sábado, 25 de fevereiro de 2023


 


 

Olhe como que através de um véu. 
Sobretudo sem ver. 
Nada 
Lhes causa mais horror 
Do que sua própria humanidade 
Explicitada.

Não queira. Não tente mover o mundo. 
Este é um lugar de covardias, 
De um caminhar pequeno e rastejante. 
Apenas 
Se for com medo 
Seja. 
E sobretudo 
Não você.

Essa alegria em seu coração, 
Não fale. 
Toda paixão é imperdoável. 
Almas requerem travas. 
Sobretudo as mais vibrantes. 
Se não palavras esterilizadas, 
Ocas, matemáticas, 
Aprovadas em conselho, 
Não, não fale.

E sobretudo, mate 
De todas as formas possíveis 
E com o máximo de crueldade 
Qualquer pessoa que ouse 
— Ainda que breve e 
Inocentemente — 
Revelar qualquer vestígio 
De integridade.


 

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Mares de asfalto quente em noites de verão, mares brilhantes de chuva, 
Amarelados por antigas lâmpadas incandescendo-se em zumbido, 
A cidade aberta ao voo errante das nossas liberdades recém-descobertas 
E o mirante da montanha já vazio, embora ao longe ainda ecoassem risos e canções, 
Em nosso peito os risos e canções também, mesmo os que não se mostravam, 
Todas as peles, nomes, corações dançantes por trás das cortinas por trás das janelas 
Por trás do ar molhado, vivo e negro da madrugada que era sempre um pequeno sempre, 
Um lento e voraz encontrar de si 
No universo vasto de apartamentos calados, quartos silenciosos com a sua poeira sorrateira 
E objetos espalhados à espera, os nossos gestos preenchidos de amorosa materialidade, 
Até que o tempo se dobrou, ninguém viu quando acordei sozinho desse sonho triste de saudades 
E tudo seguia imerso e pulsante em profundezas e na superfície do meu corpo, 
Só sei que era carnaval, 
A brisa suave de outras terras encontrando uma passagem sem alarde pelas frestas, 
Quem é este em meu lugar, não se pode desistir de viver tantas vidas simultaneamente, 
E no entanto uma só alma, um só ter sido neste mesmo ser que em si não se divide, 
Fantasmas coloridos, 
Dois mundos em meus olhos, nada faz de um deles mais real, nada me faz não ver, 
Nada me faz, um sopro se desprende no infinito interior onde somente eu habito.


 


 

sábado, 11 de fevereiro de 2023


 


(Diários de Machu Picchu #16)
Ainda inquieto naquela manhã, seguindo os trilhos do trem desde Machu Picchu Pueblo só para ver onde eles iam dar, mas arrastando uma revolta que se debatia no meu peito, sem nada ao redor que a justificasse, a não ser lembranças, ideias, desejos.

Tentava tirá-la do caminho, porque ela estava poluindo a paisagem e dando à aventura toda um peso desnecessário, mas era quase como se eu tentasse me desfazer de mim mesmo, então, em boa parte do trajeto, ia deixando fluírem à vontade os pensamentos de raiva e amargura, apenas como se eles fossem parte da paisagem, e só. E quando, aqui e ali, encontrava uma clareira de silêncio nos pensamentos, procurava me concentrar em qualquer parte da natureza esmagadora à minha volta que fosse capaz de me despertar alguma ternura ou encanto, uma flor, um inseto, o som das águas ou de animais silvestres, às vezes simplesmente uma folha, ou simplesmente uma pedra.

Não muito longe do povoado, encontrei uma casa onde um rapaz me recebeu ao lado de um grande cachorro preto. Acariciei a cabeça do animal e conversei um pouco com o rapaz, depois fui passear pelos jardins onde corria um rio vindo do alto da montanha e que, nessa jornada, formava diversas cascatas. A essa altura, parecia que já estava esquecido da raiva, e em parte, atribuí à energia do lugar o fato dela ter se dissolvido. Uma placa à beira de uma cachoeira dizia “Energético e Espiritual”, e ali fiquei meditando durante um longo tempo. Já me sentia totalmente renovado ao fim dessa atividade, sem o menor vestígio da pessoa que iniciou o passeio de manhã, então, comecei a trilhar o caminho de volta.


