sábado, 26 de fevereiro de 2022


(Diários de Machu Picchu #06)
Corre. Finge que é poesia. Mares e vales, neve e sussurros em francês. Hoje estamos todos presos no albergue, porque lá fora chove. Deve existir um amor assim, puro silêncio, pura preguiça de falar mais alto ou de molhar os dedos na água fria pra lavar a louça. Se alguém espiar sobre o meu ombro enquanto escrevo, fará a gentileza de não entender uma só palavra. Ou tudo se pode deduzir? Sim?, não?, sim, não, sim, músicas legais. O livro me faz meditar. Me faz viajar. Um bosque, a eterna bem-amada, as folhas secas, tudo é muito outono. Talvez eu fosse mais feliz em outros termos, só que agora me lancei e vou adiante. Finge que é memória. Lobos marinhos pintados na porta, e a esta hora você está no trabalho. Por que você não toca música brasileira? Olha só, você vai gostar, sorrisos nas fotografias. Estou virando um rio, estou saciando a minha própria sede, estou limpo e revolto e nunca mais vou voltar, nunca mais, nunca mais, nunca, nunca, mais, mais. Não é permitido amar dessa maneira. É imoral, é criminoso amar dessa maneira – arrasto a lama e lixo e pedras, às vezes, sou assim. Só corre, finge que é metáfora. Só aprende. Só me encontra no meio do caminho. Hoje é segunda-feira e pelas minhas previsões eu deveria ser outro, mas talvez eu tenha me enganado. Talvez. Talvez. E quem vai escrever meu nome em outra língua? Mencionar nos seus relatos meus cabelos soltos sobre as páginas? Quem me ouviu, quem me acordou hoje cedo, me diz como é o seu nome, ou então dorme. Finge que sou eu que estou sonhando. Não é necessário que você saiba. Não é necessário que ninguém entenda. Nunca foi preciso que eu falasse. Nunca foi. Nunca. Nunca. Foi.


 

sábado, 19 de fevereiro de 2022


 

sim more em mim 
até que eu já não seja corpo nem casa 
enquanto eu puder ser nada 
durma em mim e 
dance e 
veja-se e invente-se em mim 
e seja-se em mim 
aí 
desde a tua própria luz 
e cante-se-me 
cante-me-se 
cante 
até que eu já não seja a voz 
e não pertença à linguagem


 


 

sábado, 12 de fevereiro de 2022


 


 

Ou das palavras só o fel 
Ou dos que nunca se ferem 
Ou dos mergulhos sem fim 
Ou dessas superfícies breves 

Ou dessas sobras sem vida 
Ou dos vazios envernizados 
Ou dos enganos nas nuvens 
Ou do que é certo no inferno 

Ou das erupções sem terra 
Ou dos silêncios sem escuta 
Ou de agressões confortáveis 
Ou desses afetos que evadem 

Ou desses voos sem vertigem 
Ou dos delírios sem verdade 
Ou das vertigens sem voo 
Ou do que sempre ainda falte 

Só não se faça


 

sábado, 5 de fevereiro de 2022


 

Teve a impressão de já ter vivido aquilo, em outros tempos, ou algo muito parecido, e sentia que o seu coração secava com uma dor cortante como a aurora sobre o deserto. Como se em todos os lugares habitasse a mágoa de ser só, mesmo que ecoassem multidões em festa, ele sentia os olhos úmidos, e então tentava não pensar. Cartazes contra o amor sem fim, daqueles que transbordam, códigos de como confessar qualquer mentira que o fizesse parecer humano, as farsas que iam acumulando no espaço pequeno demais antes do abismo que o separava do mundo, e lá longe um vulcão cheio de neve no topo. Teve a sensação de já ter tentado antes, inutilmente, mas ainda assim se debatia contra o peso inquieto de existir, apenas insustentável. 

