sábado, 24 de setembro de 2022
Não nos faltava disposição pra virar a noite andando de bar em bar, conhecendo as pessoas mais aleatórias e discutindo sobre tudo como se fôssemos grandes especialistas, misturando bebidas em tão grandes quantidades que o mais impressionante, talvez, fosse o fato de que conseguíamos continuar falando. Numa daquelas noites, aconteceu que uma amiga teve que levar a prima mais nova a tira-colo, uma menina ainda menor de idade que tinha ido morar com ela e a quem nossa amiga repetia, do alto da sabedoria dos seus vinte e poucos anos: "Se você quer beber, pode beber, mas se fumar alguma coisa, eu vou contar pra tua mãe". A menina se enturmava fácil, tinha boas ideias e referências muito parecidas com as nossas, além de uma grande presença de espírito, de modo que em noites seguintes começamos a perguntar por ela e, em pouco tempo, ela passou a fazer parte da turma — antes de se tornar a grande amiga pessoal que mantenho até hoje. Era Cristina. Na época, ninguém sabia exatamente a idade dela, nem se importava com isso, até porque todos tínhamos idades diferentes e isso nunca significou absolutamente nada pra ninguém do nosso convívio. Então, veio uma daquelas noites em que tudo dá errado, e que já começou com um acidente sério que deixou um dos nossos amigos hospitalizado — soubemos pelo telefone, e decidimos continuar a noite mesmo assim, na ausência dele e do outro amigo que estava junto na hora do acidente. Não sei o quanto isso afetou os nossos ânimos, mas tudo começou a desandar muito logo, com uma discussão boba que acabou virando uma grande briga e dividindo a turma ao meio pelo resto da madrugada.
Cristina veio conosco, e fomos encarando uma série de frustrações que — embora isso fosse da mais alta importância pra nós — não passavam de bares com pouca gente, música ruim ou bebida cara. Cristina parecia um pouco triste, mas diante de tudo o que estava acontecendo, ninguém estranhava, se é que algum de nós chegou a reparar de fato. Restávamos apenas eu, ela, sua prima e um cara de quem ela — a prima — estava a fim fazia tempo, quase uma paixão platônica, mas que, até aquele momento, parecia estar correspondendo ao interesse. Então, meio que já estávamos contando, Cristina e eu, que terminaríamos a noite sobrando em meio ao casal. Até que, de repente, do nada, no meio de um bar que já quase ia acendendo as luzes pra expulsar os últimos clientes, o cara se embolou com uma completa desconhecida no meio das mesas, num beijo tão escandaloso que até naquelas circunstâncias estava ficando constrangedor. A prima, pega de surpresa, quis ir embora imediatamente e, no táxi que aceitei dividir com elas — apesar de que eu morava um pouco mais longe e não ia escapar de ter que pegar um madrugueiro — reinava um silêncio tão absoluto e doloroso que até o taxista, nas poucas vezes em que disse alguma coisa, falou em voz tão baixa e tão devagar que parecia falar com doentes terminais, ou quase. Desembarquei com as duas próximo à casa delas, mas antes de se recolherem, a prima quis parar em uma loja de conveniências pra comprar chicletes, lavar o rosto — e, suspeitamos, vomitar no banheiro —, quem sabe comer alguma coisa, beber algo doce, não sei: ela dizia que não tinha nada em casa, mas parecia mesmo era que não queria nunca mais voltar pra lá. Depois de ajudá-la um pouco, saí da loja e encontrei Cristina sentada no meio-fio, com a cabeça completamente afundada entre os braços.
— Noite difícil? — brinquei.
Ela ergueu a cabeça e respondeu com a voz fraca, sem olhar pra mim:
— É o meu aniversário.
Fiquei em choque por alguns segundos, depois olhei pro meu cachorro-quente, que já estava prestes a devorar com vontade, e, sem pensar duas vezes, estendi em direção a ela e disse com toda a alegria que consegui reunir:
— Feliz aniversário!
