segunda-feira, 6 de abril de 2020
Ondas e rios que se espalham formando pequenos córregos, pessoas
que medem distâncias pelo tempo que dura a viagem, prismas espelhados, constelações
alheias aos desenhos que formam, raiz e raios, artérias de uma folha e seiva
atravessando as horas. Uma sombra ainda paira sobre todas as almas, e todas
elas, dóceis, entregam-se a todo custo à negação contínua de si mesmas.
Interiores não alcançáveis, sentidos proibidos palpitam em tocaias, tudo desaba,
deságua, tudo vem à tona mais cedo ou mais tarde.
Tomou um fósforo, acendeu o seu cigarro. O dia estava com o
tom perfeito de melancolia e azul claro. Da janela, assistia ao vaivém dos
carros entre a Avenida Paraná, a Costa e Silva e a República Argentina. Gostava
de caleidoscópios. Podia passar a vida inteira jogando amarelinha com Cortázar.
Se tivesse algum superpoder, queria estar além do tempo todo, mas tinha que
viver nos intervalos.
Imagine se um mapa desenhasse por acaso as suas linhas
exatas no vidro quebrado. Tente não chorar, sem ser um personagem, nem ver o
que há de nuvem nas palavras de certeza, manchas de nascença ou cardumes de
peixinhos prateados.
Todo um amor, sim, porque não existe outra palavra pra isso,
aconchega a Terra no manto atmosférico, é o movimento dos passos, vibra, cheira
a vida, brilha e colore ainda quando é saudade escurecendo as pinturas, um
paraíso perdido, a solidão de conhecer tão bem as diferenças entre iguais. Anúncios
publicitários prometem mares nunca navegados, banqueiros e grandes empresários tentam
lustrar os seus jardins carnívoros, o tempo exige que se gaste, es muss so
sein, abismos de incompreensão se abrem. Mas o chão é de humanidade. O
entorno é bem mais dentro. E quem pode fazer com que se afastem, assim como se
a dança pudesse escolher entre a música, a poesia e o teatro?
Pensou em ligar pra Cristina ou pro Roger, depois achou que
era egoísmo demais querer dividir com alguém o seu fardo.
Procure
não julgar, aprenda a discernir, amarre os cadarços e não leia os manuais
completos. Siga as suas teias, atenha-se às sinapses. Talvez você não conheça a
sensação de estar a centenas de quilômetros de casa e de repente dar de cara
com um velho conhecido ou um colega do trabalho, mas percorra com mais tempo e
mais atentamente os muitos substratos do seu ser, você vai encontrar vidas
inteiras tão diferentes da sua, e ainda assim tão suas.
terça-feira, 31 de março de 2020
Ninguém foi esperá-lo na rodoviária.
Eram dez horas da noite e Joaquin parado ali sozinho, fumou um cigarro e acabou
embarcando num táxi, rua tal, número tal, mas vai pela avenida. Aí na avenida
aconteceu uma cena: o táxi andou por um tempo ao lado de outro carro, e lá,
dirigindo esse outro carro estava a sua amiga Soraia, e ela também viu e reconheceu
Joaquin, e os dois sorriram, depois ela dobrou uma esquina e desapareceu de
vez. Ele ainda estava distraído quando o motorista reduziu a marcha, um bom
tempo depois, e estacionou à beira de uma praça mal iluminada de onde partiam
vários becos ainda mais escuros. O taxista apontou pra um desses becos e disse
rua tal é aquela ali, é uma passagem só de pedestres. Ele pagou a corrida e
desembarcou carregando o malão com todas as amostras de venda, todo o seu
trabalho. Quando o carro se foi, tudo ficou mais escuro, e só então ele reparou
nos diversos grupos de pessoas espalhados pela praça. Olhavam pra ele e
conversavam entre si falando baixo. Por um segundo, ele teve medo, depois
atravessou pelo meio deles, caminhou pelo beco, a passos meio rápidos, atento,
até encontrar a pequena porta de madeira escura em um muro coberto de folhas
verdes, número tal era aquele ali, ele apertou a campainha. Quién és?,
perguntou alguém, ele falou Soy Joaquin, então uma senhora abriu a porta e
disse Seja bem-vindo, querido, estávamos te esperando.
