sábado, 12 de dezembro de 2020

“O nome das coisas”, dizia sempre o Juruma, que era um negro adotado por brancos com aquele nome feminino indígena, mas o Bernardo respondia “O lugar de cada coisa”, e os dois ficavam em uma discussão interminável que pra mim não tinha nenhum propósito, até porque no fim das contas a gente acabava pedindo pizza no “Tem Pizza de Quê?” não porque o nome era engraçado ou porque ficava perto, mas porque era mais barato, só que eu nunca reduziria tudo a uma questão assim tão banal, “o preço de cada coisa”, ou talvez só pra perturbar ainda mais os dois naquela discussão tão chata, então preferia ficar quieto, ia escolher algum livro na prateleira, um disco, uma frase mais inteligente – pra mim tanto fazia.

“Quem vota no Glauber pra comprar mais vodca?”, acabei dizendo, e o Bernardo provocou, “Vamos comprar aquela vodca chamada Kafka pra ver se amanhã acordamos transformados em insetos”. Aí o Juruma se remexeu na cadeira e começou a discursar sobre o nome da nossa bebida, “Cuba-Libre”, que afinal misturava uma bebida russa e uma norte-americana, “não dava pra escrever uma tese sobre as leituras políticas desse nome?” Quis interromper pra dizer que a receita original de cuba-libre era com rum e não com vodca, mas naquela mesma hora reparei em livros de Maiakovski e Ginsberg lado a lado na prateleira e quase disse isso em voz alta, só não falei porque os dois ficariam me olhando com cara de “E daí?”.

Também ninguém parecia se importar com o fato de que o Glauber não estava lá, e que a pergunta tinha sido na verdade uma citação de um texto que eu tinha publicado em meu blog havia poucos dias e que tratava de uma situação parecida. Um texto que obviamente ninguém tinha lido. O que me chateava um pouco, é claro, mas afinal eu sabia que o Bernardo, por exemplo, não gostava da minha poesia, enquanto era um excelente amigo, ao mesmo tempo em que acompanhava o blog do vizionarios, de quem ele nunca gostou pessoalmente

Cada um falava de uma coisa e aquilo ia por caminhos tortuosos, vamos fazer um filme, sim, vamos fazer um zine, ninguém se lembrava mais qual copo era de quem ou qual carteira de cigarros, revistas em quadrinhos e revolução operária, cuba-libre com kafka, Juruma de repente cruzava as pernas e fechava os olhos parecendo um monge budista meditando, Bernardo prolongava algum monólogo sobre como a pós-modernidade e a globalização ainda veriam um retrocesso ao fascismo e a um nacionalismo depravado, eu lamentava o capitalismo, eu tinha ideias tão antigas tão à frente do meu tempo, eu planejava mudar o curso de tantas coisas.



(Diários de Machu Picchu #24)


“Ok”, rosnou Bernardo, “mas nada a ver Diários de Machu Picchu, nada ver um desenho que você só vai fazer daqui a uns dez anos”.

E ele estava certo, é claro, mas àquela altura eu já não tinha mais a menor condição de entrar em uma discussão metalinguística.

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