Mal reparou quando ela veio sentar-se ao seu lado, silenciosa, com a cabeça erguida em outra direção. Talvez nem tenha reparado de imediato no perfume, certamente não ouvia, ainda, a respiração que em breve estaria sincronizada com a dele. Por sorte, conteve um soluço, embora suspirando um pouco alto demais. Nada que a tenha assustado, ela apenas permanecia ali, e de repente lhe pareceu que ela estava incrivelmente perto. Quem sabe pela imensidão da paisagem, quem sabe porque era verdade. Mas não olhou para ela, apenas recebeu sua presença como a de uma velha conhecida, uma velha e muito querida amiga, ou uma amante, ou uma irmã que sempre havia estado por perto. 

E assim ficaram pelo que pareceram várias horas - e ainda que em seu coração ardesse uma pequena chama, era qualquer coisa que o aquecia e guardava muito mais do que o movia, como se de repente ele estivesse outra vez em casa. Lúcido, percebendo-se parte daquele cenário monótono de pedras multiplicadas ao infinito, ao mesmo tempo em que sentia como se flutuasse, e seu corpo era uma nuvem de carícias imaginárias, colo, um afago. Algo que o renovava ou revelava-lhe o que foi sempre, ou porque essas duas coisas eram simplesmente a mesma. Algo que permaneceria ainda por muito tempo depois que ela fosse embora, sem que os dois tivessem jamais trocado um único olhar, uma única palavra. Ou será que aquele havia sido o único verdadeiro diálogo?, o irrepetível, o inimitável, um fragmento louco da eternidade encravado no amanhecer não contido.


 

sábado, 29 de janeiro de 2022



CAPA
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(Novas cenas em breve.)
CENA 2

(Ao som da música, ainda no escuro, ouve-se a voz em off de Ludo, como se ele tivesse voltado a falar ao microfone.)

LUDO: Quer dizer, quando você une, na obra de arte, e a obra de arte ela tem que ter isso, se não ela não respira, né, mas quando você junta elementos tão díspares, quer dizer, quando você mistura, você abrange, de certa forma, porque se você for parar pra pensar, o que que é o outro, né?, mas quando a arte acontece, eu acho que aí, independente de qualquer outra coisa, ela realiza aquilo pra que ela foi feita, né, e isso, esse, essa que é a grande sacada, né, aí é quando você se ilumina - olha, arrepiei todo.

(A luz se acende enquanto Ludo estende o braço para ninguém.)

HELENA, em off: Nossa, incrível, realmente, a gente está aqui ao vivo com esse artista que transformou o universo da arte, né, e vem se destacando aí cada vez mais no mercado e fora dele, né, e está com cada vez mais seguidores nas redes, e agora está prometendo arrasar aí com uma história de intrigas e romances, né...

(Ludo se agita na cadeira e age como se estivesse em um talk show, mas sua voz continua em off.)

LUDO: Não dá spoiler. (Ri.) É uma tragédia, na verdade, que aconteceu perto da minha casa, uma história real, que mexeu muito comigo, até hoje eu não digeri direito, sabe como é, mexeu com muita coisa e agora, ontem, na verdade, apareceu um casal que estava envolvido na situação, na época, aí… eu revivi, eu… tô revivendo, eu acho, eu preferia…

HELENA, em off: Você diria que enquanto você se esforça pra ser um sujeito normal e fazer tudo igual, eu por meu lado, aprendendo a ser louco, um maluco total… (a voz de Helena vai desaparecendo em ruídos eletrônicos e de estática, enquanto Ludo congela, olhando para o horizonte. Luz sobre Diogo e Karina.)

DIOGO: Desculpe a gente vir até aqui fazer você se lembrar. A minha mulher tinha esperança de encontrar a… aquela moça, a…

LUDO, não mais em off: Isso me faz lembrar do Tcheckov.

DIOGO: Quem? Não, uma moça… aquela…

LUDO: O Tcheckov uma vez falou que quando uma arma aparece em uma história, ela necessariamente vai ser disparada.

DIOGO: Eu não… como que é?...

LUDO: A gente podia ter evitado.

DIOGO: Não teve nada a ver com o tiro, o que aconteceu…

LUDO: Por que foi mesmo que você veio?

DIOGO: Minha mulher tinha esperança de encontrar a…

KARINA: Eu queria falar com a Helena, ela está aí?

PÂMELA, ao microfone: Alô, alô. Teste.

LUDO: Você insiste nessa história. Eu já disse que não tenho nada a ver com ela.

