sábado, 29 de outubro de 2022


 

Não se pode dizer que algum dia 
Chegaram ou chegarão a atravessar a vida 
Você pode vê-los à margem, receosos até mesmo 
De molhar os pés, a menos, talvez, 
Que alguém fantasiado de autoridade (especialmente divina) 
Diga tá ok então desta água bebereis 
Mas só um pouco 

Um bando de corvos e palhaços se alvoroça ao seu redor 
Gargalhando de sua credulidade estúpida, enriquecendo 
Às suas custas e ilicitamente a olhos vistos, enquanto 
Disparam as ordens mais disparatadas 
Agora jogareis esta água suja no cantil do vosso irmão 
Agora sobre esta água deitarei um século de sigilo 
Agora esta água é só minha 
Que morram de sede, eu não sou coveiro 

Odeiam sobretudo as almas livres, morrem de medo de ideias, 
E do fato de que a água é simplesmente de todos 
De que há água para todos 
De que é possível mergulhar de cabeça e de que há mundos inconquistáveis nas profundidades 
Por isso desperdiçam a existência construindo jaulas e empunhando armas de fogo 
Ajoelhados diante de qualquer pedaço de lixo 
Para onde os seus verdadeiros ídolos apontem dizendo ali está Deus 

Não 
Não se pode dizer que algum dia 
Chegaram ou chegarão a amar 
Apenas que compraram uma porção de afetos 
E que os arrastaram às masmorras em que soterrados 
Morrem décadas mais tarde discursando enfurecidos contra 
Um suposto mundo lá fora 
Onde rios imaginários 
Vorazmente engoliriam seus tesouros embolorados se 
Alguma vez 
Sequer tivessem ousado se molhar


 

sábado, 22 de outubro de 2022


 

Como alimentar uma histeria coletiva. O nós contra eles, de novo a batalha final entre o Bem e o Mal, a ideia preguiçosa de uma solução para todos os problemas. Como construir um grande circo e vender todos os ingressos, botar dois bonequinhos para brigar e incendiar a plateia. O produto ideal nem parece um produto, veja como convencer de que ele é necessário. Já venceu a farsa. É só seguir o script em tom espontâneo e verdadeiro, caprichar nessa interpretação de gente como a gente, usar umas palavras-chave, o discurso das massas como se jorrasse do pensamento de um só homem. Mas tem que ser um homem. Homem branco e velho, e tem que usar um terno. Como dar ao público a ilusão perfeita, a que jamais será descoberta, fazê-lo acreditar que estará decidindo o que já está decidido, celebrar um grande avanço enquanto se garante que tudo siga igual a ontem. Venceu o marketing. Uma estrutura hipnótica, a que preserva escravos. Perdemos nós. Venceram heroísmos fabricados, e a salvação pode afinal morrer não sendo mais que retórica.


 

sábado, 15 de outubro de 2022



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(Novas cenas em breve.)
CENA 7

(Mudança brusca de luz.)

L: Parou! Acabou, eu não vou fazer parte disso! O que é isso, é uma novelinha espírita? É pra eu perdoar a minha mulher adúltera e o amante dela? Aliás, no espiritismo, isso que você está fazendo não é obsessão? Patéticos, vocês dois. Você queria o quê? Hem? Não, me diz, eu vou te dar a chance de mostrar o brilhantismo dessa tua cabeça cheia de merda. Você me trouxe aqui pra ver você se reencontrando com a minha mulher e o quê, daí, vivendo feliz pra sempre com ela, que nem o Gasparzinho? Falando em milagre?! Agora você quer o quê, ser canonizada? A padroeira das putas adúlteras? Você pode? Já não tem alguém ocupando esse posto? Tenho certeza de que candidata é que não falta…

