sábado, 30 de abril de 2022


 


 

Você diz que a estrada acabou, e eu só consigo 
Sentir falta de paisagens 
Nas suas palavras. 

Sabe, pra mim, se era uma estrada, 
Era por dentro de pomares, 
Campos de algodão, serpenteava 
Impossivelmente subindo encostas delirantes, 
Não tinha fim, no máximo 
Desaguava. 

Um tanto de vida que não se evapora assim 
Só porque um de nós começou a fazer aulas de java 
Às terças-feiras. 

Você diz que a estrada acabou, e eu não consigo 
Imaginar uma comparação menos apropriada. 

É que as estradas, quando terminam, 
A gente volta andando por elas. 

Não chame de estrada. 

É mais, na verdade, 
A julgar por como você fala, 
Como se nunca tivesse existido 
Nada. 

Esse lugar nenhum 
Onde não cabem nem lágrimas. 

Não, então, agora, 
Quem é este que sobrou aqui parado, 
O olhar perdido no vazio, 
Esse vazio por todos os lados. 

Você diz que a estrada acabou, e eu só consigo 
Reparar 
Que acabar mesmo não é coisa que aconteça 
Quando se trata de almas.

sábado, 23 de abril de 2022


 

juro 
que eu sabia tudo 
desde o começo 
eu que me perdi mil vezes 
juro 
que já cansado da luta 
de lutos 
da loteria do amor e do trabalho, vencido 
e silenciado, vencedor orgulhoso, juro 
até que se atravesse o espelho 
diante do qual você confessa o mais íntimo 
um colorido assim tão puro 
água tão rara 
te espero ao teu lado pro que for preciso 
rio que não para 
brisa em voo 
qualquer 
vida 
que ainda não se saiba


 

sábado, 16 de abril de 2022


Vitória de Samotrácia
(Autor desconhecido, cerca de 200 a.C.)
(Foto: Adriane Reichert Faria)
Mateus não conseguia lembrar se era naquela manhã ou na seguinte que haveria um passeio da escola a um museu da sua cidade, mas se perguntou se não gostaria mais de estar lá do que ali com o pai no Louvre.

Em 15 anos de vida, a única vez que ouviu seu pai falar em museus foi pra criticar uma exposição que ele nem tinha visto, mas que todos diziam que era horrível. Agora, não achava que a visita ao Louvre, ou qualquer outra coisa naquela viagem pomposa e interminável, tinha algum interesse pra ele além das selfies nas redes sociais.

Felizmente, conseguiu se desvencilhar por um tempo, explorar sozinho os salões e demorar-se o quanto quisesse diante da obra que quisesse, permitindo-se sentir o que quer que sentisse. Fazia alguns minutos, por exemplo, que estava parado diante daquela escultura de uma mulher com asas e sem cabeça que, por alguma razão, fazia com que ele pensasse em Vitória.

Claro, não precisava muito pra ele pensar em Vitória, mas talvez fosse o fato de que a garota era a imagem que ele tinha da perfeição, enquanto aquela estátua, de tudo o que tinha visto até então, era o mais próximo disso que havia encontrado.

E ao mesmo tempo sentia-se inquieto, como se tanto a imagem quanto a garota pertencessem a um mundo do qual ele não era parte, nem poderia ser nunca. A garota, porque gostava de homens mais velhos, ricos e bonitos como modelos ou artistas de cinema, e uma vez que era perfeita, sempre atraía a atenção de caras assim. A estátua, ele não saberia dizer.

Nem chegou a saber que ela também se chamava Vitória, e que também vinha de um mundo governado pela força e representado por ideais vazios de perfeição e beleza.

O que ele sabia, o que o incomodava de uma forma reconhecível, era a opressão real daqueles ideais no seu dia a dia. Uma noção tão curta da vitória, em guerras sem sentido como as movidas pela religião, por exemplo, enquanto a espiritualidade deveria promover o bem, ou guerras da razão contra a espiritualidade, enquanto havia tanta razão no espírito, ou guerras fúteis pautadas no dinheiro ou em aparências ou políticos de estimação ou o time que perdeu à noite porque o juiz não marcou um pênalti.

E tinha outra coisa que ele finalmente entendeu ali. Algo que tinha a ver com a "crítica construtiva" que o pai sempre fazia de que ele era só mais um a se sentir diferente, igual a milhares de outros que tinham vindo antes dele. Era verdade. Mas só agora Mateus entendia o que aquilo significava, e não era nada que anulasse as diferenças dele, como o pai pretendia que fosse.