PÂMELA: Bom, a minha história…

KARINA: Isso está muito mal contado. Foi aqui que ela me trouxe naquele dia.

PÂMELA: Não é de uma forma muito bonita que ela começa, e com certeza o final dela… (Silencia, desanimada.)

KARINA: Aí ela entrou pra pegar um livro e desapareceu, eu vi você saindo e achei… Bom, você sabe o que eu achei.

PÂMELA: O meu amor morreu naquela manhã. Quer dizer, eu já amava o Mano, isso… mas eu nunca teria traído o L. Eu não teria.

KARINA: Como você pode dizer que não sabe de quem eu estou falando? Morando na casa dela?

PÂMELA: Mas o meu amor morreu naquela manhã. Depois do que o L me disse, eu não tinha mais como continuar com ele.

LUDO: Eu sei de quem você está falando. Mas eu não entendo.

PÂMELA: Eu tinha recebido uma proposta. Pra um trabalho. Irrecusável. Mas pro L isso era demais, e pra mim já era demais que isso fosse demais pra ele, entende?

KARINA: Eu é que não entendo, cara. E você não faz questão nenhuma de explicar. Cadê a Helena? Ela morava aqui, foi aqui que ela desapareceu dizendo que ia pegar um livro.

PÂMELA: O Mano era uma vertigem. Ele me apoiava. Não era por ele, pelo menos… Na verdade, as coisas mudaram muito naquela tarde.

KARINA: Responde, cara.

LUDO: Eu não sei quem ela é. Eu…

KARINA: Como assim?

LUDO: Ela me enlouquece. Eu não quero falar sobre nada disso, por que vocês não esquecem?

PÂMELA: Foi uma descoberta.

KARINA: Eu não posso…

LUDO: Já faz um século que isso aconteceu.

KARINA: E daí, onde é que eu encontro ela?

PÂMELA: Um encontro. Comigo mesma. De um jeito que não dá nem pra descrever.

LUDO: Eu… Ela… Só… na minha cabeça.

PÂMELA: Com ele, sim, às vezes até… através dele, quem sabe…

KARINA: Isso é o que, uma poesia? Eu quero um endereço, cara.

PÂMELA: Mas eu. Em mim. Comigo.

LUDO: Escuta. Você pode tentar. Eu… Isso é a morte pra mim.

PÂMELA: E isso foi uma primeira vez, foi maravilhoso. Eu faria tudo outra vez.

KARINA: Tentar o quê? Que morte, do que é que você está falando?

PÂMELA: Eu morreria outra vez?

LUDO: Eu vou falar com ela. Eu… vou tentar. Eu peço pra ela te encontrar na praia. Eu não sei se isso pode dar certo.

PÂMELA: Sim, eu morreria, eu acho. Quantas vezes eu tivesse que morrer.

KARINA: Se ela não aparecer…

DIOGO: Calma…

PÂMELA: Mas por quê?

(Fica luz apenas sobre Diogo e Karina.)

DIOGO: Então… uma hora foi o tempo que eu tive pra tentar impedir que você jogasse fora toda a nossa história por causa de um impulso louco de ir atrás de uma mulher com quem você conversou por alguns minutos há… quantos anos?

KARINA: Eu não sabia explicar, nem pra mim mesma. Eu sempre cuidei tão bem de você.

DIOGO: É, sim.

KARINA: Eu precisava explicar?

DIOGO: Bom, você não estava cuidando muito de mim.

KARINA: Eu precisava?

DIOGO, corrigindo-se: Não estava tomando cuidado. Acho que era uma questão de consideração, talvez. Você acha que tudo bem ser enganado por alguém que diz que me ama, assim, a esse ponto?

(Longo silêncio.)

(Luz sobre Mano.)