HELENA: Existe um mundo… quase não é outro mundo, é meio que um avesso deste. Existe um mundo por trás deste mundo que é onde as coisas deste mundo são tecidas. Não, espera, eu preciso. Você tem que saber. É agora, é quando as coisas são decididas, é onde começa o movimento. Eu sempre procurei saber, eu queria entender até onde eu podia realmente decidir e controlar quem eu era, e até onde era só um resultado, um produto, a marionete do instinto ou de um padrão social. Você não sabe. Você está vendo um quadro muito pequeno aqui, é uma escolha, eu não sei do que você está se protegendo, mas essas máscaras, esses personagens todos… Estereótipos de homens e mulheres, de como um homem deve ser, ou um casal, ou o que significa uma mulher se sentir livre o bastante pra decidir com quem ela quer viver, o que ela quer fazer da vida… É essa a sua peça, é por isso que você está esperneando tanto, uma cena em que não aparece nada de um ser humano, só rótulos?

(Em algum momento ao longo das falas seguintes, Helena se transforma em Ludo.)

DIOGO: Eu entendi, Karina. Eu me apaixonei por essa mulher tanto quanto você. Até mais, se você pensar que o Ludo… mas eu entendi. Mais, eu nem sei explicar. É como se eu pudesse ser o próximo a sair flutuando, eu sinto como se eu pudesse voar.

PÂMELA: Eu não espero que você me perdoe. Eu tive que me perdoar por tanta coisa.

DIOGO: Eu me libertei de tanta coisa. E foi uma coisa que você me falou que me fez ver.

PÂMELA: Isso é o que é. Não tem um porquê, você não pergunta o porquê de uma rosa.

DIOGO: Eu queria resolver tudo. Os teus problemas, os meus, os de todo mundo aqui.

PÂMELA: Eu só existo enquanto vocês estão todos juntos.

DIOGO: Achar uma solução que favorecesse todo mundo.

PÂMELA: Se eu pudesse escolher, também seria diferente. Eu nunca quis machucar você.

DIOGO: Eu nunca me importei de ter que me machucar por isso.

PÂMELA: Isso não tinha nada a ver com você, nunca foi sobre atingir você ou fazer qualquer coisa pra te machucar.

DIOGO: E sempre acabei me machucando por isso.

PÂMELA: Não, não fale agora, eu preciso terminar.

DIOGO: Mas isso pode acabar, hoje, aqui. Isso pode dar certo, Karina.

PÂMELA: Isso não vai dar certo. Eu não vim aqui pensando que ia dar certo. Muitas coisas vão acabar, hoje, aqui, e outras que já tinham acabado muito antes não vão voltar a ser. Mas também alguma coisa está nascendo, não pra você, você só enxerga a morte. E então você não vai voltar a me ver, e não por isso, mas você também não vai voltar a enxergar nenhuma luz. Eu não posso lamentar por você, eu não espero que você compreenda a imensa dor que eu sinto.

LUDO: Eu não espero que você compreenda a imensa dor que eu sinto.

PÂMELA: A vida… foi esse sopro.

LUDO: Eu sempre soube que você era incapaz de sentir qualquer coisa por mim.

PÂMELA: E eu passei muito tempo tentando ser pessoas que eu não era.

LUDO: Que você só era capaz de amar metade de mim, e que isso não seria suficiente.

PÂMELA: Tentando viver do sentido que outras pessoas davam pra vida, porque o sentido que eu dava era...

LUDO: Eu queria poder ser só a parte que você gosta.

PÂMELA: Nunca era bom o bastante. Ou não era nenhum.

LUDO: E é engraçado, mas hoje, por causa de você, do Diogo, por causa disso tudo, hoje eu me sinto mais inteiro do que nunca.

PÂMELA: Agora tem uma coisa que ninguém nunca vai poder tirar de mim.

LUDO: E você me fez ver, viver, sentir coisas que nunca ninguém tinha trazido pra mim.

PÂMELA: O brilho do meu último instante. Um voo. O meu coração transbordando.