Ela sorriu, aceitou o cachorro-quente e começou a comer em silêncio. Sentei-me ao seu lado e fiquei em silêncio, também, sem conseguir pensar em mais nada, só que eu era algum tipo de último sobrevivente do que quer que fosse. Cristina estava completando dezessete anos.
sábado, 17 de setembro de 2022
As contas nunca fecham
Quando se paga com sangue
Pode-se até ter uma voz
De um outro
Ou ela terá pouco eco
Para muito oco
O coração fica offline
Onde ninguém mais habita
(Recebi essa reflexão no whats)
As suas orações pedem poder de compra
Agradecem pelo poder de compra
A sua fé
É no poder de compra
(Apenas vote
Seja útil)
Já nem me lembro mais por que
Escravos não perguntam
sábado, 10 de setembro de 2022
Não era eu quem te ouvia, não fui eu que te acolhi
Quando ninguém queria saber nem mesmo
Que você existia? Não sou eu, então,
Aquele que fortaleceu o teu espírito,
Quem te ajudou a andar e a encontrar de novo
O teu caminho? Pergunto
Não porque eu queira de volta o que é teu
E que talvez você não tivesse visto sem mim,
Pergunto não porque esperasse um pagamento
Sempre que forjava a tua alegria às custas
De tudo o que deixei de experimentar e de viver,
Não que fosse mais por mim
Do que de fato para despertar a mesma força
Que agora você usa para me ferir. Mas
Me ferir? A mim,
Por ser aquele que inundou teu coração
De esperança, assim, como se eu fosse o mesmo
Que primeiro o esvaziou? A mim
Por ter segurado a tua mão, talvez, como se antes
Tivesse sido eu quem te entregou à solidão, a mim
Porque te amei?
Fui eu, então, quem afinal te convenceu de que
Acabou-se o amor no mundo
Ou de que ele nunca poderá ser teu?
Sou eu, agora, que te devo
Algum pedido humilhado de perdão, reparação, maiores provas de
Bondade? Que do vazio eu tire ainda uma vez mais
O que te dê satisfação, se em troca de tê-lo feito sempre
Você veio até mim com pedras nas mãos?
sábado, 3 de setembro de 2022
Você não pode ver a linha que separa
A luz da escuridão, o bem do mal, o certo do errado
Até que alguém aponte pra você
E você diz é mesmo está ali
Você não consegue ver a diferença entre
Uma linha real e uma imaginária
Não há uma separação tão nítida, afinal
Entre a verdade e o sonho, nada
De concreto e definitivo sugere um limite exato
Inquestionável, irremovível
Entre a razão e a loucura
Quando se quer caminhar
Há muitos mais caminhos do que dois
Nem só avançar ou regredir, imensamente além
Do longe e do perto, aqui e ali, irrefreáveis
E incontáveis direções, estradas, passos
Quando se é capaz de ouvir
Aqueles que conseguem ver, não somente aprendem a
Sentir tudo que sabem
Ou a saber tudo que sentem, mas também
E sobretudo mas
E também
sábado, 27 de agosto de 2022
CENA 6
(A música termina. Foco sobre Mano, que fala ao microfone, a princípio, mas vai se afastando ao longo da fala.)
MANO: Então eu tive uma ideia que ia mudar tudo. Uma intuição! Sim, eu tive uma intuição, um insight, uma revelação, até, só podia ser, aquilo ia dar certo! Aquilo ia mudar tudo! Eu fiquei pensando, a gente voltou praquela praia, todos reunidos de novo, pra relembrar, pra reviver aquele dia e pra isso… E por isso, e por alguns instantes, pelo menos… Eu… Vocês viram, não viram? Ela estava aqui, ela falou comigo! Ela tocou no meu rosto e eu escutei a voz dela! Você escutou a voz dela? Eu escutava a voz dela, e a Karina também, então aconteceu da gente se encontrar e ela apareceu, então eu pensei que se foi assim dessa vez, então poderia ser de novo… Não é? Era uma ideia boa, mas eu não tinha como provar, ia ser difícil reunir todo mundo outra vez, eu ia ter que inventar alguma história louca, sei lá, como é que você orquestra o encontro de pessoas que não tem a menor intenção de se ver de novo? Ninguém, eu acho, ia querer se reunir outra vez só pra testar uma ideia. Não, mas não era uma ideia, era uma coisa que eu sabia, ia dar certo, ela ia aparecer outra vez, é claro que ia. Não ia? (Pausa.) Não ia?
(Foco se apaga. Sons de pássaros cantando e luz subindo aos poucos sobre Diogo e Ludo, que estão dormindo próximos um do outro. Os dois acordam e percebem um ao outro mais ou menos ao mesmo tempo.)