Em dado momento, lembrei-me de um fato marcante que ocorreu quando comecei a viagem pelo deserto da Bolívia. Tínhamos ido de ônibus até a entrada do deserto e, lá, fomos transferidos para os jipes que fariam a travessia. Nisso, descemos toda a nossa bagagem do ônibus para nos dividirmos entre os carros, e então, estávamos reunidos — éramos umas 8 ou 9 pessoas — com toda a bagagem no meio de um círculo, incluindo uma sacola com vários lanches e comidas. Nesse momento, apareceu uma raposa, e todos ficamos olhando para ela, bem mais fascinados do que preocupados, e aí, ela foi se aproximando cada vez mais. Até que entrou em nosso círculo, e quando nos demos conta do que ela tinha ido fazer ali, era tarde demais. Em um instante, estava correndo para o deserto com a sacola de comida entre os dentes, enquanto o dono da comida tentava em vão persegui-la.

O episódio me fez pensar em como as pessoas pacíficas acabamos pagando um preço por nossa recusa à violência. Éramos quase 10 pessoas contra uma raposa pequena, e talvez nem fosse necessária uma agressão real, mas um gesto agressivo teria bastado para evitar o saque. Só que ninguém fez nada: ficamos ali, apenas assistindo enquanto a natureza livre e plena fluía a sua violência contra os pacíficos civilizados que nós éramos.

A lembrança me acompanhou durante boa parte do caminho, e ainda pensava nisso quando avistei de novo a casa onde havia encontrado o rapaz e seu cachorro preto. Quando avancei um pouco portão adentro, tive uma visão mais clara da varanda e de quem estava nela, e então, deparei-me com uma cena muito curiosa. Um homem estava em pé em um dos cantos da varanda, enquanto, diante da porta, o cachorro enorme e preto rosnava, mostrando os dentes para ele. O homem não deixava por menos: rosnava e mostrava os dentes também — e os dois permaneciam imóveis nesse quadro por um longo instante. Logo, o rapaz que era dono do cachorro apareceu, e o animal se foi para um dos cantos da casa, como se nada tivesse acontecido.

O rapaz perguntou como o homem estava, e ele disse que tinha sido atacado, mas que havia se defendido. Em ato reflexo, tinha reagido ao ataque com um chute, mas não a tempo de evitar os dentes do animal. Levantou a perna direita da calça e ali, um pouco abaixo do joelho, brilhavam duas gotas pequenas de sangue. O rapaz correu para dentro para buscar álcool e panos limpos, e nisso, tive tempo de conversar um pouco com o homem. Não me lembro durante quanto tempo conversamos em espanhol, talvez até depois do rapaz voltar e começar a limpar a ferida dele, mas a certa altura, acabamos descobrindo que vínhamos do mesmo país.

Não só do mesmo país, mas de regiões bem próximas. Além disso, ele estava em uma viagem muito parecida com a minha, e tinha vindo a Machu Picchu sem nenhum prazo para ir embora. Seu nome era Antero e tínhamos quase a mesma idade. Era inevitável uma identificação imediata e recíproca.

Mais tarde, quando voltávamos juntos a Machu Picchu Pueblo, descobrimos ainda muitas outras coisas em comum, contando sobre nossas vidas e visões de mundo. O acontecido na varanda já estava esquecido, para mim, mas a certa altura, em um contexto da conversa em que o assunto cabia, e em tom de brincadeira, Antero jurou que não tinha feito nada de mal ao cachorro e — até onde sabia —nem aos deuses do lugar que justificasse o ataque. A conversa acabou engatando pelo tema das moralidades, e Antero dizia que tudo no mundo tinha se tornado tão relativo que as pessoas que ainda se preocupavam em ser “boas” estavam condenadas. Simplesmente, não havia esperança para elas.

