sábado, 25 de março de 2023



CAPA
RELAÇÃO DOS PERSONAGENS
DESCRIÇÃO DO ESPAÇO CÊNICO
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(Em breve, epílogo.)
CENA 9

(A luz vai se acendendo lentamente sobre Pâmela, diante do microfone. A música silencia.)

PÂMELA, ao microfone: Eu disse isso antes, uma vez, mas… Eu… (Sai de trás do microfone.) Eu não quero falar nisso aqui, eu quero falar com… Eu quero… (Ao técnico de luz:) Você pode acender aqui? (Luz sobre a plateia.) Eu… Isso. Assim, eu quero falar com vocês. Eu disse isso antes, uma vez, mas pra outras pessoas e em diferentes circunstâncias, eu disse: "Eu só existo enquanto vocês estão todos juntos", não foi? Bom, eu realmente só existo porque vocês estão aqui, juntos. Mas agora, eu… Não tem. Não tem mais, acabou. Só tem eu, mas a personagem acabou, tem só uma atriz, eu. Já a personagem… Eu queria ter contado outra história pra vocês. Mas agora não tem mais história e eu preciso ir pra minha casa. A atriz, eu. Eu tenho que pegar três ônibus, eu tenho um filho pequeno em casa, um menino. Eu tenho que… ele tem cinco anos, eu tenho que contar uma história. A mamãe… tem essas contas pra pagar e amanhã de manhã bem cedo tem um espetáculo infantil com outro grupo, então eu vou sair mais cedo, eu vou… contar uma historinha sobre um príncipe, não, sobre um guerreiro, um gênio, um milagre… Eu… me desculpa, eu queria poder contar outra história. Pra vocês. Pro meu filho também. Eu queria poder continuar existindo. Mas é desse jeito, hoje vai ser desse jeito. É assim que está sendo. Não ser. Ser. Não ser. Ser.

(Escuridão.)

(Luz sobre Diogo e Karina, sentados lado a lado com o olhar distante. Silêncio.)

DIOGO: Então é assim. (Pausa.) O depois. O fim da jornada. O outro lado.

KARINA: Pra mim, este lugar nunca vai voltar a ser só uma praia. Sabe? Sem…

DIOGO: Fantasmas?

KARINA: É uma palavra quase indelicada.

(Pausa breve.)

DIOGO: Tem uma que não seja?

(Pausa breve.)

KARINA: É uma… cicatriz?

(Pausa breve.)

DIOGO: É o horizonte. (Pausa breve.) É, uma cicatriz.

KARINA, ao mesmo tempo: Uma cicatriz.

(Silêncio.)

KARINA: Eu, como sou uma pessoa organizada, já estou me programando pra só sentir falta de você às segundas de manhã, na Paniflix…

DIOGO: Hm… aquele pãozinho na chapa…

KARINA: Aquele pãozinho com manteiga na chapa e aquele duplo reforçado pra já ficar acordada a semana inteira. Aquele burburinho, o ruído dos carros na rua e depois a semana inteira querendo ouvir esse ruído aqui, de onda quebrando.

DIOGO: É… Esse ruído aqui.

KARINA: E de fantasmas.

(Silêncio.)

KARINA: Eu acho que era tudo o que restava pra eu dizer.

DIOGO: Eu vou sentir falta de te ouvir.

KARINA: Esse ruído?

DIOGO: Esse ruído.

(Silêncio. Karina se levanta.)

KARINA: Vem, vamos fazer uma selfie. (Os dois se juntam para fazer uma selfie.) Hashtag depois do fim.

(Escuridão. Som de câmera fotografando. Quando a luz se acende, Helena está no lugar de Karina.)

HELENA: Hashtag apenas começamos.

DIOGO: E algumas coisas não mudam nunca.

HELENA: Por exemplo?

(Pausa breve.)

HELENA: “O resto é silêncio”?

(Silêncio.)

DIOGO: Pro bem ou pro mal, será?

HELENA: Que o resto é silêncio?

DIOGO: Que algumas coisas não mudam nunca.