MANO: Logo que a gente se conheceu, no Ensino Médio, houve um momento, pra mim e pra ela, em que parecia que a gente tinha sido feito um pro outro, era a coisa mais óbvia do mundo, a gente ia ficar junto e nem fazia sentido que fosse diferente, todo mundo sabia, só faltava acontecer. Aí não aconteceu. Sei lá, de repente a gente se olhou e não era nada daquilo, e no máximo a gente virou amigos, depois, quase nem isso. Mas é que a vida sempre dava um jeito de aproximar a gente de novo, aí a gente estava sempre se reencontrando, se vendo e sabendo da vida um do outro. Eu não sei quem de nós dois mudou mais e mais vezes, mas quando ela foi ficar com esse cara, aquilo era estranho até pra ela, ela devia estar em uma época difícil, sei lá, não dá pra entender. Não dava. Eu já tinha percebido alguma coisa entre nós dois já fazia um tempo, mais cedo ou mais tarde ela ia largar aquele cara e eu sabia que era a minha vez, que era essa a hora, que vai saber por que o mundo deu tantas voltas e a gente deu tantas voltas ao redor do mundo só pra acabar de novo achando que a gente tinha sido feito um pro outro.

(Em silêncio, começam a passar nos telões imagens de guerras e conflitos urbanos envolvendo armas de fogo. Ao longo das falas seguintes, os sons vão começando a surgir e aumentar de volume.)

HELENA: Você esperou…

KARINA: Helena! (Vai abraçá-la.)

HELENA: Por que agora?

KARINA: Eu não sei. Me desculpa, eu só conseguia pensar nela.

L, gritando perto do microfone: Aquela vagabunda!

KARINA: No absurdo de tudo aquilo.

L: Safada! Sem-vergonha!

KARINA: E quando eu pensava em você, eu… era tão confuso.

L: Puta! Vadia!

KARINA: Por que você sumiu, quem é esse homem, o que foi que ele fez com você?

L: Eu vou acabar com a tua vida, sua salafrária!

KARINA: Vem comigo. Vamos embora daqui. Eu posso te levar.

L: Você vai morrer!

(O ruído de guerra e música encobre tudo o que é dito, inclusive a voz de L, que agora grita um pouco mais alto e mais distante do microfone, em fúria, toda sorte de xingamentos. As luzes das cenas se apagam e as imagens e ruídos continuam ainda por um tempo.)

sábado, 22 de janeiro de 2022


 

Lá estava eu às sete da manhã, um giro interminável da Terra, terceiro vagão. Um sono, o sono, uma mensagem que não veio, a memória fraca demais pra ser esperança, o ar que não seria mais leve sem as máscaras de pano. Então, poucos vazios maiores que essas multidões aleatórias, eu não queria chegar em lugar nenhum, não de verdade. Mas tinha que andar na linha, tinha um salário de fome amarrada ao trilho. E imaginava os versos com tinta nas janelas, porque lá fora o nada, escuro, as pedras. Nem ninguém nas cascas. 

Mas nos grupos começavam a chegar os gritos de miséria emocional, espiritual e moral fantasiada de política, meu deus a forma como algum farsante idolatrado diz o óbvio tanto o quanto o irrelevante, tanto quanto não diz nada ou só repete o que se espera enquanto é igual há dezenas de séculos, a Terra sem parar no vácuo, os fatos da semanas ou os livros de história. Não era a hora? Eu mal sabia se o metal mais forte atravessava os túneis ou em armaduras me impedia de enxergar o que pulsava à minha volta, se é que ainda pulsava, ou eram celulares que vibravam. Não, não era a hora, só mais uma estação, voz programada. 

E eu tinha a nítida impressão, se não a mais clara certeza de que assim que eu fosse de verdade, já estaria condenado.


 

sábado, 15 de janeiro de 2022

não, você não vai saber, não, não sem nunca ter encarnado o caos, por acaso ou por querer, não quando tiver passado ao largo, assim, sem perguntar, você não poderá saber, não, se você não tiver caído ao menos uma vez até o mais baixo, não, não, você vai dizer que não se machucou, não é verdade, se você não se doou demais, de menos e se arrependeu, se você nunca se arrependeu, você não tem como enxergar, como estar certo ao culpar quem for, não, não, não há razão sem loucura, quem dirá o amor, se não atravessava os seus limites, aquele que não delirou, enquanto não olhar pra fora, não, você não faz ideia, não alcança, não, e se jamais ignorou bem mais que o mais absoluto ignorante, apenas não, você não, só não, não, não