LUDO: É como se só agora eu nascesse. É incrível como isso pode ser só um clichê pra quem ouve e, pra quem vive, parecer a mais complexa, imprevisível e profunda realidade. É como se eu visse pela primeira vez. Não existe nada mais no mundo que eu queira tanto ver. O meu amor por você, pelo Diogo, isso me transformou de um jeito que eu achava que já não fosse possível. Eu não quero, é uma crueldade que isso acabe agora. E eu sei que eu vou passar o resto da vida me perguntando como seria se agora você olhasse pra mim e dissesse que vai me dar uma chance.

KARINA: Não existe a menor chance disso acontecer. Eu odeio um pouco isso. Quer dizer, odeio que não exista a menor chance, mas… Eu me enganei, isso é horrível. Talvez eu passe o resto da vida me torturando por isso. Eu não posso colocar um outro coração no lugar do meu pra não despedaçar o teu, o da Helena, o do Diogo. E aí não tem como não despedaçar o meu junto. Eu estou cansada de ser uma cretina e ter o coração despedaçado. De não ser uma cretina e ter o coração despedaçado. Eu estou cansada, basicamente, de ter o coração despedaçado, mas eu também não quero ser uma cretina ou ver pessoas que eu gosto sofrendo por causa de caras como esse aí que já superaram todos os graus mais elevados da completa cretinice. Então eu penso em ficar. Não, eu sinto que quero ficar, eu não penso. Quando eu penso, eu sei que esse cara nunca vai aceitar uma situação como esta. Eu ficaria aqui, sim, eu ficaria. Não com você, mas aqui. Eu quero ficar. E o meu coração transborda e dói.

MANO: E o meu coração transborda e dói.

PÂMELA: E o meu.

DIOGO: O meu, também.

(Ludo levanta a mão. Em algum momento ao longo das falas seguintes, discretamente, ele desaparece.)

L: Vocês são ridículos.

MANO: Sempre achei que fazer ciência é o mesmo que fazer poesia. Com números, sim, bastante, mas com palavras mesmo, o conhecimento, a maior parte dele, não, todo ele, é só um arranjo de palavras, é igual poesia. Pra explicar a verdade, mas poesia. Ah, eu também entendo que a poesia é pra explicar a verdade, então… Verdade, eu vejo você viva, exatamente como naquele dia, e logo você vai ser mais uma vez arrancada de mim por causa da poesia que um idiota escolheu pra explicar uma verdade que é só a verdade, esta, a de que você está aqui e de que nós nos amamos. E aí você não vai ficar. (Pausa breve.) Você só veio se despedir? Eu teria ido até o inferno. Eu vou até o inferno pra me despedir de novo, eu nunca mais quero sair de perto de você. Poesia, verdade. Você veio pra me fazer lembrar de que eu ainda estou vivo? Eu nem precisava estar. (Pausa.) Eu nem reparei que eu estava. E aí eu acabei ferindo alguém enquanto trazia você de volta. Foi uma distração, é horrível, a gente devia ser incapaz de se distrair das pessoas que a gente ama. Eu falei demais. Eu deixei passar uns detalhes, não consegui enxergar fora do meu contexto. Eu achei… pensei que o milagre fosse uma coisa pessoal, porque era, mas… Você veio me mostrar o tanto de milagres que tem no mundo?

L: Milagres?

MANO: Você não veio por nenhum motivo.

L: Como assim, de que milagres você está falando?

MANO: Você só está aqui.

L: Eu estou vendo um milagre só, bem pessoal, inclusive.

MANO: E eu só te amo, Pâmela, a verdade é essa.

L: Tem mais algum milagre acontecendo que eu não saiba?

MANO: Já é poesia demais acontecendo.

L: De que outro milagre você está falando?

(Foco sobre Helena, no mesmo local em que apareceu Pâmela no final da última cena. Quando ela fala, Ludo fala o mesmo que ela, ao mesmo tempo, mas de algum lugar invisível ao público.)

HELENA: De mim, é claro.