HELENA: É… Bom, sim, acho que a gente tem que se perguntar mesmo pra onde que leva não sair do lugar. Tanto pode ser bom quanto ruim.

DIOGO: E que o resto é silêncio?

(Silêncio.)

DIOGO: Tem sempre alguma coisa começando ou terminando também. Ou começando e terminando. Terminando e começando.

(Pausa breve.)

HELENA: Pro bem ou pro mal. (Puxa Diogo para perto.) Vem cá.

(Beijam-se. Escuridão. Quando a luz se acende, Ludo está no lugar de Helena. Ele e Diogo se afastam.)

LUDO: Então ela também tinha que citar Hamlet?

DIOGO: Como?...

LUDO: Ela disse que o resto é silêncio?...

DIOGO: Ah, sim! Você lembrou! Está funcionando bem!

LUDO: Não, tudo… você muda tudo.

DIOGO: Do que mais você se lembra?

LUDO: Que algumas coisas não mudam nunca.

DIOGO: Bom, isso não dá pra esquecer.

LUDO: É, sim, lembrar que algumas coisas não mudam nunca é uma das coisas que não mudam nunca.

DIOGO: Sim. E outra é que tem sempre alguma coisa mudando.

LUDO: Bom, hoje eu mudei meu status.

DIOGO, rindo: Ah, isso você não lembrou?

LUDO: O quê? Ela também?

DIOGO: E você não olha as redes sociais dela, não?

LUDO: Seria um auto-stalker.

DIOGO: Então agora, de acordo com a percepção pública, eu estou em um relacionamento sério com duas pessoas diferentes?

LUDO: Bom, todo mundo sempre soube que você era um pervertido.

(Beijam-se enquanto a luz se apaga. Luz sobre L, que mexe no celular. Durante sua fala, os telões vão mostrando o que ele vê no celular: redes sociais de Diogo, Karina, Ludo e Helena, as fotos com as hashtags que foram tiradas em cena, etc.)

L: Pervertido! Completamente. Sem a mínima vergonha. Olha aqui, "relacionamento sério"! Tem que marcar os dois, porque nem eles sabem direito quem é quem, né? Olha lá. "Sério", esse relacionamento é uma piada, né, esses dois aqui têm uma doença mental, não é possível. Quem que nasceu da mãe deles, será? O verdadeiro é o que nasceu, né, ou ele nasceu ele, ou ela nasceu ela, as duas coisas não dá. E essa outra aqui, coitada, a ex do tarado pervertido sexual, hashtag depois do fim, eu mereço. É uma coitada, essa vadia, olha que boquinha gostosa que ela tem. Ai essa boquinha me chupando… nossa, que delícia. (Vai colocando mão dentro da calça.) Que safada, essa vagabunda, você gosta de uma suruba, é, sua safada? Dá essa boquinha aqui… (Um cameraman entra em cena por engano, filmando o que acontece para transmitir nos telões, e L acaba percebendo sua presença, parando imediatamente o que estava fazendo.) Mas o que é isso, não existe mais privacidade, não? Já vem metendo a câmera onde bem entende, não tem respeito? Não sabe o que é respeito? Só pode, né? (O outro vai saindo e L vai atrás dele, xingando, enquanto a luz se apaga.)

(Luz sobre o microfone e Mano, que se aproxima lentamente. Ele para diante do microfone e fica olhando para o público em silêncio.)

(Longo, longo, longo silêncio.)

(As luzes vão se apagando muito lentamente.)

sábado, 18 de março de 2023

Aí eu reparei na ausência de objetos cortantes. 
Mas era um avião pegando fogo em pleno voo 
Os degraus do ego entre a piedade e a pena 
As pedras submersas 
Cadáveres e moscas e era a imagem do escárnio esculpida em gelo. 
Aí eu reparei que a minha inocência iria comigo à forca. 
No chão coberto de palha e nas paredes rabiscadas 
Era um trem descarrilhado o testamento de um mendigo 
Eram leões famintos águias era o quarto sem janelas 
Da pequena lógica dos cínicos. 
Aí eu reparei. 
Tuas lágrimas de sangue atrás de um vidro 
Os lábios se movendo sem que se pudesse ouvir 
Aquelas mãos erguidas cinco pétalas de não se alcançar 
Sem arrancar do coração uma ferida ardente. 
Aí. 
A aquarela dos finais felizes desbotou no livro 
As sombras do pra-sempre e meu amor eu juro 
Que tentei gritar conter dar meia-volta mas já era tarde 
Aquele mar de maravilhas terminava em um abismo. 
Nós 
Dois. 
Eu não parei a tempo.