A observação tocou em vários pontos sobre os quais eu tinha refletido antes, então, comecei a falar em um fluxo natural e incontrolável:

— Certo, não existe “defeito” que você não esteja disposto a ignorar quando quem apresenta é seu amiguinho ou pode trazer algum benefício para você. Eu realmente acho difícil falar em “defeitos” como se fossem coisas reais e não detalhes em que a gente se agarra quando quer atacar outra pessoa ou acabar com a imagem dela. Aí, lá estão os caras que são violentos com a mulher e os filhos dizendo que você não presta porque dormiu até mais tarde na segunda-feira. Você chutou um cachorro que estava te atacando e logo vai aparecer gente para te comparar a um ditador assassino e sanguinário, talvez você mesmo faça isso. E você é justamente a pessoa que está se esforçando para acabar com a violência! Às vezes, se esforçando até demais. Se eu disser para você que a violência existe, faz parte de você e de tudo, e que não necessariamente tem algo de errado nela, você vai se preocupar que as coisas comecem a ficar perigosas demais no mundo se levar a ideia a sério, como se elas já não estivessem. Como se a maioria das pessoas que decidem como as coisas são não fosse ouvir pensando: “Meu Deus, que coisa óbvia! Foda-se a violência, todo mundo é violento, quem não é violento é otário!”.

Imediatamente, como se apenas seguisse aquele mesmo fluxo de pensamento, Antero completou:

— E aqui estamos nós. Os otários.

Eu ri.

— Sim. Os otários. Mas pelo menos, você não vai perder a perna hoje.

Foi a vez dele rir.

— Não. Não vou.

Depois, por um longo tempo, apenas caminhamos em silêncio.


 

sábado, 4 de fevereiro de 2023


 


 

Não seria surpresa se você estivesse prestando atenção 
Era previsto desde o início 
Bem que eu gostaria de uma realidade menos desconexa 
Você saberia 
Se tivesse ouvido 
Há um mar de flores multicoloridas desabrochando 
E a agonia lenta de tudo o que já foi a civilização humana 
Quase nada justifica o medo 
Depois que os olhos se acostumam ao escuro 
Sei que eu tentei 
Meu Deus como eu queria que você tivesse visto 
Mas a impressão de que eu converso com o vazio 
Talvez 
Seja porque não existe outra coisa em você 
Mais verdadeira 
Você entenderia se 
Não 
Agora eu acho que você não entenderia 
Por nada 
É tarde pra que eu me importe 
E eu teria me importado 
Ah 
Sim 
Como eu me importava 
Tanto


 

sábado, 14 de janeiro de 2023



CAPA
RELAÇÃO DOS PERSONAGENS
DESCRIÇÃO DO ESPAÇO CÊNICO
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Cenas anteriores:
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---> CENA 2 <---
---> CENA 3 <---
---> CENA 4 <---
---> CENA 5 <---
---> CENA 6 <---
---> CENA 7 <---

(Novas cenas em breve.)
CENA 8

(A luz pisca e Helena se transforma em Ludo. Então é ele quem começa a cena falando ao microfone no palco, enquanto os telões passam a mostrar Helena, que vai dizendo o mesmo que ele, palavra por palavra. Durante toda a fala, os dois se alternam tanto no palco quanto nos telões, nunca estando nos dois lugares ao mesmo tempo ou aparecendo juntos no mesmo lugar.)