 

sábado, 8 de janeiro de 2022


 

Teve a impressão de já ter vivido aquilo, em outros tempos, ou algo muito parecido, e sentia que o seu coração se inundava de uma dor luminosa como o poente sobre o pântano. Como se em todos os lugares habitasse a mágoa de ser só, mesmo que ecoassem multidões em festa, ela sentia os olhos úmidos, e então tentava não pensar. Cartazes contra o amor sem fim, daqueles que transbordam, códigos de como confessar qualquer mentira que a fizesse parecer humana, as farsas que iam acumulando no espaço pequeno demais antes do abismo que a separava do mundo, e lá longe uma chalana escorrendo com as águas. Teve a sensação de já ter tentado antes, inutilmente, mas ainda assim se debatia contra o peso inquieto de existir, apenas insustentável. 

Mal reparou quando ele veio sentar-se ao seu lado, silencioso, com a cabeça erguida em outra direção. Talvez nem tenha reparado de imediato no perfume, certamente não ouvia, ainda, a respiração que em breve estaria sincronizada com a dela. Por sorte, conteve um soluço, embora suspirando um pouco alto demais. Nada que o tenha assustado, ele apenas permanecia ali, e de repente lhe pareceu que ele estava incrivelmente perto. Quem sabe pela imensidão da paisagem, quem sabe porque era verdade. Mas não olhou para ele, apenas recebeu sua presença como a de um velho conhecido, um velho e muito querido amigo, ou um amante, ou um irmão que sempre havia estado por perto. 

E assim ficaram pelo que pareceram várias horas - e ainda que em seu coração ardesse uma pequena chama, era qualquer coisa que a aquecia e guardava muito mais do que a movia, como se de repente ela estivesse outra vez em casa. Lúcida, percebendo-se parte daquele cenário colorido de árvores multiplicadas ao infinito, ao mesmo tempo em que sentia como se flutuasse, e seu corpo era uma nuvem de carícias imaginárias, colo, um afago. Algo que a renovava ou revelava-lhe o que foi sempre, ou porque essas duas coisas eram simplesmente a mesma. Algo que permaneceria ainda por muito tempo depois que ele fosse embora, sem que os dois tivessem jamais trocado um único olhar, uma única palavra. Ou será que aquele havia sido o único verdadeiro diálogo?, o irrepetível, o inimitável, um fragmento louco da eternidade encravado no entardecer não contido.


 

sábado, 1 de janeiro de 2022

pode morar no meu coração o tempo que quiser

tome posse do meu corpo ele é seu

sábado, 25 de dezembro de 2021

sonho
o paraíso passou por aqui
você me habita ainda agora
longas
horas
depois que eu desisti
e despertei despedaçado

sábado, 11 de dezembro de 2021

Mal consigo te ouvir aí soterrado no passado 
Mas soube que você fala comigo como se eu ainda estivesse lá 
Bem que eu gostaria que uma palavra minha fosse a semente que te brotasse de novo no agora 
E não por ser minha a palavra 
Agora nem sei se é possível algum dia você olhar de frente alguém que não esteja do outro lado do seu espelho
É incrível como você atira pedras da janela enquanto com a outra mão alimenta o monstro em seu armário 
A sua maturidade seletiva só funciona no modelo crítico e carrasco 
Não vai sobrar amor pra mim porque era só um efeito cenográfico 
Mas ódio e zombarias jorram, chovem, sobram, multiplicam-se enquanto você aplaude 
Em troca eu só preciso silenciar o que você não gosta 
Mas olha 
Lamento 
Patético é o seu requinte, há poucas fantasias que 
São mais deprimentes que a sua sofisticação 
Para de me impor suas projeções malignas 
Suas falsificações de justificativas 
Esse pequeno colorido dos seus olhos mal disfarça a sede de poder 
Sabedorias que você despreza em mim e agora me apregoa porque lhe convêm 
Você não pode chamar de civilização o que ainda é só uma alegoria da selva 
Se ainda mal começamos a rastejar um mínimo de entendimento 
Por que tanto esforço em contrário 
O que mais você espera de mim além de não ser


 

sábado, 27 de novembro de 2021


(Diários de Machu Picchu #05)


 

Quando levantei os olhos, algum brilho repentino ofuscou a minha visão, e no momento seguinte lá estava ele, aquele sorriso. O que não tem como explicar: ao mesmo tempo em que ele era tudo que eu via, pareceu que o mundo todo em volta dele ganhou vida. Aquele sorriso. O Urubamba, estrondoso ao nosso lado, o calor ligeiro do sol, um sorriso, e só depois reconheci o rosto dela, a mesma dançarina da praça do outro dia. 