Joaquin passou quase um mês naquela casa
enorme em pleno centro histórico da cidade, uma construção de uns duzentos
anos, no mínimo. Durante o dia, saía trabalhar, e à noite ia parar quase sempre
na biblioteca da casa, uma biblioteca daquelas com escadinhas de correr na
frente das prateleiras. Eram livros demais, títulos demais, e ele acabava
escolhendo vários, meio aleatoriamente, depois sentava no sofá e lia até quase
de madrugada. Folheou os livros mais estranhos, biografias de gente sem graça,
filosofias obscuras, geometria, palavras de origem árabe na língua portuguesa.
Passava mais tempo com os de poesia, utopias sociais, romances de aventura e
fantasia, humor inglês, fotografias, pseudo-ciências. Já não sentia medo ao
andar pelo largo, à noite, já conhecia pelo nome um bom tanto daquelas pessoas
suspeitas que falavam baixo por ali até mais tarde. Mas na maior parte do seu
tempo livre, apenas leu e observou das janelas a escuridão dos becos do centro
histórico, e viu a cidade como nunca tinha visto antes, dramática e suja, meio
cega, brilhante, oca.
A cidade que ele amou uma vez. Em que ele
tinha amado. A cidade.
No dia em que foi embora, ninguém foi levá-lo
na rodoviária, nem encontrou ninguém pela avenida. Embarcou sozinho, sentou à
janela do ônibus, olhou pra multidão que se juntava nas plataformas de
embarque, onde, com quase toda a certeza, não conhecia ninguém, e acenou em
despedida.
Estava tão cansado que dormiu logo em
seguida, um sono profundo que durou várias horas. Numa delas, acordou sendo
empurrado pela moça que ocupava a poltrona ao lado: sem querer, a cabeça dele
tinha caído no ombro dela enquanto dormia. Pediu desculpas e ela disse que não,
assim seco, numa voz bem grave. Ele ia dar uma resposta mal-educada, mas dormiu
de novo na mesma hora, e quando acordou, muitas horas depois, ela já não estava
mais lá.
Uma pena, pensou,
enquanto um cheiro adocicado ainda exalava do banco ao lado.
quarta-feira, 25 de março de 2020
entra
poeira da rua pela porta aberta. amanhã tem que comprar um- ah, droga, esqueci
de pagar outra conta, de novo. já seria difícil sem nenhum idiota vomitando
opiniões porcas no meu caminho, mas parece que é disso, agora, que os caminhos
são feitos. rezar pelo silêncio dos fins de semana. não é o sofá mais
confortável do mundo, mas é o bastante pra uma tarde de domingo. as janelas
tremem quando o trem passa duas quadras lá adiante. ainda falta preparar o
almoço, mas só quero pensar nisso depois das três e meia ou quatro horas. ou
cinco. ainda tem uns filmes legais pra assistir, pelo menos. esmagado, é assim
que eu me sinto, não exausto, não despedaçado, preso, não, nada disso, eu me
sinto esmagado por essa merda toda que insistem em jurar que é o único jeito, porque
é assim que foi sempre. não, seus merdas, é a gente quem decide como são as
coisas e- ah, esse protesto ridículo. um sopro muito leve no meio do tumulto.
numa rua esquecida de um bairro esquecido de uma cidade surda em um dia de (risos) descanso. em qual dessas gavetas
eu guardei meu coração, era pra hoje. deixa eu ver, deve estar por aqui, pronto,
encontrei. esmagado.