(Música. Helena caminha até o microfone como se estivesse sendo transmitida "ao vivo" em todos os telões, mas o que eles mostram é Ludo caminhando até o microfone. As luzes piscam de maneira dramática. Foco sobre Helena quando ela para diante do microfone. Mais uma vez, Ludo diz as mesmas palavras ao mesmo tempo, mas apenas transmitido nos telões.)

HELENA, ao microfone: Quantas vezes eu vou ter que te lembrar?

sábado, 8 de outubro de 2022


 

Daqui 
Eu consigo enxergar 
Até o fim dos séculos 
Seus fios 
De distorcer minha voz 
Só 
Pra que eu não tenha dito 
Só 
Pra que apesar de dizer 
Eu não seja ouvido 
E só porque você só quer 
Saber o que quer 
A verdade é um luxo 
De quem não pode comprar o resto 
Ou com dinheiro 
Ou com a própria cegueira 
Daqui 
Eu consigo enxergar 
No fim dos séculos 
Os filhos 
Dos filhos 
Dos netos dos seus netos 
Desprezando a própria espécie 
Que afinal 
Desprezou a própria existência 
Enquanto preferia 
Arrastar alguma crença 
Que pertencesse a um outro 
E que nunca 
Pra nada 
Nem por um segundo lhe serviu


 

sábado, 1 de outubro de 2022


 

Um riso áspero 
Carregado de velhos fracassos 
Uma ternura endurecida 
Demasiado 
Até não restar quase nada 
Dessa esperança torpe eu quero apenas ser 
A primeira que morre 
Da sua vitória mesquinha e pequena eu quero mais é 
Não quero 
Da sua diversidade seletiva 
Eu não nasci pra fazer parte 
Uma carícia cortante 
Aquele abraço enquanto jaula 
Uma arma ainda é uma arma se apontada pro alto 
Não vejo mérito algum em repetir um erro 
Tentando solucionar erros repetidos 
Nem solução nenhuma 
Da sua resposta única 
Tenho um milhão de dúvidas 
Da sua estrelinha de papel 
Eu quero água 
Da sua alegria amarga eu quero menos 
Do seu vazio enfeitado 
Eu não pedi nem notícias


 

sábado, 24 de setembro de 2022


 

Não nos faltava disposição pra virar a noite andando de bar em bar, conhecendo as pessoas mais aleatórias e discutindo sobre tudo como se fôssemos grandes especialistas, misturando bebidas em tão grandes quantidades que o mais impressionante, talvez, fosse o fato de que conseguíamos continuar falando. Numa daquelas noites, aconteceu que uma amiga teve que levar a prima mais nova a tira-colo, uma menina ainda menor de idade que tinha ido morar com ela e a quem nossa amiga repetia, do alto da sabedoria dos seus vinte e poucos anos: "Se você quer beber, pode beber, mas se fumar alguma coisa, eu vou contar pra tua mãe". A menina se enturmava fácil, tinha boas ideias e referências muito parecidas com as nossas, além de uma grande presença de espírito, de modo que em noites seguintes começamos a perguntar por ela e, em pouco tempo, ela passou a fazer parte da turma — antes de se tornar a grande amiga pessoal que mantenho até hoje. Era Cristina. Na época, ninguém sabia exatamente a idade dela, nem se importava com isso, até porque todos tínhamos idades diferentes e isso nunca significou absolutamente nada pra ninguém do nosso convívio. Então, veio uma daquelas noites em que tudo dá errado, e que já começou com um acidente sério que deixou um dos nossos amigos hospitalizado — soubemos pelo telefone, e decidimos continuar a noite mesmo assim, na ausência dele e do outro amigo que estava junto na hora do acidente. Não sei o quanto isso afetou os nossos ânimos, mas tudo começou a desandar muito logo, com uma discussão boba que acabou virando uma grande briga e dividindo a turma ao meio pelo resto da madrugada.