 - Mas não precisa me contar com poesia - reclamou Antero, dando outro gole generoso de vinho. 

Pra mim, eu estava falando normalmente. E foi o que eu disse a ele, mas ele meio que fez uma careta e ficou por isso mesmo. Nem tinha outro jeito de contar. Era poesia. 

Fazia uns dois dias, na praça, parecia que ela dançava só pra mim, a saia alaranjada esvoaçando, os olhos brilhando à distância e aquele sorriso. Longe, eu não saberia dizer com certeza se era pra mim que ela olhava. Depois dos aplausos, antes de desaparecer, mais uma vez olhou em minha direção, juntou as palmas das mãos diante do peito e se inclinou em saudação. 

“Adeus”? 

“Olá de novo”? 

- Não sei se eu acredito no amor - comentou Antero, de olhos baixos. - Amor à primeira vista...? 

Mas então naquela manhã tinha acontecido a segunda vista, e a terceira, e eu queria ter ficado olhando sem contar nunca mais, só que fluiu de outro jeito. 

Nossa comida chegou e eu e Antero trocamos algumas palavras com a garçonete que vinha da Tailândia e era muito simpática, depois nos demoramos um pouco provando os nossos pratos e pareceu por um instante que o assunto estava encerrado. Não pra mim, claro, pra mim ainda estava muito presente. Ela estava acompanhada de uma amiga e mal tivemos tempo de trocar duas ou três palavras, vamos pro Santuário pela escadaria, eu te vi dançar, e o que mais mesmo? E aquele sorriso. 

- Por que você não foi atrás dela? - perguntou Antero. 

Por que eu não fui com ela até a entrada do Santuário? Ela não teria ido embora mais rápido se eu dissesse que estaria à espera quando ela voltasse. 

Agitei a cabeça como se pudesse espantar os pensamentos. 

- Sabe, Antero, eu pedi arroz como acompanhamento e não salada - falei. - Nada contra a salada, está muito boa e eu não estou com a menor vontade de reclamar, mas vê se me faz o favor de não testar demais a minha paciência.


 

sábado, 20 de novembro de 2021


 


 

quando eu amava era um blues quando eu amava em neon de um amor noite afora, a vodca até quando um cigarro era aceso os paralelepípedos do centro histórico e os passos soltos descompassados sempre um ombro amigo sempre um comentário amargo inteligente revolucionário, os filmes europeus e orientais e independentes em cinemas de rua e romancistas politizados e poetas da contracultura em páginas rabiscadas de cinzas e manchadas de dor e lágrimas, quando eu amava era um jazz e então batom vermelho all that happiness happening também performances durando mais de uma semana em praças e em grandes construções abandonadas, havia algo de sujo na voz algo de sujo no gesto algo de sujo algo de sujo algo de muito puro e rock’n’roll na veia e na fumaça apartamentos velhos de azulejos encardidos e eu só sei que quando amava os homens e as mulheres e eu amava a madrugada labiríntica a vertigem da metrópole o caos das nossas vidas sempre urgentes e desesperadas, quem sabe eu não amasse ninguém nada ou só amasse a mim mesmo ou nunca tenha amado tanto e tão de verdade, quem sabe a noite só exista as ruas só existam à noite pros amantes desse tipo, quem sabe as portas tenham se fechado agora ou quem sabe aquele céu tenha sido sempre desperdiçado por nossa vontade louca de ter asas, ou era um voo impossível que acontece apenas quando não sabemos que não temos asas, quem sabe, quando eu amava as esperanças e as certezas eram sempre muito parecidas, 
tão altas 
tão distorcidas 
como as guitarras

sábado, 13 de novembro de 2021



CAPA
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(Novas cenas em breve.)
CENA 1

(Escuridão completa. No exato instante em que a música de abertura termina, começa-se a ouvir a voz de Diogo, em volume crescente, repetindo "Não, por favor não, eu não quero isso", etc, até que a luz se acende sobre ele e ele assume um tom defensivo.)