quarta-feira, 18 de março de 2020
Sabe quando você sente
as mãos frias de uma tempestade ao redor do seu pescoço
O ar cortando a voz de
todo grito de socorro é cheio de pequenas lâminas de gelo
Não dá pra encostar a
testa na janela do ônibus e sonhar em uma estrada tão esburacada
E nenhuma luz engana a
cegueira de quem viaja rumo ao leste na hora em que amanhece
Eu ando assim
despedaçado em sacos de lixo rasgados por todas as ruas de todas as cidades
Não estou muito à
vontade com a completa falta de horizontes nas paredes do seu quarto
Nunca fui habituado a
ter a imaginação dependendo de internet rápida
Sabe quando você quer
aquele gosto preto e fresco de uma noite cravejada de grilos
A transparência água
limpa o milagre jorrando de uma só palavra de amizade
E tudo que há ao redor
são só milhares de milhares de anos-luz de vácuo
A dor espalhada como
um brilho quieto e derramada quente sobre o coração em chamas
Ninguém pode provar
por a+b que a culpa é minha por qualquer justiça que me subtraiam
E você não precisa
repetir os códigos que já me provocaram tantas cicatrizes
Nem por isso eu tenho
a obrigação de concordar que o medo dite as regras daqui pra frente
Nem por isso eu tenho
a obrigação de nada ou acho que uma coisa deva necessariamente levar a outra
Sabe quando as
lágrimas pesam como inacreditáveis gotas de chumbo sobre suas asas
Sabe quando o sangue
chove e mesmo assim há multidões ajoelhadas adorando o céu de sacrifício
Sabe quando as jaulas
não vêm com passagens secretas
O perdão pode soar
como um remendo em roupas muito gastas e com um design ultrapassado
Mas bem que eu
gostaria que chegasse até você um pouquinho só desse eu estar me importando de
verdade
E que você pudesse ver
o que estou vendo
E que também o que não
sou eu pudesse ser visto de dentro pra fora
Pelo menos uma vez só
que fosse
Em minha vida toda
quarta-feira, 11 de março de 2020
Todos
os portos, todos os aeroportos são iguais, rodoviárias e estações com suas
televisõezinhas de partidas e chegadas, anúncios de colares-travesseiros,
estufas com pães-de-queijo, armários, homens e mulheres de coletes, malas com
rodinhas, carrinhos pra levar as malas com rodinhas, rodinhas, campainhas e
companhias, rodinhas, relógios, mãos acenando e lágrimas em plataformas de
embarque.
Todos
os barcos, ônibus, todos os trens e os aviões sobre os seus trens de pouso são
iguais, bancos de couro imitando couro, as manchas de sol e sombra dançando em todas as superfícies, as suas televisõezinhas com programações duvidosas, os dedos indo e
vindo nas telas dos celulares, os olhos indo e vindo na paisagem, sono
entrecortado e o pescoço de mal jeito, as costas de mal jeito, as pernas de mal
jeito, estranhos com conversas estranhas e biscoitos distraindo a fome, mantas,
memórias, mãos acenando e lágrimas correndo nas janelas.
Todas as partidas,
todos os caminhos e chegadas são iguais.
quarta-feira, 4 de março de 2020
–
Machu Picchu já foi cruel com você? – perguntou Antero, na segunda e última vez
que estivemos juntos no “Santuário”, que é como são chamadas as ruínas. Aliás,
a bem da verdade, estávamos no topo da montanha de nome Machu Picchu, a mais
alta dos arredores, e embora o acesso à montanha passe pelas ruínas, não há
indícios de nenhuma construção inca no alto dela.
–
Quer saber se eu fui atacado por algum cachorro? – brinquei, em referência ao
dia em que nos conhecemos, logo depois dele ter sido inexplicavelmente atacado
por um cachorro amigável. – Teve umas pequenas crueldades – confessei, mas não
me sentia muito disposto a ter aquela conversa ali, naquele lugar, então
mantive o tom de humor: – Mas acho que o pior é quando eu quero andar por aí e começa
a chover.