HELENA e LUDO: Tem uma coisa que eu venho tentando dizer já faz um tempo, mas nunca é o momento… E sinceramente, eu nem tinha tanta convicção do que eu vou dizer quanto estou tendo agora. Eu ia compartilhar uma suspeita, agora eu posso comunicar um fato, essa é a diferença. Eu não sei se algum de vocês se lembra exatamente de quem estava na praia no dia em que a Pâmela morreu, se era Helena ou Ludo, mas o fato é que eu me lembro tanto como Helena quanto como Ludo. Sabe, na primeira vez que eu ouvi falar sobre essa outra personalidade minha, se é que eu posso chamar assim, eu achei que estavam tentando me pregar uma peça, eu não acreditei, eu passei anos não acreditando. Eu no máximo aceitava a possibilidade de eu ser outra pessoa além de mim como uma doença mental, dupla personalidade, sei lá, só eu era eu, sabe, o outro era a doença. Nenhum de nós dois é uma doença. Eu não sou uma doença mental, eu tenho uma forma física, eu existo, eu sou real. Quando o Mano apareceu com a ideia de reunir todo mundo pra trazer a Pâmela de volta, eu achei que eu também tivesse uma chance. O Diogo e a Karina conseguem unir as minhas duas consciências através de alguns sentimentos e lembranças vagas, mas a força dessa reunião de todos nós é inacreditável. Eu quase nem consigo perceber que existe uma diferença. Com todos aqui, eu sou uma pessoa só. Eu consigo ser ao mesmo tempo as duas pessoas que eu sou. Só com vocês todos aqui isso acontece. O que é que poderia explicar uma coisa dessas?

(Todas as luzes se apagam, exceto as que iluminam L, que aplaude ironicamente.)

L: Não, eu imagino que isso deve ter sido muito importante, mesmo. Pra quem se importa.

(Blecaute. Luz sobre Diogo.)

DIOGO: Então ele disse não. Como todo mundo esperava.

(Blecaute. Luz sobre L.)

L: Se a proposta de negócio que me trouxe até aqui fosse um show de horrores, com certeza isso teria me convencido.

(Blecaute. Luz sobre Diogo.)

DIOGO: Eu não sei o que dizer. Eu queria poder contar outra história.

(Blecaute. Luz sobre Mano e Pâmela.)

PÂMELA: A gente não tem muito tempo.

MANO: A gente nunca teve. (Ela pega na mão dele.) A gente sempre teve todo o tempo do mundo.

PÂMELA: Você precisa deixar isso pra trás.

MANO: Não. Não faça isso. Pra quê, então, isso tudo? Não pode acontecer outro milagre? Ele não pode entender?

PÂMELA: Você sabe que não.

MANO: Então como que isso é um milagre? É uma piada de uma consciência superior? Superior como?

PÂMELA: Não é assim, você está com raiva.

MANO: É claro que eu estou com raiva.

PÂMELA: E é com isso que você vai usar os nossos últimos minutos?

(Silêncio. Ele a abraça. Blecaute. Luz sobre Karina e Helena, que estão abraçadas. Depois de um instante, Karina se afasta.)

KARINA: Eu queria poder contar outra história.

HELENA: Sim, eu gostaria de poder ser parte dessa história.

KARINA: Mesmo agora, eu teria ficado por você.

(Blecaute. A luz volta a se acender exatamente no mesmo lugar, mas agora Ludo está no lugar de Helena.)

KARINA: Eu teria ficado, apesar de você. Quer dizer, apesar dessa história toda. Desculpa, eu estou sendo uma idiota.

LUDO: Não se preocupe, não tem como você me deixar de coração mais partido.

KARINA: Eu quero dizer que eu teria ficado também por você e pela Helena… se ia mesmo ajudar nessa… coisa.

(Blecaute. A luz volta a se acender exatamente no mesmo lugar, mas agora Diogo está no lugar de Karina.)

DIOGO: Eu vou ficar. Eu vou ficar com você, não importa o que aconteça.

(Blecaute. Mais uma vez, a luz se acende no mesmo lugar, mas agora, além de Diogo e Ludo, L também está ali.)

DIOGO: Então você não vai ficar? Não importa o que aconteça? Pode descer o próprio anjo Gabriel com uma espada de fogo ou sei lá o que os anjos andam usando nesses dias, você vai continuar se recusando a fazer isso.

L: Bom, não dá pra dizer que desceu um anjo…

LUDO: É, você acha que dá pra dizer com toda a certeza que não desceu nenhum.

L: Eu… não adianta discutir com vocês, vocês são cegos. E agora acho até que já teve um beijo gay por aí e eu nem estava sabendo. Quer dizer, obviamente eu soube antes mesmo de vocês, mas… Nada contra, eu só… tenho nojo… de gente como vocês.