DIOGO: Era o começo da primavera. A gente… era um sábado azul, muito azul, o céu muito limpo, o sol forte, a gente… a gente era um casal jovem querendo aproveitar o fim de semana perto da praia… No princípio, era só isso, uma tarde quente, eu era… (Luz sobre Karina.) E era só nós dois, você lembra?

KARINA: Lembro.

DIOGO: Aquele céu azul, foi quando a gente conheceu o Ludo, né, amor? (Luz sobre Ludo, que acena para a plateia.)

KARINA: O… Não, o… Quem chegou antes foi o L. (Luz fraca sobre L, inquieto em algum tablado de transição.)

DIOGO: Será? Ele já chegou…?

KARINA: Sim, o… Ele… É, pois é, ele já chegou…

DIOGO: Ele veio antes.

KARINA: Primeiro, é. (Apaga a luz sobre Ludo.) Já veio louco atrás da Pâmela.

DIOGO: Procurando a Pâmela.

KARINA: É. Não, ele já achava que ela estava com o outro.

DIOGO: Ele já veio procurando briga, eu tentei acalmar.

L: Acalmar o quê?

KARINA: Eu tentei ajudar, também, mas apareceu a Helena.

(Luz sobre Helena, no mesmo lugar em que antes estava Ludo, e ela repete exatamente o mesmo gesto que ele tinha feito: acena para o público.)

L: Eu tenho certeza que essa vagabunda…

HELENA: Ei, olha essa língua!

KARINA: Pode parar. Falou em vagabunda, eu já sei que é um babaca machista da porra.

L: Ela está aqui. Ela veio pra cá com outro homem.

DIOGO: A Karina saiu dali com a amiga nova e me deixou tomando conta do cara. (Karina vai se juntar a Helena e as duas somem.)

L: Eu não preciso de ninguém que tome conta de mim, não. Essa vagabunda que vai ter o que ela merece, é só isso.

DIOGO: Ei, não fala assim dela.

L: Você nem conhece essa puta!

DIOGO: Eu sei. Não conheço, mas não tem necessidade…

L: Então, meu irmão… Eu vou fazer… Claro que tem necessidade, eu vou fazer ela pagar.

DIOGO: Ela não é tua, você acha que ela é tua?

L: Eu não… Cala a boca, eu vou te arrebentar na porrada daqui a pouco, hem?

DIOGO: A Karina ficou horas longe, ela desapareceu completamente.

L: É você que se esconde atrás de mulher, você gosta de ser mandado? Você acha que tudo bem, se você encontrasse a tua mulher com outro você não ia querer matar a filha de uma puta?

DIOGO: Eu… Olha… Eu não sei como eu consegui segurar esse cara ali por tanto tempo, ele ia…

L: Eu quero matar. É claro que eu quero matar.

DIOGO: Daí que apareceu o Ludo.

LUDO: Eu moro aqui perto.

DIOGO: A Karina achou que você estava aqui desde o começo.

LUDO, distraído: É… eu... estava?

DIOGO: Estava?

LUDO: Ah. Mania. Eu falo por causa de como as palavras soam, eu acho.

DIOGO: Deve ser, é.

L: Eu já tinha esperado demais, eu sabia que tinha uma casa ali perto onde ela podia estar.

LUDO: Você sabia como, meu amigo, me fala.

L: Eu não sou teu amigo. Não interessa, eu sabia.

LUDO: É intuição.

L: Eu paguei um cara.

MANO, entrando: Eu queria só… matar esse cara!

DIOGO: Não, calma, não foi ele.

L: "Não foi ele" o quê? Do que é que vocês estão falando?

LUDO, para L: Você está no passado e ele já está no futuro, é isso que está acontecendo.

L: Não, eu sei, eu entendi, isso é uma peça de teatro e a gente está só contando essa história toda, né?, mas o que… passado? Por que "não foi ele", o que você está querendo dizer?