Antero
ficou em silêncio, sequer sorriu. Já tínhamos conversado mais de uma vez sobre
as sombras que existem no que quer que possamos chamar de processo de
iluminação espiritual, uma ideia muito bem ilustrada por Jung ao dizer que
nenhuma árvore cresce até o céu sem ter raízes tão profundas a ponto de tocar o
inferno. Talvez naquele momento eu só quisesse desfrutar da proximidade com o
céu, sem pensar em mais nada. Mas Antero não era dado a períodos muito longos
de silêncio contemplativo, e quem sabe, até, seu interesse em retomar o tema
fosse só mais uma das pequenas crueldades de Machu Picchu comigo.
Então
ele me contou uma história.
Lembrou,
mais uma vez, de quando atravessou a fronteira do Brasil com a Bolívia em Corumbá,
no Mato Grosso do Sul, acrescentando que vinha de uma série de relacionamentos
frustrados e até nocivos, incluindo casos com mulheres casadas que quase tinham
destruído a sua vida e as de muitos outros. Nunca tinha falado sobre isso, o que, no fim
das contas, fez com que o meu estado de ânimo em relação à conversa mudasse e
eu começasse a prestar atenção.
Falou
um pouco sobre o sentimento de solidão durante todo o trajeto do Trem da Morte,
mas também sobre uma certa resistência que sentia ao impulso de procurar por
alguém ou flertar com desconhecidas. Disse que tinha a impressão de que sua
cabeça “esvaziava” conforme ia ganhando altitude até chegar a La Paz, e que se
sentia “em branco” no momento em que avistou o Lago Titicaca pela primeira vez,
no caminho até Puno, no Peru.
–
Quando cheguei lá – disse, – era como se toda a minha vida até então nunca
tivesse acontecido. Era como se eu nunca tivesse amado ninguém.
Fez
uma pausa, lançando para mim um olhar significativo de quem se lembrava de eu
ter-lhe dito algo muito parecido em uma de nossas conversas. Depois voltou a
olhar para a paisagem com a expressão um pouco enevoada e prosseguiu:
–
Foi quando ela apareceu. Achei que era o destino, sei lá, era uma das mulheres
mais lindas que eu já tinha visto na vida, parada, sozinha, na beira do lago, a
luz batendo de um jeito que só aumentava a sensação de sonho. A gente conversou
por uns quinze minutos antes de aparecer o namorado dela. Eu não sabia que
existia um.
Fez
outra pausa, dessa vez mais curta e carregada de um pouco de raiva, mas quando
recomeçou, estava se divertindo.
–
Ficamos amigos, Julio, Mirela e eu. Passeamos juntos, saímos para beber,
dançar, conversávamos sobre qualquer coisa... E eu até que estava me saindo bem
fingindo que não sentia nada por Mirela. Mas era forte demais, custava muito.
Chegou uma hora que eu não aguentei, aí eu só segui viagem...
Acenou
com a cabeça em direção às ruínas lá embaixo:
–
Cheguei aqui mais de um mês depois. Passei por Arequipa, Nazca, fiquei um bom
tempo em Cusco. Mas assim que botei os pés no Santuário, adivinha quem eu
encontrei.
Não
consegui conter um sorriso, mas imagino que era esse o efeito que ele
pretendia. Então ele se virou para mim cheio de energia, como para dizer que
ainda não tinha acabado, e que o que vinha a seguir era ainda pior do que aquilo.
–
Julio fingiu indignação quando me viu. Caminhou na minha direção agitando os
braços e perguntou: “O que você faz aqui? Essa é a nossa Machu Picchu!”
–
Ai – foi só o que consegui comentar.