DIOGO, levantando-se: Eu não sei como eu dormi. Está tarde? Eu preciso voltar pra minha casa. Isso era um galo cantando?
LUDO: Uma coruja.
DIOGO: Me desculpe, não era pra eu ter ficado aqui. Já é de manhã. Você já está bem.
LUDO: Ah, sim, mas não vá embora ainda.
DIOGO: O que foi aquilo que aconteceu?
LUDO: O quê?
DIOGO: Você se transformou na Helena.
LUDO: Eu… é? (Pausa.) Acho que nunca tinha acontecido na frente de alguém. Eu não tenho como saber, isso tudo é uma bagunça. Vem cá, senta aqui. (Diogo vai sentar-se ao seu lado.)
DIOGO: Eu tenho que ir embora.
LUDO: Não sei quando isso começou, eu tinha uns quinze anos quando descobri. Eu achava que era normal apagar, às vezes, ficar fora do ar umas horas, depois voltar… sempre foi assim. Mas demorou pra eu descobrir sobre a Helena. Pra acreditar, então… até agora eu não consigo acreditar direito.
DIOGO: Eu tive uma ideia louca.
LUDO: Não fala nada. (Beijam-se. Mano entra nesse momento e os vê.)
DIOGO, levantando-se: Eu tenho que ir. (Vê Mano. Pausa breve.) Eu estava de saída. (Vai saindo.)
MANO: Não, eu tenho que falar com você, também.
(Blecaute.)
(Luz sobre L.)
L: Eu nunca teria voltado praquela praia se não fosse uma ideia tão boa. Uma dessas grandes chances que não é pra todo mundo que aparece, sabe? A oportunidade que vai mudar tudo. Agora eu nem lembro mais de toda a historinha que eles inventaram. Um empreendedor local com uma grande ideia, uma chance que eles sabiam que ninguém ia querer perder. Boa demais pra ser verdade, até, eu deveria ter visto, mas eu sou um completo otário. Como é que eu ia me perturbar por causa de um lugar, né? Por causa de uma lembrança que… eu nem... lembrava… mais? (Pausa breve.) Ãh?
(Blecaute.)
(Luz sobre Karina e Helena, exatamente como na cena anterior, em que Karina falava com Diogo.)
KARINA: Eu via tanta vida em você.
HELENA: Não faça isso.
KARINA: Eu não sei se eu consigo lidar com essa loucura.
HELENA: Não é loucura nenhuma. É perfeitamente lógico. É real, Karina.
KARINA: "Lógico"... Eu não… como é que você consegue?
HELENA: Eu posso melhorar… Eu acho… Eu tive uma ideia que…
MANO: Pode mudar tudo? (As duas ficam sem reação. Cada frase dele é uma tentativa de iniciar uma conversa, mas todas continuam deixando-as sem reação.) Desculpe, eu marquei com todo mundo aqui nesse horário. Eles disseram que vocês iam estar juntas. Eu fiquei feliz por vocês. Quer dizer, e que bom que vocês conseguem conviver com isso numa boa. Eu achei… sei lá, poderia ser difícil pra algum de vocês ver o ex com outra pessoa. Ah, eles devem estar chegando logo, que casal inesperado, cara! O Diogo e o Ludo. Vocês… sabiam… que eles estavam juntos… né?
(Karina olha para Helena com indignação.)
HELENA: Eu… era uma coisa que…
KARINA: O quê? Você não sabia?
HELENA: Nesse caso eu sabia, mas era o que eu estava…
L: Eu posso saber o que vocês estão fazendo aqui?
KARINA: Isso aqui já está ficando muito além da minha capacidade.
MANO: Não! Espera, não vá embora! Por favor! Eu explico!
L: Você vai explicar o que eu estou fazendo aqui também?
MANO: Sim, você foi atraído aqui por uma oportunidade de negócio, mas eu estava inventando tudo.
L: Eu… como é que é?
KARINA: Não venha atrás de mim.
MANO: Não!
HELENA: Karina, espera! É importante!
L: Pois eu também não pretendo participar dessa palhaçada.
MANO: É só mais um minuto! Vocês não podem ir!
DIOGO: Cheguei tarde? Karina? Você já vai?
MANO: É agora! Cadê o Ludo? Ela já vai voltar! Vocês vão ver, eu tenho certeza!
HELENA: Quem, mas do que é que você está falando?
PÂMELA: De mim.