E sabia que aquilo, assim como qualquer outro pensamento naquele passeio, eram coisas inúteis de se dizer ao pai.
Três da madrugada, algum detalhe na decoração da casa produzia reflexos estranhos nas paredes, e o sofá-cama não era lá muito confortável, e Marcos estava tão 
tão 
tão profundamente 
magoado.

Quase trinta anos, não era mais idade pra estar pensando em versos, meninas adolescentes, quem é que bota um sofá-cama numa biblioteca, de onde vinham aqueles reflexos, como é que ele tinha ido parar ali, por quê.

Por que pensava em versos, e a menina não saía da cabeça dele, magoada com o irmão dele, um cretino, um cretino que também já estava velho demais pra meninas da idade dela, três e meia da madrugada, será que ela estava bem, mais versos, e versos, versos.

Talvez 
porque 
com Vitória 
ele só quisesse desacelerar o tempo 
e falar sempre assim 
bem 
devagar.

Abriu um livro pra se distrair, livros antigos, de ar tão sério, pareciam tão desconfortáveis quanto o sofá-cama, este tinha até fotografias em preto e branco, melhor do que acordar alguém pra conversar, melhor do que falar sobre aquela angústia, mas então, no meio da página, de repente,




Mais de dois mil anos e onde será que ela estava agora, por quê, no fim da tarde ela parecia tão triste, e ele pensando que nunca mais iria vê-la, aquele cretino do irmão caçula, tão homem pra ferir uma menina, por quê, Marcos não conseguiria mais dormir sem ter notícias, nunca mais, e sobretudo não depois daquela foto, não entre aqueles reflexos, não com todo aquele silêncio.

Também seu peito dilacerado 
por nada, 
ideias fracassadas do que é ser um homem.

Fazia anos que ele não chorava, era como se a menina estivesse ali, diante dele, e ele não pudesse alcançá-la, um reflexo azul e dourado e branco, uma lágrima, aquele rosto de uma criatura mágica, e Marcos se ajoelhou no meio da biblioteca dizendo não chore, minha querida, não chore, não,

não chore. 
Pairam por aí esses parasitas de almas 
que são umas criaturas incapazes de luz própria. 
Nossa dor é uma piada pra eles 
e não poderá mais do que doer mais alto.

Quatro horas da madrugada. Ninguém escutava.
Teria prolongado aquele instante por mais tempo se soubesse o que viria depois, mas não fazia seu estilo prolongar momentos em que recebia atenção e carinho pra além do que eles durassem naturalmente.

Estava se divertindo com meninos do primeiro ano em um totem onde eles escolhiam toques de corneta militar e ele tinha que adivinhar seus significados. Então ia dizendo "é um lindo dia pra um mergulho" ou "hoje a festa é lá no meu apê" pra melodias que nunca significavam mais que "sentido" ou "direita volver". E os meninos riam de qualquer bobagem.

Era sempre uma linha tênue, o momento em que as coisas ficavam emocionais demais, humanas demais enquanto sua função continuava sendo produzir as mesmas velhas peças pras mesmas velhas engrenagens. Por isso, muito logo o "profe Lucas" teve que ir dar atenção a um outro grupo em outra parte do museu. Afinal, por mais diferente que fosse a atração daquele dia, não era nada além da rotina.

Aí, quando encontrou meninas distantes e caladas demais pros padrões delas, perguntou o que havia, mas não obteve nenhuma resposta convincente. Numa última tentativa, perguntou por Vitória, que havia confirmado presença no passeio e acabou não aparecendo. Foi quando percebeu um tremor percorrer o grupo, respostas ainda mais evasivas, um ponto final pras perguntas impertinentes daquele senhor de meia idade.

Depois, quando o grupo se dispersou e ele olhou em volta, deu de cara com isto:




E desta vez, o tremor percorreu seu próprio corpo.

Era como ter mergulhado em um poço sem fundo de pura treva. Havia alguma coisa ali, ele tinha certeza, mas não fazia ideia de como começar a se desvencilhar de tantas sensações turbulentas e desoladoras.

Tinha a ver com Vitória, sim, mas revirava tanta mágoa em seus cinquenta anos de solidão que por um segundo foi preciso lutar contra o instinto de pedir ajuda, de implorar de alguma forma por aquela mesma atenção e carinho que estava recebendo minutos antes.