Antero
balançou a cabeça, reprovando a lembrança, algo entre divertido e profundamente
magoado. Eu quase podia ver o casal brincando de ter um Santuário só deles,
onde ninguém mais podia entrar, e a frustração de Antero logo em sua chegada a
Machu Picchu. Não era a primeira vez que eu via o destino brincar assim com
alguém, com aquela dose concentrada de crueldade e ironia. E – infelizmente,
devo dizer – sabia que não seria também a última.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
De repente, do nada, por nenhuma razão,
Surge essa voz
interior lembrando que você fez bem, um dia,
Por ter ajudado aquela
senhora a carregar as compras,
Por ter devolvido um
troco que lhe deram errado,
Por ter poupado um
desafeto de uma ofensa gratuita.
Às vezes, quando você
está distraído com qualquer outra coisa,
Surge essa voz dizendo
que você agiu mal, muito mal, mal mesmo,
Quando ignorou um
pedinte que obviamente passava fome,
Quando não segurou a
porta de um elevador para um atrasado,
Quando riu dos
defeitos de alguém, ou não retribuiu gentilezas.
Quase sempre, ao fazer
coisas por aí, surge essa voz dizendo
Que você fez bem, ou
que você fez mal, no instante em que você as faz,
De modo que algumas
vezes dá tempo até de desfazer um mal feito, ou
Só pedir desculpas,
ou, se ninguém reparar numa atitude louvável,
Você pode dizer a si
mesmo Parabéns, quem sabe até dar-se um prêmio.
Mas sempre, o tempo
todo, não importa o que você faça,
Surgem essas duas
vozes simultâneas repetindo, contínuas,
Você fez bem e Você
fez mal, sem que se possa nunca ter certeza de
Qual delas diz a
verdade, qual delas está mentindo – e é este não saber, afinal,
A maldição de todos os
seres, além de ser a sua liberdade.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
Mas o teu ódio é
santo. Sim, porque teu deus ficou chateado, eu acho, de ter sacrificado o
próprio filho por um bando de idiotas, agora ele quer sacrificar os filhos dos
outros. Quase dois mil anos estudando evangelhos pra acabar chamando de messias
alguém que quer distribuir fuzis em nome de Jesus. Você acha engraçado, pra mim
é muito triste que um deus de amor possa derramar tanto sangue com essa
indiferença sempre que você ache conveniente. Com a facilidade de fechar os
olhos. O mundo, você pensa, talvez seja só a maior das fake news que rolam na internet. Você ouve os
seus iguais, chama de engajamento religioso o que é fanatismo político, a
adoração pela força bruta, pela trindade do obrigar-proibir-castigar, deixa os
adultos cuidando das Coisas Sérias e vai ver um filme de homens com força
impossível explodindo tudo no cinema. É só tuitar reclamando de quem reclama,
não como se silenciar a dor pudesse fechar uma ferida, mas porque as feridas
não existem, é tudo entretenimento. Você pode se arrastar como só mais um, quem
sabe um dia os patrões generosos se lembrem de você, desde que você se mate o
bastante pra fortalecê-los. Fantoche à margem, é melhor mesmo não ouvir nada além
da voz mansa e confiante que te vende mentira em cima de mentira, ou
você pode se dar conta de que se enganou e isso seria o fim do mundo. Repete,
como se fizesse parte de um clube pro qual nunca foi nem será convidado, que é
tudo sobre dinheiro e poder, mocinhos e vilões, todas essas coisas que se
tornaram a mesma e que já não dão espaço a nenhuma outra, embora ainda sejam só
um grande e redundante vazio. Aplaude o teu governo missionário como quem canta
um hino de louvor diante do espelho, tanto faz que o mundo seja devastado, toda
a sua riqueza ambiental e cultural destruída pra caber no teu ego. De onde nada
retorna, nem acrescenta, nem agradece. Pela glória do que te ensinaram, pra
engrandecer o que te esmaga, nada, absolutamente nada é mais seguro que estar