(Música. Pâmela caminha até o microfone sendo transmitida ao vivo em todos os telões, as luzes piscam de maneira dramática. Foco sobre ela quando ela para diante do microfone.)
PÂMELA, ao microfone: E agora, você se lembra de como era estar presenciando um milagre?
(Silêncio.)
sábado, 20 de agosto de 2022
não não feche os olhos
para o que tem por dentro
a obrigação de ser é que está morta
agora
tempo nenhum te alcança
os números não sabem nada de você
essa luz quente do mundo
sim foi feita para se beber
não não deixe o seu coração num canto
não o abandone assim por trocados
lá fora é que é pouco
hoje
vai ser para sempre a sua única chance
aquilo que segue adiante
é o que tem vento nos cabelos
o maior desperdício é não transbordar
não não aceite menos que isso
ou até as pedras serão mais humanas
não não permita a poluição do abraço
por coisa alguma que não possa amar
sábado, 13 de agosto de 2022
Quando voltei a morar em Curitiba depois de ter ido embora duas vezes, ficou bem claro que não havia mais nada para mim por lá. Foram umas semanas sombrias em que me debati sem rumo, até finalmente arrumar as malas e ir ao encontro da vida que me esperava. Só o que me manteve mais ou menos são, naqueles dias, foi a presença do meu velho amigo Joaquin, que, por acaso, também estava dando uma chance à capital paranaense em sua vida ainda mais nômade que a minha. Aliás, tinha sido justamente esse nomadismo que nos aproximou cerca de dez anos antes, em um verão inesquecível da nossa juventude no litoral catarinense.
Joaquin parecia se encaixar ainda menos do que eu naquela capital, e muito logo se criou uma certa expectativa sobre qual de nós dois aguentaria menos tempo. Naqueles dias, ele estava particularmente incomodado com o fato de que uma das primeiras perguntas que ouvia ao conhecer alguém era "O que você faz?", referindo-se, obviamente, a uma profissão ou trabalho. E embora esse não fosse um comportamento exclusivamente curitibano, Joaquin achava que a pergunta era mais desagradável ali que em outros lugares, porque ali, dizia, as pessoas pareciam se pautar muito mais por questões de status social. Por isso, tinha desenvolvido o hábito de dar as respostas mais variadas à pergunta, muito raramente mencionando profissões, e indo das mais banais (como "panquecas" ou "estrelinha") às mais absurdas (como "coleção de moedas asiáticas do início do século passado"). E toda vez, ainda, depois de sua resposta inventada, acrescentava: "Mas não só isso."
— Eu meio que roubei essa ideia — confessou-me, um dia —, de uma garota que conheci na Bolívia e que respondia assim sempre que perguntavam a idade dela. Dizia o primeiro número que passava pela cabeça e mandava o "Mas não só isso". O que, aliás, serve pra quase toda resposta que a gente dá na vida…
Lembramos desse caso no aniversário dele naquele ano, quando nos encontramos para ir juntos ao Largo da Ordem comemorar com amigos. Repetimos tantas vezes o "Mas não só isso", para tantas situações e assuntos, que ele já estava um pouco desgastado quando saímos de casa, logo depois de anoitecer. Àquela altura, falávamos sobre as contradições entre a liberdade e as convenções sociais, distraídos demais para nos dar conta do caminho que estávamos escolhendo para ir ao centro naquele horário. Assim, quando pegamos a Visconde de Guarapuava lá o início, saindo do Cristo Rei, passávamos tranquilamente embaixo da trincheira enquanto Joaquin dizia:
— Às vezes, eu acho que sou livre até demais. Sabe quando você está tão solto que acaba parecendo mais com… — nesse instante, chegamos ao ponto mais alto da rua e vimos-na se estender para muito longe, coberta de pontos vermelhos dos faróis dos carros, completamente imóveis no congestionamento, de modo que Joaquin concluiu seu pensamento como se estivesse desistindo de falar, lenta e desapaixonadamente: — uma folha arrastada pela correnteza da Criação.
O silêncio nos minutos seguintes era cheio de impaciência e pensamentos tristes, carregado de toda frustração e incerteza que vínhamos carregando naqueles dias, até que ele decidiu colocar um pouco desses sentimentos em palavras:
— Você não se pergunta, às vezes, se não somos mesmo alguma dessas piores coisas que já ouvimos a nosso respeito? Se não somos só uns poços sem fundo de egoísmo, ou uma farsa completa, ou qualquer coisa tão abjeta que não merecia nem estar no mundo?