E não era pra fugir de instintos como aqueles que a maioria dos humanos apagava a sua individualidade em comportamentos de rebanho?

O professor se afastou em direção à janela, apoiou-se no parapeito e inspirou profundamente.

O horizonte parecia turvo. E Lucas não acreditava muito profundamente em nada, mas a verdade é que só conseguiu algum alívio depois de fazer um tipo de oração por sua aluna.
Naqueles setenta e poucos anos, o que ele mais se lembrava era de um mundo covarde demais pra olhá-lo nos olhos. Sem muita escolha, aceitou o caminho fácil, abandonou a si mesmo em troca de "ser alguém", e agora que sentia as últimas gotas de vida escorrendo, percebia também a sede acumulada.

Rabiscava, desajeitado, outro desenho no papel, tentando resgatar as formas de memória, e a firmeza na mão, e a vista, e um talento que já nem sabia se algum dia teve de verdade, quando Marta veio lhe perguntar se a menina poderia passar a noite ali com eles.

E contou a história de mais uma menina enganada por mais um homem sem escrúpulos, mais um aborto sendo feito, e que ela não poderia voltar pra casa, mais uma casa onde imperava um pai com seu falso moralismo e condenações generalizadas, especialmente contra as mulheres, então perguntou se eles poderiam acolhê-la, só por aquela noite, e João falou sim, claro.

Triste, silencioso foi o início daquela noite, e João se lembrava de tantas conversas tidas com Marta em que ela dizia, contra a ideia de que a humanidade fracassou, que quem havia fracassado mesmo eram os homens, mas que afinal, eles eram fisicamente mais fortes e insistiam em manter o fato no topo das relevâncias.

"Ela tem razão", João pensava, "ela tem toda a razão", tendo sido uma das pouquíssimas pessoas capazes de vê-lo, em mais de setenta anos, mais uma entre uma maioria absoluta de mulheres.

E agora, a menina estava ali, a casa ficou ainda mais silenciosa. Ele não a viu, apenas percebia sua presença como uma densa camada de melancolia preenchendo todos os cantos. As mulheres falavam baixo e em tom grave. Andavam devagar e cabisbaixas.

João reencontrou o desenho sobre sua mesa um pouco antes de dormir. Marta veio lhe dizer que a menina estava descansando, que ela iria embora assim que amanhecesse e que eles não precisavam se preocupar, mas dizia isso com a voz meio embargada. Parou a meio caminho de sair, olhando em direção ao nada, e disse triste e devagar "Vitória. Ela se chama Vitória. Quinze anos."

Quando a porta se fechou, ele voltou a olhar pro seu desenho, indiscutivelmente premonitório, uma escultura de mais de dois mil anos, sem cabeça e de asas abertas, com aquele mesmo nome. O que não queria dizer absolutamente nada. João nem saberia explicar por que chorava.


 

sábado, 9 de abril de 2022


 


 

Não sei se incapaz de ver ou pra garantir que o mundo confirme a ideia ruim que você faz dele 
Quando foi que decidiu que a vida não é a água que jorra e sim aquela que foi engarrafada 
Até que um dia seja muito tarde pra soltar o grito que ficou empedrando aí dentro da sua garganta 
Que o coração tem a bússola e o norte e seguramente o passo e pode ser que a estrada 
Que o medo é um aliado até o momento em que empunha uma arma ou acorrenta seus braços 
Que a maioria das culpas e condenações só têm realidade mesmo em pensamentos 
E há uma diferença imensa entre estar bem e apenas tentando agir como se a dor não existisse 
Eu sinto muito de verdade que você não consiga aceitar o escuro 
Porque assim continuará sendo enganado por qualquer um que saiba escondê-lo 
Um fantasma engolindo o ar que ainda resta ao redor do seu sorriso pálido 
Uma navalha sangrando pra sempre a sua alma afundada em alegrias de plástico 
A miséria não se importa se você executa à perfeição os rituais ao deus dinheiro 
Você não é maior por inventar vilões diante dos quais desfila fantasias de grandeza 
Nem estará mais seguro se for arrastado em cardumes por marés de farsas 
Nem jamais terá feito um bem sequer se faz somente o bem que espera que lhe façam 
Atormentados e feridos e doentes e exaustos se acumulam ao redor do lado bom das coisas 
Então eu não acho que esteja consumindo tanta força assim o seu fechar de olhos 
Quando a menor fagulha de afeto e compaixão seria o suficiente pra acender a Terra 
Somente pare de desperdiçar a pulsação dizendo que não dança 
Um pouco de atenção e os sonhos seriam capazes de aquietar tempestades 
Para além das milhares de promessas na vitrine o amor continua sendo a única energia renovável