 


(Diários de Machu Picchu #27)


 

sábado, 11 de março de 2023


 


 


 


 


 

Não pode o fogo nas nuvens 
O estrépito imóvel 
Uma catapulta de pétala

Não pode a contemplação ter açúcar 
Um rastro rasgar memórias 
O mar dentro da praça 
Tanta chuva em um só morango

Quase 
Sempre 
Assassinatos, roubos, abusos 
Uma farsa exaustiva, um deboche em voz alta 
Uma rua inteira de perversões 
Um vale de drogas pesadas 
Bem, aí 
Pode

Dependendo da cor da pele 
De qual é o seu nome 
Do que foi dado em troca

Quase sempre 
O que não pode é um bicho magro e sem dentes 
Que se pudesse 
Não faria nenhum estrago

O que não pode, enfim 
É um muro sem átomos 
É uma corrente atrás dos olhos

E eu tenho cá pra mim que 
O que não pode mesmo 
Muito 
De verdade 
É todo esse não poder 
Diante de infinitas 
Possibilidades


 

sábado, 25 de fevereiro de 2023


 


 

Olhe como que através de um véu. 
Sobretudo sem ver. 
Nada 
Lhes causa mais horror 
Do que sua própria humanidade 
Explicitada.

Não queira. Não tente mover o mundo. 
Este é um lugar de covardias, 
De um caminhar pequeno e rastejante. 
Apenas 
Se for com medo 
Seja. 
E sobretudo 
Não você.

Essa alegria em seu coração, 
Não fale. 
Toda paixão é imperdoável. 
Almas requerem travas. 
Sobretudo as mais vibrantes. 
Se não palavras esterilizadas, 
Ocas, matemáticas, 
Aprovadas em conselho, 
Não, não fale.

E sobretudo, mate 
De todas as formas possíveis 
E com o máximo de crueldade 
Qualquer pessoa que ouse 
— Ainda que breve e 
Inocentemente — 
Revelar qualquer vestígio 
De integridade.


 

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Mares de asfalto quente em noites de verão, mares brilhantes de chuva, 
Amarelados por antigas lâmpadas incandescendo-se em zumbido, 
A cidade aberta ao voo errante das nossas liberdades recém-descobertas 
E o mirante da montanha já vazio, embora ao longe ainda ecoassem risos e canções, 
Em nosso peito os risos e canções também, mesmo os que não se mostravam, 
Todas as peles, nomes, corações dançantes por trás das cortinas por trás das janelas 
Por trás do ar molhado, vivo e negro da madrugada que era sempre um pequeno sempre, 
Um lento e voraz encontrar de si 
No universo vasto de apartamentos calados, quartos silenciosos com a sua poeira sorrateira 
E objetos espalhados à espera, os nossos gestos preenchidos de amorosa materialidade, 
Até que o tempo se dobrou, ninguém viu quando acordei sozinho desse sonho triste de saudades 
E tudo seguia imerso e pulsante em profundezas e na superfície do meu corpo, 
Só sei que era carnaval, 
A brisa suave de outras terras encontrando uma passagem sem alarde pelas frestas, 
Quem é este em meu lugar, não se pode desistir de viver tantas vidas simultaneamente, 
E no entanto uma só alma, um só ter sido neste mesmo ser que em si não se divide, 
Fantasmas coloridos, 
Dois mundos em meus olhos, nada faz de um deles mais real, nada me faz não ver, 
Nada me faz, um sopro se desprende no infinito interior onde somente eu habito.