LUDO: É, espantoso mesmo que você seja capaz de sensações humanas, só não sei por que você só faz questão de compartilhar essas.

(A luz se amplia um pouco para incluir Karina. Em algum momento durante as próximas falas, Ludo se transforma em Helena.)

KARINA: Um milagre seria a chance de ganhar muito dinheiro sem nenhum esforço. Sem nenhum esforço, sim, aí você veio correndo pra cá, não foi? O vagabundo. Que nunca vai largar o discurso de que tudo na vida é uma questão de esforço, dedicação e… mérito, não é? Nada além disso. Trabalho, produção, obediência, qual é o valor de um homem pra você? Qual é o valor de uma vida? Você se importa com alguma além da sua mesma?

L: Claro, sim, claro, você tem toda a razão. Você precisa que eu seja um monstro, eu vou ser um monstro pra você. Aí você dorme com a consciência tranquila por ser uma puta amiga de uma puta.

DIOGO: Você só pensa em puta, cara? Só fala em puta, é tudo puta pra você? Isso é uma ofensa, você é obcecado, qualquer mulher que tenha um mínimo de prazer no sexo ou esteja em paz com a própria sexualidade é puta?

L: Mas puta que o pariu, caralho, vocês são muito chatos.

DIOGO: E você é incapaz de amar.

L: "Incapaz de amar"...

KARINA: Você matou a Pâmela.

DIOGO: Matou.

HELENA: Você matou.

L: Eu amava a Pâmela. O amor de dez mil de vocês somado não seria maior que o meu amor por ela.

HELENA: Você… acabou de citar Hamlet?...

KARINA: Quem se importa?!

HELENA: Não, sério, quais são as chances? Um chimpanzé batendo na máquina de escrever acabou de escrever uma fala do Hamlet.

L: Eu quero que o Hamlet se foda, ele morreu o quê, faz quinhentos anos, já…

KARINA: Mas e daí que é Hamlet, o cara sempre vai ser o diabo citando alguma escritura. Amava a Pâmela? Amava?

(A luz se amplia um pouco para incluir Mano e Helena.)

PÂMELA: Me amava?!

MANO: "Amava"...

PÂMELA: Eu não sei o que você chama de amor, mas aquilo não era amor em lugar nenhum do mundo.

DIOGO: Não é isso que é o amor.

L: Ah, vocês sabem tudo, só vocês que sabem. Eu não vou ficar aqui nem mais um minuto, eu nunca mais vou voltar, vocês nunca mais vão ouvir… vocês vão ficar ouvindo falar de mim pelo resto da vida e eu vou esquecer que vocês existem, seus perdedores de merda.

KARINA: Claro, é muito amor pra dividir com o mundo… Transborda amor, é uma fonte luminosa de amor, olha lá.

(L sai e todos ficam se entreolhando em silêncio por um tempo, até que as luzes finalmente se apagam.)

(Música.)

sábado, 7 de janeiro de 2023


 


 

Amanhã você não tem feito nada por um mundo melhor

Amanhã não se pergunta 
Nem perdoa 
A sua lei é urgente

Amanhã 
Você não estendeu os braços 
Não vê nada à sua altura 
O sonho é impossível se você não está dormindo

Amanhã precisa de muito espaço 
Pra caber o bem sempre adiado

Amanhã você já sabe 
Odeia o diferente 
Veste uma violência usada

Amanhã você não está ligando

Amanhã você 
Mal semeou um  
Ar respirável

Amanhã 
Numa nota de 0 a 10 
Numa palavra de 
No máximo 
Três sílabas

Amanhã 
Ainda 
Falta 
Amor 
Agora

sábado, 31 de dezembro de 2022


 