morto. Ser invenção dos outros. Pagar teu dízimo de se omitir e, como isso é
coisa que sobra, continuar pagando.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020
Ou
o que eu não devo
A
idade da História
A
lista de títulos
Ou
o que eu não leio
Dentro
da madrugada
Rios
de rancor e sangue
Ou
o que não veio
Ou
o que nunca foi segredo
Cartazes
de medo e desprezo
Aqui
vocês só vendem as trevas
Ou
o silêncio batido
Ou
um delírio
Diamantes
e araçás coloridos
Às
vezes você só quer um abraço
Ou
o que eu não tenho
Obrigação
de ferir
Faróis
infalíveis
Ou
o que eu não creio
Ou
o que eu não vejo
Ou
o que ninguém quer saber
Ou
o ou
domingo, 9 de fevereiro de 2020
É de manhã. Quem dera prolongar essa promessa espreguiçosa
no ar puro. Você não gosta de linhas retas, da luz matemática, das horas sem
rastros de sonhos. Tem cheiro de orvalho e de pão, uma eletricidade que se
espalha sobre o sono e colore as paredes de espera. É tão cedo. Só sei que te
adoro, algum muito, uma delicarícia nas mãos, um beijo deitado na pálpebra. Você
pulveriza o céu, despedaça, você está diluindo o céu no peso do teu corpo. Borbulha
em bule de café, mas bem antes da pressa. Enfim. É o princípio. Vestir o ir em
frente com o teu mistério, eu quero tatuar a tua pele em mim, a tua profundidade
inspiralada. Você mora em tantos labirintos. E vai chegar logo mais,
recarregada de noites.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
Andando pela rua a noite escura a música me acalma
Alarmes e sirenes e animadas festas e gemidos de prazer e risos
Um ronronar de toda a terra e de motores e de corações em
disparada
Ainda as luzes amarelas sempre essas luzes amareladas com
cara de sono
Quando te encontro nos meus pensamentos é com o corpo todo
Alguma coisa me acorda é como se você tivesse estado sempre
em mim
Debaixo da pele e mesmo assim pairando ao meu redor pela
calçada
Bússola em meu peito
Esse é o caminho de casa
Adivinho as tevês ligadas e chaleiras e lençóis e conversas
sobre como foi o dia
Ao longo das janela e varandas e milhões de nomes de redes
de wi-fi
O verde dos canteiros
O cheiro do asfalto
Dentro dos fones de ouvido
As coisas todas são este meu ir ao teu encontro e já não
pesam nada
Papéis que me cabem
A longa jornada
Eu
Te amo
Aérea é a cidade e nunca me esqueci de que eu também tenho
asas
Nada no caminho nem o apocalipse nada pode me impedir de
estar indo
Eu já te amava muito antes desse tempo todo
Apresso o passo
Já estava a teu lado bem antes de qualquer um de nós dois
ter chegado a este mundo
Estaremos juntos até muito depois de termos ido embora do
mundo
Não é pelo mundo
É
Do outro lado desta praça
Até o final desta música
No mesmo lugar
Em tudo
quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
Onde
o... Você sabe que... Placas ~ ondas batendo nas pedras
Olha
a pamonha... Nem te contei... Gasolinas palavras
Calçada
| Edifício
Teve
uma vez que... Foi tarde... Ei!... A dor não deve ser adorno
Ecos
de um mar de gente _ asfalto quente _ ente _
(E
falta algum tanto de senso de humor)
Sobram
doentes se vendendo como a cura
Sorvete
Bilhetes
de loteria
E
leveza água mineral refrigerante
Onde
o... Você sabe que... Ruas de um barco em desorizontes
Blá
blá blá ontem blá blá sei blá gente que blá blá blá blá
Faltava
uma ironia pichada no muro,
“Não
quer meu decassílabo perfeito?”,,,
A
cor da pele sobre o líquido vermelho,,,,,
E
sobre o caos de informações e quando se tratar de arte abstrata,,,,,,,,,,
nada
mais
concreto
(Mas
ainda faltam avenidas que nos tragam, não que nos traguem
E
que nos entreguem
Não
que nos estraguem no trajeto)
sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
Meu sonho em si que não tem voz nem vez
Sem sono espreita-me no fim da estrada.