 

sábado, 2 de abril de 2022


 

Eu tenho uma poesia alegre pra você 
Aqui, em algum lugar 
Eu tenho até respostas 
Pode ser que alguma esteja certa 
Trouxe lírios que você não quer 
Gostando mais do sangue cenográfico 
Entrego um coração de música 
O céu todo 
E qualquer coisa como descansar 
Mas soube que você tem outros planos 
Líderes 
Mais quase nada de verdade 
O mesmo velho círculo pra andar 
Parece que eu não sei de nada 
Mas sei que tenho ao menos outros ares 
Trouxe um pouco pra você 
Aqui 
Olha 
Lá longe


 

sábado, 26 de março de 2022


 


 

No fim da tarde, ele estava exausto. Tinham sido quatro horas de aulas, então estava no meio daquela apresentação no shopping e à noite ainda teria ensaio com a… com qual banda era hoje? Voltou a atenção para o que estavam tocando, não podia errar agora, tudo menos errar o tema dos duendes. As crianças adoravam. Samuel nem se lembrava de alguma vez ter tido uma agenda mais tranquila, não podia reclamar. Estava vivendo de arte no Brasil em meio a uma pandemia e a um governo que… quase errou a passagem do sol para o ré. Droga, Samuel, não no tema dos duendes.

Júnior pensou que poderia morrer de tédio assistindo àquilo, mas já tinha visto piores, e o importante era que o pequeno estava adorando. Se chegasse em casa animado pelo passeio, quem sabe a mãe parasse de encher o saco dizendo que o pai não se importava. Com o tanto de dinheiro que ele mandava todos os meses, ela devia era ter vergonha de abrir a boca para dizer uma coisa dessas. E depois que era ela quem estava mimando demais o menino. Deus que perdoasse ele, mas se o filho virasse viado por causa daquele grude todo com a mãe… O menino riu alto com alguma coisa no teatrinho. Benditos duendes.

Depois da apresentação, ainda rolou um extrinha inesperado que quase virou uma janta um pouco mais reforçada, mas então Samuel se lembrou da peça que faltava para a água quente do chuveiro voltar a ficar quente de verdade, e achou que já estava mais do que na hora de resolver aquilo de uma vez por todas. A situação já vinha se enrolando havia meses, porque o problema tinha começado exatamente na mesma semana que a banda de festa se desfez, e ela era uma das que davam mais dinheiro, aí as coisas ficaram um pouco complicadas nos meses seguintes. Até por isso ele tinha aceitado algumas aulas a mais. O que não era muito a praia dele, mas ajudou a segurar as pontas. Para ser sincero, uma banda de festa chamada Bamboleiros também não era muito a praia dele, mas era melhor para pagar as contas. Dois ônibus mais tarde, quando desembarcou para ensaiar com a Negros Fatos, ainda pensava nas contas.

Depois de deixar o menino com a mãe, Júnior foi para o seu happy hour com o filho de um potencial investidor em seu futuro negócio. O pai tinha dado um ultimato para que ele não estragasse tudo outra vez, mas a essa altura ele já nem acreditava mais nos ultimatos do pai, que afinal tinha trabalhado o suficiente para juntar dinheiro para algumas gerações depois dele. O filho do empresário era um completo babaca, como já era de se esperar, e estava decidido a tratar Júnior como um mendigo. Era talvez o auge da humilhação para ele, e isso depois de anos tendo que apresentar trabalhos comprados na faculdade e dois negócios falidos no currículo. As provocações do outro acabaram num desafio para que eles fossem fazer uma aventura na rua, no submundo, no meio da ralé mesmo, de verdade. Júnior aceitou, claro, não querendo demonstrar mais fraqueza, e foi assim que eles foram parar naquele barzinho ridículo em um bairro classe média. Simplesmente nojento, não fosse por algumas músicas que quase o animaram, e que chamaram sua atenção a ponto dele ter perguntado de quem eram. O barman, meio sem jeito, disse que eram da sua antiga banda. Júnior não quis dizer mais nada, para não encher demais a bola do cara, mas pensou consigo: Benditos Bamboleiros.