Cristina veio conosco, e fomos encarando uma série de frustrações que — embora isso fosse da mais alta importância pra nós — não passavam de bares com pouca gente, música ruim ou bebida cara. Cristina parecia um pouco triste, mas diante de tudo o que estava acontecendo, ninguém estranhava, se é que algum de nós chegou a reparar de fato. Restávamos apenas eu, ela, sua prima e um cara de quem ela — a prima — estava a fim fazia tempo, quase uma paixão platônica, mas que, até aquele momento, parecia estar correspondendo ao interesse. Então, meio que já estávamos contando, Cristina e eu, que terminaríamos a noite sobrando em meio ao casal. Até que, de repente, do nada, no meio de um bar que já quase ia acendendo as luzes pra expulsar os últimos clientes, o cara se embolou com uma completa desconhecida no meio das mesas, num beijo tão escandaloso que até naquelas circunstâncias estava ficando constrangedor. A prima, pega de surpresa, quis ir embora imediatamente e, no táxi que aceitei dividir com elas — apesar de que eu morava um pouco mais longe e não ia escapar de ter que pegar um madrugueiro — reinava um silêncio tão absoluto e doloroso que até o taxista, nas poucas vezes em que disse alguma coisa, falou em voz tão baixa e tão devagar que parecia falar com doentes terminais, ou quase. Desembarquei com as duas próximo à casa delas, mas antes de se recolherem, a prima quis parar em uma loja de conveniências pra comprar chicletes, lavar o rosto — e, suspeitamos, vomitar no banheiro —, quem sabe comer alguma coisa, beber algo doce, não sei: ela dizia que não tinha nada em casa, mas parecia mesmo era que não queria nunca mais voltar pra lá. Depois de ajudá-la um pouco, saí da loja e encontrei Cristina sentada no meio-fio, com a cabeça completamente afundada entre os braços.

— Noite difícil? — brinquei.

Ela ergueu a cabeça e respondeu com a voz fraca, sem olhar pra mim:

— É o meu aniversário.

Fiquei em choque por alguns segundos, depois olhei pro meu cachorro-quente, que já estava prestes a devorar com vontade, e, sem pensar duas vezes, estendi em direção a ela e disse com toda a alegria que consegui reunir:

— Feliz aniversário!

Ela sorriu, aceitou o cachorro-quente e começou a comer em silêncio. Sentei-me ao seu lado e fiquei em silêncio, também, sem conseguir pensar em mais nada, só que eu era algum tipo de último sobrevivente do que quer que fosse. Cristina estava completando dezessete anos.


 


 

sábado, 17 de setembro de 2022


 

As contas nunca fecham 
Quando se paga com sangue 

Pode-se até ter uma voz 
De um outro 
Ou ela terá pouco eco 
Para muito oco 

O coração fica offline 
Onde ninguém mais habita 
(Recebi essa reflexão no whats) 

As suas orações pedem poder de compra 
Agradecem pelo poder de compra 
A sua fé 
É no poder de compra 

(Apenas vote 
Seja útil) 

Já nem me lembro mais por que 
Escravos não perguntam

 



 

sábado, 10 de setembro de 2022


 


 

Não era eu quem te ouvia, não fui eu que te acolhi 
Quando ninguém queria saber nem mesmo 
Que você existia? Não sou eu, então, 
Aquele que fortaleceu o teu espírito, 
Quem te ajudou a andar e a encontrar de novo 
O teu caminho? Pergunto 
Não porque eu queira de volta o que é teu 
E que talvez você não tivesse visto sem mim, 
Pergunto não porque esperasse um pagamento 
Sempre que forjava a tua alegria às custas 
De tudo o que deixei de experimentar e de viver, 
Não que fosse mais por mim 
Do que de fato para despertar a mesma força 
Que agora você usa para me ferir. Mas 
Me ferir? A mim, 
Por ser aquele que inundou teu coração 
De esperança, assim, como se eu fosse o mesmo 
Que primeiro o esvaziou? A mim 
Por ter segurado a tua mão, talvez, como se antes 
Tivesse sido eu quem te entregou à solidão, a mim 
Porque te amei? 
Fui eu, então, quem afinal te convenceu de que 
Acabou-se o amor no mundo 
Ou de que ele nunca poderá ser teu? 
Sou eu, agora, que te devo 
Algum pedido humilhado de perdão, reparação, maiores provas de 
Bondade? Que do vazio eu tire ainda uma vez mais 
O que te dê satisfação, se em troca de tê-lo feito sempre 
Você veio até mim com pedras nas mãos?


