sábado, 27 de março de 2021

Colón - Argentina
Rio Uruguai, fronteira com o Uruguai


"E se vierem cantores e bailarinos e tocadores de flauta
– comprai também seus dons.
Pois eles também coletam frutas e olíbano, e o que trazem, apesar de feitos de sonhos, 
são vestimentas e alimentos para as vossas almas."

(Khalil Gibran, O Profeta)


Dia 2.
O dia inteiro subindo e descendo essa ladeira entre o camping e o centro da cidade para resolver assuntos burocráticos de uma vida que já não é minha, faz a gente pensar, será que a vida é mais minha agora? É, eu penso demais, fiquei pensando por que será que na Argentina chamam as lan houses de cyber café mesmo se na maioria dos casos não tem café nenhum sendo servido no local. Aliás, também nunca entendi por que no Brasil chamamos as lan houses de lan houses, mas é assim, a gente não pergunta o significado do rio. Ou então, antes de tudo, eu perguntaria por que é que na Argentina, no Uruguai e talvez em países de língua espanhola no geral, as pessoas dizem "de nada" como se o seu "obrigado" tivesse sido uma ofensa grave, ou sei lá, é engraçado, você diz gracias e a pessoa agita a mão no ar como se espantasse uma mosca, impaciente, ¡ah! ¡por favor!.

# Mas para que pensar nisso quando se tem pela frente toda a vastidão dourada da Terra e acontecimentos imprevisíveis de todos os tipos estão à espera, de tocaia, para te surpreender e te fazer ficar satisfeito simplesmente por estar vivo para presenciá-los?

Quem poderia imaginar, por exemplo, que eu viria acampar aqui nos mesmos dias que o grupo de teatro mais improvável de que já tive notícia: um grupo mambembe de jovens cristãos, não ligados a nenhuma igreja, com um repertório incluindo várias adaptações de histórias bíblicas, discussões de atualidades e lições dos evangelhos, além de uma prática interessante de improvisações em apresentações de rua. Andaram excursionando pelo Uruguai, agora estão fazendo uma pausa em Colón antes de iniciar um novo giro pela Argentina. Tudo ao contrário dos meus caminhos de agora... Tudo? Não, nem tudo.

No fim da tarde, terminei de ler O Profeta e fiz como decidi que ia fazer em toda a viagem: larguei o livro exatamente no lugar em que acabei de ler. No caso, era um pequeno muro de pedras perto do rio. Fotografei, antes, o desenho que fiz no verso da capa, aquela rosa em chamas – a parte mais triste de me desfazer do livro é ter que me desfazer também desse desenho. Mas aí aconteceu isso, agora há pouco voltei a ver o livro nas mãos de uma moça lá na arquibancada da quadra de esportes. Eu estava voltando dos vestiários, tinha ido escovar os dentes, e de repente escutei alguém gritar "Cristina, Cristina", aí fui olhar, ela estava lá, com apenas a capa do livro aberta. Acho que na hora eu sorri. Não sorri? Devo ter sorrido.

* Tente ter amor pelas próprias perguntas, como quartos fechados e como livros escritos em uma língua estrangeira. Não investigue agora as respostas que não lhe podem ser dadas, porque não poderia vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Viva agora as perguntas.





Dia 5.
Ficamos conversando na arquibancada da quadra de esportes, nem vimos quando anoiteceu. Eu e o Juan começamos a provocar os outros dois para descer até a quadra e declamar um poema cada um, já que eles insistiam em dizer que gostavam, sim, de teatro, que conheciam poetas, que não eram pibes sem cultura. No fim fui eu que acabei abrindo o meu caderno e lendo para eles alguns trechos do

(#) On the road, de Jack Kerouac; e do
(*) Cartas a um jovem poeta, do Rainer Maria Rilke.

– Vocês vão gostar disso aqui, olha só – falei, mostrando no caderno. – É uma carta de um titereiro venezuelano que queria morar em Colón e escreve pedindo ajuda para comprar uma casa. E termina dizendo: “Mas a casa tem que ter uma árvore. Entendeu? Mesmo que a casa seja somente uma árvore. Eu sei que à sombra de uma árvore em Colón podem viver maravilhosamente uma mulher, um homem, seis crianças, uma cadela, dois gatos e alguns amigos que queiram conversar e tomar vinho.”