 

até eu me transformar pra sempre em só-poesia… quase o contrário da fuga, um submergir completo em realidades combatidas pelo medo ou pela ignorância, e desaparecer nos fatos onde o mundo encena enredos viciados… não, nunca mais o deserto de uma só alma implodida, quanto menos esses ásperos saberes sem nenhuma outra finalidade que limar o voo, bem mais pelo prazer da queda que apontando um sol nascente… ah, sim, compartilhar a substância das cantigas, não restar nesta matéria um único átomo sem versos… nem remotamente interessado em cascas ocas atirando pedras, nada em mim precisa ou quer lembrar respostas decoradas, qualquer outro lugar é um paraíso diante do abandono, aí, até onde se pode ver, só o que se propaga é o vácuo… porém… contudo, este ímpeto constantemente em tempestade, aceito, mais que isso, desejo ser o som, as margens e as sementes de todas as rimas, já vim tão longe, fora disso há muito pouco que me espere… uma ou outra bondade, um mar imenso de ressalvas, olhos fechados, longas línguas de um sentido amargo… enquanto eu lírio, bem depois de eterno, um ritmo, a expressão sincera, é impossível me tocar o que não dance em todos os detalhes…


 

sábado, 24 de dezembro de 2022


 


 

Acho que o que ele mais gostava era de gente que cuida da própria vida.

Gente que não atira pedras porque sabe que também tem pecado, gente que não fica falando de ciscos nos olhos dos outros tendo uma trave nos seus. E sabe quando ele disse que andava com pecadores porque quem precisa de médico é doente? O que não cola pra mim nessa história é que não tinha um mundo saudável e sem pecado fora dali. Acho que o que fazia ele deixar de andar com uma pessoa não era ela não precisar dele, não existia alguém que não precisasse. O problema era a pessoa não enxergar que precisava. Provavelmente porque estava ocupada demais cuidando da vida dos outros.

Ou porque vivia pendurada em livros de regras — também tem isso, ele não gostava de quem vive pendurado em um livro de regras. "Ai porque o livro 2, capítulo 15, versículo 22, parágrafo 9, inciso 24 diz que…" Não, amigo, não diz não, é você que está dizendo. E mesmo que dissesse, todo mundo sabe que você escolhe só uma regra ou outra no seu livro pra seguir. As regras que você escolhe pra seguir e as que ignora dizem muito sobre você. Mas o pior dessa história não é nem você seguir umas regras só porque sim e deixar de seguir outras por qualquer desculpa, é você achar que todo mundo tem que seguir as mesmas regras que você. Ou seja, no fim, mais uma vez, o pior é você ficar cuidando da vida dos outros.

Tem também a questão dos ricos, que ele disse que era mais difícil entrarem no céu do que um camelo passar no fundo de uma agulha. Um dia, ouvi dizer que fundos de agulha eram portas pequenas na entrada das cidades, e que, pra um camelo passar por elas, tinha que abandonar toda a carga e meio que rastejar. Mas mesmo que seja isso, ele disse que era mais difícil um rico entrar no céu, não foi? Mais difícil. E se for só isso, se é só abandonar a carga e rastejar, ainda assim, quer dizer que não existe rico no céu, porque ou a riqueza é abandonada, ou nada feito. Mas você não está lá batendo com seu livro na cabeça dos ricos pra dizer o que eles têm que fazer pra entrar no céu. Pelo contrário, eles são os seus modelos, seus heróis, os vencedores. Você come os restos da mesa deles, imita as aparências, segue as dicas dos coaches pra ser um deles. Enfim, as pessoas que você escolhe pra ficar se metendo na vida e as que considera exemplos também dizem muito sobre você, sabia?

Ah, sim, e com certeza, uma das coisas que ele menos gostava era violência. Não é verdade que ele andava desarmado porque não existiam armas naquele tempo, até porque existiam armas, sim: eram espadas. Um dia, vieram prendê-lo e um dos seus amigos pegou uma espada e cortou a orelha de um servo. Pois ele não foi lá e curou a orelha cortada? Isso porque a arma que ele tinha era o amor, foi isso que ele veio ensinar, isso era o que ele tinha pra oferecer. "O maior Mandamento é o Amor", ele disse uma vez, palavras dele. E teve muita gente que aprendeu, na época, mas dois mil anos depois, mesmo entre os que se dizem seguidores dele, isso já está fora de moda.