Samuel estava quase completamente sem forças quando entrou no elevador do seu prédio no final da noite. Queria ter conseguido uma senha para assistir ao filme que estreava aquela noite no streaming e do qual ele tinha participado, como instrumentista, em algumas músicas da trilha. Fazia tempo. Nem pagou tão bem quanto se poderia esperar, ainda mais considerando a pressão e a quantidade de trabalho. Um vizinho entrou com ele no elevador, o mesmo militante com quem ele já tinha trocado algumas ideias, por afinidades políticas, e que ao longo daqueles anos sempre perguntava sobre sua carreira artística, sem nunca ter tido tempo ou disposição para prestar atenção nela de verdade. Nem foi diferente naquela noite, a pergunta simpática pelo que ele estava fazendo, e então, em vez do filme, ele preferiu contar sobre a Negros Fatos e a proposta da banda de juntar música, performance e poesia, além do novo projeto que estava quase estreando, meio aos trancos e barrancos, graças a uma lei de emergência cultural. O vizinho fez uma cara de aprovação, disse que eles eram muito corajosos de estar fazendo isso em meio a tudo o que está aí e terminou dizendo que antigamente, sim, ele gostava de poesia. Antes de deixar o elevador, olhou para trás com um ar dramático e disse que agora não dava mais, que não tinha mais como, que não existe poesia possível diante da barbárie. Quando a porta do elevador se fechou, a mente de Samuel estava completamente vazia.

Júnior quase voltou para casa quando chegou na casa da namorada e descobriu que ela estava menstruada. Mas ela tinha acabado de pedir comida japonesa para os dois e ele achou que de repente ainda podia ganhar alguma coisa a mais com isso. Mas resistiu a assistir ao filme brasileiro que ela escolheu e que estava estreando no streaming, achando que, brasileiro, só podia ser uma bomba. No fim, acabou que nem foi tanto. Na verdade, ele até se sentiu tocado em algumas cenas, embora não soubesse absolutamente explicar por que. Talvez fosse a trilha sonora. Seu humor até que estava melhor no fim do filme, mas quando a namorada se recusou a um contato mais íntimo, saiu batendo a porta e disse que ia mandar o dinheiro da comida japonesa. Quando chegou em casa, estava com muita vontade de quebrar alguma coisa, mas em vez disso, entrou na internet tentando se distrair um pouco. Entre bons memes, notícias de futebol e mulheres com pouca roupa, sabe Deus por que o algoritmo mostrou a ele a publicação de um tal de Samuel pedindo mais verbas para o setor cultural. Aquilo foi demais para ele. Sem pestanejar, deixou sua opinião nos comentários:

"Acabou a mamata. Sem mi-mi-mi. Vai trabalhar, vagabundo."

sábado, 19 de março de 2022



CAPA
RELAÇÃO DOS PERSONAGENS
DESCRIÇÃO DO ESPAÇO CÊNICO
---> Clique Aqui <---

Cenas anteriores:
---> PRÓLOGO <---
---> CENA 1 <---
---> CENA 2 <---

(Novas cenas em breve.)
CENA 3

(No meio da confusão de luzes, música e ruídos, L continua gritando, até que as luzes se acendem e todos os sons cessam de repente. L está no meio da plateia, gesticulando enfurecido. Todos os outros estão espalhados pelos diferentes palcos, exceto por Helena, que não está em lugar nenhum.)

L: Chegou! Parou! Acabou essa palhaçada aqui, o que que é isso?! Isso aqui é um daqueles programas de auditório que as famílias que têm problemas vão pra lavar roupa suja em público, por acaso? Ridículo, ninguém quer saber. Isso é patético, o que é isso? O cara veio te contar como que ele foi pra cama com uma mulher comprometida e você fez o quê, você derramou uma lágrima? Essas que são as liberdades que vocês querem dar pras pessoas? Aí o cara que se sente ofendido com isso e reage é que está errado?

KARINA: Você que está distorcendo os fatos.

L: Ah, claro, é a narrativa do amor inocente. Que lindo, nenhum dos dois sabia o que estava fazendo.

PÂMELA: Olha aí, você está inventando.