 


 

sábado, 11 de fevereiro de 2023


 


(Diários de Machu Picchu #16)
Ainda inquieto naquela manhã, seguindo os trilhos do trem desde Machu Picchu Pueblo só para ver onde eles iam dar, mas arrastando uma revolta que se debatia no meu peito, sem nada ao redor que a justificasse, a não ser lembranças, ideias, desejos.

Tentava tirá-la do caminho, porque ela estava poluindo a paisagem e dando à aventura toda um peso desnecessário, mas era quase como se eu tentasse me desfazer de mim mesmo, então, em boa parte do trajeto, ia deixando fluírem à vontade os pensamentos de raiva e amargura, apenas como se eles fossem parte da paisagem, e só. E quando, aqui e ali, encontrava uma clareira de silêncio nos pensamentos, procurava me concentrar em qualquer parte da natureza esmagadora à minha volta que fosse capaz de me despertar alguma ternura ou encanto, uma flor, um inseto, o som das águas ou de animais silvestres, às vezes simplesmente uma folha, ou simplesmente uma pedra.

Não muito longe do povoado, encontrei uma casa onde um rapaz me recebeu ao lado de um grande cachorro preto. Acariciei a cabeça do animal e conversei um pouco com o rapaz, depois fui passear pelos jardins onde corria um rio vindo do alto da montanha e que, nessa jornada, formava diversas cascatas. A essa altura, parecia que já estava esquecido da raiva, e em parte, atribuí à energia do lugar o fato dela ter se dissolvido. Uma placa à beira de uma cachoeira dizia “Energético e Espiritual”, e ali fiquei meditando durante um longo tempo. Já me sentia totalmente renovado ao fim dessa atividade, sem o menor vestígio da pessoa que iniciou o passeio de manhã, então, comecei a trilhar o caminho de volta.


Em dado momento, lembrei-me de um fato marcante que ocorreu quando comecei a viagem pelo deserto da Bolívia. Tínhamos ido de ônibus até a entrada do deserto e, lá, fomos transferidos para os jipes que fariam a travessia. Nisso, descemos toda a nossa bagagem do ônibus para nos dividirmos entre os carros, e então, estávamos reunidos — éramos umas 8 ou 9 pessoas — com toda a bagagem no meio de um círculo, incluindo uma sacola com vários lanches e comidas. Nesse momento, apareceu uma raposa, e todos ficamos olhando para ela, bem mais fascinados do que preocupados, e aí, ela foi se aproximando cada vez mais. Até que entrou em nosso círculo, e quando nos demos conta do que ela tinha ido fazer ali, era tarde demais. Em um instante, estava correndo para o deserto com a sacola de comida entre os dentes, enquanto o dono da comida tentava em vão persegui-la.

O episódio me fez pensar em como as pessoas pacíficas acabamos pagando um preço por nossa recusa à violência. Éramos quase 10 pessoas contra uma raposa pequena, e talvez nem fosse necessária uma agressão real, mas um gesto agressivo teria bastado para evitar o saque. Só que ninguém fez nada: ficamos ali, apenas assistindo enquanto a natureza livre e plena fluía a sua violência contra os pacíficos civilizados que nós éramos.

A lembrança me acompanhou durante boa parte do caminho, e ainda pensava nisso quando avistei de novo a casa onde havia encontrado o rapaz e seu cachorro preto. Quando avancei um pouco portão adentro, tive uma visão mais clara da varanda e de quem estava nela, e então, deparei-me com uma cena muito curiosa. Um homem estava em pé em um dos cantos da varanda, enquanto, diante da porta, o cachorro enorme e preto rosnava, mostrando os dentes para ele. O homem não deixava por menos: rosnava e mostrava os dentes também — e os dois permaneciam imóveis nesse quadro por um longo instante. Logo, o rapaz que era dono do cachorro apareceu, e o animal se foi para um dos cantos da casa, como se nada tivesse acontecido.