Todos concordaram, é claro, estava óbvio. Bom, pelo menos assim deixei passar mais uma ótima oportunidade de declamar um dos sete mil, oitocentos e trinta e dois sonetos que decorei entre a infância e a adolescência – lamento, Cruz e Souza, eu nem saberia como fazer isso em espanhol. Aí o Juan se animou, desceu as arquibancadas e parou perto do círculo central, virou-se para nós para o que esperávamos que fosse a apresentação de algo bíblico ou cristão ou, sei lá, qualquer das coisas que ele faça lá na trupe, mas ele começou a dizer o coração da noite é escuro e eu não sei onde estou indo e não sei se vale o perigo de ir, embora o perigo seja quase um destino em si mesmo, e dentro do casaco tem um bilhete que eu não entreguei por covardia, um número de telefone que eu não tenho, uma voz que eu não tenho, pernas, movimento, o vento seco vem dançar sem graça na concha vazia de um ponto de ônibus, e ali

Nunca soubemos como terminava aquilo porque nessa hora a quadra foi invadida por um grupo pequeno mas terrivelmente barulhento de crianças com uma dessas bolas gigantes e leves e muito alaranjadas e fluorescentes.

* Não temos motivo algum para desconfiar de nosso mundo, pois ele não está contra nós. Caso possua terrores, são nossos terrores, caso surjam abismos, esses abismos pertencem a nós; caso existam perigos, então precisamos aprender a amá-los.





Dia 7.
Éramos apenas eu, Juan e Cristina à beira do Uruguai. Eles contavam histórias da trupe, eu falava sobre as minhas próprias crenças cristãs e de como é raro encontrar pessoas que consigam diferenciar o cristianismo desse igrejismo todo de hoje. Quem dirá um grupo grande de pessoas que, além disso, viajam juntas por aí fazendo arte. Eu mal sabia expressar o quanto admirava os dois, e como sabia que aquele momento que estávamos já estava sendo gravado para sempre na minha memória. Os dois seguravam as mãos, às vezes, depois soltavam, livres e um do outro - e em paz. Sim, estávamos em paz, os três.

Então eu contei que não era batizado porque na igreja dos meus pais uma pessoa só se batiza quando ela quer, se quer. E o Juan disse que Jesus mandou batizar todo mundo, inclusive as crianças, e eu disse é mesmo, ele fez isso quando foi se batizar no deserto e falou pra multidão sair e batizar todo mundo, não que só os sacerdotes podiam batizar ou que elas só podiam ser batizadas depois de duzentos séculos de escola dominical. Aí a Cristina disse muito bem, mas se não precisa nem de um sacerdote para se batizar então você não tem nenhuma desculpa para não ser batizado ainda. E depois falou vamos te batizar agora se você quiser.

* As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou.

Tantas coisas convergiam naquele instante, era um desses momentos tão raros em que nos sentimos fazendo algo que estávamos predestinados a fazer, ao mesmo tempo em que não abrimos mão do livre arbítrio. Sim, somente assim eu poderia ter sido batizado, só poderia ter sido aqui, só neste amanhecer.

# ... e enquanto o rio descia pelo centro da América, sob a luz das estrelas, compreendi loucamente que tudo que eu jamais conhecera e tudo o quanto haveria de conhecer era apenas Um.





Dia 10.
Um jogo de amarelinha na calçada e complexas relações de ideias que eu levaria muito tempo tentando explicar me levaram de repente a fantasiar que voltarei a encontrar Juan e Cristina em algum outro lugar da Argentina em minha viagem, que os nossos caminhos vão se cruzar de novo sem que seja preciso fazer nada para garantir isso, que é só continuar indo em frente, cada um por seus caminhos, e vamos nos encontrar de novo como se estivéssemos nos procurando.

# Que sensação é essa, quando você está se afastando das pessoas e elas retrocedem na planície até você ver o espectro delas se dissolvendo? - é o vasto mundo nos engolindo, e é o adeus. Mas nos jogamos em frente, rumo à próxima aventura louca sob o céu.

Terminei de guardar as coisas na mochila e saí sem ter mais de quem me despedir. O camping parecia mais triste sem o grupo deles por lá, mas nem por isso achei fácil ir embora. Talvez ainda pensasse naquela história da casa-com-uma-árvore-mesmo-que-a-casa-seja-só-a-árvore. Mas também ainda pensava que eu podia ter ido embora com a trupe, ou que podia ir a Buenos Aires antes de cruzar a fronteira com o Uruguai, ou que tantas coisas, tantas. A bagunça ainda está grande, afinal, não caiu nenhum raio do céu, não adquiri nenhum superpoder inesperado, o que doía continua doendo, às vezes muito, às vezes igual.

* Não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem temor de que o verão não possa vir depois. Ele vem apesar de tudo.

Comprei passagem para o próximo horário, mas tinha ainda muito tempo e decidi começar a ler meu próximo livro ali mesmo, enquanto esperava. Resisti à tentação do cyber café, mas não à de um café de verdade, que no fim acabou combinando muito bem com a leitura. Quando estava saindo, me despedi do garçom, e quando agradeci pelo atendimento, ele revirou os olhos e respondeu aborrecido ¡no hay por que!.

2 comentários:

Beti disse...

Demais, adorei!!👏👏👏. E então, reencontraram-se???

Unknown disse...

Amei👏👏👣👣🍃