L: Ah, eu que estou inventando? Vocês são a voz da razão e da verdade. Defendendo uma piranha, vaca…

DIOGO: É, cara, eu já falei mil vezes, você está exagerando…

L: Eu… Ah, eu estou exagerando? Está com pena dessa puta…

LUDO: Você é desagradável, cara.

L: Oh, coitados de vocês. O que é agradável, então, essa promiscuidade? Essa libertinagem?

KARINA: Você é estúpido. Só é simplesmente estúpido.

L: Eu vou… vocês querem… eu tenho que contar uma historinha comovente ali no microfone? Eu vou lá. Precisa do espetáculo, né, se não tiver sangue e vísceras espalhadas pelos palcos, nada feito. Não, eu vou lá, vocês gostam de um escândalo, né, dá audiência.

MANO: Eu vim aqui… eu queria só matar aquele cara, vocês ainda vão ouvir ele?

L: Você fica quieto aí, ó… Você não falou no microfone, você não teve o seu momento?

MANO: Falei em porra de microfone nenhum.

L: Eu vou… não? Bom, eu vou falar ao microfone, aqui, vocês não gostam de historinha? Eu vou contar uma historinha aqui, talvez vocês não gostem tanto porque ela não é totalmente fantasiosa que nem a de uns e outros aí.

KARINA: Ai, eu não vou, vai falar coisa nenhuma, ninguém vai ouvir.

L: Vou. Vai ouvir, sim.

KARINA: Eu vou, alguém desliga o microfone aí?

L: Quem sabia que a princesinha Julieta ali só veio pra essa praia porque o corno do marido dela tem apartamento aqui? Alguém contou isso? Você contou isso, amor?

KARINA: Tá, e daí, você… Desliga o microfone aqui, gente, o que é isso? Esse cara veio armado atrás da ex-mulher!

L: Olha aí, ninguém está te ouvindo. Sabe o que ninguém mais ouviu, também? A verdade, ninguém aqui ouviu nem uma palavra de verdade até agora. Quanto tempo fazia que você estava dando pra ele? Na minha cama, vocês treparam?

LUDO: Deu, parou, cara, ninguém quer te ouvir mesmo.

L: Fala então você! Conta pra eles como foi a primeira vez que você falou que me amava. Como foi lindo. Conta?

LUDO: Eu vou… vamos tirar ele daí?

L: Ah, vai me tirar daqui? Você não é homem.

LUDO: Você tem uma ideia primitiva e muito preguiçosa do que é ser um homem.

L: E você vai fazer o quê, (sacando a arma) desviar de balas? (No instante em vai erguer a arma, Ludo interrompe o movimento e com um gesto rápido, desarma-o. Diogo já está ao seu lado.)

DIOGO, um pouco incerto: E como você pretende, exatamente…

LUDO, sem ouvi-lo, segurando L e levantando-o do chão: Eu disse… Me ajuda aqui! (Diogo vai ajudá-lo.) Eu disse que a gente podia ter evitado. A gente devia ter evitado.

(Ele e Diogo levam L para fora de cena. Ludo e L vão trocando xingamentos.)

(Silêncio.)

KARINA: Eu não me lembro de nada disso. Naquele dia. (Pausa.) Até…

PÂMELA: Que bom que vocês vieram.

MANO: Eu vi você morrer.

PÂMELA: Vai acabar logo.

MANO: Eu não quero que acabe.

PÂMELA: E tem uma parte que não vai acabar nunca.

MANO: A gente não… Eu não sei… se eu consigo… passar por isso de novo.

HELENA: Ludo? Alô? Oi, Ludo? Você falou comigo?

KARINA: Helena? Vocês… vocês estão ouvindo?

PÂMELA: Sim. Você também, Mano. (Ele confirma com a cabeça.)

HELENA: Eu não sei por que eu te respondo. Eu não quero fazer parte de nada disso.

MANO: Quem é ela?

KARINA: Helena, ela… (confusa) ela não estava aqui?

HELENA: Você é cruel. E egoísta. E nada disso faz sentido.

KARINA: Ela está falando daquele que… (faz um gesto imitando Ludo erguendo L do chão.)

MANO: Mas por quê? O que ele fez?

KARINA: Eu quase descobri, eu acho.

HELENA: Então eu decidi que eu vou contar tudo.

KARINA: Sim… Helena? Sim! Conte tudo.

HELENA: Eu vou procurar ajuda. Como você se recusa a fazer.

KARINA: Sim! Helena? Como… (para Pâmela) como eu faço pra ela me ouvir?