O rapaz perguntou como o homem estava, e ele disse que tinha sido atacado, mas que havia se defendido. Em ato reflexo, tinha reagido ao ataque com um chute, mas não a tempo de evitar os dentes do animal. Levantou a perna direita da calça e ali, um pouco abaixo do joelho, brilhavam duas gotas pequenas de sangue. O rapaz correu para dentro para buscar álcool e panos limpos, e nisso, tive tempo de conversar um pouco com o homem. Não me lembro durante quanto tempo conversamos em espanhol, talvez até depois do rapaz voltar e começar a limpar a ferida dele, mas a certa altura, acabamos descobrindo que vínhamos do mesmo país.

Não só do mesmo país, mas de regiões bem próximas. Além disso, ele estava em uma viagem muito parecida com a minha, e tinha vindo a Machu Picchu sem nenhum prazo para ir embora. Seu nome era Antero e tínhamos quase a mesma idade. Era inevitável uma identificação imediata e recíproca.

Mais tarde, quando voltávamos juntos a Machu Picchu Pueblo, descobrimos ainda muitas outras coisas em comum, contando sobre nossas vidas e visões de mundo. O acontecido na varanda já estava esquecido, para mim, mas a certa altura, em um contexto da conversa em que o assunto cabia, e em tom de brincadeira, Antero jurou que não tinha feito nada de mal ao cachorro e — até onde sabia —nem aos deuses do lugar que justificasse o ataque. A conversa acabou engatando pelo tema das moralidades, e Antero dizia que tudo no mundo tinha se tornado tão relativo que as pessoas que ainda se preocupavam em ser “boas” estavam condenadas. Simplesmente, não havia esperança para elas.

A observação tocou em vários pontos sobre os quais eu tinha refletido antes, então, comecei a falar em um fluxo natural e incontrolável:

— Certo, não existe “defeito” que você não esteja disposto a ignorar quando quem apresenta é seu amiguinho ou pode trazer algum benefício para você. Eu realmente acho difícil falar em “defeitos” como se fossem coisas reais e não detalhes em que a gente se agarra quando quer atacar outra pessoa ou acabar com a imagem dela. Aí, lá estão os caras que são violentos com a mulher e os filhos dizendo que você não presta porque dormiu até mais tarde na segunda-feira. Você chutou um cachorro que estava te atacando e logo vai aparecer gente para te comparar a um ditador assassino e sanguinário, talvez você mesmo faça isso. E você é justamente a pessoa que está se esforçando para acabar com a violência! Às vezes, se esforçando até demais. Se eu disser para você que a violência existe, faz parte de você e de tudo, e que não necessariamente tem algo de errado nela, você vai se preocupar que as coisas comecem a ficar perigosas demais no mundo se levar a ideia a sério, como se elas já não estivessem. Como se a maioria das pessoas que decidem como as coisas são não fosse ouvir pensando: “Meu Deus, que coisa óbvia! Foda-se a violência, todo mundo é violento, quem não é violento é otário!”.

Imediatamente, como se apenas seguisse aquele mesmo fluxo de pensamento, Antero completou:

— E aqui estamos nós. Os otários.

Eu ri.

— Sim. Os otários. Mas pelo menos, você não vai perder a perna hoje.

Foi a vez dele rir.

— Não. Não vou.

Depois, por um longo tempo, apenas caminhamos em silêncio.


 

sábado, 4 de fevereiro de 2023


 


 

Não seria surpresa se você estivesse prestando atenção 
Era previsto desde o início 
Bem que eu gostaria de uma realidade menos desconexa 
Você saberia 
Se tivesse ouvido 
Há um mar de flores multicoloridas desabrochando 
E a agonia lenta de tudo o que já foi a civilização humana 
Quase nada justifica o medo 
Depois que os olhos se acostumam ao escuro 
Sei que eu tentei 
Meu Deus como eu queria que você tivesse visto 
Mas a impressão de que eu converso com o vazio 
Talvez 
Seja porque não existe outra coisa em você 
Mais verdadeira 
Você entenderia se 
Não 
Agora eu acho que você não entenderia 
Por nada 
É tarde pra que eu me importe 
E eu teria me importado 
Ah 
Sim 
Como eu me importava 
Tanto


 

sábado, 14 de janeiro de 2023



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(Novas cenas em breve.)
CENA 8

(A luz pisca e Helena se transforma em Ludo. Então é ele quem começa a cena falando ao microfone no palco, enquanto os telões passam a mostrar Helena, que vai dizendo o mesmo que ele, palavra por palavra. Durante toda a fala, os dois se alternam tanto no palco quanto nos telões, nunca estando nos dois lugares ao mesmo tempo ou aparecendo juntos no mesmo lugar.)