 

sábado, 3 de setembro de 2022


 

Você não pode ver a linha que separa 
A luz da escuridão, o bem do mal, o certo do errado 
Até que alguém aponte pra você 
E você diz é mesmo está ali 
Você não consegue ver a diferença entre 
Uma linha real e uma imaginária 
Não há uma separação tão nítida, afinal 
Entre a verdade e o sonho, nada 
De concreto e definitivo sugere um limite exato 
Inquestionável, irremovível 
Entre a razão e a loucura 
Quando se quer caminhar 
Há muitos mais caminhos do que dois 
Nem só avançar ou regredir, imensamente além 
Do longe e do perto, aqui e ali, irrefreáveis 
E incontáveis direções, estradas, passos 
Quando se é capaz de ouvir 
Aqueles que conseguem ver, não somente aprendem a 
Sentir tudo que sabem 
Ou a saber tudo que sentem, mas também 
E sobretudo mas 
E também


 

sábado, 27 de agosto de 2022



CAPA
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(Novas cenas em breve.)
CENA 6

(A música termina. Foco sobre Mano, que fala ao microfone, a princípio, mas vai se afastando ao longo da fala.)

MANO: Então eu tive uma ideia que ia mudar tudo. Uma intuição! Sim, eu tive uma intuição, um insight, uma revelação, até, só podia ser, aquilo ia dar certo! Aquilo ia mudar tudo! Eu fiquei pensando, a gente voltou praquela praia, todos reunidos de novo, pra relembrar, pra reviver aquele dia e pra isso… E por isso, e por alguns instantes, pelo menos… Eu… Vocês viram, não viram? Ela estava aqui, ela falou comigo! Ela tocou no meu rosto e eu escutei a voz dela! Você escutou a voz dela? Eu escutava a voz dela, e a Karina também, então aconteceu da gente se encontrar e ela apareceu, então eu pensei que se foi assim dessa vez, então poderia ser de novo… Não é? Era uma ideia boa, mas eu não tinha como provar, ia ser difícil reunir todo mundo outra vez, eu ia ter que inventar alguma história louca, sei lá, como é que você orquestra o encontro de pessoas que não tem a menor intenção de se ver de novo? Ninguém, eu acho, ia querer se reunir outra vez só pra testar uma ideia. Não, mas não era uma ideia, era uma coisa que eu sabia, ia dar certo, ela ia aparecer outra vez, é claro que ia. Não ia? (Pausa.) Não ia?

(Foco se apaga. Sons de pássaros cantando e luz subindo aos poucos sobre Diogo e Ludo, que estão dormindo próximos um do outro. Os dois acordam e percebem um ao outro mais ou menos ao mesmo tempo.)

DIOGO, levantando-se: Eu não sei como eu dormi. Está tarde? Eu preciso voltar pra minha casa. Isso era um galo cantando?

LUDO: Uma coruja.

DIOGO: Me desculpe, não era pra eu ter ficado aqui. Já é de manhã. Você já está bem.

LUDO: Ah, sim, mas não vá embora ainda.

DIOGO: O que foi aquilo que aconteceu?

LUDO: O quê?

DIOGO: Você se transformou na Helena.

LUDO: Eu… é? (Pausa.) Acho que nunca tinha acontecido na frente de alguém. Eu não tenho como saber, isso tudo é uma bagunça. Vem cá, senta aqui. (Diogo vai sentar-se ao seu lado.)

DIOGO: Eu tenho que ir embora.