Pensei sobre as pergunta e depois respondi, devagar:
— Pra começar, acho que eu nem consigo confiar em alguém que nunca tenha se perguntado isso. E depois que… Sim, eu acho que nós somos. Tudo isso, talvez até pior. As piores pessoas do mundo. No mínimo, com toda a certeza, nós somos o pior que podemos ser. Mas…
Deixei a frase no ar sabendo que ele a pegaria, e foi interessante ver seus olhos se acendendo de repente, mais brilhantes que a luz de todos os postes e faróis de carros à nossa volta, enquanto dizia em voz baixa, claramente reanimado:
— Mas não só isso.
sábado, 6 de agosto de 2022
Ali do outro lado estavam promessas petrificadas, seus olhos a meio caminho de se abrirem, eu imaginava, porque não restava outra coisa a fazer, que elas explodiam em risadas pela praia, o corpo cheio de vida e sal do mar, mas então a falta de pulsação gritava outra vez mais alto.
Quão longe eu tive que ir apenas para ver meus sonhos tão despedaçados, como se me faltassem mãos para cultivá-los, como se meu coração fosse menor, pior ou mais sujo que o de tantos outros em que os frutos transbordavam, se eu era o primeiro a preparar a terra com suor e afeto, primeiro a arrancar ervas daninhas, primeiro a acreditar, disposto e desperto desde muito antes do sol nascer.
Mas precisava não haver mais noites para que eu deixasse de sonhar, que eu não tivesse memórias, nem um corpo ou a poesia ainda quente em minha alma, então quem sabe eu deixasse de amar, se eu fosse um outro, talvez, se fosse menos como aquele que eu não era e que insistiam em apontar em mim.
Ali, ao alcance de um gesto, feito mármore, para sempre congeladas no ínfimo instante que antecedia sua existência, as esperanças todas, o mais puro bem, todo o sentido de sermos carne e de termos um nome, ou de vagarmos há milênios sobre esta rocha errante no espaço, aos poucos se desfaziam, esfarelando-se, arrastados pelo vento como se não fossem nada, até que já não fossem nada, um só nada, o nada, nada.
Mas precisava de muito menos que o nada para eu não ser.
sábado, 30 de julho de 2022
O professor lá falando falando e ela desenhando em meu caderno
Eu pensando em me juntar às tropas e lutar por alguma causa importante mas
Matemática é importante? e esses garranchos
Como é que você foi ficar de recuperação em artes?
Quase falei vou me juntar a uns caras aí e lutar por alguma coisa importante mas você veja bem
Faz tempo que tem umas minas lutando até melhor que eles
E os caras da minha sala pelo amor de deus
Só têm pra compartilhar o mundo ao redor dos seus umbigos sujos
Pra mim sobra só mesmo um e você quem é
Queria mais era um milagre que acabasse de uma vez por todas com essa aula insuportável
É o professor que não aprende nunca
Nada
Nunca
Então ela desenha um par de olhos e um sorriso largo em meu sol amarelo
Que agora vai ficar ali pra sempre me olhando com aquela cara
Feliz da vida
Simples assim
Ninguém jamais conhecerá sua causa
sábado, 23 de julho de 2022
Ao final de um dos meus piores dias, preparei a mochila para andar algumas dezenas de quilômetros até uma cachoeira e ver se assim eu me libertava, um pouco, daquela carga pesada e negativa do dia a dia. Na manhã seguinte, saí um pouco antes amanhecer calculando que, na pior das hipóteses, caso não passasse ninguém pela estrada disposto a oferecer carona, eu conseguiria chegar à cachoeira e voltar para casa ainda antes que anoitecesse. Mas era preciso acelerar o passo, e foi o que eu fiz.
Enquanto caminhava, junto com o vento e com a paisagem, via passarem pensamentos e sensações represadas durante muito tempo, músicas e histórias de tristeza ou guerra, situações imaginárias que eu encenava apaixonadamente em minha cabeça — talvez, às vezes, dirigindo algumas falas em voz alta para as árvores e para as pedras. Assim, até por volta do meio-dia, mal reparei na ausência absoluta de movimento na estrada, e só então comecei a me preocupar com o tempo que me restava, pois então pareceu que ele seria pouco para todos os meus planos.