HELENA e LUDO: Tem uma coisa que eu venho tentando dizer já faz um tempo, mas nunca é o momento… E sinceramente, eu nem tinha tanta convicção do que eu vou dizer quanto estou tendo agora. Eu ia compartilhar uma suspeita, agora eu posso comunicar um fato, essa é a diferença. Eu não sei se algum de vocês se lembra exatamente de quem estava na praia no dia em que a Pâmela morreu, se era Helena ou Ludo, mas o fato é que eu me lembro tanto como Helena quanto como Ludo. Sabe, na primeira vez que eu ouvi falar sobre essa outra personalidade minha, se é que eu posso chamar assim, eu achei que estavam tentando me pregar uma peça, eu não acreditei, eu passei anos não acreditando. Eu no máximo aceitava a possibilidade de eu ser outra pessoa além de mim como uma doença mental, dupla personalidade, sei lá, só eu era eu, sabe, o outro era a doença. Nenhum de nós dois é uma doença. Eu não sou uma doença mental, eu tenho uma forma física, eu existo, eu sou real. Quando o Mano apareceu com a ideia de reunir todo mundo pra trazer a Pâmela de volta, eu achei que eu também tivesse uma chance. O Diogo e a Karina conseguem unir as minhas duas consciências através de alguns sentimentos e lembranças vagas, mas a força dessa reunião de todos nós é inacreditável. Eu quase nem consigo perceber que existe uma diferença. Com todos aqui, eu sou uma pessoa só. Eu consigo ser ao mesmo tempo as duas pessoas que eu sou. Só com vocês todos aqui isso acontece. O que é que poderia explicar uma coisa dessas?

(Todas as luzes se apagam, exceto as que iluminam L, que aplaude ironicamente.)

L: Não, eu imagino que isso deve ter sido muito importante, mesmo. Pra quem se importa.

(Blecaute. Luz sobre Diogo.)

DIOGO: Então ele disse não. Como todo mundo esperava.

(Blecaute. Luz sobre L.)

L: Se a proposta de negócio que me trouxe até aqui fosse um show de horrores, com certeza isso teria me convencido.

(Blecaute. Luz sobre Diogo.)

DIOGO: Eu não sei o que dizer. Eu queria poder contar outra história.

(Blecaute. Luz sobre Mano e Pâmela.)

PÂMELA: A gente não tem muito tempo.

MANO: A gente nunca teve. (Ela pega na mão dele.) A gente sempre teve todo o tempo do mundo.

PÂMELA: Você precisa deixar isso pra trás.

MANO: Não. Não faça isso. Pra quê, então, isso tudo? Não pode acontecer outro milagre? Ele não pode entender?

PÂMELA: Você sabe que não.

MANO: Então como que isso é um milagre? É uma piada de uma consciência superior? Superior como?

PÂMELA: Não é assim, você está com raiva.

MANO: É claro que eu estou com raiva.

PÂMELA: E é com isso que você vai usar os nossos últimos minutos?

(Silêncio. Ele a abraça. Blecaute. Luz sobre Karina e Helena, que estão abraçadas. Depois de um instante, Karina se afasta.)

KARINA: Eu queria poder contar outra história.

HELENA: Sim, eu gostaria de poder ser parte dessa história.

KARINA: Mesmo agora, eu teria ficado por você.

(Blecaute. A luz volta a se acender exatamente no mesmo lugar, mas agora Ludo está no lugar de Helena.)

KARINA: Eu teria ficado, apesar de você. Quer dizer, apesar dessa história toda. Desculpa, eu estou sendo uma idiota.

LUDO: Não se preocupe, não tem como você me deixar de coração mais partido.