Já foste tudo e já não foste nada,
Um “sim-não-sim” que não é bem talvez.
A grande espera que se redesfez,
Que era futura e não será passada,
Fará de mim a história mal contada
Que eu não contei e é bem o que não vês.
Desse não-rosto ficam os retratos.
Meros fantasmas da ilusão desperta
Que me enlouquecem, sérios e inexatos.
E o sonho em si decifra-me, devora
Toda a esperança e, da janela aberta,
Mostra-me o sangue de uma contra-aurora.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
Olhos que possam ver em meio ao mal
Feixes do amor que ainda resta
Que reconheçam ainda a diferença
Que não aceitem nunca a indiferença
O resto são cartazes de “Não fazemos trocas”. O alto daquelas montanhas, ao longe, quão longe você acha que leva. Você tem me dado apenas vácuo, tem sido só como se o vento brincasse de adivinha, e eu quero ser visto como um igual, mas a igualdade é uma fraqueza que ninguém suporta. As pedras do calçamento, a estrada de um rei que morreu, e hoje, do outro lado da cidade, conheci outro cachorro, igualzinho à fêmea da fotografia, mas com os olhos castanhos. Não falei nada a ninguém, achei que não era importante. Mas o dono do cachorro decidiu contar a história de quando o viu pela primeira vez, ainda filhote, e disse que na mesma ninhada tinha uma fêmea idêntica a ele, mas com os olhos azuis.
Braços que façam pontes ruas hospedagens
O leite e o mel dos vales
Que a ninguém caiba mais dor depois de tanto
bem doado
E que ninguém encontre só mais dor
depois de ter buscado
E que sejam mãos estendidas não apenas
para a própria glória
E que seja tão presente quanto sempre a
melhor vontade
E que se espelhe pelo mundo todo
Ouvidos
que enfim compreendam
segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
Você
tem me dado apenas ecos. Pedaços de fantasmas que atravessam meu caminho. Não
conta como se algo acontecesse. Já me cansei de implorar aos deuses, de fazer o
melhor que posso, das ruas históricas de Tiradentes e de turistas que seriam os
primeiros a aplaudir o enforcamento desse mesmo Tiradentes se vivessem na mesma
época que ele. Mas a cachaça mineira, ah, sim, e todas essas feiras
gastronômicas. Acho só que eu não tenho nenhum amigo gente. Ontem, numa praça,
alguma coisa fria e úmida tocou de repente em minha mão esquerda e, quando fui
olhar, gostei tanto que até tirei uma foto com meu celular, olha
O resto são cartazes de “Não fazemos trocas”. O alto daquelas montanhas, ao longe, quão longe você acha que leva. Você tem me dado apenas vácuo, tem sido só como se o vento brincasse de adivinha, e eu quero ser visto como um igual, mas a igualdade é uma fraqueza que ninguém suporta. As pedras do calçamento, a estrada de um rei que morreu, e hoje, do outro lado da cidade, conheci outro cachorro, igualzinho à fêmea da fotografia, mas com os olhos castanhos. Não falei nada a ninguém, achei que não era importante. Mas o dono do cachorro decidiu contar a história de quando o viu pela primeira vez, ainda filhote, e disse que na mesma ninhada tinha uma fêmea idêntica a ele, mas com os olhos azuis.
Você
não tem me dado nem uma gota da atenção mais rasa. O cachorro, acho que
entendeu que estávamos falando nele, lançou um olhar comprido em minha direção,
me senti na obrigação de falar “Tua irmã te mandou lembranças”.
Pro
teu desprezo, sim, apenas pro teu escárnio. Tenho sido o menor e mais sem razão.
A independência é uma grande afronta, algo em mim é pior que a ideia de
república pra interesses que ainda nem chegaram ao século dezenove. Mas neste caso,
a solidão não é algo pelo que eu deva me sentir culpado. E eu poderia estar morrendo
por bem menos, a verdade é essa, eu poderia simplesmente não estar tentando nada.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2019
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