Olhei em volta com atenção, agora calculando para qual lado estava a cachoeira e como eu poderia chegar a ela traçando uma linha reta, em vez de continuar seguindo pela estrada. Como nunca tive problemas de localização, confiei na estratégia e, de fato, em pouco menos de duas horas, alcancei meu destino e pude finalmente silenciar qualquer pensamento mergulhando na água fria de um belo rio selvagem. Instantes depois, deitado, à margem, exausto, tive uma ideia louca de nunca mais voltar para casa.
E a ideia virou decisão. Em vez de retornar à estrada ou seguir de volta o caminho que havia me levado até ali, apenas fui adiante, primeiro margeando o rio, até avistar um bom local para acampar naquela noite, e, no dia seguinte, segui direto e de uma vez por todas para o coração da selva.
Uma única vez questionei a decisão, alguns dias mais tarde, quando a comida foi chegando ao fim e eu ainda estava em uma região muito deserta para encontrar alternativas na natureza. Ironizava, em minha mente ainda conectada a ideias decadentes de uma velha vida, dizendo a mim mesmo que da próxima vez contrataria guias e carregadores para facilitar todo o trabalho, para depois, quem sabe, fazer sucesso entre uma "galera descolada" na internet falando mal de trilhas. Mas assim como as preocupações e aqueles pensamentos anacrônicos, as dificuldades acabaram passando, ou eu acabei me acostumando, não sei, de modo que os meses seguintes foram tanto mais fáceis quanto mais deliciosamente silenciosos em minha cabeça.
Passados três ou quatro anos, ainda, estranhei um pouco a ausência de pessoas e cidades por onde quer que eu fosse, e percebi que estava esquecendo as palavras e os nomes das coisas, vivendo uma vida em que a mera noção de "significados" já havia se desfeito completamente na superfície dos fatos. Dessa forma, dizer que "eu simplesmente estava ali" já é dizer demais; dizer que "nada mais precisava ou poderia ser dito" também já é dizer demais.
De modo que nem sei se foram realmente décadas mais tarde que afinal me dei conta de que não andava mais sobre o planeta Terra. De alguma maneira, em todas aquelas andanças, eu havia atravessado galáxias inteiras, e estava agora a milhares de milhares de anos-luz de onde havia começado. Ao olhar para trás, conseguia ver um rastro luminoso de estrelas, ainda quente e agitado pelos passos recentes. Mas ainda assim, naquela hora como em nenhuma outra, nunca houve paisagem mais bonita do que dali para frente.
sábado, 16 de julho de 2022
Acordou uns cinco minutos mais tarde que o habitual e já se levantou com a sensação de que o dia inteiro daria errado. Antes de sair, apressado, sob o olhar sempre atento e silencioso de Anis, ainda ouviu Margarete dizer a Patrícia, talvez pela centésima vez desde que chegou ali, duas semanas antes: "Ele vai cair. Você vai ver. É só questão de tempo."
Chegou à oficina alguns segundos antes de se completar um minuto de atraso, o que deixou o patrão ainda mais enfurecido do que se ele tivesse se atrasado um minuto inteiro. Afinal, os descontos de pagamento por atraso eram baseados em minutos, não em segundos. O fato representou um aumento considerável de trabalho naquela manhã, incluindo tarefas que não eram sua função, e outras absolutamente desnecessárias, surgidas de um puro exercício de poder e sarcasmo do chefe mau humorado.
No almoço, ao menos, podia contar com a compreensão de Lan, dono de um restaurante suspeito na esquina e que sempre lhe concedia descontos na comida em troca de uma ajuda na limpeza, na cozinha ou fazendo alguma entrega. O que acabava reduzindo ainda mais o tempo já reduzido de almoço, mas era o que dava para fazer. "Vamos acabar com a injustiça social", dizia Lan, trazendo-lhe mais pratos sujos. "Você vai ver. Vamos colocar essa sociedade nos eixos."
De volta à oficina, à tarde, o chefe parecia um pouco menos irritado. Parou para humilhá-lo apenas três vezes, uma delas por causa dos sapatos muito gastos, outra, porque ele tinha "um nome de pobre", simplesmente, e outra porque… Já nem se lembrava. Não era importante. O chefe era um completo babaca, mas sem o qual ele continuaria como antes, morando na rua, mendigando trocados.