KARINA: Eu quero dizer que eu teria ficado também por você e pela Helena… se ia mesmo ajudar nessa… coisa.

(Blecaute. A luz volta a se acender exatamente no mesmo lugar, mas agora Diogo está no lugar de Karina.)

DIOGO: Eu vou ficar. Eu vou ficar com você, não importa o que aconteça.

(Blecaute. Mais uma vez, a luz se acende no mesmo lugar, mas agora, além de Diogo e Ludo, L também está ali.)

DIOGO: Então você não vai ficar? Não importa o que aconteça? Pode descer o próprio anjo Gabriel com uma espada de fogo ou sei lá o que os anjos andam usando nesses dias, você vai continuar se recusando a fazer isso.

L: Bom, não dá pra dizer que desceu um anjo…

LUDO: É, você acha que dá pra dizer com toda a certeza que não desceu nenhum.

L: Eu… não adianta discutir com vocês, vocês são cegos. E agora acho até que já teve um beijo gay por aí e eu nem estava sabendo. Quer dizer, obviamente eu soube antes mesmo de vocês, mas… Nada contra, eu só… tenho nojo… de gente como vocês.

LUDO: É, espantoso mesmo que você seja capaz de sensações humanas, só não sei por que você só faz questão de compartilhar essas.

(A luz se amplia um pouco para incluir Karina. Em algum momento durante as próximas falas, Ludo se transforma em Helena.)

KARINA: Um milagre seria a chance de ganhar muito dinheiro sem nenhum esforço. Sem nenhum esforço, sim, aí você veio correndo pra cá, não foi? O vagabundo. Que nunca vai largar o discurso de que tudo na vida é uma questão de esforço, dedicação e… mérito, não é? Nada além disso. Trabalho, produção, obediência, qual é o valor de um homem pra você? Qual é o valor de uma vida? Você se importa com alguma além da sua mesma?

L: Claro, sim, claro, você tem toda a razão. Você precisa que eu seja um monstro, eu vou ser um monstro pra você. Aí você dorme com a consciência tranquila por ser uma puta amiga de uma puta.

DIOGO: Você só pensa em puta, cara? Só fala em puta, é tudo puta pra você? Isso é uma ofensa, você é obcecado, qualquer mulher que tenha um mínimo de prazer no sexo ou esteja em paz com a própria sexualidade é puta?

L: Mas puta que o pariu, caralho, vocês são muito chatos.

DIOGO: E você é incapaz de amar.

L: "Incapaz de amar"...

KARINA: Você matou a Pâmela.

DIOGO: Matou.

HELENA: Você matou.

L: Eu amava a Pâmela. O amor de dez mil de vocês somado não seria maior que o meu amor por ela.

HELENA: Você… acabou de citar Hamlet?...

KARINA: Quem se importa?!

HELENA: Não, sério, quais são as chances? Um chimpanzé batendo na máquina de escrever acabou de escrever uma fala do Hamlet.

L: Eu quero que o Hamlet se foda, ele morreu o quê, faz quinhentos anos, já…

KARINA: Mas e daí que é Hamlet, o cara sempre vai ser o diabo citando alguma escritura. Amava a Pâmela? Amava?

(A luz se amplia um pouco para incluir Mano e Helena.)

PÂMELA: Me amava?!

MANO: "Amava"...

PÂMELA: Eu não sei o que você chama de amor, mas aquilo não era amor em lugar nenhum do mundo.

DIOGO: Não é isso que é o amor.

L: Ah, vocês sabem tudo, só vocês que sabem. Eu não vou ficar aqui nem mais um minuto, eu nunca mais vou voltar, vocês nunca mais vão ouvir… vocês vão ficar ouvindo falar de mim pelo resto da vida e eu vou esquecer que vocês existem, seus perdedores de merda.

KARINA: Claro, é muito amor pra dividir com o mundo… Transborda amor, é uma fonte luminosa de amor, olha lá.

(L sai e todos ficam se entreolhando em silêncio por um tempo, até que as luzes finalmente se apagam.)

(Música.)