KARINA: A Helena desapareceu.

L: Não, espera, agora a gente está falando de uma coisa importante, aqui.

KARINA: A minha amiga sumiu. Ela estava comigo.

DIOGO: Então a Karina decidiu que tudo tinha sido culpa do Ludo.

KARINA: Ela… Para de narrar a minha vida! A Helena desapareceu um pouco antes desse cara aparecer.

L: O que é isso, você veio roubar minha cena?

DIOGO: A cena era minha, pra começo de conversa. Agora eu não posso mais nem narrar os acontecimentos.

KARINA: Uma mulher desapareceu e você só pensa no teu chifre.

LUDO: Você está falando de uma pessoa que não existe.

DIOGO: Vocês nem tiveram essa conversa! Chega disso! Não deu tempo dela dizer que a Helena tinha desaparecido, ela já voltou partindo pra cima do Ludo, brigando, a gente não entendeu direito o que tinha acontecido, mas foi aí que a Pâmela apareceu.

KARINA, mordaz: Com o amante?

DIOGO: Não… Ainda não logo de cara. Quer dizer, todo mundo esperava isso mesmo, mas no começo veio só ela.

MANO: Não, chega. Para. Isso precisa parar, eu não aguento. Eu… me desculpem, eu não quero reviver esse dia. Por que vocês todos se juntaram para relembrar isso? Que tipo de crueldade… (interrompe-se ao ver Pâmela. Ao longo das falas seguintes, ele vai mergulhando nas sombras, sem tirar os olhos de Pâmela, até desaparecer.)

PÂMELA: Eu não posso morrer, depois dessa tarde. Eu acabei de nascer.

L: Ah, mas eu vou matar essa vagabunda!

DIOGO: Não, calma, não foi assim que aconteceu, não foi isso. A gente não deixou ele chegar perto dela. Eu e o Ludo, a gente… Ludo? Cadê o Ludo? (Ludo não está mais em cena.)

HELENA: Você está falando de uma pessoa que não existe.

L: Alguém… Já chega! O que é isso, é um filminho da Disney? Comercial de margarina? É lindo olhar aqueles dois, o jeito que os olhinhos dele brilham ao olhar para a minha mulher. (Sacando a arma.) O que me impediu de sacar a arma naquela mesma hora? Eu não estava vivendo o personagem? Eu não tinha ódio bastante?

KARINA: Então a Helena voltou e a gente ficou em volta da Pâmela por um tempo, meio que protegendo ela, porque estava na cara que o L ia fazer uma idiotice a qualquer momento.

L: Eu devia ter atirado em vocês duas também. Ele… Olha lá, você não está enxergando? A tua mulher está apaixonada por aquela outra ali, você não está vendo? Você deveria dar um tiro na cara das duas também.

DIOGO: Não foi… eu… Olha, a tua mulher está sozinha, não tinha por que se preocupar.

(Pausa breve.)

L: Apaixonada por outra. (Luz se apaga, ficam somente as três mulheres.)

PÂMELA: Hoje eu decidi deixar meu marido. Foi uma coisa que ele disse sobre o dinheiro. E sobre estar certo. Ele disse que eram as únicas coisas que importavam: dinheiro e estar certo. Eu tinha recebido uma proposta em um ramo que ele desaprovava e ele disse que não ia dar certo, que eu nunca ia ter nada nessa minha vidinha de merda. Acho que foram essas as palavras que ele usou. E eu decidi que nunca mais ia voltar pra casa.

(Luz se apaga sobre ela e agora permanecem apenas dois focos sobre Karina e Helena.)

HELENA: É verdade? Você se apaixonou por mim nesse dia?

KARINA: Eu… Não, eu não sabia ainda. Eu acho. (Silêncio.) Não, eu acho que eu me apaixonei, um pouco, mas com tudo o que aconteceu depois, eu… (Pausa.) Eu estava completamente apaixonada.

(Apagam-se todas as luzes, exceto por um último foco, muito pequeno, no rosto de Helena, que é replicado em todos os telões, sério, a princípio, até que abre um grande sorriso.)

(Blecaute. Música.)