HELENA: Isso vai terminar.

PÂMELA: Isso vai terminar logo.

HELENA: Isso vai terminar logo.

(Silêncio.)

MANO, chorando e segurando a mão de Pâmela: Meu amor. Eu não quero te perder de novo.

(Repete algumas vezes que não quer perdê-la enquanto a luz vai se apagando lentamente.)

sábado, 12 de março de 2022


 

raiz das horas, vasta profundeza da memória, eu sou ainda aquele instante do teu rosto entre as minhas mãos, lábios de amora, não sei se a tua respiração ou a minha, a nossa. aurora de sangue, a ponte que tombou sobre o infinito, pouco importam as montanhas que movemos com os corações em chamas, a presença intocável em mais um sonho, saber que já não somos, sentir na boca mais um gosto amargo. ou até mesmo as lágrimas, e sobretudo as lágrimas que sobram, que transbordam, lágrimas que alagam, não importam mais, nunca mais, tampouco agora. eu sei que te perdi no instante em que te amei, e sei do teu amor que virou água, pedra, estrada até o vazio, adeus sem volta. como é impossível não haver ainda o mesmo amor debaixo dos escombros, a terra de que já não pode nascer nada, um eco do teu nome, esse é teu cheiro ou da distância, uma inocência que jamais teve perdão e que se arrasta, a roupa limpa em farrapos. não te encontrar quando eu acordo. a matemática mais reticente, e nem sequer um mapa dessa névoa, plantar uma semente já despetalada. não sei o que sou eu e o que é fantasma. cadê. por que voltar à tona onde também não se respira.


 

sábado, 5 de março de 2022


 

Tantos poemas ainda não eram o suficiente, nem se eu gritasse acima dos telhados, ou confessasse entre lágrimas, algo em mim sempre se parte ao partir. Era assim, o sonho de conhecer Machu Picchu e tudo o que eu tinha vivido ali em trinta dias, e aquilo que ainda germinava sem que eu entendesse, e tudo o que já era familiar, mais nada.

Outra vez, Antero parecia entender o que se passava comigo, e andava quieto ao meu lado em direção à estação. Meu coração era um redemoinho, ou do contrário eu teria dito o quanto ele tinha marcado a minha vida, ou os olhos brilhantes de Ruth, como somente às vezes nos damos conta de estarmos vivendo coisas que serão lembradas pra sempre, e como elas acabam depressa.

Coisas que a gente se esquece de dizer.

Se não era naquelas calçadas que escrevi cada um dos meus versos, no topo daquelas montanhas parecendo impossíveis quase acima das nossas cabeças, com o furor das águas correndo, na cor dos mantos que saíam dos teares, com todo o meu corpo, no vai e vem silencioso dos habitantes de Machu Picchu Pueblo. Ou se eu pudesse devolver a Antero ou mesmo a Ruth só uma parte do imenso carinho que eles me entregaram, a porção de cura com que me abrigaram, se uma palavra minha tivesse a força de tudo o que ouvi deles e que ainda ecoava em minha cabeça agitada.

Frases que o vento vem às vezes me lembrar.

E agora, em meu caminho, estava outro tempo que eu tinha deixado pra trás, sentimentos já quase empoeirados, lembranças que eram como os móveis sob os lençóis brancos numa casa fachada. E o que eu não soube encerrar, e o que eu não pude, o que me esperava e o que não queria que eu voltasse, até mesmo em mim, tudo aquilo girando junto no redemoinho porque também as coisas que ficaram muito tempo por dizer, na canção do vento não se cansam de voar.

- Você sabe que não está voltando pra lugar nenhum, não é? - perguntou Antero, mais uma vez telepático. - Você sabe que não vai encontrar mais nada do que ficou pra trás, que é pra um lugar novo que está indo.

Aquilo silenciou um pouco os meus pensamentos.

Mas no vazio, o que surgiu foi a imagem de uma dançarina de saia alaranjada que eu passei dias procurando pelo povoado, em vão.

- Então - continuou Antero, - você pega o trem azul.

"O sol na cabeça", completei mentalmente. Uma canção dos anos 70. E foi de novo como um sopro de ar puro nos meus pensamentos, embora não afastasse de vez a imagem da dançarina, até pelo contrário.

Sorri. Olhei em direção ao trem e respirei fundo.

O sol pega o trem azul, 
Você na cabeça.

O sol na cabeça.