Uma pena. Se mais gente cuidasse da própria vida e, pros outros, espalhasse amor, com toda a certeza, já estaríamos em um mundo bem melhor. Mas cada um sabe de si, não é assim? Pois é. Só estou lembrando essas coisas porque hoje é aniversário dele e, por isso tudo, ele é uma pessoa que merece muito ser lembrada. E que faz uma falta enorme. Enfim, onde quer que você esteja, Jesus, receba o meu abraço. Saudades, mano.


 

sábado, 17 de dezembro de 2022


Olho
(Cida Carvalho, 2013)
É quase de manhã, uma pilha de coisas por fazer, três feridas, tem que levar os sonhos pra fora estão começando a cheirar mal, não deveria estar tão frio assim em dezembro, todo mundo mergulhado em um transe profundo, talvez em janeiro eu durma um pouco, devia ser proibido marcar reuniões nos sábados, os passarinhos começaram a cantar, isso é sangue, uma chuva aos pouquinhos e esse vento às vezes, estou cansado demais, precisava ir na padaria comprar pão, vem sempre alguém enfiar uma agulha embaixo da minha unha, se eu não terminar este texto o mundo acaba, as crianças querem quartos separados, não vou ter mais do que um vislumbre de férias, quando haverá uma revolução de verdade, o galo cantou, o único erro de português que me irrita de verdade é a gramática, pra quem era esse relatório mesmo, o café está doce demais, nem olhando de perto eu consigo enxergar algum herói debaixo da publicidade, uma luz cinza se espreme entre a cortina escura e a parede em volta da janela, ainda não sei o que significa ser alguém, outra hora eu te conto a história toda, uma angústia uma agonia, a longa lista de regras, pessoas conversando na calçada, as três frases que ainda faltam, nenhuma visão, as copas das árvores balançam, de uma hora pra outra já não é mais amanhã.


 

sábado, 10 de dezembro de 2022


 

Seu rosto era a mancha sobre a correnteza 
Eu não sabia se te ouvia ou se era a seiva 
Esse cordão de relva enrolado em seu pescoço 
Tivesse um coração de pedra, ao menos, e ele pulsaria 
Se eu arranhasse o concreto, acabaria com lama sob as unhas 
Traça um número, ele nunca cicatriza as pétalas 
Com qual arquitetura você encobre esse vazio pulsante 
Pisa os seus escravos, o meu peito é aquele que transborda lava 
Menos invisível que uma distorção constante na paisagem 
Até que se perceba o plástico e a tinta 
E que são de papel essas correntes em seus tornozelos 
Pisco os olhos para misturar constelações e cinzas 
Nada pode me alcançar no coração das cores 
Silenciosa dança 
Ainda chegará o momento em que verei a noite 
Com um sopro atravessar a ordem da chuva 
E amanhecer com vida


 


 

sábado, 3 de dezembro de 2022


 

as suas melhores ideias
nunca foram maiores que uma xícara
ou mais belas que essas pedras cinzas
tão comuns em beiras de estradas
colocávamos
um dedo sobre as suas artérias
e dizíamos não há vida
braços
unhas
olhos iguais aos nossos porém
desfilados com soberba
a sua moralidade acompanhava qualquer
coisa como os ciclos lunares
amontoados de palavras que só por
fluírem fácil eram despejados em tons de
verdade
hoje um punhado de medos e ameaças
você me toma pelo seu espelho?
acha que os meus passos se orientam
como os seus por farsas?
acusações de mágoas
em excesso ou seus parâmetros súbitos
do que é infantilidade ou sábio
sequer
me tocam
talvez somente
pra causar piedade
mas não é que eu me importe
eu vim aqui trazido por versos
te dizer que eu sinto muito mas
não é que eu estivesse contando
eu simplesmente não tenho como esquecer
quantas vezes você olhou pro lado enquanto
eu estendia a mão
pra oferecer ou pra pedir ajuda
não tenho como esquecer porque foram
todas
as vezes
não tenho como esquecer se ainda agora
você exige
por trás de portas fechadas
que o mundo se mova em sua direção
às custas de quem quer que seja que lá fora
esteja empurrando
ou seja esmagado