LUDO: Não sei quando isso começou, eu tinha uns quinze anos quando descobri. Eu achava que era normal apagar, às vezes, ficar fora do ar umas horas, depois voltar… sempre foi assim. Mas demorou pra eu descobrir sobre a Helena. Pra acreditar, então… até agora eu não consigo acreditar direito.

DIOGO: Eu tive uma ideia louca.

LUDO: Não fala nada. (Beijam-se. Mano entra nesse momento e os vê.)

DIOGO, levantando-se: Eu tenho que ir. (Vê Mano. Pausa breve.) Eu estava de saída. (Vai saindo.)

MANO: Não, eu tenho que falar com você, também.

(Blecaute.)

(Luz sobre L.)

L: Eu nunca teria voltado praquela praia se não fosse uma ideia tão boa. Uma dessas grandes chances que não é pra todo mundo que aparece, sabe? A oportunidade que vai mudar tudo. Agora eu nem lembro mais de toda a historinha que eles inventaram. Um empreendedor local com uma grande ideia, uma chance que eles sabiam que ninguém ia querer perder. Boa demais pra ser verdade, até, eu deveria ter visto, mas eu sou um completo otário. Como é que eu ia me perturbar por causa de um lugar, né? Por causa de uma lembrança que… eu nem... lembrava… mais? (Pausa breve.) Ãh?

(Blecaute.)

(Luz sobre Karina e Helena, exatamente como na cena anterior, em que Karina falava com Diogo.)

KARINA: Eu via tanta vida em você.

HELENA: Não faça isso.

KARINA: Eu não sei se eu consigo lidar com essa loucura.

HELENA: Não é loucura nenhuma. É perfeitamente lógico. É real, Karina.

KARINA: "Lógico"... Eu não… como é que você consegue?

HELENA: Eu posso melhorar… Eu acho… Eu tive uma ideia que…

MANO: Pode mudar tudo? (As duas ficam sem reação. Cada frase dele é uma tentativa de iniciar uma conversa, mas todas continuam deixando-as sem reação.) Desculpe, eu marquei com todo mundo aqui nesse horário. Eles disseram que vocês iam estar juntas. Eu fiquei feliz por vocês. Quer dizer, e que bom que vocês conseguem conviver com isso numa boa. Eu achei… sei lá, poderia ser difícil pra algum de vocês ver o ex com outra pessoa. Ah, eles devem estar chegando logo, que casal inesperado, cara! O Diogo e o Ludo. Vocês… sabiam… que eles estavam juntos… né?

(Karina olha para Helena com indignação.)

HELENA: Eu… era uma coisa que…

KARINA: O quê? Você não sabia?

HELENA: Nesse caso eu sabia, mas era o que eu estava…

L: Eu posso saber o que vocês estão fazendo aqui?

KARINA: Isso aqui já está ficando muito além da minha capacidade.

MANO: Não! Espera, não vá embora! Por favor! Eu explico!

L: Você vai explicar o que eu estou fazendo aqui também?

MANO: Sim, você foi atraído aqui por uma oportunidade de negócio, mas eu estava inventando tudo.

L: Eu… como é que é?

KARINA: Não venha atrás de mim.

MANO: Não!

HELENA: Karina, espera! É importante!

L: Pois eu também não pretendo participar dessa palhaçada.

MANO: É só mais um minuto! Vocês não podem ir!

DIOGO: Cheguei tarde? Karina? Você já vai?

MANO: É agora! Cadê o Ludo? Ela já vai voltar! Vocês vão ver, eu tenho certeza!

HELENA: Quem, mas do que é que você está falando?

PÂMELA: De mim.

(Música. Pâmela caminha até o microfone sendo transmitida ao vivo em todos os telões, as luzes piscam de maneira dramática. Foco sobre ela quando ela para diante do microfone.)

PÂMELA, ao microfone: E agora, você se lembra de como era estar presenciando um milagre?

(Silêncio.)