No caminho de casa, encontrou-se outra vez com Lan, que veio pedir que o amigo por favor levasse aquele saco de rejeitos fedorentos até uma caçamba na rua debaixo, para ele não ter que passar a noite com aquilo empesteando o ar já bastante comprometido em frente ao restaurante. E como era de costume, foi atencioso, perguntou como tinha sido o trabalho e teceu comentários maldosos sobre o patrão do outro, despedindo-se com a corriqueira afirmação de que o reinado do capitalismo estava prestes a acabar, e que ia levar junto para o esgoto da História todos aqueles ratos nojentos.
Quando chegou em casa, encontrou as mulheres e a menina se ajeitando para ver um filme, e então Patrícia convidou-o para acompanhá-las. Margarete não fez o menor esforço para disfarçar sua contrariedade, mas ele aceitou mesmo assim, e até porque, se dependesse de Margarete, ele ainda estaria morando na rua. Patrícia, por outro lado, chegava a ser gentil com ele, às vezes, mais até do que ele já tinha visto qualquer uma delas ser com a menina Anis — que, aliás, ele nunca entendeu quem era ou como foi parar ali.
Dormiu um pouco antes da metade do filme. Arrastou-se para o quarto ouvindo Margarete reclamar de alguma coisa e caiu outra vez no sono assim que se deitou. Teve um sonho tumultuado, carregado de sensações densas e incômodas, uma série de situações em que ele era esmagado, ferido, apedrejado, morto, destroçado, perseguido, incinerado, e talvez mais umas quatro ou cinco formas de agressão e anulação. Um pouco antes de amanhecer, acordou a tempo de ver da janela uma estrela colorida e brilhante descer do céu e pousar em algum ponto ali perto. "Vai ficar tudo bem, agora", pensou, sem saber de onde vinha aquela certeza. Quando finalmente acordou para o trabalho, um pouco depois, sequer sabia se aquilo havia sido um sonho ou realidade.
Desta vez, estava realmente atrasado. Profundamente descansado, sim, com os ânimos transformados, mas terrivelmente atrasado. Saiu sem correr muito, até parou para dizer bom dia às mulheres e a Anis, a quem se permitiu ainda dirigir um sorriso e algumas palavras de carinho. Aquilo enfureceu Margarete de um jeito que ele nunca tinha visto, e enquanto saía, desta vez, ouviu-a dizendo "Eu disse que ele ia cair, olha aí, todo amiguinho", e mais uma série de considerações amargas e raivosas que ele não conseguiu escutar.
E então, quando chegou à oficina, encontrou o chefe esperando com um largo sorriso de crueldade e sem mal conseguir conter o anúncio de sua demissão. Falou que tinha feito mudanças por causa dele, que, a partir daquele dia, os descontos por atraso seriam por segundos e não minutos, mas que afinal, a regra nem chegaria a ser aplicada a ele, veja só, que privilégio. Aproveitou para mandar outras palavras de desprezo antes que ele saísse definitivamente pela porta, estranhamente leve e despreocupado, como se todos aqueles desaforos estivessem sendo dirigidos a outra pessoa. E foi adiante sem olhar para trás.
Na esquina, parou para contar a Lan o que havia acontecido, e ele contou também que vinha sendo pressionado pelo dono do ponto, que o aluguel tinha subido e que ele não poderia mais ajudá-lo com aqueles precinhos camaradas de sempre. A notícia não chegou a surpreendê-lo, e só de brincadeira, perguntou: "E a revolução começa quando?", ao que o outro fechou a cara e respondeu secamente: "Primeiro, eu tenho que arrumar essa bagunça".
Por fim, então, quando voltou para casa, encontrou todas as suas coisas do lado de fora da porta. Ainda bateu algumas vezes, chamou pelas mulheres, sabendo que elas estavam ali, mas nenhuma se deu ao trabalho de lhe responder. A única saída era resignar-se ao seu destino. Juntou seus pertences, tão poucos, e caminhou outra vez em direção à rua. Como um filho pródigo.
Na calçada, parou uma última vez com o olhar distante, a sensação bem conhecida de um peito despedaçado. Se formulasse algum raciocínio, provavelmente seria uma pergunta, como, por que, para onde agora, mas era uma interrogação generalizada, apenas, enquanto ele se movia sem nem mesmo se dar conta.
Assinar:
Postagens (Atom)







