouvi-los
Gritando orgulhosos
Enquanto ainda atiram suas flechas
sábado, 7 de agosto de 2021
O mofo não saía da sua parede, o calo no calcanhar do único sapato bom que tinha pro trabalho. Era muito baixo, magro e desajeitado, as pessoas costumavam tropeçar nele, literal e metaforicamente de maneiras até demais. Ao que tudo indicava, seu maior defeito, além da falta de bíceps definidos, era gostar de poesia e vodca barata. Mas também pagava o dízimo - o farelo da migalha que sobrava - e trabalhava como um condenado de segunda a sábado.
E amava Lili, que não amava ninguém. Menina de igreja numa faculdade de artes, artista plástica extraordinária, um amor, cheia de vida e curiosidade. Foi ela que lhe falou pela primeira vez sobre Andy Warhol, Gaudi, foi ela que lhe ensinou o que significava a palavra "vanguarda". E gostava dele, mas não assim, nem queria pensar nisso agora, eles eram tão jovens. Até que ela conheceu o filho de um empresário meio famoso de uma capital meio conhecida em um país meio importante e desapareceu.
- Arte, ok, desde que seja bela - repetia o herdeiro que ela tomou por príncipe encantado. Dizia isso e depois dava uma risadinha arrogante, de quem conhece com profundidade a Matemática das Belas Artes, e como se a sua noiva fosse uma criança ingênua brincando de pintura em uma escolinha de fundo de quintal.
Ele não discutia política, é claro, mas achava que se todo mundo se esforçasse bastante, mas bastante mesmo de verdade, qualquer um poderia se tornar assim como ele! Falava sem parar e sempre encontrava um jeito de fazer a pessoa que ouvia se sentir mal consigo mesma, e ainda achar que se reagisse, estaria apenas confirmando que ela não prestava. Meio que o contrário do amor, ele era. Mas quando falava de amor, ninguém mais tinha razão, ninguém além dele mesmo compreendia.
O mofo não saía da parede. O calo no calcanhar, migalhas.
sábado, 31 de julho de 2021
sábado, 24 de julho de 2021
Naquela noite, começamos a criar as cenas no improviso e a escrever as primeiras linhas do texto. Escolhemos nossos próprios nomes pros personagens, apesar de que, como era tudo inspirado em contos de autores nacionais, ficava claro o tempo todo que eram só personagens. Começamos a discutir o título enquanto esperávamos a pizza e alguns de nós terminavam de se arrumar pra voltar pra casa. Frases dos contos, títulos dos contos, a Gabriella sugeriu que a peça se chamasse "Gabriella", o Mateus olhava em silêncio pela janela: a noite iluminada e barulhenta no centro de Curitiba.
Entre clichês e absurdos, a Larissa telefonou pra casa e o Mateus foi se sentar do lado da Gabriella, assim como quem não quer nada. Eu e a Jéssica imediatamente nos olhamos - tínhamos falado sobre os dois naquela mesma tarde...
- "Três lírios no peito" - falou a Larissa, voltando pra perto de nós.
Todo mundo ficou pensando naquilo por um tempo, parecia que tínhamos chegado a algum lugar. Mas era sempre uma história de que isso favorece só um conto, só um personagem, ou então é bobo, brega, alguém fazia uma piada e tudo se perdia.
Em pouco tempo, a Jéssica se cansou e decidiu colocar uma música, mas no fim, o interfone tocou antes do refrão, começou um movimento todo de juntar o dinheiro, ir pegar os copos, o Mateus e a Gabriella entraram em uma conversa só deles e eu fui até a janela olhar um pouco pra cidade do décimo andar.
Todo mundo sabe que, no exato instante em que se abre a primeira caixa, não tem nenhuma importância se é o maior clichê um ensaio terminar em pizza. Os ruídos de conversa desapareceram nos primeiros minutos, depois o silêncio terminou em comentários como "essa de frango com catupiry está uma delícia''. Mais alguns minutos de silêncio e de repente o Mateus falou:
- "Já pretendia amar".
E todo mundo gostou, mas ficou se perguntando se ele ainda estava falando de um título pra peça.
sábado, 17 de julho de 2021
Era o sorriso mais claro, uma ternura assim de sono ou qualquer coisa tão macia, sem contar a pele, as ondas da voz dela dizendo eu te levo lá não se preocupe, o nome dela combinava com tudo, era leve, usava a sua roupa mais alegre,
por muito menos eu esqueceria quem eu era ou onde estava indo, e ela me deixando olhar aquelas pernas, um balanço quase distraído caminhando à minha frente, perto o bastante pro perfume dos cabelos, os pelos meio arrepiados do seu braço,
quando um caminho na floresta as árvores mais altas das mais densas matas só nós dois libertos, lábios úmidos trocando uma conversa boba e então a blusa meio levantada, a risada de deleite e nervosismo, um gesto aproximando os corpos como num repuxo,
o quente se juntou ao quente, um grande afeto transbordado pra mais dentro, os dedos, o delírio até sons graves cantam pássaros terrestres, mergulho mais maravilhado, fluidez de busca encontro busca e êxtase encontrado, o paraíso então é carne,
espalha num repouso largo a sede satisfeita e pétalas e pólen, silêncio em todo o vasto território da união das nossas palmas, eu ficaria ali pra sempre entrelaçado a ela no oceano verde, o instante quieto de depois de ter nascido um universo,
mas me lembro com o corpo inteiro de ter visto a claridade do sorriso dela, murmurar seu nome o cheiro a pele que eu pensava que sonhava, doçura adormecida de nudez da selva, céu achegado, calma, a sensação de que no mundo tudo nos adora.
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